O Tom Ausente de Azul

Jennie Erdal · Capítulo 31 de 59

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O Tom Ausente de Azul

Capítulo 30

 

A interação social era muito problemática — eu ainda tinha muito a aprender. Afinal, tudo o

que eu sabia sobre a natureza humana havia aprendido principalmente em romances. Mas a

ficção não ensina um homem como viver, ou mesmo o que dizer. É preciso fazer isso por si. É

a mesma coisa com o amor. É possível encontrá-lo nas páginas da maioria dos romances, mas

nem sempre se consegue identificá-lo fora da página. Ou, quando identificamos, não sabemos

o que fazer com ele.

 

Às vezes reflito que, ao longo dos anos, devo ter aprendido mais com Antoine, que tinha todas

essas qualidades para as quais os ingleses não dispõem de palavras — panache, éclat, élan.

Antoine permaneceu meu amigo desde a época da universidade, de fato a única pessoa que eu

podia contar propriamente como amigo e que tinha uma vida tão complicada a ponto de poder

fornecer orientações para os outros. Mas suas aventuras amorosas me deixavam mais perplexo

do que esclarecido. Nós nos víamos esporadicamente — às vezes, um ano inteiro se passava

entre os encontros, e geralmente instigados por Antoine. Ele me ligava e sugeria que

saíssemos para comer ou beber, muitas vezes em cima da hora — um sinal inconfundível de

que precisava falar sobre seu último relacionamento. Era uma pessoa que só se sentia

verdadeiramente viva quando iniciava um novo romance, que sempre surgia do

desmoronamento de um antigo. Ao mesmo tempo, ele se colocava como vítima, alguém que,

com sua sensibilidade aguçada, ficara exposto à dor e aos prazeres do amor. “É como uma

infecção das vias aéreas”, dizia ele. “A gente pega como uma doença, e não há nada que

possamos fazer a respeito.” E dava de ombros, como se dissesse: Fazer o quê?

Perdi a conta dos casamentos, dos quase casamentos e dos casos de Antoine — parecia

haver uma necessidade insaciável de novos começos. Ele começava cada novo romance com fervor, geralmente buscando torná-lo permanente pelo casamento. Não havia limite aparente

para seu otimismo. Em todas as vezes, tinha certeza de que havia encontrado uma mulher que o

amaria incondicionalmente e o adoraria (amar e adorar eram verbos separados em seu léxico

romântico). As conversas entre nós seguiam o seguinte padrão: Antoine me contava sobre seu

último amour, e, ao contar, evocava a mesmíssima paixão encontrada no nascimento de seu

amour anterior, agora em declínio terminal. Eu interpretava isso como uma sede por

intensidade: desde que estivesse no meio de um drama, ele se sentia vivo. Cada nova

intimidade lhe permitia se reinventar, e ela por sua vez dava razão à sua infidelidade, até o

momento em que a inquietação recomeçasse. A coisa em si já era uma carreira, talvez se

pudesse chamar de vocação. O surpreendente é que lhe sobrasse algum tempo para o trabalho.

Desde o tempo da universidade, ele estava empregado como revisor numa agência de

publicidade bem-sucedida, onde as pessoas bebem muito café e ficam até mais tarde. Todo

mundo que trabalhava lá se dedicava a criar um desejo ardente por um ou outro produto. Era

uma atmosfera inebriante, a combinação perfeita — assim eu pensava — para Antoine em sua

busca perpétua. Eu tinha uma opinião ruim do setor publicitário. Era tudo um conto do vigário:

exageros, mentiras, alegações falsas, tudo isso em roupagens sofisticadas e slogans cheios de

lábia. Talvez fosse o motivo por que Antoine se comportasse desse jeito. Na vida privada, ele

não conseguia deixar de criar o mesmo tipo de fantasia endêmica da sua vida profissional.

Bobagem, disse ele quando aventei minha teoria. Será que eu não entendia? Não havia

necessidade de fantasiar seu amor, nenhuma necessidade de promoção. A própria realidade já

era uma maravilha.

Depois de ouvir sobre a mais recente infidelidade, eu às vezes dizia: Mas qual é o sentido

disso, Antoine? É óbvio que, se você buscar o novo o tempo inteiro, o novo se tornará velho e

passé, e um dia precisará ser substituído, sob as ordens do seu vício na renovação infinita.

Mas nunca foi uma pergunta séria. Meu papel — nós dois assim entendíamos — era fazer

perguntas e lançar dúvidas. Antoine não esperava nada menos que isso, o que lhe dava a

oportunidade de se persuadir da intensidade desse novo amor, de sua perfeição, de sua

necessidade para seu futuro bem-estar — de sua pura inevitabilidade. E, se eu fizesse

objeções, ele dava de ombros novamente. Era simples assim. Por que eu não conseguia ver?

De um jeito ou de outro, as coisas acabavam se arranjando. Les choses s’arrangent, mais

autrement.

Embora minhas objeções estivessem condenadas ao fracasso, às vezes eu lhe perguntava o

que era tão inadequado em sua esposa atual que ele tinha que substituí-la.

“Não consigo explicar”, dizia ele, “é como as coisas são”. Ele geralmente tentava explicar, sim; no entanto, buscando desesperado alguma imagem adequada ou comparação que

ilustrasse a natureza da dificuldade. Quando enfim encontrava uma que lhe agradava, soava

como um advogado ou um político, aparentemente elogiando a coisa que estava prestes a

destruir, usando expressões como “Sinto muito, mas...”

“Sinto muito, mas as mulheres são como aquelas toalhinhas úmidas nos aviões”, dizia ele.

“Elas começam quentes demais para se ter nas mãos, depois há um breve período em que elas

são perfeitas, e a gente se sente confortável e as trata com mimos, mas elas logo ficam frias e

pegajosas, e a gente mal pode esperar para se ver livre delas.”

Mas talvez ele não devesse esperar? Esse é o tipo de coisa que eu dizia, seguindo por um

caminho familiar entre o tato e a franqueza. Em vez de infligir toda aquela dor e infelicidade?

Antoine descartava sumariamente esse tipo de comentário, dizendo-me que eu não havia

entendido. Isso era amor, e ele havia prometido seu coração. Toda essa falação sobre amor,

pensava eu, e tão pouco para alegrar o coração.

— Não é seu coração que está envolvido — disse-lhe certa vez —, é só o pênis.

— Você nunca deve colocar a palavra só na frente de um pênis — protestou. — Pelo

menos não na frente do meu.

Ele às vezes era muito solene com o sexo. O que de certa forma era cativante. Negar a

força do meu amor não é uma opção, dizia sempre. A enormidade da negação tornaria a vida

impossível. O que fazemos juntos, o que temos juntos, é sua própria justificativa, dizia ele. Ele

se autodefine, e, em troca, somos definidos por ele. “On fait l’amour, et l’amour nous fait.”

Fazemos amor, e o amor nos faz. Esse tipo de conversa soava melhor em francês — eu sabia

que pareceria um pouco ridículo em outro idioma.

Antoine acreditava que o sexo, quando diferente e novo, era o mais próximo que se podia

chegar da alegria pura. O sexo o transformava. “L’amour nous crée à nouveau.” Era assim

que ele falava. Era como o vento antes da tempestade: ele passava por você como uma

enchente, e, nos intervalos, era como o calor do sol depois da chuva. Sempre que falava do

amor físico, era certo que vinha junto a previsão do tempo. Ou pior, algo geológico:

terremotos, vulcões, placas tectônicas em movimento.

Às vezes, ele chegava a invocar filósofos para apoiá-lo. “Já se esqueceu do seu

Schopenhauer?”, perguntou-me certa ocasião, em súbita defensiva. “Não há sentido nas ideias

abstratas, aprender sobre conceitos teóricos que estão fixos pela língua que escolhemos para

descrevê-los. O conhecimento real só pode ser adquirido por meio da experiência direta.

Vivendo um pouco.” En vivant enfin, disse. E depois havia Sócrates, que especificara os

perigos da ligação erótica com um único indivíduo. “De acordo com Sócrates, isso não é vida para um ser humano livre. Ele pensava que devíamos tentar nos libertar dos grilhões, libertar-

nos, tendo objetos de amor substituíveis.”

Bobagem, retrucava eu, sabendo que não adiantava. “Afirmar a posição de Sócrates já é

delimitar o que há de errado nela. Não se pode simplesmente sair por aí se liberando de

vínculos, e é tolice tentar. É talvez uma questão do vínculo certo em vez do errado, mas o

problema não é o vínculo em si.”

E assim por diante, et cetera. O que permanecia inaudito entre nós era a suposição de que

eu, em comparação com ele, nada sabia dos modos caóticos e desordenados nos quais a

maioria das pessoas vivia. Na verdade, eu mal havia vivido. O que, como eu não sabia quase

nada sobre o amor, era mais ou menos correto. Em algum mundo alternativo imaginário, as

coisas não eram nada assim. Quando jovem, eu sonhara em um dia ter esposa e família, e

viver com elas numa casa em que todos progrediríamos. Mas minha experiência havia sido

mais parecida com a do espectador inocente: se eu me envolvia em algo, era geralmente por

acaso. Não houve decisão consciente de renunciar ao sexo — foi simplesmente assim que as

coisas aconteceram. Quer dizer, sem contar Amandine. Que merece ser contada. Embora o que

tenha acontecido entre nós, Amandine e eu, não seja fácil de compreender. Ocorreu em alguma

zona misteriosa, e era tão raro quanto o decoro permitia. Houve momentos, sim, em que era

possível ficar totalmente tomado pelo ato carnal, no dar e receber, mas, na quietude que vinha

depois, eu sabia que estava sozinho novamente. Sem dúvida, meus poucos encontros fortuitos,

embora instrutivos, confirmaram que o sexo não era o campo de provas do amor. Era para ser

fácil e descomplicado, mas era mentira. Era, na realidade, difícil e misterioso. Um

empreendimento ponderado. Um teste para a imaginação.