O Tom Ausente de Azul

Jennie Erdal · Capítulo 10 de 59

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O Tom Ausente de Azul

Capítulo 9

 

A doença nos leva para fora da vida e para fora de nós mesmos por um instante, o que nos

permite pensar. Esse talvez seja todo o seu propósito, dizia meu pai. Fiquei no hospital por

mais de um mês, comendo comida ruim e protegido do mundo. Nesse tipo de situação,

removido das estruturas normais da vida e convivendo com pessoas que não estão

inteiramente bem, é difícil retornar a algo que se possa chamar de normalidade. Tente ver isso

como um intervalo, disse meu pai, uma oportunidade para se preparar para o que vier em

seguida. Suas visitas eram marcadas por uma gentileza maravilhosa. Enquanto isso, a dra.

Robel, que não perdia a aparência extenuada, questionava-me repetidamente: Eu já ouvira

vozes? Achava que os outros falavam de mim pelas costas? Ela explicava que meu estado

mental poderia fazer as coisas parecerem mais importantes do que de fato eram:

“Seu estado mental pode levar a inferências exageradas sobre seu ambiente.”

Um dia, quando eu estava lendo Three Men in a Boat, que meu pai me dera em sua

penúltima visita, a dra. Robel apareceu no quarto e, depois de alguns comentários

preliminares cujo substrato era que eu fazia bom progresso, subitamente perguntou se eu

acreditava que tinha poderes especiais. Pensei na pergunta, depois disse: “Não, eu não. Mas a

minha mãe, quando estava viva, tinha um relacionamento especial com a natureza. Ela falava

com as plantas e contava seus segredos a elas. E meu pai, bem, ele consegue descascar uma

laranja todinha sem quebrar a tira da casca.”

Alguns dias mais tarde, permitiram que eu voltasse para casa. De volta ao mundo real — o

que quer que se queira dizer com isso. Durante meu último encontro com a médica, ela

explicou que eu havia vivido um episódio psicótico. Era difícil prever o resultado, disse ela,

mas provavelmente eu ficaria bem. “Se você observar qualquer sinal preocupante, volte e nos

consulte. Mas o mais provável é que você se recupere. Sabemos menos sobre os que se recuperam — eles desaparecem e encontram um jeito de viver sem nós.”

No momento oportuno, um laudo foi enviado ao meu coordenador pedagógico na

universidade, um homem decente e que me comoveu ao confessar, de forma tortuosa, que

tivera suas próprias “dificuldades” em certa época. Ele me pediu para ir ao seu gabinete, e

nos sentamos frente a frente, como se nos víssemos pela primeira vez. Ele me entregou um

envelope, que descobri conter o laudo psiquiátrico. “Provavelmente tem mais utilidade para

você do que para nós aqui”, disse ele, com um leve sinal de pedido de desculpas se formando

na curva da boca. Não pude deixar de me perguntar sobre as dificuldades desse homem gentil:

quais teriam sido e se teriam acabado.

O laudo era um documento fascinante, assinalado como CONFIDENCIAL, endereçado Aux

personnes concernées, datilografado no bloco com o cabeçalho do Centre Hospitalier

Sainte-Anne, datado de 10 de junho de 1980 e assinado pela psiquiatra clínica — a mulher

com o rosto enrugado. Tinha a forma de uma espécie de atestado (Je soussignée certifie

que...) e começava descrevendo o paciente, que havia sido admitido “em estado de agitação”

e cuja atitude fora “ameaçadora e agressiva”, tanto que “se julgou que ele seria um perigo

para si e para os outros”. Eu o li tantas vezes que logo o decorei. Mas não importava o quanto

tentasse: era impossível me identificar como o paciente do laudo. Poderia ter sido uma obra

de ficção, parte suspense, parte mistério. Não tinha mesmo nada a ver comigo. Era assim que

continuava:

 

Na chegada ao hospital, o paciente precisou ser detido fisicamente. Nenhum parente o acompanhava, e a polícia não

tinha informações adicionais sobre ele. Era falante, mas não respondia ao ser interrogado. Sua fala era rápida e

desorganizada. Não apresentava sintomas físicos evidentes, e não havia indício de uso de drogas ou de ingestão de

bebida alcoólica.

Depois do tratamento, ele se tornou progressivamente mais calmo e, durante os dias que se seguiram, começou a

oferecer detalhes pessoais. Ele descreveu o incidente na sala de aula como “excepcional” e “em desacordo com sua

personalidade” [‘cela ne me ressemble pas’], surgido de uma sensação de frustração pessoal com seu próprio

progresso acadêmico. Não há histórico de doença psiquiátrica na família imediata, e ele nunca foi internado no hospital

anteriormente. Não há indícios de tendências suicidas.

Monsieur Logan foi observado atentamente por um período de três semanas. Durante a terceira semana, a medicação

foi gradualmente retirada e não houve outros sinais de agitação ou hipomania. Não foi possível determinar o fator

desencadeante ou precipitador do seu episódio psicótico, mas estou satisfeita que a crise imediata tenha sido contida e

que a permanência diurna no hospital psiquiátrico não seja indicada. É impossível dizer se o episódio psicótico agudo

ficará limitado a uma única ocorrência. Caso aconteça novamente, uma intervenção será necessária.

Na minha opinião, o jovem pode não estar preparado para lidar com dificuldades e ansiedades futuras associadas à

vida acadêmica. Além disso, ele pode ser predisposto a doenças mentais ou a reações negativas a situações

estressantes. Nesse ínterim, porém, estou satisfeita que tenha tido uma boa recuperação, que provavelmente se

manterá, e não é indicado tratamento nem acompanhamento contínuo.

Embora muitos anos tenham se passado, ainda carrego esse laudo na carteira. Por que continuo

apegado a ele? Às vezes eu me faço essa pergunta, mas não existe uma resposta única. Em

parte, acho que o guardo como uma prova tangível de que algo aconteceu. O laudo lidava com

fatos, inalterados pelo tempo; portanto, bastante diferentes da memória, que podemos moldar e

transformar em quase qualquer coisa. Contudo, ele não é inteiramente preciso: afirma que não

há histórico familiar de doença psiquiátrica; minha mãe foi vítima disso pela maior parte da

vida. E, assim, ele também é a prova de outra coisa: que laudos médicos, escritos por

profissionais treinados para revelar a verdade, podem conter uma mentira central.

Fundamentalmente, porém, é uma declaração que se refere àquela época, mais de vinte anos

antes dessa história. E passei a vê-lo como uma proteção contra uma nova ocorrência. O laudo

se tornou um talismã, impossível de destruir.

 

*

 

Mesmo antes de deixar o hospital, eu já havia começado a me preocupar com o fato de que

meu pai ficaria decepcionado, desapontado comigo. Mas, se ele ficou, não deu sinal algum.

Nem queria saber de “episódios”.

“É melhor chamar as coisas pelo nome, Eddie”, disse ele. “Todos lutamos contra nosso

próprio caos. A luta é geralmente a mesma — só o caos é diferente.” As pessoas acreditam

que a filosofia deve reduzir a ameaça do transtorno mental, mas isso não é necessariamente

verdade. Muitos filósofos descobriram isso por si. Descartes, por exemplo — “considerado

por muitas pessoas como o pai da filosofia, e não apenas na França” —, sofrera um colapso

nervoso quando jovem. “Aqui mesmo em Paris”, acrescentou meu pai, animado agora, como

se sugerisse que poderia haver algo no ar parisiense que provocasse desvario. E até David

Hume — “e, se já existiu um modelo de sanidade, foi o próprio” — havia tido um colapso

nervoso, praticamente na mesma idade, aliás, provocado por uma overdose de estudo. De fato,

ele se tornou tão envolvido na filosofia que começou a se deteriorar. Os sintomas eram físicos

e mentais — palpitações cardíacas, salivação excessiva e coisas assim. Suas mãos e pés

haviam chegado a se abrir em marcas de escorbuto — “ele estava meio aleijado por causa

disso” —, o que lhe causou mais ansiedade e depressão profunda. Quase lhe roubou a razão,

segundo meu pai. Até que decidiu que a filosofia era muito boa, mas ainda era mais importante

ser um homem, que foi como Hume o disse. “Aceite este conselho, Eddie: Reste un homme.”

Posteriormente, Hume continuou escrevendo sua obra-prima, explicou meu pai. “Mas seu

distúrbio inicial era muito verdadeiro. Naquele tempo, eles chamavam de ‘mal dos eruditos’, então, você está em ótima companhia.”

Daí em diante, “colapso” era o nome que meu pai dava ao ocorrido sem rodeios. De modo

surpreendente, ele estava até otimista por causa disso, declarando que havia certo prestígio

em ter tido uma reação de tal intensidade à Falácia do Meio Não Distribuído — a minúcia

filosófica que o professor vinha tentando explicar logo antes de eu atacá-lo. “Muito mais

distinto que se desesperar pela Ilícita Menor, não acha?”

Encontrar o absurdo de uma situação era uma das formas de meu pai se relacionar com o

mundo. Entretanto, ele também sabia ser seriíssimo. A maior parte do tempo, em seu

cotidiano, ele dava a impressão de estar cheio de equívocos e dúvidas, mas, vez por outra, me

fitava com seus olhos azuis muito claros e dizia algo a respeito do qual dava para saber que

ele tinha certeza. Certa ocasião, quando me referi ao que acontecera na aula de lógica como

um “momento de loucura”, ele se levantou da cadeira, enterrou as mãos nos bolsos, curvou os

ombros de leve, e balançou para a frente e para trás. Ele estava usando as calças que eram sua

marca registrada — tweed durável em padrão de zigue-zague, de corte generoso, levemente

folgadas nos joelhos. Um minuto ou dois se passaram antes que ele falasse. “Não perca esses

momentos, Eddie. São momentos vívidos preciosos, que nos fazem ter certeza de que estamos

vivos, de que somos parte do caos complicado e imprevisível que é o mundo. Ele me olhou

diretamente nos olhos. “Você teve um colapso, é só isso. Pode acontecer a qualquer um. Não

precisa ficar se martirizando.”

E, assim, aquilo se tornou meu colapso. Na época em que essa conversa ocorreu, minha

mãe falecera há quase um ano. Depois da morte dela, meu pai e eu passamos a conversar

apenas em inglês um com o outro, exceto na livraria ou quando outras pessoas estavam por

perto e a educação recomendava. Curiosamente, isso ajudou a traçar uma linha entre meu

tempo no hospital e o início da minha recuperação. Meu pai parecia a mim uma pessoa

diferente quando falava inglês, e era fácil fingir que eu também era outra pessoa — não o

aluno que entrou num frenesi de violência por causa do silogismo e agarrou um professor

inocente pela garganta, mas um jovem saudável e normal que ainda tinha uma vida inteira pela

frente.

— Não se sinta obrigado a voltar à filosofia, Eddie —, disse meu pai. — Você pode viver

muito bem sem ela.

 

Quer isso fosse ou não verdade, minhas opções eram limitadas. O conselho enfático do meu

coordenador pedagógico era que eu parasse os estudos e desse a mim uma chance de me

“sentir bem novamente”. Foi nesse ponto que ele me arranjou uma posição temporária na biblioteca da universidade. Meu pai disse afavelmente que não havia vergonha nenhuma nisso,

e que a ocupação na qual David Hume trabalhara por mais tempo fora a de bibliotecário.

Desse momento em diante, eu passava meus dias organizando livros e colocando-os nas

prateleiras. A simplicidade do serviço me agradava, assim como o nível de ordem envolvido

em classificar e catalogar. Havia um ritmo silencioso no trabalho, e algo tranquilizador em sua

natureza repetitiva. Carrinhos especiais transportavam os livros entre o balcão principal e o

depósito, e eu tinha orgulho de carregar o meu com muita eficiência, de modo que ele levasse

mais livros do que os dos demais. Coisas desse tipo podem assumir grande importância num

serviço como esse. Estar na presença de tantos livros — a soma de séculos de empenho

humano — pode ter consequências estranhas para aqueles que trabalham entre eles. A gente

medita sobre detalhes: a retidão de uma fileira na prateleira, o sussurro das luzes

fluorescentes, a iniquidade de alguém recolocar um livro na posição errada. Numa biblioteca

de universidade, esse é o comportamento-padrão. Assim como a desconfiança disseminada

entre os colegas. Há conversas sobre encontros amorosos na seção de Coleções Especiais,

amassos entre as estantes — até mesmo escamoteações e roubos em grande escala. Ninguém

está livre de suspeita. Há desconfiança nos olhos de todos. Descobri também que o estigma da

loucura é menos agudo num ambiente de livraria que em quase qualquer outro lugar de

trabalho. De acordo com George Eliot, as pessoas sadias fazem o que os vizinhos fazem, de

modo que, se houver algum maluco à solta, ele possa ser identificado imediatamente e evitado.

Mas, entre a equipe da biblioteca, esse princípio é invertido: apenas os sadios se destacam.

Na Sorbonne, a maioria tinha aspecto de pessoas perseguidas, sobreviventes plausíveis de

algum desastre terrível e sem nome e, além dos que eram claramente perturbados, havia a cota

usual de excêntricos e intelectuais, obsessivos e fanáticos, gente bizarra e desajustada, todos

eles inquietos consigo mesmos ou com o mundo de uma forma ou de outra. Depois de um

tempo, ficou claro que quase ninguém podia ser considerado normal.