O Tom Ausente de Azul

Jennie Erdal · Capítulo 30 de 59

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O Tom Ausente de Azul

Capítulo 29

 

 

A noite já havia caído quando Sanderson deixou a proteção das árvores e saiu do pátio. O dia

havia me deixado indócil e cansado. Eu não ganhara nada em troca nem tinha energia para

continuar o trabalho. Durante uma noite insone, decidi confrontar Sanderson. Pela manhã —

era uma manhã de sexta-feira, no fim de setembro — fui direto ao seu escritório na David

Hume Tower, mas encontrei um bilhete na porta reencaminhando os alunos para outro membro

do departamento de filosofia. Na sala da secretária, disseram-me que Sanderson havia sido

dispensado. Na minha imaginação, eu vi feridas supuradas. “Ah, a pele dele”, disse eu, a

indignação rapidamente dando lugar à compaixão. A secretária mordeu os lábios. Havia algo

de errado em sua atitude. Falta de jeito ou embaraço. Não estava claro.

— Você é da imprensa? — perguntou. Ela parecia nervosa.

— Imprensa?

— Da mídia — disse ela, pronunciando “midja”.

Respondi a ela que era um membro visitante do departamento e que Sanderson era um

colega. Ela me pediu desculpas de um jeito atrapalhado e disse que não tinha mais nenhuma

informação.

Quando apareci no apartamento dos Sanderson, Carrie estava surpresa ao me ver, tão

surpresa que pensei, a princípio, ter cometido uma gafe terrível. Ela começou a dizer algo,

depois pareceu se conter antes de me contar que esperava que eu estivesse trabalhando. Sua

rotina, disse ela, alongando a palavra e recitando de volta para mim o que eu lhe dissera

anteriormente sobre como meus dias eram estruturados: manhãs em casa, tardes na biblioteca.

Ela estava implicando ou zombando? Qualquer opção era possível e igualmente

desconcertante. Tive, naquele exato momento, uma sensação súbita, uma onda forte de algo

difícil de reconhecer e que me incapacitava, dando a impressão, primeiro, de ser inibição, no entanto se reformulando como um desejo muito poderoso de compreendê-la, de penetrar-lhe o

coração. Por baixo do avental de artista, ela usava calças folgadas com um desenho de batique

colorido. Ela cruzou os braços, com as mãos abertas sobre cada cotovelo. Havia uma falta de

jeito no ar, mas, se era dela ou minha, era difícil de dizer. Ela ia me convidar para entrar e

tomar um café, só que estava prestes a sair. Não, não, respondi, ainda prisioneiro da estranha

sensação. Eu não ia poder ficar mesmo. Só queria dar uma passada rápida e ver Sanderson —

para confirmar a pesca que havíamos combinado no dia seguinte. “Harry? Ah, mas ele está no

trabalho. Ele fica no departamento até nove da noite todos os dias.” Havia um nervosismo no

jeito dela. Ou, se não era nervosismo, era um tipo de mal-estar. Eu me perguntava se ela

estava mesmo bem, mas suspeitava que ela estivesse encobrindo Sanderson, que ele estivesse,

na verdade, escondido no quarto de despejo, atando uma mosca nova e aproveitando meu

desconforto. “Harry tem a rotina dele também, sabe?”, acrescentou ela, de forma agradável o

bastante, mas evidentemente duvidando que eu tivesse aparecido para ver seu marido. O que

significava que, na mente dela, eu devia ter ido para vê-la, na expectativa de que ela estivesse

sozinha. Fui embora o mais rápido possível.