O Tom Ausente de Azul

Jennie Erdal · Capítulo 8 de 59

Páginas do PDF

O Tom Ausente de Azul

Capítulo 7

 

Jantar com estranhos: um prelúdio interessante para minha estada na Escócia — a qual

poderia ter terminado ali, sem nenhum outro contato. Mas, ao contrário, duas coisas

aconteceram; a primeira delas eu ajudei a provocar, a segunda foi decorrência da primeira.

 

Na tarde que se seguiu à minha noite com os Sanderson, sentei-me na Sala de Leitura Norte no

primeiro andar da Biblioteca Nacional da Escócia, com meu caderno aberto à frente, a caneta

em punho, de modo a parecer que fazia algo. Eu havia acabado de concluir o processo um

tanto alongado de registro, adquirido meu cartão de leitor e pedido meu primeiro manuscrito,

o qual, de acordo com a pessoa no balcão, levaria cerca de trinta minutos para chegar. Durante

a espera, meus pensamentos se voltaram para a estranheza de estar ali, trabalhando com outras

pessoas, algo que eu não fazia havia vinte anos ou mais.

O dia começara mal. Depois de um sono agitado, eu acordara com dor de cabeça —

resultado do excesso de vinho. Levei a manhã inteira para desembalar minhas coisas,

organizar meu espaço de trabalho da forma que gostava, fazer uma lista de provisões para a

casa e, em especial, criar um plano de ação detalhado para a tarefa à frente. Os dois elementos

mais importantes na minha vida profissional naquele momento eram a rotina e a autodisciplina

— tudo o mais era secundário. Em minha casa em Paris, o padrão era eu passar as manhãs, o

tempo entre o café da manhã e o almoço, lendo o fruto dos esforços do dia anterior. Essa era

uma parte vital do meu tipo de trabalho, uma forma de entrar no clima. As pessoas que vivem

outro tipo de vida muitas vezes imaginam que uma tradução pode ser iniciada e largada, como

se fosse um tricô — algumas carreiras aqui e ali, alguns pontos lisos e algumas laçadas e,

minha nossa, veja só quanto já está pronto. Mas não é assim mesmo. Pelo menos não para

mim. Se deixamos de lado uma tradução, ainda que por um período curto, demoramos a encontrar o caminho de volta. É como voltar a crer novamente depois de uma perda de fé

temporária.

Em Edimburgo, minha rotina precisaria ser tão rigorosa quanto a anterior; a diferença

principal era que ela seria dividida entre estar em casa e ir à biblioteca. Era também parte do

meu plano incluir a prática diária de David Hume de levantar cedo e caminhar por Salisbury

Crags antes do café da manhã — seis quilômetros por um terreno íngreme. Eu admirava

muitíssimo a autodisciplina e os métodos de trabalho de Hume. Durante toda a vida, ele havia

estudado em bibliotecas, não apenas em Edimburgo, mas nas vizinhanças magníficas das

bibliotecas do Colégio dos Jesuítas, em Reims, e La Flêche, em Anjou. Minha preferência era

por trabalhar sempre completamente sozinho e em silêncio, mas os livros que eu precisava

consultar eram parte das “coleções especiais” da Biblioteca Nacional, os quais não poderiam

ser emprestados ou retirados do prédio. Eu teria de me acostumar a trabalhar em meio a outras

pessoas.

A Sala de Leitura Norte era o espaço projetado na biblioteca para consultar livros e

manuscritos raros. Seu nome guardava a possibilidade da luz clara do norte de que Sanderson

falara, mas, na verdade, não havia janelas e absolutamente nenhuma iluminação natural. Era

difícil não se sentir decepcionado. A luz artificial era debilitante. Um aviso na parede

explicava que os níveis de claridade precisavam ser mantidos baixos para evitar que a tinta se

esmaecesse em manuscritos antigos. Isso teria sido um pequeno preço a pagar em troca das

paredes de painéis elaborados, alcovas de leitura e algumas vigas de carvalho, tudo o que eu

aprendera a amar durante minha viagem a Oxford um ou dois anos antes. Mas a Sala de Leitura

Norte decididamente oferecia mais funcionalidade que inspiração. Estantes de livros altas

cobriam as paredes, e, no meio, estavam oito escrivaninhas grandes, cada uma com uma

pequena pilha de luvas de algodão brancas — do tipo que um sommelier francês poderia usar

para segurar um Château Latour. Abaixo das estantes, havia prateleiras profundas, que

continham um sortimento do que parecia com itens de cama: travesseiros, lençóis, pufes e

almofadas triangulares espessas de espuma cinza em diferentes formatos e tamanhos, como se

o recinto pudesse se converter a qualquer momento num dormitório para estudiosos ávidos. Os

itens de cama, porém, como eu sabia perfeitamente, eram para o suporte de tomos antigos que

vinham de caixas-fortes, carregados como frágeis idosos inválidos antes de serem colocados

nas camas de espuma com travesseiros macios para proteger suas costas envelhecidas e

colunas debilitadas.

O cheiro de livros antigos é o mesmo em qualquer país — poeira misturada com mofo,

além da impressão inconfundível de vidas passadas. Quando criança, na livraria dos meus pais, e mais tarde como aluno, eu inalara muitas vezes essa mistura característica. Uma

mistura que me acompanhou até meu primeiro trabalho de verdade — empilhar prateleiras

numa das bibliotecas de pesquisa na Sorbonne. A vaga não havia sido anunciada, nem eu me

candidatara formalmente; depois que deixei a faculdade, ela foi simplesmente “achada” para

mim, uma forma educada de dizer que mexeram os pauzinhos. Em um ataque de otimismo

inocente, eu me matriculara na Sorbonne para me preparar para minha aggrégation, esperando

agradar a meu pai e sonhando em um dia me tornar um filósofo como ele mesmo fora. O sonho

mal durou dois anos, e minha súbita saída foi desonrosa e também perturbadora.

 

Era a primavera de 1980, e Jean-Paul Sartre tinha acabado de morrer. Ele perdera prestígio na

época, certamente no estreito círculo parisiense e político. Sua vertente do existencialismo

estava começando a ser vista como uma expressão de sua própria psicologia, pouco mais do

que seu lema pessoal do pessimismo. Contudo, a morte pode mudar tudo, e, quando a morte

chegou para Sartre, cinquenta mil pessoas, incluindo eu mesmo, tomaram as ruas de Paris. Ser

engagé — comprometido com uma causa — era o que se fazia, e a multidão andava

solenemente atrás do caixão até o cemitério de Montparnasse. Havia uma delegação da

Sorbonne; milhares de alunos que viam nisso uma oportunidade para manifestação, para

segurar faixas proclamando LA CAUSE DE SARTRE ou JEAN-PAUL: LA CONSCIENCE DU

MONDE. Eu esquecera há muito tempo sobre o que pensávamos estar nos manifestando contra

ou a favor, a não ser que fosse a própria morte, mas do que me lembro com clareza agudíssima

é a sensação de intoxicação que vinha fazer parte daquela massa lenta e sombria que seguia o

cortejo. Filósofos, e não poetas ou políticos, eram os verdadeiros oráculos: só eles podiam

lidar com a verdade e revelar o mistério da vida. Havíamos perdido um gênio, um intelecto

superior, um homem de coragem e convicção. Sem ele, como podíamos continuar? Como

conseguiríamos viver? Ninguém de fato disse isso, mas dava para sentir no ar. Aqueles que

marchavam estavam orgulhosos de serem franceses, sabíamos que participávamos de algo

importante, algo a que o mundo assistiria e que o transformaria. Era uma coisa inebriante, e eu

estava indefeso perante ela.

Depois do funeral, veio a dormência que pode suceder um evento de grande emoção —

pensamos que as coisas deveriam ser diferentes de alguma forma, a fim de registrarmos

adequadamente o ocorrido, marcá-lo na história. No entanto, dentro de minutos, tudo é

exatamente o mesmo. Assim que Sartre foi para debaixo da terra, a vida normal foi retomada.

As multidões se dispersaram e desapareceram nas estações de metrô, o trânsito começou a

fluir novamente, e os garis trataram de remover todos os traços de qualquer coisa importante que tivesse ocorrido. Por várias horas, sentindo um desespero silencioso, caminhei pelas ruas.

 

Naquela noite, em casa, com o gosto do cemitério ainda na boca, havia costeletas de cordeiro

para o jantar. Sem nenhum apetite, eu revirava a comida no prato. Com certeza, meu pai

perceberia minha perturbação sem que eu precisasse dizer nada. Mas, quando o funeral foi

anunciado no jornal do rádio, ele zombou e chamou Sartre de pedante e hipócrita. “Para ser

bem sincero”, disse, “aquele homem nunca teve um dia de trabalho na vida.” Pior do que isso,

afirmou meu pai, Sartre não havia feito nada por seu país durante a guerra e ficara bem

satisfeito sob o regime de Vichy, lucrando com ele como o pior dos colaboradores. “E, quanto

à sua suposta filosofia, não é mais do que uma licença para o abandono da moral.”