O Tom Ausente de Azul
Capítulo 49
Em tempos de apreensão, o próprio tempo parece andar mais devagar. A espera era um
tormento, no seu hora-após-hora. Mas, logo, tão subitamente quanto Sanderson havia
desaparecido, um corpo correspondendo à sua descrição foi descoberto. A procura da polícia
se concentrara nos locais de pesca favoritos no sul de Edimburgo, mas foi no rio Tay, oitenta
quilômetros ao norte da cidade, que eles o encontraram boiando. Meu Deus, disse Carrie. Eu
disse o mesmo. Meu Deus. Não conseguíamos passar dessa repetição sem sentido.
Durante os dias e noites seguintes, nada importou muito. Carrie se descrevia como um monte
de partes desconexas. Se ela se movesse rápido demais, todas se separariam e acabariam
numa pilha caótica. Seu cérebro dava as ordens, e, ao que parecia, somente muito mais tarde
seu corpo as obedecia. O corpo e a mente não se entendiam, disse ela, que prosseguia
devagar, dormia o mínimo, e fazia o possível para evitar que o corpo desmontasse.
Pensamentos incompletos surgiam na sua cabeça, e, quando ela tentava mantê-los, eles vinham
abaixo de repente, como as imagens de um caleidoscópio em constante mudança. Durante esse
tempo, Carrie passou horas na garagem, meditando como uma louca, como se sua vida
dependesse disso. Cerca de uma semana se passou. Então, certa manhã, algo se aclarou, e o
conteúdo de sua mente se afrouxou. Não foi por querer; apenas aconteceu, disse ela. Em
seguida, houve uma espécie de serenidade, depois da qual ela sentia ser capaz de realizar
tarefas simples. Mas, cada vez que Harry lhe entrava na mente, ele estava morto, deitado num
carrinho de necrotério. Por mais que tentasse, ela não conseguia tirar a imagem da cabeça,
nem melhorá-la.
Eu estava com Carrie quando lhe contaram. Eles não usaram essas palavras, é claro. Não falaram: “Seu marido está morto.” Em vez disso, disseram algo bastante formal e tão distante
do significado real quanto a situação permitia. Apoiaram seus quepes de policiais sob os
braços, e seus rostos sombrios disseram duas coisas: que quem encontraram provavelmente
era Sanderson e que ele não voltaria.
A polícia é diferente de um país para o outro; essa é a minha impressão. Na França, um
policial é um tipo superior de bandido — um criminoso de uniforme. Em Edimburgo, eles são
mais gentis, ainda não foram dessensibilizados pelo que viram ou fizeram.
A cozinha parecia pequena demais para conter dois uniformes. A policial abordou Carrie e
perguntou se havia algum lugar em que todos pudessem sentar, mas Carrie já não respondia
mais coisa com coisa. Em vez disso, andou para longe dos uniformes e ficou parada de costas
para o forno quente, com as mãos viradas para dentro, segurando as grades, como que para
usar o que quer que a conectasse ao mundo. O bule na boca do fogão estava começando a
ferver, zombando das circunstâncias com a agitação de seu chiado. Algo estava acontecendo
no cômodo: ele parecia mais escuro; o ar, mais espesso. Os policiais alisavam a borda de
seus quepes.
— Sra. Sanderson. — O policial limpou a garganta. Então, seria ele quem daria a notícia.
Os homens supostamente eram os dotados de gravidade, mais adequados para momentos
solenes. A policial feminina estaria lá para confortar, tradicionalmente o talento de uma
mulher. Apesar de todo o processo que obscureceu as diferenças de gênero nos últimos
cinquenta anos, não havia dúvida de que os papéis convencionais estavam firmes e fortes aqui
na Escócia urbana. — Às 14h30 do dia de hoje, um corpo foi descoberto na margem norte do
rio Tay — começou o policial, lendo de seu caderno.
Notei a voz passiva. Se o agente da descoberta é retirado, a intenção era atenuar a dor? Se
a ação verbal se tornasse passiva, em vez de ativa, isso aliviaria o terrível baque? Eram os
tempos verbais um elemento do treinamento da polícia? Haveria um subjuntivo, para lidar
com o que, nesse estágio, era apenas possível em vez de real?
— O corpo mostrava sinais de estar imerso em água. Temos razão para crer que o falecido
é seu marido.
Havia algo fascinante na forma como as pessoas transmitiam o que queriam dizer, ou
escondiam; a forma de expressar os fatos em frases mínimas ou encobertas em expressões
prolixas. Mais tarde, Carrie me diria que o falecido e razão para crer eram típicos dos
programas policiais de televisão. Eles não tinham nada que ser ditos em sua cozinha, fingindo
serem capazes de carregar a enormidade da mensagem que transmitiam.
A chaleira continuava apitando. Enquanto o tempo parecia diminuir o ritmo, eu observava algumas gotículas de água se condensando atrás nos ladrilhos, correndo pelas ranhuras entre
as fileiras de azulejos. A argamassa entre os azulejos estava bem cinza agora. Teria um dia
sido branca? A argamassa se acinzentando entre os azulejos: essa observação prosaica marcou
o último momento de normalidade daquele dia. Tudo o mais, em menor ou maior grau,
indicava a dor que viria.