O Tom Ausente de Azul

Jennie Erdal · Capítulo 55 de 59

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O Tom Ausente de Azul

Capítulo 54

 

Enquanto isso, havia a tarefa desanimadora de retraduzir os ensaios perdidos. Eu levara meu

computador para o Departamento de Manutenção da universidade, mas eles nada puderam

fazer. O disco rígido, disseram eles, havia sofrido um “ataque cardíaco”, não sabiam dizer por

quê. O conselho que me deram foi que eu enviasse meu computador de volta à França. Era

possível que o fornecedor tivesse um componente para “dar partida” no disco. Mas eles não

estavam esperançosos.

Comprei um novo laptop.

Era um tanto irônico o fato de que um dos ensaios perdidos era intitulado “O estoico”, no

qual Hume expressava a visão rigorosa de que a felicidade só era possível por meio do

trabalho honesto e árduo. No segundo dos ensaios perdidos, “Da dignidade da natureza

humana”, Hume defendia que as pessoas tinham inclinação para a moralidade quando

mantinham uma visão otimista, e não pessimista, da natureza humana. Mas foi o terceiro, “Da

delicadeza do gosto e da paixão”, que parecia se aplicar de forma mais reveladora à situação

imediata. De acordo com Hume, era a delicadeza da paixão que tornava as pessoas sensíveis

às alegrias e tristezas da vida, enquanto a delicadeza do gosto as tornava sensíveis à arte.

Enquanto retrabalhava neles, achei perturbador que a tradução não fosse mais fácil ou

rápida do que da primeira vez. Reconstituí o que podia das minhas notas, mas era uma tarefa

lenta e dolorosa. Durante o período, visitei o cemitério mais do que o usual, esperando

tranquilizar uma mente inquieta. Mas o cemitério havia se tornado um lugar de encontro de

gays, e, mais de uma vez, no portão do mausoléu de Hume, acabei recebendo propostas

indecorosas.