O Tom Ausente de Azul

Jennie Erdal · Capítulo 32 de 59

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O Tom Ausente de Azul

Capítulo 31

 

Na época da minha ida a Edimburgo eu vinha bem — quer dizer, sem outros colapsos — por

mais de vinte anos. Contudo, até onde minha memória chegava, sempre houve uma sensação de

estar deslocado do mundo. A vida era experimentada através de uma espécie de artifício de

enquadramento que me separava da vida normal. Em geral, era controlável, mas, de tempos

em tempos, a sensação se intensificava e eu me via impotente diante dela. Meu mal-estar na

companhia de outras pessoas era anárquico, tinha vontade própria e podia atacar sem avisar.

Podia até desafinar minha voz e produzir ardor nos olhos. A estratégia para lidar com um

ataque severo geralmente seguia a linha dos conselhos fornecidos em situações de emergência,

como incêndios ou enchentes — ande o mais calmo possível para longe da chama ou da

inundação. Somente às vezes — quando não era fácil explicar uma piora súbita no que eu

considerava, como um inválido, a minha enfermidade — eu fazia o contrário e me forçava a ir

em direção à origem da coisa. Enfrentar a fera, pegá-la pelo pescoço e subjugá-la. Nessas

ocasiões, geralmente me dirigia à Gare du Nord, a estação de trem mais próxima e adequada

ao meu propósito.

Como definir meu propósito? Da forma mais simples, era observar, ouvir e aprender.

Estava convencido de que, se ao menos observasse os outros o bastante, seria possível imitá-

los, e, com o tempo, isso poderia até me vir naturalmente. Não era uma ideia tão estranha:

mesmo durante aquelas noites em que bebia e conversava com Antoine, eu pegava alguns dos

seus gestos — o encolher de ombros, tipicamente francês, o hábito de não olhar para você

quando falava, o modo como mordia o lábio quando contemplava a enormidade da onda de

paixão mais recente.

Estações de trem — terrenos propícios para pequenas intimidades e drama humano — são

ideais para observar e aprender. O foyer de uma sala de concerto e o teatro logo antes da apresentação também são bons. Nesses lugares, temos permissão de ficar parados e observar

sem sermos considerados alguma espécie de maníaco perigoso. Com frequência, os rostos,

vazios de expressão, demonstram reserva; o segredo é preencher o vazio, tornar a reserva

acessível. Geralmente, eu ignorava aqueles que estavam sozinhos, a menos que estivessem

obviamente aguardando alguém chegar, caso em que eu ficava por perto para o momento

especial — o momento em que os olhos se encontravam, os rostos se animavam e a conexão

humana se dava. Seja entre amigos, parentes ou namorados, sempre vale a pena esperar por

isso. Mas, a maior parte do tempo, minha busca se concentrava nos casais já prontos, aqueles

que chegavam juntos, de braços dados, tête-à-tête. Eu tentava chegar o mais próximo

possível, próximo o bastante para analisar o modo como eles preenchiam os momentos um

com o outro. Era tudo fascinante.

 

Nunca tive confiança em relação ao mundo ou ao que se encaixava nele. Talvez soe como um

tipo de inocência, mas, ao contrário da inocência, não é uma coisa benigna. É algo capaz de

devastar a nossa vida, distanciando-nos das coisas, separando-nos da experiência cotidiana,

deixando-nos com a sensação de que algo sempre está desaparecendo na esquina antes que

consigamos alcançar. Em todas as vezes que tentava relembrar, até onde era possível recordar,

eu sentia a certeza de que sempre houve algo parecido com essa mesma sensação, algo

vivenciado nem tanto como uma perda, mas como uma falta.

Quando eu era criança, meu pai me contava histórias antes de dormir. As histórias estavam

em sua cabeça, não nos livros. Às vezes, parecia que meu pai conhecia todas as histórias que

já haviam sido contadas. Não eram as que geralmente se contam para fazer uma criança dormir

— contos de fadas e coisas assim —, mas histórias da vida, histoires de la vie, ou, mais

frequentemente, questões filosóficas que ele tornava interessantes e engraçadas. Eu ia dormir

pensando no paradoxo de Aquiles e da tartaruga, no qual Aquiles, embora muito mais rápido,

nunca conseguia alcançá-la; ou em Tristram Shandy, que pensava que nunca conseguiria

terminar sua própria biografia porque já lhe tomara dois anos escrever sobre dois dias. O

problema do qual eu menos gostava, porque era o que mais me perturbava, era o paradoxo do

mentiroso: se um mentiroso diz que está mentindo, ele não está falando a verdade? Embora

meu pai risse da minha inquietude, também era gentil comigo, dizendo que tudo bem se eu me

preocupasse: havia um medo universal da mentira, e quase todo mundo, mesmo os filósofos,

concordava que ela era errada. Mas veja bem: eles não conseguiam sempre concordar quanto

ao porquê. Por outro lado, mentir era simplesmente algo que as pessoas faziam, apenas por

serem pessoas. Elas eram boas nisso, disse ele, como se tivessem nascido para mentir. E, como forma de compensação, ele me contou sobre os Houyhnhnms, os cavalos falantes nas

Viagens de Gulliver que não tinham uma palavra que significasse mentir, embora tivessem

uma expressão substituta: dire la chose qui n’est pas — dizer uma coisa que não é. Gulliver

adorava os Houyhnhnms, disse meu pai. Ele se sentia próximo deles e preferia a companhia

desses cavalos curiosos à dos homens, seus iguais. Mas havia um preço a se pagar. Gulliver

morava num estábulo com ervas enfiadas no nariz porque o fedor de seus colegas humanos era

maior do que ele conseguia suportar. Sua esposa se tornou um “animal odioso” para Gulliver,

que descobriu ser impossível ficar próximo de seus filhos. E o fedor não era tudo: o pior,

muito pior, era que Gulliver sentia falta do que se podia chamar de virtudes humanas comuns

— coisas como amor, paixão e empatia.

Em outras ocasiões, meu pai me contava histórias mirabolantes de viagem no tempo, como

a do garoto que voltou ao passado para assassinar os avós, impedindo assim o próprio

nascimento. Ou o famoso experimento de pensamento que envolvia um gato que estava, ao

mesmo tempo, vivo e morto numa caixa fechada. Muito embora minha cabeça às vezes doesse

com o esforço de revelar o enigma, esses momentos especiais com meu pai significavam tudo

para mim. Às vezes, eu me sentia tão próximo dele que era difícil respirar. Ele me dava a

sensação de que juntos sabíamos de coisas que não estavam disponíveis para outras pessoas.

 

Uma noite, ele me contou a história de David Hume e o Tom Ausente de Azul. Foi a primeira

vez que meu pai mencionou David Hume, mas não houve dúvidas de sua admiração. Ele

começou dizendo que Hume era, ao mesmo tempo, um grande filósofo e um grande homem —

un des plus grands que ce monde ait jamais connu. Ele nascera na Escócia, mas tinha vivido

na França quando jovem, escrevendo suas obras mais importantes num lugarejo a cerca de

cem quilômetros ao sul de Paris. Os franceses o adotaram e passaram a amá-lo, competindo

uns com os outros para tê-lo como convidado em suas mesas de jantar. Eles o chamavam de le

bon David — “Foi por isso que batizei nossa livraria com esse nome”, disse ele. “Em

homenagem a esse homem maravilhoso.” Ele prosseguiu explicando a crença de Hume de que

todo o conhecimento vem dos cinco sentidos, “que é outra maneira de dizer que tudo o que

conhecemos vem de nossa experiência do mundo”. Estávamos sentados lado a lado na cama,

os dois recostados na parede com os joelhos dobrados no peito. “Por exemplo, não dá para

saber se o fogo é quente até que você o toque, ou até que você sinta o calor no rosto. Ver o

fogo não é suficiente.” De acordo com Hume, era assim que as pessoas adquiriam

conhecimento. Ele pensava que nada podia existir em nossa mente, nenhuma ideia simples ou

complexa, sem primeiro ser experimentada por um ou mais dos sentidos. E, no entanto — “é aqui que a coisa fica interessante” —, havia uma maravilhosa exceção para a regra. “E foi

Hume mesmo que pensou nela”, disse meu pai, com os olhos brilhando. Nesse ponto, ele se

inclinou para a frente e repousou o queixo entre os joelhos. “Hume nos pede para pensarmos

num homem de visão normal que esteja bastante acostumado a ver todo o espectro das cores

— exceto um tom particular de azul.” Não era um homem burro, disse meu pai, não, de jeito

nenhum. Era um homem inteligente, que sabia muitas coisas e havia visto muita coisa, o tipo

de homem que tinha observado a abóbada celeste e o mar safira; que se maravilhara com as

flores das escovinhas e os ovos azul-bebê de um pato silvestre. Esse mesmo homem velejara

no oceano Pacífico azul-claro e havia encontrado um peixe-anjo azul. E, entre seus bens mais

preciosos, havia uma caixa, importada do Afeganistão, feita de lápis-lazúli — o azul mais

intenso que se poderia querer ver na vida. “No entanto, havia um tom de azul que esse homem

sábio nunca tinha visto.”

Meu pai parou de falar. Eu prendi a respiração.

— C’était la nuance inconnue de bleu!

Hume, disse ele, estava convencido de que, se todos os outros tons fossem colocados lado

a lado numa disposição gradativa do mais escuro ao mais claro, e com uma lacuna para um

tom ausente, seria possível que esse mesmo homem preenchesse a lacuna. A partir de sua

imaginação — sem jamais tê-lo visto na vida. “Avec sa propre imagination!”

 

Posteriormente, quando meu pai deixou o quarto, deitei-me na cama e fechei os olhos, tentando

imaginar uma infinidade de ovos, peixes e escovinhas, enfileirados, dispostos gradualmente

por cor. Mas não conseguia ver nada, exceto uma massa indistinta, escura e borrada, com um

leve aspecto granulado — como a tela da televisão quando a transmissão não funciona.

Abrindo os olhos, distingui as diferentes cores da padronagem do cobre-leito, tentando pensar

sobre as que não estavam lá em relação às que estavam. Mas não adiantou. Minha cabeça não

queria funcionar do jeito que eu precisava.

O tanto que um menino é capaz de sentir, senti que fracassei naquela hora. E, desde então,

em diversas ocasiões ao longo da vida, houve essa mesma sensação seguida da mesma

dúvida: será que eu reconheceria o tom ausente de azul? Seria capaz de conhecer algo se não

o tivesse vivenciado primeiro?