O Tom Ausente de Azul
Capítulo 26
Em Edimburgo, as lojas abrem tarde na quinta-feira, como muitos museus e galerias. E, então,
numa quinta-feira depois do trabalho, decidi aceitar a sugestão de Sanderson e visitar a
galeria de Alice na Cidade Nova. Seria interessante vê-la em seu novo ambiente, e eu estava
curioso para ver as pinturas de Carrie numa atmosfera formal.
A escuridão caía enquanto eu estacionava minha bicicleta, mas o espaço interior era tão
iluminado que dava a ilusão da luz do dia. A pessoa sentada no balcão no fim da galeria —
não Alice, mas uma jovenzinha — levantou-se entusiasmada para oferecer seus serviços assim
que abri a porta. “Estou só olhando, obrigado”, disse eu. Momento em que uma voz flutuou,
vindo do nível do mezanino da galeria, e ali, sobre a minha cabeça, estava Alice, encostada na
balaustrada filigranada como uma heroína shakespeariana. “Olhar é certamente o melhor a se
fazer”, disse ela, projetando suas falas como se se dirigisse a um auditório lotado. “É preciso
olhar, olhar e olhar, e, quanto mais se olha, mais prazer se sente, mais as pinturas ganham
vida, mais se veem as cores e os ritmos e a beleza, mais as suas emoções são alimentadas.”
Estava claro que ela me reconheceu, mas, por vários minutos, manteve uma distância teatral no
balcão, não me cumprimentando pelo nome; em vez disso, continuava seu solilóquio sobre a
arte em frases bem-torneadas, faladas com ressonância por entre um grosso batom vermelho e
dentes brancos perfeitos. Quando ela parou, dei por mim fazendo um gesto teatral involuntário
— meio mesura, meio encolher de ombros —, confessando que, infelizmente, não sabia
praticamente nada sobre pintura. “Essa pode ser uma vantagem sensível, Eddie”, disse ela,
finalmente me tratando pelo nome e descendo a escada de ferro batido em espiral, seus saltos
ressoando nos degraus, para se juntar a mim no piso principal. Contei-lhe que Carrie dissera
algo estranhamente similar quando nos conhecemos no estúdio dela. “Então, deve ser
verdade”, retrucou ela com uma risada.
Minha visita à galeria de Alice revelou-se memorável por dois motivos: o primeiro
relacionado às pinturas de Carrie, o segundo, de forma menos esperada, relacionado ao meu
próprio trabalho. Mas, antes que houvesse qualquer pista disso, a jovenzinha, aparentemente
em resposta a uma instrução invisível, preparou duas taças de vinho branco gelado. Alice
imediatamente levantou sua taça e disse: “Aos tradutores de todo o mundo!” — um brinde
enigmático que se tornou explícito apenas mais tarde. Enquanto isso, ela me pegou pelo braço
e me levou num tour pela galeria, instruindo-me sobre cada pintura, como se eu fosse um
comprador em potencial. Havia várias obras “locais”, cenas de rua de Edimburgo e coisas
assim, bem como vistas grandiosas, algumas das quais já me eram familiares. Alice teceu
comentários sobre cada pintura, fazendo não apenas uma avaliação ou interpretação geral, mas
tocando em aspectos técnicos como forma e cor, traço e sombra. A maior parte disso eu não
entendia, entrava por um ouvido e saía pelo outro, embora, vez por outra, quando ela
mencionava a conexão entre as pinturas e o que ela chamava de “narrativa pessoal”, minha
atenção completa ressurgisse.
As obras de Carrie — três grandes telas penduradas no fundo da galeria — foram
deixadas para o final, talvez porque Alice sentisse que lá residia meu verdadeiro interesse.
“Quando quer”, disse Alice, “ela tem o poder de elevar o coração, como apenas um grande
artista sabe fazer”. Carrie era, antes e acima de tudo, figurativista, explicou ela, embora tenha
mudado no ano passado, ou no anterior, em direção à arte perceptiva. “Essencialmente, ela
pinta a partir da experiência, de elementos de seu mundo cotidiano. É claro que, desde a
situação com Alfie, seu mundo se fragmentou. E isso é evidente em suas peças mais recentes,
todas elas inconstantes e perturbadoras.” Nas três obras, Alice chamou a atenção para o
tratamento que Carrie dava ao espaço, em particular o vazio — “o que soa ridículo, é claro,
pois como se pode pintar o vazio?” No entanto, havia mais do que isso, disse ela. Carrie
estava preocupada com o tipo de espaço onde se esperaria ver alguém — podia ser um quarto,
uma cama, uma rua —, e era esse espaço que mantinha a ausência de uma figura. Ao olhar
para o espaço, você se tornava consciente de sua ausência. “De vez em quando, ela introduz
uma figura — como nessa aqui”, disse ela, apontando para a tela do meio, “mas, como pode
ver, é uma figura atenuada, diminuída. E é a ausência, a diminuição que se torna o foco”. Alice
dizia que cada pintura continha contradições: claro e escuro, alegria e tristeza. “É uma carícia,
mas também é um grito.” Essas palavras me fizeram tremer. Ficamos em silêncio por alguns
instantes, lado a lado, olhando as pinturas de Carrie. Mesmo os espaços entre as telas me
pareciam pesados de tristeza. Depois, como forma de tranquilizar, Alice virou-se para mim e
disse: “Mas a perda é, afinal, uma coisa natural. Como a beleza.”
— A perda conta como beleza? Não parece mais uma coisa feia?
— É claro — disse ela, um pouco rápido demais, como se fosse evidente por si só. —
Mas a arte apenas olha para a vida, e a vida contém coisas feias. — Ela fez um som de clique
com a língua. — Na verdade, às vezes a vida é tão feia que é difícil passar pelos próximos
cinco minutos. — Ela deu uma risada que vinha da garganta, mas eu me perguntava se ela
falava por experiência própria, e se essa experiência tinha a ver com Sanderson.
Quando eu estava prestes a sair, Alice me perguntou como meu trabalho estava indo e se a
tradução estava progredindo bem. “Tenho um estranho interesse em tradução”, disse ela,
soando levemente sem jeito, como se tivesse confessado uma falha de caráter. E, com isso, ela
iniciou outro monólogo, indo e vindo nos tacos de madeira e pausando de vez em quando para
obter efeito dramático. Sua melhor amiga dos tempos de universidade — “uma mulher
maravilhosa chamada Janet” — se casara com um executivo japonês não muito tempo depois
da graduação. Janet e o marido tinham ido viver em Kyoto, onde criavam três filhos. Janet
aprendeu japonês, os filhos eram criados como bilíngues, e, com o tempo, ela começou a
traduzir romances japoneses. Sua primeira tradução publicada foi um curto romance de um
escritor chamado Yuriko Mukoda que chegara pelo correio no aniversário de Alice há alguns
anos. “Na verdade, não era meu tipo de livro”, disse Alice. “Era ambientado em alguma
aldeia de pescadores em tempos medievais, e era óbvio, pela capa, que haveria dificuldade e
sofrimento intensos. E acho que não me interesso muito por livros sobre desgraças”. Ela riu da
própria ideia. “Mas, como era um presente de uma amiga querida, eu decidi tentar.” Alice
descreveu o romance como algo diferente de tudo o que havia lido, ela não sabia dizer
exatamente como ele era diferente, exceto que tinha a ver com o estilo da prosa — “muito
minimalista, bastante distante e formal, muito estrangeira, sabe?”. Ela injetou um pouco de
veneno na palavra “estrangeira”, lembrando-se tarde demais que ela se aplicava a mim (e
também a ela própria, não pude deixar de pensar). “Não me entenda mal”, disse Alice,
rearrumando os músculos faciais de modo que assumissem um aspecto benevolente. “Era só
meio estranho. Mas também interessante, sabe? E cheguei a gostar no final.”
Eu me perguntava aonde isso chegaria. Como se estivesse lendo meus pensamentos, ela
disse: “Pois bem, é aqui que a coisa fica doida.” Ela me explicou que alguns anos mais tarde,
recebeu um e-mail de Janet com a notícia chocante de que a filha havia sido atropelada por um
carro, sofrera uma lesão grave na cabeça e estava no hospital em coma. Ao longo dos meses
seguintes, Janet mandava e-mails regulares, longos boletins para todos os amigos e a família,
detalhando a condição e o progresso da filha: sua jornada gradual de volta dos mortos, o
momento que saiu do coma, suas primeiras respostas motoras e assim por diante. Alice achava os boletins envolventes. Eles eram meticulosos e dramáticos. De um modo estranho, ela
começara quase a ficar ansiosa pelo próximo. E, depois, um dia, enquanto lia o último
relatório, ela experimentara uma sensação poderosa de déjà-vu — estas duas últimas palavras
numa fala estendida: dê-já-vu. “Era como se eu já tivesse lido a coisa inteira antes em algum
lugar. E, ainda assim, eu sabia que não podia ter lido, porque era uma história que se
desenrolava em tempo real, era a filha da minha amiga, não um personagem de um romance.”
E, então, de repente ela percebeu o que era tão familiar. Era como ler o romance japonês todo
de novo. Não a história, não a situação, mas o som, os ritmos, a estrutura, a atenção aos
detalhes — eles eram inconfundíveis. “Era como conseguir identificar uma pintura a partir de
algumas pinceladas.”
Alice comentou que isso foi “estranhíssimo”. Fez com que ela se perguntasse o quanto do
romance japonês era de Janet, e não do autor. Ou se era o contrário — que Janet havia, de
algum jeito, adotado a persona de seu autor japonês sem perceber.
— O que você acha disso, Eddie?
— Não tenho certeza. — respondi, experimentando uma leve sensação de cair num poço.
— Acho que, na tradução, há forças misteriosas em atividade.
Caminhando de volta, senti os efeitos do vinho e da falta de comida. Logo que cheguei a
Calton Hill, sabia que pararia no cemitério antes de ir para casa. A história de Alice me
perturbara. A sensação de que eu recebera um presente indesejado, e, depois de entregue, não
havia como voltar atrás.