O Tom Ausente de Azul
Capítulo 12
Bati à porta do gabinete de Sanderson e a abri.
— Estou atrapalhando?
— Não, entre.
— Só vim lhe agradecer por ontem.
— É, eu sabia que você estava aqui. Dava para ouvir vocês dois rindo.
Seu tom era enigmático. Fechei a porta atrás de mim e me aproximei da escrivaninha.
O cômodo, estreito e tenebroso, cheirava a tabaco envelhecido de cachimbo. Sanderson
estava curvado sobre a escrivaninha, um bureau de carvalho antigo que me lembrava a velha
escritoire do meu pai na livraria. Ele não olhou para cima. Prendia algo — parecia uma
pequena morsa — na borda da mesa. As mangas estavam arregaçadas, revelando camadas
grossas e elevadas de pele inflamada nos braços, com escamas prateadas como as dos peixes.
O cômodo tinha pouca mobília. Fora o bureau, havia um arquivo com quatro gavetas, uma
velha poltrona de couro que parecia ter tomado o formato e os contornos de Sanderson, alguns
bancos de madeira, uma poltrona de vime e, numa das paredes, uma pequena estante com
livros: O pescador prático, Ninfas e a truta, Materiais para confeccionar moscas e uma
série de títulos similares. Ao lado do bureau, havia uma luminária de piso em estilo moderno,
fina e curva como uma escultura de Giacometti. Um espaço muito diferente do estúdio
iluminado de Carrie: nada de janelas, apenas uma pequena abertura acima da parede dos
fundos dando para o vão da escada. O lugar tinha o aspecto de um forte, como uma canhoneira.
Ninguém conseguiria olhar para dentro.
Depois de certo tempo, Sanderson levantou-se, serviu-me um pouco de uísque e andou até
a poltrona de couro. Fiquei de pé ao lado da escrivaninha. O tampo inclinado estava aberto,
exibindo doze gavetas pequenas, seis delas em cada lado da superfície de couro. Cada gaveta tinha um pequeno acessório de bronze no qual uma etiqueta havia sido inserida para
identificar o conteúdo. As etiquetas revelavam uma estranha nova linguagem — bobineiras,
agulhas, alicates, finalizadores de nós. Com o cachimbo na boca, Sanderson começou a
explicar o funcionamento daquilo que chamava seu “sistema”. As penas e os pelos necessários
para atar as moscas foram subdivididos por espécies — faisão, perdiz, galinha-brava,
marrequinho, lebre — e tonalidades diferentes — marrom-acinzentado, mel, cinza-amarelado,
cinza-azulado. As penas tinham nomes individuais dependendo de onde elas cresciam no
pássaro: dorso, flanco, peito, barriga e uropígio. “Meu sistema de graduação leva tudo em
consideração”, disse ele. Havia orgulho em sua voz. “Eu os organizo em ordem decrescente
da crista até o rabo.”
Tudo isso era completamente inesperado e novo para mim; no entanto, senti uma súbita
sensação de familiaridade. Quando criança, eu guardava os pedaços de unha cortados e as
feridas de catapora, colecionando-os em pequenas caixas de fósforo e rotulando-os antes de
guardá-los num canto do meu quarto com uma organização elaborada que eu mesmo inventara.
Odiava a ideia de coisas que haviam, um dia, feito parte de mim serem descartadas, lavadas
ou jogadas no lixo. Tudo tinha de ser preservado, e de forma cuidadosa e ordenada. A bagunça
era perturbadora, enquanto organizar as coisas em grupos e coleções especiais era
verdadeiramente empolgante. À medida que o tempo passava, meu estoque se estendeu a
cílios, calos e detritos do meu nariz — estes, cuidadosamente extraídos, com a precisão de um
legista, por delicadas pinças. Enquanto eu observava a magnífica escrivaninha de Sanderson
— com suas caixas e compartimentos, etiquetas e gavetas —, ressurgiu a lembrança de tudo
isso. Depois de me expor ao sol, eu aguardava ansiosamente que minha pele descascasse,
removendo-a em pedaços tão grandes e padronizados quanto possível antes de esticá-la nas
páginas de um álbum de fotos — meu exemplar favorito tinha o formato do mapa da África.
No ensino médio, minha coleta chegou a conter cravos e espinhas, pelos do peito e pubianos,
esses últimos às vezes se enraizando, como ervas daninhas que resistem à remoção, nos
lençóis brancos de linho da minha cama. Eu sentia um tremor naquele momento com a
lembrança, embora, revisitando o passado, seja difícil não sentir certa empatia por meu eu
mais jovem e essa necessidade obsessiva de catalogar cada pequeno pedaço de resíduo
pessoal. De forma curiosa, eu ainda me maravilhava com isso, do mesmo modo que me
maravilhava o excelente “sistema” de Sanderson.
“Quer que lhe mostre?”, perguntou ele, selecionando um anzol de pesca e prendendo-o na
morsa. Primeiro, Sanderson enrolou um fio fino de seda dourado em volta da haste do anzol
para formar o corpo da mosca. Depois, como se estivesse se preparando para um ato solene, dispôs os materiais, nomeando cada um enquanto o fazia: fio de seda amarelo, fio de seda
preto, uma pena laranja tirada do pescoço de um frango, algumas penas de um pato-real fáceis
de reconhecer, uma de galinha-parda-da-índia, outra de um gaio-azul, a de um faisão dourado
e a de uma avestruz negra. Essa última era conhecida como herl, disse ele, um tipo de barba
cujos filamentos radiavam não apenas de cada lado, o que era comum, mas de todos os lados
— “o que é raro e sofisticado”, disse Sanderson, com sua voz ondulando suavemente. Herl era
outra dessas palavras que eu sabia que me causaria dificuldade por causa do “h” e do “r”.
Felizmente, eu não precisaria dela. Até minutos antes, eu não havia sequer imaginado que um
homem podia se envolver nesse tipo de atividade.
— Já pescou alguma vez? — A pergunta parecia um teste de personalidade.
— Não, eu não saberia como pescar — disse eu.
— Posso lhe ensinar, se estiver interessado.
— Sim, eu gostaria.
— Venha comigo no sábado. Vou levá-lo ao meu rio.
O convite tinha um tom característico, como se eu tivesse sido chamado a participar de um
clube exclusivo. Sanderson, então, começou a selecionar tiras das diferentes penas coloridas
para formar a primeira asa da mosca artificial. Seus dedos pareciam grandes demais para um
trabalho tão delicado. Eles deviam ser finos e ágeis como os de um cirurgião, mas, em vez
disso, eram grossos, avermelhados e inchados, como as mãos de um assassino em filmes
antigos de Hollywood. E, apesar disso, eles se moviam com destreza e perícia pelos
materiais. Primeiro, ele removeu as barbas de penugem da base das penas, colocando os
filamentos macios numa caixa especial. Depois, com uma ternura que devia ser resultado de
anos de aplicação, ele acariciou as fibras restantes para cima entre o polegar e o indicador,
forçando-as a se entrelaçar até que se juntassem e o casamento estivesse completo. Por alguns
momentos, Sanderson parecia um mestre.
Confeccionar moscas, como ele chamava, era uma constante em sua vida. Começara na
juventude, e nem sequer conseguia imaginar não fazê-lo. Empolgava e relaxava em igual
proporção. Podia tranquilizar um coração agitado, comentou Sanderson. Ele também
considerava a atividade uma espécie de privilégio por participar de uma arte antiga, algo que
os pescadores vinham fazendo havia dois mil anos, talvez. Enquanto atava as fibras da pena,
contou-me sobre a ocasião em que, numa biblioteca em Roma, vira um manuscrito que datava
do século III d.C. no qual o autor descrevia a pesca no Astraeus, o rio que ligava as cidades
de Véria e Tessalônica. Aparentemente, os pescadores usavam uma mosca feita de lã vermelha
e penas tiradas do papo de um galo. “E, quando eu li isso, senti uma espécie de emoção atávica.” Nesse momento, ele largou sua criação por um instante, removeu o cachimbo de
entre os dentes e descansou as mãos sobre os joelhos — um homem aparentemente satisfeito
consigo e com o mundo. “Se pensarmos a respeito, quase tudo muda, e nunca sabemos em que
pé estamos, mas os princípios dessa belezinha” — com o cabo do cachimbo, Sanderson
apontou a mosca na morsa — “nunca mudaram.” As máquinas assumiram todo o resto,
continuou — metalurgia, fabricação de calçados, carpintaria, sem falar nas máquinas de fazer
pão e descascar batatinhas. “Mas uma boa mosca sempre será feita manualmente — é uma
empreitada muito pessoal. Nunca poderia ser realizada pelos mecanismos frios e sem paixão
de uma máquina.” Sanderson era um homem diferente do da noite anterior. Ele parecera, então,
ao falar sobre si, preso a um roteiro, mas, agora, nesse novo ambiente, ele voava livre,
cantando com um novo e magnífico libreto.
Para atar uma única mosca, às vezes é necessário ficar uma hora, disse ele. O tempo não
era importante. Ele passaria, alegremente, horas e horas nisso, o que ele muitas vezes fazia ali
naquele mesmo quarto. O quarto de despejo, como ele chamava. — “O que faz parecer algo
sem importância alguma, mas eu não me importo nem um pouco.” Ele disse que não gostaria
que a importância daquele lugar fosse conhecida, ou mesmo adivinhada. A maioria dos
apartamentos mais antigos de Edimburgo tinham um espaço desse tipo, explicava ele,
geralmente ao lado da sala de visitas, às vezes do corredor. No passado, ele teria acomodado
todo tipo de arcas e baús, portmanteaux e provavelmente chapeleiras contendo chapéus de
pala de aba ampla de seda chinesa, drapeados com flores, fitas e penas. “Às vezes, gosto de
imaginar damas de bom gosto de Edimburgo de dias que já se foram usando esse vestuário
elegante e coques com uma ligeira inclinação, como era a moda da época.” Ele inclinou a
própria cabeça para demonstrar e segurou a aba do chapéu imaginário. Como confeccionar as
moscas usava todos os tipos de penas, pelos, angorá e sedas, ele gostava de pensar que estava
continuando algo do espírito da época. “O alfinete de chapéu está praticamente extinto como
acessório de moda para senhoras, é claro”, acrescentou, “embora minha mãe nunca tenha
saído de casa sem um”. Os outros itens essenciais eram tesouras de lâmina reta, tesoura de
lâmina curva, alicates e uma lima para apontar anzóis cegos. “E uma boa e forte morsa, é
claro.” Ele tocou a morsa enquanto dizia isso, da forma que alguém poderia acariciar a cabeça
de uma criança inteligente.
Certos procedimentos eram impossíveis de realizar sem dois conjuntos de pinças, disse
ele. E continuou falando e falando, fornecendo mais e mais informações detalhadas. Ele
sugava o cachimbo de modo severo e tinha um olhar de intensa concentração. Alguns padrões
de mosca exigiam uma pena para o corpo com todas as fibras dispostas apenas sobre a parte de cima. A forma mais eficaz de conseguir isso era prender um par de pinças a cada
extremidade da pena, depois suspendê-la, com o lado brilhante para baixo, sobre o dedo
indicador da mão esquerda. O peso das pinças fazia os dois lados das fibras se esticarem no
dedo. Dava-se um puxão com as pinças e, com isso, alisavam-se as fibras da esquerda para a
direita até que ficassem unidas. Sanderson parecia estar em seu ambiente natural agora, o
professor com seu aluno.
Perguntei-lhe como aprendera tudo aquilo. “Meu pai me ensinou quando eu era garoto. De
longe, a melhor coisa que ele fez por mim.”
Eu continuava observando-o trabalhar na mosca, atando as asas e cortando-as com a
tesoura.
— E o seu? — disse ele, depois de algum tempo.
— O meu? — O meu o quê?
— O seu pai. Como ele foi parar na França?
— Ah, o motivo de sempre. Amor.
Eu sentia o uísque começando a fazer efeito. Sanderson serviu-me outra dose, eu relaxei na
poltrona de couro e contei-lhe o que sabia.