O Tom Ausente de Azul

Jennie Erdal · Capítulo 11 de 59

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O Tom Ausente de Azul

Capítulo 10

 

Era muito cedo para julgar se a Biblioteca Nacional em Edimburgo estava à altura da de

Sorbonne quanto a isso. Eu não havia encontrado pessoas o bastante para conduzir um

experimento controlado, mas o bibliotecário por trás do balcão parecia um candidato

promissor. Um homem de magreza notável, com o comportamento de alguém que desejava ser

ainda mais magro, ele se movia indeciso por seu espaço de trabalho como se tentasse não

perturbar as partículas do ar. Tossia a intervalos regulares, o tipo de tosse que não se devia a

resfriado, bronquite ou muitos cigarros, mas um artifício desesperado quase certamente

neurótico. Talvez fosse uma forma de afirmar a importância de sua posição. Virei-me para

olhá-lo. Ele parou de tossir. Desviei o olhar dele, e ele começou novamente. Cada acesso de

tosse seguia uma métrica familiar. A princípio, parecia ser um tetrâmetro trocaico, quatro pés

em que uma sílaba longa segue uma breve, como as falas de Puck em Sonho de uma noite de

verão — So awake when I am gone; For I must now to Oberon, salvo que faltava a última

sílaba, tendo uma tosse a menos. Então, quando ele começou mais um dístico, percebi com

apreensão que esse bibliotecário magro estava arruinando meu poema de Auden favorito: Lay

your sleeping head, my love/ Human on my faithless arm.

Nesse momento, a porta da sala de leitura se abriu, e um porteiro de macacão cinza entrou

empurrando um carrinho com os manuscritos que eu havia pedido. O homem atrás do balcão,

cujo trabalho era receber os livros, chamou-me, e começamos a conversar, sem tossir, de

modo rápido e conspiratório. Cada oração que sussurrávamos com pressa começava por “se”

— se puder verificar... se me esperar um momento... se puder assinar aqui —, antes de partir

para o ar fétido da biblioteca superaquecida.

Vestindo as luvas de algodão branco obrigatórias, peguei os manuscritos espiralados e

coloquei-os suavemente nos travesseiros em minha mesa. Mesmo assim, as espirais produziram um ruído áspero — murmúrios secos de dor que me arrepiaram.

Poder ler a obra de David Hume em sua própria caligrafia era um momento que havia

muito eu aguardava com ansiedade, mas nada poderia ter me preparado para a emoção de ver

e ter em minhas mãos o manuscrito de seu curto ensaio autobiográfico, Minha própria vida. A

versão publicada, que eu lera pela primeira vez quando jovem na livraria do meu pai, tem

apenas algumas páginas impressas, mas o original foi escrito em três folhas grandes de papel

apergaminhado, dobradas ao meio para formar seis lados duplos, com bela e fina caligrafia,

quase em talho-doce, ficando menor e mais fina no fim da página, e com borrões esparsos. Era

organizado como uma carta: a data, 18 de abril de 1776, escrita no canto superior esquerdo, e

o título Minha própria vida ocupando a posição do endereço, como se esse pudesse ser o

lugar real de onde Hume estava escrevendo — para um homem prestes a morrer, ele mostra

certa verve e estoicismo. Ele começa afirmando que sua autobiografia será curta, por que “é

difícil um homem escrever muito sobre si mesmo sem Vaidade”, e, depois de lançar luz sobre

sua vida notável, numa prosa carregada de benevolência para com a raça humana, ele termina

com uma nota de desculpas: “Não posso dizer que não há Vaidade em fazer esse discurso

fúnebre para mim mesmo; porém, espero que não seja indevido”.

Eu chegara a David Hume já o adorando — um sentimento que poderia ser reconstituído

até a afeição e quase reverência que meu pai expressara por Hume ao longo dos anos. “Não há

filósofo melhor”, dizia ele, “e era uma daquelas criaturas raras: um homem bom.”