O Tom Ausente de Azul

Jennie Erdal · Capítulo 36 de 59

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O Tom Ausente de Azul

Capítulo 35

 

Quando chegamos a falar sobre o que acontecera naquele dia, Sanderson disse que tinha

perdido o pé — ele vira um peixe subir além de sua mosca e tentara fazer um arremesso um

pouco mais distante. A força da corrente o pegou de surpresa e o atirou para trás. Seus waders

começaram a se encher de água, momento em que ele gritara por ajuda. A explicação era

simples, e não havia razão para que eu duvidasse ou não acreditasse. Mesmo assim, não

acreditei. Não naquele momento, nem na viagem de volta, nem mesmo quando finalmente

removi as roupas molhadas, tomei um banho quente e senti o alívio de me afundar novamente

na solitude do meu lar. Nem mesmo enquanto eu limpava a ferida no crânio e começava a

reconstituir o drama na minha cabeça, ponderando os diversos resultados possíveis. Não, isso

me ocorreria somente mais tarde, de modo bastante inesperado, durante nossa próxima

conversa no sábado seguinte. Embora eu não tivesse experiência anterior alguma em salvar um

homem em perigo na água, algo de repente me incomodou quanto ao incidente. Não era tanto

que Sanderson tivesse resistido ao auxílio (embora ele tivesse); era principalmente o fato de

que ele me expusera deliberadamente ao perigo e usara de violência contra mim. E que essa

talvez tenha sido sua intenção desde o início.

 

Enquanto isso, no entanto, eu estava preocupado com outra coisa: o mistério da garagem, e o

que — ou quem — ele continha. Reli o bilhete de Martin Blandford: “A garagem contém meus

itens pessoais e, portanto, está trancada.” Meu olho brilhou ao ler outra frase: “Há um molho

de chaves reserva no número 16, caso você fique trancado do lado de fora...”

Naquela noite, toquei a campainha do número 16, apresentei-me à mulher simpática que

abriu a porta, expliquei que era inquilino no apartamento de Martin Blandford e que havia me

trancado do lado de fora. Em segundos, as chaves reservas estavam em minhas mãos. “Não se apresse”, disse a mulher, sorrindo quando prometi a rápida devolução delas.

Como eram fáceis esses pequenos enganos, e como davam frutos. Conforme eu esperava,

havia uma chave extra na argola — a chave da porta que dava para a garagem.

Minha cabeça estava aberta a todas as possibilidades, mas, mesmo assim, o interior da

garagem me deixou surpreso, e demorei a absorver o que via, num transe onírico, do tipo me-

belisca-para-eu-ver-se-estou-sonhando. A primeira impressão era de uma tenda beduína:

tapetes nas paredes e no chão, bandeiras de oração coloridas suspensas em cada canto e, em

todo o lugar, tecidos esplêndidos e panos em camadas. Não estava iluminado, exceto pela luz

emprestada da área de serviço, e não havia interruptor, apenas candelabros nas paredes, os

quais continham velas altas, algumas delas acendidas por mim naquele momento, até que as

sombras dançaram nas tapeçarias de tramas grossas que adornavam as paredes e todo o

esplendor do cômodo começou a se revelar. Encostada na parede do fundo havia uma chaise-

longue baixa, envolta num tapete turco kilim cor de terra de siena queimada, e, acima dos

capachos no piso, havia diversos vasos de cerâmica, grandes almofadas estampadas, um par

de lanternas de latão com vidro decorado, uma mesa baixa de madeira coberta com esteiras

em mosaico e, sobre elas, velas de réchaud e incenso. Os tons eram quentes e terrosos, como

se tivessem sido pintados com uma palheta de condimentos orientais, dando uma impressão

suntuosa bem diferente do restante da casa. A atmosfera era a de um bazar marroquino.

Em frente à mesa, havia uma cadeira estranha, almofadada e de espaldar alto, mas sem

pernas (o tipo de cadeira que se pode ver num restaurante japonês), posicionada de frente para

a porta da área de serviço. Aos poucos eu me dei conta de que, pelo buraco da fechadura, vira

os olhos de alguém que se sentou nessa cadeira baixa. Num tamborete de madeira perto da

chaise-longue, havia um livro aberto, Meditação para uma mente tranquila, com marcações

a lápis nas margens e, dobrada entre as páginas, uma folha de papel datilografada. À luz de

uma das lâmpadas, sentei-me para lê-la:

 

Querida Carrie,

 

Eis algumas notas para ajudá-la enquanto estou fora. Tentei descrever o processo como acontece comigo e como ele

pode tranquilizar quando nada mais parece fazer efeito. Pode ser útil pensar nele como uma espécie de rendição

silenciosa.

 

Boa sorte

Com amor, Martin

 

Quando nos sentamos por uns momentos, de frente para uma parede, não há lugar para ir senão para dentro. Na

verdade, geralmente não parece que estamos entrando: a sensação é a de que o interior está saindo. A princípio, e talvez

por muito tempo, há somente uma sucessão de pensamentos, de sensações, de sonhos, de ideias, de memórias, tudo

vindo com nosso tom de emoção. Na arena da mente, todas essas coisas se sucedem numa espécie de dança, uma

conga semiconsciente: elas dançam por uns momentos e depois são substituídas pela sequência seguinte.

 

Às vezes, elas são dolorosas: memórias de perda emergem de repente, de modo surpreendente, causando sobressalto.

Às vezes, estão fora de controle: medo, fúria ou dor tomam o controle, e seguimos junto com eles, incapazes de

controlá-los ou resistir a eles. Eles parecem ter vida própria. Às vezes, a vontade não é se livrar deles; em outras, não

queremos nada a não ser fugir. Mesmo que vão embora, eles podem voltar seguidas vezes.

Com o tempo, mesmo quando uma coisa está agarrada a nós como um pit bull enlouquecido, é possível largá-la de

mão. Por muito tempo isso pode não funcionar. Ficamos trancados num enlace sombrio com essa coisa, com as mãos

em volta de sua garganta, mantendo-a distante. Mas, ainda assim, mantendo-a. E o que aprendemos a fazer é não

mantê-la de forma alguma, nem mesmo a distância. Largamos de mão, no sentido de deixar estar — deixar que esteja

ali, na nossa frente, dentro de nós. Isso pode ser assustador. Quando a deixamos ali, como a coisa é, ela simplesmente

permanece em todo o seu horror. E não existe alternativa. Não é possível se livrar se lutamos para nos livrar. Só é

possível ser livre se nos rendermos. Não mais gostos e desgostos: aceitando o que vier. Identificamos a coisa e não

fazemos caso dela.

Dessa maneira, com o tempo, ela perde o poder. Ela não desaparece necessariamente. Pode ainda estar lá um ano

depois, cinco anos depois, mas, em vez de tentar jogá-la fora, ou dominá-la, o que não funciona, continuamos permitindo

que se deposite silenciosamente na palma de nossa mão aberta, no espaço de nossa caixa torácica, apenas sendo ela

mesma.

Ocorre que, se desejamos desistir de uma coisa, não é necessário querer desistir, mas deixar estar. Não rejeitar, não

suprimir, não resistir em horror. Aceitamos tudo disso exatamente como é. Isso se torna uma prática infinita de rendição,

até que, por fim, percebemos o que está acontecendo e retornamos à tranquilidade, ao silêncio do espaço no qual tudo

isso ocorreu. A tranquilidade que percorre todos os movimentos, a tranquilidade movente que flui por tudo o que é

silencioso e tudo o que é barulhento.

MB

 

Por um tempo permaneci parado na chaise-longue, tentando me apegar ao espaço familiar

dentro de mim que sempre conheci, o espaço que agora parecia estar ocupado por algo que eu

não reconhecia. Por fim, coloquei as notas viradas para cima no assento da estranha cadeira

sem pernas, dei uma última olhada no cômodo e apaguei as velas e a lâmpada. Caminhei pela

porta que se comunicava com a casa, deixando-a fechada, porém destrancada.