O Tom Ausente de Azul

Jennie Erdal · Capítulo 52 de 59

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O Tom Ausente de Azul

Capítulo 51

 

Dois dias depois da visita ao necrotério, Carrie apareceu na minha casa. Não para meditar,

mas para gemer. Naquele dia, ela encontrara pedaços de papel amassados na lixeira no quarto

de despejo — cartas semicomeçadas para Alfie, principalmente, e duas para ela, apenas no

início, uma a tratando de “Meu próprio e querido amor” e contendo um único verso de um

poema de Douglas Dunn: “Volte-se para os vivos, ame-os e aguente firme”; a outra com

palavras todas riscadas “Procurei o amor em todos os lugares errados”. “Mas esta é a mais

pungente”, disse ela, passando para mim uma página enrugada coberta de caligrafia grossa:

“Querido Alfie, eu devia ter lhe ensinado a pescar ou a atar moscas. Teria sido bom passar

tudo isso para a frente, do jeito que meu pai fez comigo. Mas não fiz isso. E me arrependo

disso agora. Talvez ainda haja tempo. Com...”

Depois de descobrir as cartas, ela havia telefonado para o hospital e pedido para falar

com o necrotério. Ela precisava ver Harry de novo. “Com quem deseja falar, senhora?” — A

operadora telefônica tinha sido bem-treinada. Com a pessoa responsável, respondeu Carrie.

“Não há nenhum responsável, senhora.” Era isso um regime igualitário ou uma anarquia?

Carrie disse à operadora que qualquer um servia. “Vou passar para a secretária, senhora.” A

operadora soava satisfeita consigo. Talvez todo o dia dela consistisse em pequenos triunfos e

desastres, disse Carrie. Depois de se identificar para a secretária, Carrie perguntou quando

ela poderia enterrar seu marido. Essa era uma questão para o procurador, não para o hospital,

disse a secretária. O corpo poderia ser liberado para enterro somente quando o procurador se

convencesse de que todos os procedimentos corretos tinham sido realizados. Mas o que isso

significava exatamente?, perguntara Carrie. A secretária lhe disse que o patologista precisava

enviar um laudo da autópsia estabelecendo a causa da morte por escrito para o procurador. A

polícia não tinha explicado tudo isso? Carrie não conseguia se lembrar do que a polícia tinha ou não explicado. Patologista? Procurador? Tudo fazia parte da névoa.

— Não compreendo os procedimentos — disse ela, pensando como era injusto ser forçada

a se sentir patética.

— O procurador exige que todas as mortes não esclarecidas lhe sejam relatadas, incluindo

mortes em circunstâncias suspeitas.

A secretária falava devagar e com calma, como um hipnotizador que leva o paciente a um

estado inconsciente. Circunstâncias suspeitas? O que isso significava? Carrie estava se

esforçando para ir além do fato da morte de Harry, terrível o bastaste sem ter que lidar com

circunstâncias. Tentando manter a calma, ela disse à secretária que gostaria de ver o marido

novamente, ela não o via fazia três dias, não suportava pensar nele deitado debaixo do lençol

vinho, guardado numa gaveta, era tão bárbaro, e ela queria ficar com ele, não apenas olhar

para ele através de um vidro, como se estivesse fitando um tanque de peixes. Tudo saíra mais

estridente do que pretendia, mas ela não conseguiu evitar.

— Compreendo perfeitamente, sra. Sanderson. — A voz estava suspensa em algum lugar

entre o constrangimento e a empatia. — Se a senhora deseja ver o corpo, terá de contatar a

polícia. Não estamos em posição de autorizar.

Nesse ponto, Carrie gritara ao telefone:

— Não quero ver o corpo. Quero ver meu marido. Meu Deus!

 

Algumas horas mais tarde, um policial se identificando como sargento Wallace telefonou para

confirmar que a direção do hospital havia agido corretamente. Ela não esperava outra coisa.

Seria melhor, sugeriu ele, se ele fosse à casa dela com a policial Andrews e explicasse todos

os procedimentos novamente.

— Não preciso que venha aqui — disse Carrie. — Só quero ver meu marido de novo.

— Aconselhamos que isso não seja feito nestas circunstâncias.

— Que circunstâncias?

— Em seguida a uma autópsia. As circunstâncias posteriores a ela. A experiência nos diz

que, em geral, é melhor para a família do falecido lembrar o ente querido como ele era em

vida, em circunstâncias mais felizes.

Quando Carrie despejou tudo isso, em meio a lágrimas, disse-me que não suportava ouvir

falar em ente querido, e que, somando tudo, havia circunstâncias demais. Ela odiava estar à

mercê delas e do sargento Wallace. Na vida real, pensava Carrie, bem distinta dessa paródia

grotesca em que estava envolvida, Wallace seria alguém de uma chatice tão inacreditável que

ela quase com certeza se sentiria doente mesmo com exposição moderada a ele. Mas, da forma como as coisas estavam, ela precisava se apegar a cada palavra dele, de tal modo faminta por

informações, que mesmo migalhas serviam. Você não perdeu o vigor, comentei, arriscando um

sorriso. E dei-lhe um abraço sem jeito.

— Só quero vê-lo, Eddie. Não através de um vidro. Quero tocá-lo. Eles agendaram para

amanhã. Você vai comigo de novo?

 

Chegamos ao hospital pela segunda vez e começamos a longa jornada até o necrotério. Desta

vez, passamos pela porta sinalizada Área de Recepção e paramos do lado de fora de uma

porta mais adiante no corredor. Havia uma lâmpada feita de âmbar grosso acima da porta e um

aviso: NÃO ENTRE SE A LUZ ESTIVER ACESA. A luz não estava acesa, mas o sargento

Wallace deu três batidas enérgicas e pôs a orelha na porta como se esperasse que uma

mensagem codificada fosse batida em resposta. Depois de instantes, a porta foi aberta por um

homem afável vestido num jaleco e com botas impermeáveis da mesma cor. Um homem que

gosta de seu trabalho, pensei. Fomos guiados até um pequeno recinto e recebemos jalecos e

galochas plásticas para colocar sobre nossos sapatos. Tudo era bastante surreal. Em nossa

vestimenta extravagante, passamos por outra porta que levava a uma sala grande, aquela que

tínhamos visto por trás do vidro dias antes. Cheirava a produtos químicos e refrigeração.

“Digam-me quando estiverem prontos”, disse o homem gentil. Ele estava parado ao lado do

carrinho, preparando-se para virar o lençol vinho. “Levem o tempo de que precisarem.”

Depois de alguns instantes, Carrie fez um sinal com a cabeça para indicar que a coberta podia

ser removida. Em sua dor, ela estava bela. Não disse nada, nadinha. Estava extremamente

calma. Quando chegou a hora de ir embora, curvou-se e beijou a testa de Sanderson.

 

Depois disso, voltamos para minha casa. Carrie passou quase uma hora na garagem e, quando

ressurgiu, parecia que um peso havia sido retirado de suas costas. Tomando uma taça de

vinho, ela disse que, quando beijou a testa de Harry, fria e dura como granito, percebeu por

que um cadáver é chamado de restos mortais. Ela sempre achara que era uma descrição

estranha, levemente de mau gosto, sugerindo sobras num prato de jantar ou resíduos no chão

de uma fábrica. Mas, num instante, ela vira, perfeitamente, que os restos eram apenas isso. O

que restava depois que a vida tinha ido embora — os resquícios de uma vida. Tudo neles

indicava intervenção externa. “Você percebeu?” — as roupas dele tinham sido removidas, ele

estava de barba feita, sem muita competência, e seu cabelo estava penteado todo errado.

Estava nas mãos de estranhos. Harry, o Harry que vivia e respirava, tinha ido embora, estava

além do alcance. Toda a vida e toda a energia o haviam abandonado. Ele também estava além do amor, disse ela, além da razão, além do riso, além da dor, além de qualquer sentimento.

— Ele está completa e absolutamente morto — sussurrou ela —, não só morto hoje, mas

no dia seguinte e todos os dias depois disso, e por todos os dias possíveis. — Como se

poderia descrever a realidade disso?

— Talvez não possa — disse eu.

— É aí que precisamos de suas metáforas — disse ela, soando repentinamente exausta. —

Para traduzir a realidade da morte.

 

Preparei uma comida simples e conversamos até as primeiras horas da noite. Disse-lhe que

pensava ser, na verdade, uma coisa boa, uma coisa saudável, estar diante do aspecto físico da

morte.

— De modo geral, nós nos distanciamos disso. O que é uma pena.

O que eu queria dizer?, perguntou ela. Achei que era cedo demais para dizer mais sobre o

assunto, mas ela me pressionou.

— Bem, só acho que somos propensos a tornar a morte algo remoto, a encobri-la e

escondê-la, a silenciar sobre o assunto. Em todas as outras épocas, a morte era algo mais

imediato. Ela era trazida para a sala de estar. Isso não acontece mais.

— Não tenho certeza de que conseguiria lidar com a morte na sala de estar — disse ela,

olhando em volta do cômodo onde estávamos, como se esperasse ver um cadáver surgir.

— É maneira de falar. Quis dizer que agora estamos divorciados da natureza inevitável

das coisas. E a morte, em alto grau, faz parte dessa natureza. Ao contrário de Hamlet, na

sepultura, nós não seguramos uma caveira nas mãos. Não sentimos o cheiro dos nossos mortos

ou acendemos o fogo que os queima.

— Mas você ia querer fazer isso?

— Provavelmente, não. Mas há um preço a ser pago por não se fazer isso.

— E que preço é esse?

— A incapacidade de lidar com a morte como parte da vida. Quando a viúva do

neandertal se sentava ao lado do cadáver do marido que apodrecia, mais cedo ou mais tarde o

nariz dela lhe diria que ela teria que fazer algo. Provavelmente o quanto antes. Ela teria que

cavar um buraco e jogá-lo lá dentro. Ou empurrá-lo de um despenhadeiro. Ou deixá-lo na

colina para os pássaros bicarem.

Carrie parecia levemente horrorizada. O que você está dizendo?, perguntou ela.

— Só que acho que você está lidando com essa coisa terrível da melhor maneira possível

— respondi. — Vi os cadáveres dos meus pais e, de uma forma curiosa, acredito que isso me ajudou. É importante testemunhar.