O Tom Ausente de Azul
Capítulo 5
O apartamento ficava no último piso de uma casa de quatro andares. A construção, de
arquitetura georgiana e com terraço, estava situada numa rua tranquila na Cidade Nova. A
entrada era imponente, com grades de ferro, quatro degraus de subida e uma imensa porta de
madeira com uma aldrava de bronze. Não era assim tão imponente no interior, mas a escada
tinha curvas elegantes, e os pisos de pedra dos degraus estavam gastos no meio por dois
séculos de trânsito humano. Sanderson foi à frente, subindo de modo pesado e cansado. Atrás
dele, notei seus sapatos sujos e riscados, gastos na sola. Um homem com sapatos sujos,
acreditava meu pai, era um homem que perdeu o respeito por si mesmo.
Dentro do apartamento, havia um aroma forte e alegre, pão fresco e aspargos talvez, além
de algo que eu não conseguia identificar com precisão — possivelmente, menta. Com certeza
não havia traço dos cheiros de cozinha que dão má reputação à Escócia — legumes muito
cozidos, tudo frito com muito óleo.
A esposa de Sanderson — uma mulher mais jovem do que eu imaginara — apareceu no
corredor. Seu rosto era franco e alerta, os olhos um pouco separados. Devia haver uma
diferença de vinte anos ou mais entre eles. Ela demonstrava uma elegância natural, não
relacionada a roupas ou cosméticos. Quando me viu, inclinou a cabeça para o lado,
ligeiramente confusa e com um meio sorriso, deixando para que eu adivinhasse tudo a seu
respeito. Suas calças brancas ondulavam enquanto ela andava, dando-lhe um aspecto etéreo,
belo e desconcertante. Sanderson fez as apresentações.
— Cary — repeti, pensando imediatamente em Cary Grant em Intriga internacional. Devo
ter assistido ao filme dez vezes ou mais.
— Na verdade, é C-A-R-R-I-E — disse ela, soletrando de um jeito que sugeria que estava
acostumada a que perguntassem. — Rima com Harry.
A voz dela era suave e cadenciada.
— É um bonito nome — disse eu.
Sanderson lhe contou que havia me convidado para o jantar — tudo bem? Sim, é claro que
sim, respondeu ela. A comida estava no forno e ficaria pronta a qualquer momento. E Alice
havia telefonado perguntando se podia passar para deixar uma coisa; ela também ficaria para
o jantar. Sanderson não parecia surpreso ao ouvir isso, apesar de haver me dito apenas alguns
minutos atrás que eles não recebiam muitas pessoas.
Estávamos na sala principal agora (eles chamavam de sala de visitas) que percorria a
largura inteira do prédio e recebia luz dos dois lados por meio de grandes janelas de sacada
com venezianas de madeira recolhidas para o lado.
— Num dia claro — disse Sanderson —, dá para olhar para o norte por sobre os telhados
e para além da água até Fife e, no outro lado, pelas janelas dos fundos, dá para ver o pico
Arthur’s Seat, em toda a sua glória. — Explicou que eles haviam escolhido o apartamento
principalmente por causa da luz.
— A luz do norte é importante para o artista — disse ele, fazendo um sinal com a cabeça
para Carrie enquanto abria uma garrafa de vinho. — O estúdio da minha esposa fica do outro
lado do corredor.
Enquanto bebíamos, conversamos principalmente sobre o trabalho de Carrie. A sala de
estar era tomada de pinturas grandes, todas penduradas no trilho abaixo de uma cornija
rebuscada, algumas delas em molduras de bordas douradas, outras em telas sem moldura
estendidas sobre madeira. Havia vários retratos em tamanho natural, a maioria de nus
femininos em várias posturas. Na época, eu não sabia quase nada sobre pinturas, mas essas
exerceram uma estranha atração em mim. Achei-as vívidas de um modo incomum — era
possível sentir o sangue por baixo da pele, o batimento cardíaco por trás da caixa torácica. O
adjetivo que me veio à mente foi fiel, normalmente uma palavra que é melhor evitar e que,
com certeza, nunca tinha pensado em usar no contexto da arte. Quase todos os centímetros
quadrados da superfície eram preenchidos com carne abundante e nua, nem um pouco
estilizada, porém crua, imperfeita e natural. Com outro artista o efeito poderia ser rústico, mas
essas telas pareciam audaciosas e alegres. Eu via cada uma de uma vez, desejando ser capaz
de dizer algo inteligente ou bem-informado, algo sofisticado que sugeriria estar à vontade com
fotos de mulheres nuas. Em vez disso, eu disse: “Elas são muito boas”, com a intenção de
transmitir admiração, mas, aos meus próprios ouvidos, soou acanhado e condescendente.
No canto perto da porta, havia uma tela que se destacava das demais — o retrato de um
homem, só a cabeça, não o corpo. Os traços me pareceram a princípio exagerados: os olhos, o nariz e os lábios, se considerados individualmente, eram exemplares fantásticos, mas, juntos,
pareciam um engano, um rosto montado às pressas. E, no entanto, era um rosto interessante, os
traços diferentes não se mesclavam com exatidão, mas o efeito geral era cativante. Ele me
prendeu lá com uma espécie de fascínio. De um modo curioso, eu tinha uma leve impressão de
déjà-vu: quanto mais eu estudava o rosto, mais ele me parecia familiar. De repente, Carrie
estava ao meu lado.
— Não consigo deixar de pensar que já vi este rosto antes — comentei.
— Você viu — disse ela, com um sorriso. — É Harry. Mas, veja bem, ele era mais jovem
nessa época.
— É claro! — Um lento e implacável rubor.
— Eu pintava muitos quadros dele nos nossos primeiros anos juntos, mas ele não me deixa
mais fazer isso.
Ela descreveu como havia sido prazeroso fazer o retrato de Harry por causa do que
chamava de “fortes lineamentos”. Disse que era uma espécie de rosto cubista. — Como um
daqueles autorretratos de Picasso, sabe? — Sanderson sentou-se numa poltrona no outro lado
do cômodo e tossiu alto de um jeito artificial, fingindo estar ofendido. Carrie riu.
— Não, não — protestou ela. — Um rosto cubista é bom. — E, nesse momento, tive
certeza de que podia ouvir o amor na risada de Carrie. — Melhor que dadaísta, por exemplo.
Um rosto dadaísta seria completamente aleatório; ele precisaria abandonar qualquer forma
estética reconhecível.
— Bem, obrigado — disse Sanderson, enchendo a própria taça outra vez. — É bom
quando a gente fica sabendo que contribuiu um pouquinho para a arte moderna.
À primeira vista — nos aspectos relacionados com a aparência e o charme exteriores —,
eles me pareceram um casal improvável. Mas essa breve conversa entre eles dava a
impressão de abrir uma pequena janela de onde se podia ver seu casamento, e aquelas
primeiras impressões eram de movimentos de ataque e esquiva bem-humorados, o tipo de
implicância que eu imaginava que só poderia vir de uma base sólida como uma rocha. Eu
gostava do que via, embora, como sempre no meu caso, não fosse algo com que me
identificasse, nem algo que jamais pudesse se refletir em mim. Pelo que vi numa curta visita,
as formas e os contornos de seu relacionamento pareciam perfeitamente ajustados. Mas o que
eu sabia daquilo? Não era nenhum especialista em assuntos conjugais.
A campainha do interfone tocou, e Carrie disse a Alice para subir. Era óbvio, mesmo antes
de ela falar, que Alice era americana, algo a ver com um olhar puro e o brilho de sua dentição
perfeita. Fiquei sabendo que ela e o marido eram os proprietários de uma pequena galeria na Cidade Nova. Várias das pinturas de Carrie tinham sido vendidas recentemente, e Alice fora
entregar um cheque. Havia algo de teatral em Alice, não só a pesada maquiagem — era tanta
que dava a impressão de que ela havia passado por algum processo de embalsamamento — ou
o vestido que poderia facilmente ter saído de uma peça de época, mas a forma como ela se
mantinha bem afastada de todo mundo enquanto falava, como uma atriz que proferisse suas
falas de cima, no palco. Ela era também uma pessoa capaz de cativar sua atenção, embora
fosse difícil identificar algo obviamente fascinante nela. Alice simplesmente exalava um ar de
serenidade que atraía o olhar.
Enquanto tomávamos nossos assentos na mesa da cozinha, todos falaram um pouco sobre
si, e aprendemos um pouco a respeito dos outros. Sanderson e a esposa haviam morado em
Edimburgo durante todo o tempo de casados. Carrie, natural das Hébridas, havia estudado
história da arte e filosofia moral na universidade. Que foi onde conheceu Sanderson, um dos
professores de filosofia, embora anos tenham se passado até ficarem juntos, disse ela. Antes
da graduação, ela se transferira para o College of Art, especializando-se em desenho e
pintura, e, agora, dava aulas lá uma vez por semana, o resto do tempo de trabalho dividido
entre encomendas particulares e experimentos com coisas diferentes “somente para meu
próprio prazer mesmo”. Alice declarou que Carrie era muito modesta — “Ela tem um talento
enorme”, disse.
Enquanto isso, eu me entusiasmava com Edimburgo — minha acomodação em particular,
como era silenciosa e, ainda assim, próxima ao centro da cidade. Meus anfitriões
evidentemente conheciam Martin Blandford (que era colega de Sanderson) e também pareciam
conhecer a casa. Carrie elogiou seu charme e mencionou que, se Martin adquiria algo novo,
algo para a cozinha talvez ou mesmo um livro, ele sempre pegava um artigo de tamanho
similar e levava-o imediatamente para a caridade. Dessa forma, a desordem era evitada. “Ele
aprendeu a ser disciplinado”, disse ela, interrompendo-se de forma abrupta, como se tivesse
se ouvido falar demais. Nesse ponto, pensei ter visto os cantos dos lábios de Sanderson se
apertarem.
Conte-me mais a respeito de seu livro sobre felicidade, eu disse, mas ele não revelava
nada do conteúdo, só as circunstâncias que o levaram a escrevê-lo. Alegava que tinha sido
coagido por seu chefe de departamento. “Isso é tudo com que todo mundo se importa hoje em
dia: publicar um livro. Não interessa o que se publique ou se o livro é bom.” As publicações
eram a única coisa que interessavam quando chegava a hora de avaliar um departamento da
universidade; um tremendo engano. Cinco estrelas era a melhor avaliação, disse ele, como
num hotel, e, durante a última prática de avaliação de pesquisa, cuja sigla era RAE, seu departamento havia recebido apenas quatro — algo que o novo diretor estava determinado a
melhorar. Não demorou, e seus colegas se atropelavam na pressa de produzir livros. Nada de
obras de cuidadosa erudição — não, não, isso tomaria muito tempo —, mas novas edições
disso e daquilo, ou uma introdução a uma reimpressão, decorada com algumas notas
explicativas; qualquer coisa, contanto que fosse em capa dura. Tudo em busca de uma estrela,
igualzinho no jardim de infância. E, então, eles se ocupavam em escrever cada vez mais sobre
cada vez menos, disse ele. “Você se lembra da mosca no eixo da roda da carroça nas Fábulas
de Esopo?” Ele golpeou o ar com o cachimbo. “Veja só quanta poeira eu levanto. Veja só
quanta poeira eu levanto! Bem, meus colegas são praticamente moscas no eixo da roda da
carroça.”
Enquanto isso, sem desejar integrar a corrida indecorosa para publicar, ele não havia feito
nada. Todos os demais estavam escrevendo furiosamente, mas ele se mantinha distante. Por
fim, durante uma conversa difícil com o chefe do departamento, ele ficou sabendo que estaria
em risco de entrar num estado que chamavam de Inatividade de Resultados. “Que monte de
asneiras, eu disse a ele. E Sócrates? Ele também está nesse Estado de Inatividade? Acho que
sim, já que nunca escreveu, e muito menos publicou, uma única palavra.”
Mas o chefe continuou a conversa e lhe mostrou uma carta que explicava as implicações
de entrar no estado de Inatividade de Resultados. “Ele chamava de IR.” Sanderson fez uma
careta. “Dá para acreditar nisso?” Igual à droga do IRA, e tão perigoso quanto! Ele disse que
não queria escrever um livro só por escrever. Por que escreveria? Por que qualquer pessoa
faria isso? Mas, com outra avaliação se aproximando, ele não tinha escolha. Então, escrever
sobre o quê? A editora SUP (Scottish University Press) havia começado uma série chamada
Reflexões Filosóficas, cada título sobre um tema diferente, criada para o público em geral e
também para o público especializado (fiz uma nota mental para adicionar SUP a SEPA e
SUPA). A série já incluía volumes sobre Religião, Morte, Liberdade, Virtude, Estética e assim
por diante. Quando Sanderson se apresentou para a série, só restavam Verdade, Luxúria e
Felicidade. “Tentei pegar Luxúria ou Verdade, é claro, mas uns outros bostas chegaram
primeiro, e fiquei preso com Felicidade.”
Depois desse prolongado discurso, uma mistura estranha de descrença em si mesmo e
arrogância, ele permaneceu em silêncio por um tempo. Perguntando-me o que pensar sobre
tudo isso, dirigi um olhar furtivo para Carrie e Alice. As duas estavam impassíveis. Sem
dúvida, já haviam ouvido esse discurso antes, possivelmente muitas vezes. Ocorreu-me que,
se eu tivesse conhecido Sanderson num livro, poderia ter sido difícil gostar dele... talvez me
fosse até levemente repulsivo. Ele não era um personagem naturalmente simpático, e não havia motivo óbvio para se preocupar com ele ou com o que lhe acontecesse. Mesmo assim, eu me
preocupei. Ele me causava uma estranha atração. E, embora suas falhas estivessem ali para
quem quisesse ver, gritando e chamando atenção para si, o homem de verdade estava
certamente num esconderijo profundo, ao menos essa era a minha impressão. Ou talvez tivesse
a ver com os pontos de conflito em mim mesmo, e com reconhecê-los em outra pessoa.
Qualquer que fosse o motivo, notei que queria permanecer ligado a ele, nem que fosse só para
descobrir o que o levara a ser daquele jeito.
*
Carrie preparara comida vegetariana — a refeição mais esplêndida e colorida que se possa
imaginar. Mas Sanderson, por uma razão qualquer, dava a impressão de sentir necessidade de
zombar dela. Ele fez uma grande cena para afiar uma faca, os movimentos exagerados de seu
braço como se sinalizasse com bandeiras, como que se preparando para cortar um javali,
depois fingindo lutar enquanto fatiava um assado de castanhas. Mais de uma vez, ele tentou
fisgar meu olhar como se a performance fosse unicamente para mim. Eu não tinha certeza
sobre a etiqueta de conspirar com um anfitrião contra o outro. Melhor me concentrar na
comida. Havia pimentões recheados e várias tigelas de saladas exóticas e legumes, todas as
magníficas façanhas de descascar e ralar, cortar e rechear, e todas elas nada francesas.
Sanderson distribuiu os pratos e, assim que começamos a comer, explicou que até três anos
antes Carrie era apaixonada por carne.
— Em outros tempos, minha querida esposa evitava os pacotes higienizados do
supermercado em favor das carcaças sangrentas do açougue próximo.
Notei que Sanderson tendia a dizer “minha esposa” ou “minha querida esposa” em vez de
usar o nome de Carrie. E ele usava um tom particular, próximo ao menosprezo — bem
diferente de sua boa vontade anterior. Não havia jeito de saber o que isso significava. Os
mecanismos internos de um casamento nunca são mostrados a alguém de fora. A gente precisa
se perguntar e adivinhar.
— Então — continuou Sanderson, pausando para criar um efeito dramático —, com a
intempestividade e o fervor da conversão de Paulo em Damasco, ela migrou para verduras e
sementes.
Ele estava tomando o vinho rapidamente, e, nesse momento, deu outro grande gole.
— Não me importei nem um pouco — continuou Sanderson, seu tom sugerindo que não
havia homem mais razoável. — Achei que poderia lhe proporcionar um interesse na vida, algo sobre o que falar.
— Hummmm — disse Alice, pegando a deixa. — Esses pimentões estão tãão
adocicados... Você os assou com açúcar mascavo?
— Na verdade, não. Um pouquinho de suco de limão no recheio parece extrair a doçura
natural...
— Já percebeu uma coisa? — Sanderson se voltou novamente para mim. — Conversas
sobre comida entre mulheres podem continuar indefinidamente. Quando notei isso pela
primeira vez, achei que elas não podiam estar falando mesmo apenas sobre comida, os
ingredientes das receitas, a preparação, o método e essas coisas. Eu pensava que as conversas
delas tinham que estar codificadas de algum jeito, uma língua estranha criada para excluir os
homens, inteligível somente para as mulheres. Mas não! — Ele repetiu o “não” várias vezes,
dando a impressão de que estava emperrado nele até que, como um ator que de repente se
lembra de sua fala, declarou: — Na verdade, não existe nenhum subtexto, nenhuma mensagem
oculta. Elas estão simplesmente falando sobre comida. Pois bem: esse é o verdadeiro
mistério.
— Mas os homens também fazem isso — disse eu. — Ao menos na França... todos os
chefs são homens... mais como deuses, alguns deles.
Eu estava melhorando ou piorando as coisas? Não fazia ideia.
Depois de um silêncio contido, Alice anunciou sem se dirigir a ninguém em particular: —
Não sei se gostaria de preparar comida vegetariana o tempo todo. Deve ser uma trabalheira,
um esforço e tanto.
A presença de palco de Alice dava à noite certo aspecto de faz de conta — o restante de
nós havia sido contratado por uma agência de talentos para representar uma cena.
— Mas esse é o ponto — disse Carrie. — Tem mesmo de ser um esforço. Quanto mais
esforço melhor. Com um pouco de imaginação, podemos comer muito bem usando coisas que
podem ser cultivadas. E, então, não precisaríamos matar coisas para comer.
— Defender e acusar ao mesmo tempo — disse Sanderson. — É a especialidade da minha
esposa.
O cheiro de perigo começou a se misturar com os demais aromas. Por alguns momentos,
não houve som, a não ser o ruminar da mastigação coletiva. Enquanto domávamos lentamente
as fibras para que tornassem algo que conseguíssemos engolir, veio-me a ideia de que o
esforço de comer devia ser proporcional à dificuldade do preparo. A comida era deliciosa,
porém uma lei enigmática parecia se aplicar: quanto mais se ingeria, mais parecia restar no
prato. Como isso era possível?
Sanderson pegou sua taça e bebeu até a última gota do vinho tinto.
— Bem, se a culinária é uma questão de esforço, que tal você se dar ao trabalho de
preparar, por exemplo, osso bucco para seus amigos carnívoros? — Ele encarou Carrie. Não
houve resposta.
Ele ainda não havia terminado. Prosseguiu descrevendo como a ética vegetariana
penetrara outras áreas da vida da esposa. Havia reflexologia, um punhado de besteirol da
Nova Era e um flerte preocupante com o budismo.
— Ah, Harry, você transforma as coisas mais inofensivas em coisas malévolas — disse
Alice, em socorro.
— Bem, eu me sinto nauseado na presença da religião. Como você bem sabe.
— Não é uma religião — disse Carrie. Havia uma mancha em seu pescoço agora, uma
toalhinha de crochê rosa na garganta.
— Então, o que é?
— É sobre aceitar o fato — ela escolhia as palavras lentamente — de que há sofrimento
no mundo e escolher formas de lidar com ele.
— Mas isso, sem dúvida, é o que as religiões fazem. — Ele deu uma risada maligna. —
Elas foram criadas para nos ajudar a lidar com os fatos. É todo o objetivo da religião.
Maquiar as coisas. Tornar a morte suportável.
— Bem, e o que tem de errado nisso?
— Ahn!? — explodiu Sanderson. — O que há de errado nisso? Por onde você quer que eu
comece?
Carrie deu uma risada constrangida.
— Harry, por favor. Por que precisa fazer isso?
Não era de fato uma pergunta, mas era suficiente para fazê-lo parar. Eu imaginava quantas
das conversas deles começavam promissoras e terminavam mal. Nos poucos momentos de
silêncio que se seguiram, Carrie dobrou e redobrou seu guardanapo. Depois, ela sorriu para
ele de um jeito indulgente — como se Sanderson fosse uma criança sapeca — enquanto ele
fazia uma careta que podia ser interpretada como remorso.