O Tom Ausente de Azul

Jennie Erdal · Capítulo 17 de 59

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O Tom Ausente de Azul

Capítulo 16

 

Vi Sanderson apenas cerca de dez dias depois, ao final da minha primeira semana em

Edimburgo. Havia ido a George Square no fim da tarde para dar uma olhada na biblioteca da

cadeira de filosofia, aberta somente durante o semestre letivo e somente uma hora por dia —

algo que parecia, ao mesmo tempo, uma pena e um escândalo numa universidade com uma

tradição filosófica tão forte. O novo ano acadêmico estava apenas começando, e as ruas em

volta da George Square estavam repletas de caras novas. Em contraste, a biblioteca do

departamento estava gloriosamente vazia. Fiquei no meio do recinto, um espaço de pé-direito

alto e generosas proporções, e assimilei tudo — as estantes altas de madeira com suas

prateleiras profundamente cheias, séculos de aprendizado em antigas lombadas de couro,

desgastadas pela idade e pelo uso. Ficar sozinho com centenas de livros é sempre algo que

desperta em nós a humildade — e também um fascínio: a ideia de que muitos estudiosos,

trabalhando durante anos, acrescentaram ao conhecimento da humanidade. Só de pensar nisso

a nossa cabeça gira. Meu pai dizia que as almas dos escritores antigos ficavam em qualquer

lugar no qual velhos livros eram reunidos. Ele teria sido o primeiro, em todas as outras

circunstâncias, a refutar a ideia da existência da alma, mas isso não o aborrecia quando falava

sobre as coleções de livros.

Os relógios batiam cinco horas quando eu deixei o prédio. Talvez Sanderson ainda

estivesse no departamento de filosofia do outro lado da praça. Tínhamos o compromisso de

sair em nossa primeira expedição de pesca no dia seguinte, e seria normal verificar os

preparativos: o que iríamos vestir, onde nos encontraríamos, e assim por diante. Encontrei seu

escritório no terceiro andar; exibia a placa DR H T M SANDERSON. Bati à porta e aguardei

por um momento. Não houve resposta, mas, quando já me preparava para ir embora, um leve

som farfalhante veio do lado de dentro. Pus a orelha junto à porta e bati novamente, mais alto desta vez.

— Vá embora! Estou ocupado! Chega de compromissos por hoje!

— Desculpe, sou eu: Eddie. Não é nada importante. Estava só de passagem.

Saí andando, com uma careta de vergonha, pelo corredor que dava na escada. Mas, antes

que eu pudesse desaparecer completamente, a porta se abriu e Sanderson me chamou.

— Por que não disse que era você? — rosnou ele.

Apenas a cabeça estava visível, o rosto vermelho, os cabelos desgrenhados. O restante

dele estava oculto atrás da porta, a qual ele fechou e trancou logo que me deixou entrar. Sua

aparência era intrigante: as pernas das calças arregaçadas até os joelhos, e, em volta dos pés,

o que pareciam ser sacos de polietileno, amarrados com barbante nos tornozelos. Ele mancou

sobre o tapete e sentou-se na cadeira atrás da sua escrivaninha. No chão, embaixo dela, notei

um recipiente — uma bacia plástica velha e cheia até a metade com um líquido esverdeado.

Havia um odor que eu não conseguia identificar, adocicado e que lembrava grama, como o

verão.

— Não sou uma bela visão — disse Sanderson, andando com muito cuidado até a cadeira

ao lado da escrivaninha. — O que você está vendo é um homem doente. Leproso.

E, de fato, as partes visíveis de seu corpo poderiam ter sido afligidas por alguma praga do

Antigo Testamento. As marcas escamosas que notei em suas mãos quando nos conhecemos

estendiam-se por todo o comprimento dos braços. Os joelhos também estavam cobertos por

uma pele vermelha grossa, inflamada como um vulcão, com erupções prateadas

caleidoscópicas na superfície. Elas estavam viradas para mim, amostras mórbidas de um

laboratório de patologia. Pensei de imediato nas terríveis marcas de escorbuto de David

Hume e no turbilhão mental que levou a elas. Era difícil não olhar, e eu precisava me lembrar

de que, por baixo daquele exterior medonho, havia oculto um ser humano dotado de

consciência.

— Que cargas d’água é isso? — perguntei, esperando que minha voz indicasse

preocupação, e não repugnância.

— Ah, uma problema dermatológico terrível. Já tive antes, mas nunca ruim desse jeito.

— Dói?

— Doer? Na verdade, não. Mas esquenta e coça uma loucura. E a gente descama por toda

parte. Como as cobras, mas de um jeito menos limpo. — Sanderson apontou para o chão, que

estava coberto por uma espécie de confete.

Ele explicou que vinha colocando os pés de molho em azeite de oliva — “o mais barato

que o dinheiro podia comprar, mas, ainda assim, bem caro” — para lidar com as fissuras que se abriram nas plantas dos pés. Os sacos de polietileno serviam para manter a hidratação,

explicou ele. Dentro dos sacos cheios de óleo, por trás da superfície enevoada, seus pés

pareciam pequenos e vulneráveis.

— Mantenho toda a parafernália aqui — disse ele. — Não é o tipo de coisa na qual quero

mexer em casa. Um homem com pústulas e sacos plásticos nos pés dificilmente conseguiria

manter o interesse da mulher. — Deu uma risada alta, como uma arma sendo disparada, e senti

uma súbita onda de compaixão.

Da gaveta superior do seu arquivo, ele tirou uma garrafa de uísque. Quando recusei a

bebida, ele se serviu de uma dose considerável num copo branco de isopor, tomou um grande

gole, reinstalou-se em sua cadeira e colocou os pés envolvidos em plástico na escrivaninha

bagunçada.

— Não consegui me esquecer do que você contou sobre seu pai — disse ele. Ele soava

melancólico. — Não consigo tirá-lo da cabeça. Fico pensando nele, preso naquele sótão

francês, dia após dia, hora após hora... com todo o tempo do mundo para planejar o resto da

vida.

— Não sei se foi bem assim que aconteceu. O modo como ele descrevia... bem, não era

nada tão claro como o planejamento do resto da vida. Depois, sim, ele compreendeu que uma

decisão já vinha se formando havia um longo período, mas, mesmo quando voltou à vida civil

na Inglaterra, ela ainda era vaga e obscura. Nada em que ele pudesse se concentrar.

— Você acha que seu pai chegou, algum dia, a se arrepender da decisão que tomou? —

perguntou ele. Em sua escrivaninha, os sacos nas extremidades de seus pés se mexiam como

criaturas alienígenas.

— Se um dia ele se arrependeu, nunca contou. Embora fosse algo que eu mesmo tenha me

perguntado de vez em quando. Sob muitos aspectos, deve ter sido uma decisão penosa. Ele

perdeu o emprego que adorava, depois minha mãe, que era o motivo por trás de sua decisão,

ficou doente e permaneceu assim pela maior parte da vida de casados dos dois. E, apesar

disso, ele parecia ter encontrado satisfação.

— Não consigo evitar pensar que satisfação é uma das palavras que as pessoas usam

quando estão tentando evitar a palavra com efe.

— Felicidade, você quer dizer? — A menção dela fez Sanderson se encolher em falso

alarme. — Eu não a estava evitando conscientemente, embora concorde que é uma palavra

difícil de definir. Para o meu pai, ela não era de fato um tabu. Na verdade, lembro-me de ele

contar, não muito antes de morrer, que uma tentativa bem-sucedida de atingir a felicidade era

suficiente para sustentar uma pessoa por uma vida inteira.

— E levando em conta os indícios da vida dele, você acreditou?

— Bem, pensando nisso, acho que sim. A despeito das dificuldades óbvias, ele se

comportou como se a felicidade continuada fosse, pelo menos, possível. Acho que ele também

compreendeu o quanto se chega perto dela, e ainda assim a que distância ela muitas vezes

permanece.

Meu pensamento seguinte (embora eu não o tenha compartilhado com Sanderson) foi este:

talvez um motivo pelo qual meu pai tenha mantido a compostura fora exatamente porque se

afastara do estudo formal da filosofia. Para ele, a filosofia ser parte de sua carreira posterior

como livreiro, em vez de ser um fim em si mesma, era suficiente. Ela não havia se voltado

para ele nem contra ele. Ele não se tornara vítima do mal dos eruditos.

Sanderson estava olhando fixamente para a frente, como uma estátua da ilha de Páscoa —

queixo pronunciado, nariz largo, olhos fundos. Não era de admirar que Carrie gostasse de

pintá-lo. Para tentar manter a conversa fluindo, eu disse que era possível que os tempos

infelizes também tivessem valor. Eles não eram inúteis. Mas a conversa já estava morta, e,

quando ele voltou a falar, foi sobre si.

 

Era uma época ruim do ano para ele, comentou Sanderson. Ele odiava o começo de um novo

período letivo.

— Deve haver uma sensação de renascimento nisso, sabe como é?, toda essa energia nova

e a coisa de fazer o lugar respirar vida nova.

Mas não havia, disse ele. Não mais. Ele sentira isso no passado, anos antes, mas agora

tudo aquilo parecia o girar da manivela de um velho mecanismo, enferrujado demais para

funcionar bem. Mais cedo naquele dia, ele fizera sua palestra introdutória para os alunos que

haviam se inscrito em filosofia... e ela fora ruim, muito ruim. Relembrando, ele suspirou alto.

Dei por mim suspirando também, uma reação involuntária, como bocejar. Nesse ponto,

Sanderson abriu a última gaveta de sua escrivaninha e removeu o que parecia ser um pote de

iogurte vazio. Ele se levantou, carregou sua cadeira para o outro lado do cômodo e trepou nela

com seus deploráveis pés ensacados. Depois que seu corpanzil se equilibrou, cobriu o alarme

de fumaça com o pote plástico. Ele se encaixava perfeitamente, como eu adivinhara que se

encaixaria. Cada um de seus movimentos era bastante preciso e aparentemente parte de uma

rotina bem-ensaiada. Houve uma pausa para acender o cachimbo, trazendo-o à vida com uma

série de rápidas inalações até que o fornilho brilhou vermelho e a fumaça espiralou. Ele se

virou para verificar o pote de iogurte na parede, como quem diz: Não me decepcione. Durante

a hora seguinte, Sanderson ficou sentado em seu escritório, a fumaça de cheiro adocicado preenchendo o ar, e a luz se esvaindo lá fora. Durante esse tempo, Sanderson deve ter bebido

um quarto da garrafa de uísque, mas não havia nenhum efeito visível a não ser torná-lo mais

falante.

Decidi arriscar e perguntar novamente sobre seu livro, que seria lançado em breve. Meu

pai dizia que pedir que um homem exiba sua erudição é a forma mais rápida de ganhar sua

confiança.

— Ah, não há nada a contar, na verdade. É uma espécie de visita guiada até a felicidade.

Você conhece esse tipo de coisa, uma rede de arrasto percorrendo todas as planícies de maré

filosóficas.

Na minha cabeça, eu via a maré subindo e formando planícies.

— Planícies de maré?

— As áreas costeiras onde a maré deposita lama, areia e todo tipo de detrito do fundo do

mar. Elas se chamam planícies de maré.

— Ah, entendi — comentei, sem ter certeza se de fato entendera.

— É basicamente uma viagem em torno de todos os ismos: hedonismo, estoicismo,

ceticismo, epicurismo e assim por diante. Nada particularmente original. Salvo, talvez, a

conclusão de que, quando o assunto é felicidade, a filosofia não vale dois caracóis.

Sanderson riu de novo. Outro disparo. No íntimo, ele não se sentia um filósofo de jeito

algum, sentenciou ele, olhando fixamente seu copo de isopor.

— Essa é a conclusão inescapável.

Ele tinha uma sensação de ter traído sua vocação.

— Sabe como é, como o personagem de uma peça de Tchekhov. Todos aqueles sonhos

perdidos. A impossibilidade de chegar a Moscou, a destruição de um jardim de cerejeiras.

Ah!

— Você não pretendia se tornar filósofo?

— Na verdade, não. Eu só entrei nisso por acaso, levado pelas más companhias.

Era difícil saber quando ele estava falando sério. Ou quanto de sua aparente beligerância

era parte de um elaborado mecanismo de defesa. Eu nem sequer conseguia ter certeza de que

era beligerância. Poderia muito bem ser uma modéstia difícil de compreender.

Quando lhe perguntei o que mais teria feito, Sanderson refletiu sobre a pergunta por um

instante antes de dizer que, durante certo período na escola, queria ser linguista. Ele tinha

ficado fascinado pela linguagem, não apenas a gramática e a sintaxe, mas os diferentes sons

contidos nela, bem como a forma que a linguagem era adquirida a princípio, e as coisas

poderosas que se podia fazer com ela.

— A linguagem parecia representar a possibilidade de um universo ordenado — disse ele.

— Você já pensou nisso?

— Penso nisso o tempo todo.

— Então, a esta altura você já descobriu que é só um belo truque: ordem e harmonia são

apenas uma ilusão. Uma ilusão que a linguagem nos ajuda a criar. O mundo é, na verdade,

aleatório e caótico.

Aos doze anos, disse Sanderson, ele começara a aprender latim, e isso tinha sido uma

revelação. No primeiro dia, cada aluno recebeu um livro, Kennedy’s Revised Latin Primer, e,

para ele, o livro se tornara um bem precioso.

— “Conhecer esse livro é conhecer um belo idioma”, foi o que nosso professor disse.

Tudo reduzido a centenas de tabelas: verbos, substantivos, declinações, conjugações. Era só

questão de aprender as regras e memorizar as exceções. Era uma coisa maravilhosa.

Relembrando, ele o considerava um modelo do pensamento lógico. Chegava a se perguntar

agora se fora o latim que o pusera no caminho da filosofia. Desvendando o enigma das

palavras e de suas relações umas com as outras, Sanderson, às vezes, gostava de imaginar que

estava desvendando o mistério que era o universo.

— É claro, eu era jovem, na época, e não via tudo exatamente nesses termos. Mas, revendo

o passado, acho mesmo que era uma espécie de tentativa de entender o mundo.

O problema era que o latim era uma língua morta. Com o cabo do cachimbo, Sanderson

espanou um pedaço de pele morta de seu braço para o chão.

— Não se esperava que alguém um dia a falasse, era uma coisa puramente erudita, uma

ferramenta educacional.

Gradualmente ele começara a sentir necessidade de um idioma estrangeiro que estivesse

vivo, uma língua falada por pessoas vivas. Pensara que o espanhol poderia cumprir os

requisitos, ou mesmo o francês, ou o alemão, até que — de forma bem inesperada — uma

solução melhor se apresentou. Durante os anos 1960, quando a Guerra Fria não mostrava

sinais de degelo, tornou-se parte da política educacional do governo incentivar o ensino de

russo nas escolas. Russo soava exótico e perigoso, uma dupla atração.

— Eles precisavam de pessoas que compreendessem a mente do inimigo — disse ele,

fingindo uma voz sinistra e batendo na têmpora com os dedos grossos.

E, assim, Sanderson aprendera russo, o qual continuou estudando na universidade. Naquele

tempo, a filosofia era, em grande parte, uma segunda opção. Ele gostava do fato de que o russo

tinha muitas das características do latim:

— Era como trocar seis por uma dúzia. Todas aquelas declinações, casos e gêneros para arregaçar as mangas e começar.

No começo, Sanderson se destacou e depois de um ou dois anos se tornou bom o suficiente

para conseguir ler alguns dos grandes romancistas do século XIX. Para sua grande e

duradoura decepção, contudo, ele jamais atingiu fluência na língua. E, se tivesse que

identificar um motivo para isso, apontaria o verbo russo. Ele ficara meio louco tentando

dominá-lo, mas sem proveito. Como só havia três tempos — passado, presente e futuro —

deveria ter sido simples. Uma moleza, disse ele. Mas os russos — russkis, Sanderson os

chamava — tinham inventado uma coisa chamada aspecto, criada para compensar essa falta

de tempos verbais.

— Eles eram absolutamente desconcertantes. Ainda são, imagino.

Serviu-se de outra dose de uísque.

— Bem perniciosos, na verdade. E um substituto ineficaz para o present continuous e o

past perfect. Sabe, os falantes do inglês não fazem ideia da sorte que têm de poder dizer I am

writing a letter ou He has been considering his position. Aposto que você gostaria de um

pouco disso no francês. Uns tempos verbais tão úteis. Maravilhosos demais para não darmos a

eles o devido valor.

A expressão de Sanderson era de surpresa cômica, como se ele tivesse conseguido apenas

agora, e só por acaso, identificar o problema que vinha afligindo sua vida. Mas aquilo não

convencia. Certamente, tinha de haver mais em seu mal-estar, além de uma mera incapacidade

na juventude de dominar um idioma estrangeiro. Por cerca de um ou dois minutos, Sanderson

fixou o olhar no vazio, e, quando falou, foi novamente sobre o assunto de sua palestra

introdutória para os alunos.

“Eu já devia estar acostumado a isso”, disse ele. “É a mesma coisa todo santo ano: a

obrigação de dar as boas-vindas aos alunos novos.” Sanderson comparava isso a marcar o

gado antes de ele sair para o pasto. “Não que eu já tenha feito isso.” Os alunos sempre

levavam alguns minutos para se instalar, disse ele — a gente nota esse tipo de coisa quando

vem fazendo isso há anos. Alguns deles vão para um assento na frente; aí, pensam melhor. E

então, com aquela calma artificial criada para esconder os nervos dos calouros, eles se

escondem nas fileiras mais ao fundo. Aquele dia estava frio e úmido, e o recinto logo se

encheu do cheiro de roupa molhada. Sanderson observara que quase todos estavam vestindo

um casaco de lã com palavras enigmáticas na frente. O começo de cada ano acadêmico era um

verdadeiro desfile para os alunos, disse Sanderson, todo mundo passeando, posando e se

exibindo. Naquele ano, várias das jovens pareciam, da forma mais improvável, estar vestindo

saias sobre as calças. Embora estivesse acostumado ao estilo de se vestir nada ortodoxo da esposa, essas novas modas faziam-no se sentir pitoresco, obsoleto, ultrapassado. Enquanto

observava seu público cheio de “rostos jovens que ainda não tinham sido desencorajados pela

vida”, Sanderson começara seu jogo de sempre: tentar identificar os que tinham e os que não

tinham jeito. Pela longa experiência ele aprendeu a aplicar algo similar ao princípio da

triagem: “Sabe?, o tipo de coisa que aqueles bravos homens do corpo médico faziam na

guerra. Rastejar sobre os corpos no campo de batalha, avaliar a urgência da necessidade

médica, tomar decisões numa fração de segundo sobre quem podia ser salvo, ignorando os que

morreriam de um jeito ou de outro.” Por um momento, Sanderson disse que chegara a se

imaginar vestindo uniforme cáqui e um capacete de aço, de barriga para baixo, arrastando-se

sobre os cotovelos entre os feridos, fechando os olhos dos mortos, confortando os sem

esperança, realizando pequenos atos de gentileza no campo de batalha. Sanderson tinha um

olhar remoto. “Absurdo, é claro.” Ele tragou o cachimbo. “Coragem não é uma coisa que eu já

tenha tido um dia.”

Ainda assim, ele fez a comparação. Daqueles cerca de cem alunos, disse ele, a maioria

seria deixada para morrer onde caísse. Alguns fariam isso em silêncio, até com dignidade.

Outros prolongariam o processo, “continuando o curso, sim, mas de forma inútil e imprópria,

emitindo ruídos consistentes com seu declínio inexorável”. Nesse ponto, Sanderson emitiu um

urro grave, como uma vaca parindo. Ele achava que, em especial, os alunos americanos muitas

vezes ficavam ansiosos para viver bastante depois de desistirem. “Eles têm uma confiança

indevida no mundo, e, mesmo quando a situação é terrível, exalam um toque de otimismo,

como o cheiro de tinta fresca.” Como um pensamento posterior, Sanderson disse que gostava

dos alunos americanos e sentia algo próximo da ternura por eles.

Eu me perguntava até que ponto o uísque estava ditando aquelas palavras, e, como em

resposta, ele pegou a garrafa novamente. Depois de se servir outra dose, ele a segurou em

minha direção. “Tem certeza de que não quer?”, perguntou. Eu lhe disse que costumava beber

somente nas refeições, acrescentando — para evitar parecer crítico — que os franceses eram

assim. “E eu costumo beber em todas as oportunidades”, gracejou ele. “Você vai descobrir

que isso se aplica à maioria das pessoas na Escócia.” Quando lhe perguntei se talvez estivesse

bebendo para tranquilizar o desconforto da doença, ele pareceu surpreso de modo comovente,

como se essa fosse a mais estranha das ideias. “Isso implicaria um fundamento lógico para a

bebida”, disse ele, esquivando-se habilmente. “Mas não tenho certeza de que haja um no meu

caso. Às vezes, eu bebo só porque estou vivo — Bebo, logo existo, como poderiam dizer

nossos amigos cartesianos. E depois bebo mais para ficar sóbrio. Que é um velho costume na

Rússia. Eles até têm uma palavra especial para isso.” E, com outra esquiva, retornou à sua narrativa tortuosa sobre os acontecimentos do dia.

Examinando sua nova e jovem plateia, Sanderson se surpreendera de repente com o

tamanho do absurdo de fazer parte do setor do ensino, quando ele mesmo havia aprendido tão

pouco. Momento em que seu colega, um homem chamado Gordon Macrae, entrou sem nenhuma

cerimônia e perguntou com um sorriso se Sanderson estava pronto para ser lançado aos leões.

Macrae era chefe do departamento, “um espécime ridiculamente jovem”, um carreirista — “se

já existiu um faux bonhomme, é ele!” Sanderson não o suportava. Ele era uma besta medieval

com um rosto alaranjado como uma cenoura e um desses bigodes que os homens ostentavam

cem anos atrás. De fato, ele era “um estudo completo em laranja”, com sua pele cheia de

sardas se misturando à jaqueta de tweed para produzir os tons de um outono inglês. Os dentes

eram de um marrom-avermelhado manchado, e os cabelos “mantinham as origens celtas, mas

não eram menos lamentáveis por isso”. Era o que as pessoas normalmente chamam de ruivo.

Sanderson disse que ruivo era uma dessas palavras que enganam, como moribundo ou

corpulento, que nem de longe transmitem a coisa desagradável que pretendem descrever.

Cenoura, ou apenas laranja, chegava mais perto. Ele contemplara Macrae, como que pela

primeira vez, e percebera que praticamente nada sabia sobre ele. Como era possível,

perguntou-se, trabalhar no mesmo minúsculo departamento, ver alguém dia após dia, trocar

cumprimentos e, ainda assim, nada saber sobre o homem?

A pergunta era retórica. Naquele ponto da história, Sanderson mal aparentava ter

consciência da minha presença. Se eu tivesse saído de fininho, ele certamente teria continuado

a falar. Seu olhar flutuava em algum lugar a meia distância, e o sorriso apertado em seus

lábios era fixo como o de uma estátua.

— E quanto aos outros colegas? — perguntei, pensando novamente no grupo estranho que

havia encontrado na palestra sobre Hume.

— Também não os conheço bem. Não como pessoas, pelo menos. E eles não me

interessam muito como filósofos. São só uns rapazinhos bobos. Ocupados demais se

candidatando a bolsas e se enaltecendo. Você conhece esse tipo de coisa: eles se enfeitam com

penas de pavão. Os outros são como Macrae: gestores. Embora eu deva admitir que Macrae é

bom em prender a atenção dos alunos. Ele tem um ar de autoridade natural.

Sanderson o observara atentamente naquele dia. Como ele conseguia? Como muitos

acadêmicos, disse ele, Macrae falava de um jeito vacilante e solene, como se sua experiência

de vida tivesse sido muito profunda a ponto de torná-la praticamente intraduzível para os

meros mortais. “E, no entanto, ele estava falando com eles sobre cronogramas e requisitos de

curso. É impressionante.”

Quando Macrae terminou, era a vez de Sanderson. Houve a tosse usual e a conversa mole

para acompanhar o intervalo nos procedimentos. Sanderson se levantou e aguardou o silêncio.

Ele começara dando as boas-vindas a todos ao Departamento de Filosofia, lembrando-se,

tarde demais, da circular da chefia do corpo docente informando que não haveria mais

Departamentos, apenas Escolas. Como de praxe, a direção recomendara a complacência, e

Sanderson acabara de falhar nisso. Ele achou que precisava se acomodar, respirar fundo.

Nesse ponto da narrativa, eu também respirei fundo, como que para afugentar algo ruim.

Sanderson disse que se sentira desajeitado em seu corpo, estranhamente constrangido. Sua

voz, normalmente bem suave quando ele estava relaxado, parecia-lhe, agora, rouca e cansada.

“Eu conseguia ouvi-la reverberando”, disse ele, “como se algo tivesse tapado meus ouvidos e

estivesse forçando o som para dentro”. Ele se ouviu falar monotonamente sem parar, tentando

limpar a garganta, tirar os tampões dos ouvidos, enquanto descrevia os diferentes cursos

oferecidos — módulos, como eram chamados agora —, bem como o número de trabalhos

necessários, sem esquecer a política aplicada no caso de falta aos tutoriais. Enquanto falava,

Sanderson foi assaltado por uma série de imagens que nada tinham a ver com a tarefa que

desempenhava. Ele tentou se colocar de volta na sala de aula quente e úmida, mas as imagens

continuavam aparecendo, nem sempre em sequência ou em foco, mas persistentes e contínuas.

Uma delas era o rosto de um menininho, de uns sete ou oito anos, ansioso para agradar aos

pais, tentando entender as regras da casa, que eram, às vezes, impenetráveis. Outra veio de

uma época diferente, talvez dez anos mais tarde, mas ainda o mesmo menininho, agora com

jeito de um homem, a inocência perdida juntamente com seu desejo de agradar, saindo de casa

com uma sensação de alegria e alívio e a determinação de nunca mais voltar. Essa imagem deu

lugar a outra, fresca em sua cabeça, da mesma manhã, uma manhã corriqueira, dedicada a

conversas chatas e previsíveis entre ele e a esposa. Com a voz soando em seus ouvidos, ele

havia se imaginado na posição papai e mamãe, pressionando com força para baixo com os

procedimentos de inscrição, arfando pelos requisitos do módulo e finalmente ejaculando o

sistema de marcação de notas. “Embora culminante, o sistema de marcação de notas não

trouxe nenhum alívio”, disse ele, virando-se para me olhar e descarregando outra explosão de

riso. Ele estava com força total, incansável e incontrolável. Havia nitidamente uma

necessidade implacável de revisar o evento, uma vez após a outra, para domá-lo e transformá-

lo em algo que não mais mostrasse os dentes e mordesse. Ele segurava o cachimbo com tanta

força que os nós dos dedos brilharam, brancos, entre as supurações. Pareciam peixinhos

exóticos com barbilhões e olhos fixos.

Ele se sentira exposto na frente de seus alunos como nunca antes. E, de repente, tomara consciência de suas mãos, problemáticas agora, como sua voz. As mesmas mãos que ele usou

para atar a mais delicada mosca de truta, mas que, de repente, pareciam grossas e pesadas.

Pensei que estava tendo um derrame, disse Sanderson. Os movimentos que fazia com as mãos

o haviam surpreendido com sua curiosa assincronia, como um filme maldublado. Ele não

podia ter certeza se era uma questão de parecer em vez de ser, uma confusão que se espalhara

para áreas diferentes de sua vida apenas recentemente. Ele tentara pôr as mãos nas laterais do

corpo. Elas ficaram lá, penduradas por um tempo, mas logo começaram a se mexer e contrair a

partir do pulso — “como um nadador que deseja mergulhar na água antes da competição.”

Tentou enganchar os polegares nas calças, mas se pegou preocupado, pensando que os alunos

fossem achar suas calças sem graça ou caretas ou qualquer outra palavra que eles usem hoje

em dia. “Minha esposa diz que há um tipo de homem que veste suas calças acima da cintura de

um jeito terrível”, disse ele, com o rosto fazendo uma expressão de palhaço triste. “E que os

homens nem imaginam o nível de tristeza que isso produz numa mulher.”

Eu sorri com a ideia, e ao mesmo tempo me vi verificando as próprias calças.

“Ah sim”, continuou ele, tomando outro gole. “Ela consegue dizer muito sobre um homem

pelas calças que ele usa, a minha mulher. É o que diz. Segundo ela, as calças fornecem um

guia do caráter do homem pelo menos tão confiável quanto qualquer outro cálculo.” É claro

que ele havia contestado isso, mas ela sustentava que era o resultado de muitos anos de

observação, e, como teoria, havia atingido o status de fato empírico. Fato empírico! Arram,

zombara ele, que diabos ela sabia sobre fato empírico? Rápida como um raio, ela lhe deu uma

resposta mordaz: Fato empírico é aquele que se baseia na experiência, observada de forma

neutra e sem paixão, e oriunda fundamentalmente dos cinco sentidos. É isso mesmo. E onde

ela havia aprendido aquela pequena novidade? A bem da verdade, aprendi com você, disse

ela. Sanderson suspirou com a lembrança. Esse é o problema das mulheres, comentou.

Constroem teorias elaboradas baseadas em dados insignificantes e, assim que começamos a

pensar que elas estão num terreno duvidoso, nos acertam com algo irrefutável.

Sanderson continuou por um bom tempo. Ao final, eu estava me protegendo mais do

bombardeio que ouvindo. Surpreendia-me que Sanderson conseguisse falar por tanto tempo

sobre si, sem o menor encorajamento e a alguém que conhecera há tão pouco tempo. Seria um

mito a famosa reticência dos britânicos? Lembrei-me de ter lido em algum lugar que as

pessoas que haviam sido ilhadas podiam se colocar ao sabor das ondas novamente ao contar

histórias. Talvez fosse isso que acontecia com Sanderson. Falar bastante era seu meio de

sobreviver.

— Sou um homem frustrado. É isso que sou. — disse ele. — Mas, pelo menos, a gente sabe em que pé está com a frustração, enquanto que, com a felicidade, tudo pode acontecer.