O Tom Ausente de Azul

Jennie Erdal · Capítulo 4 de 59

Páginas do PDF

O Tom Ausente de Azul

Capítulo 3

 

Eu imaginara que um edifício que levava o nome de David Hume Tower fosse um prédio

elegante do século XVIII, com teto adornado e uma entrada grandiosa, algo como o Château de

Bagatelle em Paris. Mas não: era um imenso bloco de concreto, cuja feiura me deixou

boquiaberto. É claro que há lugares como esse em qualquer metrópole, mesmo em cidades de

grande beleza, como Munique, mas geralmente eles estão ocultos nos subúrbios, alojando os

menos favorecidos bem acima do nível do solo e protegendo a consciência cívica dos

cidadãos. Em contraste, a David Hume Tower parecia uma nódoa terrível no coração de

Edimburgo, e sem nenhuma vergonha disso.

O auditório estava lotado. O burburinho de repente deu lugar a um silêncio de expectativa

quando duas pessoas surgiram no palco e assumiram suas posições lado a lado em cadeiras

que pareciam tronos. Uma era o palestrante convidado, um homem chamado Whitebrook,

professor de filosofia da Universidade de Cambridge. A outra, vestida com uma beca

colorida, era um espécime de aparência imponente que se levantou e começou a listar, num

tom monocórdio, os feitos do orador visitante: carreira de longa distinção, reputação

internacional, lista impressionante de publicações, e assim por diante. Depois de uma educada

salva de palmas, o professor Whitebrook se levantou e foi até o atril, levando alguns

momentos para colocar cuidadosamente seus óculos, que estavam presos a um cordão em

volta do pescoço. Ele causava uma bela impressão: alto, aparência jovial apesar de uma

grossa camada de cabelos brancos, o rosto geométrico, cheio de linhas e ângulos regulares, e,

sob sua beca volumosa, um colete marfim e uma gravata-borboleta amarela.

Ele começou sua palestra contextualizando Hume na Escócia do século XVIII, uma época

de fé calvinista e outros tipos de religião revelada, que se baseiam na ideia de que Deus se

revelou a nós, explicou, passando em seguida a detalhar a força dos ataques contra o filósofo naquele tempo. Esses ataques, disse o professor, vinham principalmente de teólogos

importantes, embora, mais tarde, quando Hume começou a questionar também as bases da

religião natural, colegas filósofos tenham se juntado à batalha. De acordo com Whitebrook,

Hume não havia iniciado sua investigação com o intuito de se tornar incrédulo. Ao contrário,

ele seguira os argumentos da religião e os considerara deficientes. Era um homem interessado

principalmente em explicar nosso lugar no mundo de maneira que levássemos vidas melhores;

e ele logo descobriu que a arte de viver bem não combinava com o apego a ilusões. Na visão

de Hume, o mundo era perturbado de modo inquietante pelo que ele chamava de superstição e

entusiasmos, e tratou de tentar descartá-los com a elegância e o humor que lhe eram

característicos. Os argumentos religiosos, aos quais se dera tanta importância ao longo dos

séculos, foram desmantelados um a um, para a fúria de seus adeptos. “E a fúria aumentou”,

disse Whitebrook, “pelo fato de que Hume parecia estar rindo deles, ainda que de seu jeito

afável. Não parecia ter lhes ocorrido que o motivo pelo qual ele ria dos argumentos era

porque eles fossem intrinsicamente risíveis”.

Whitebrook falava com um ar de autoridade inata, seu tom belamente modulado, sua

pronúncia perfeitamente cronometrada. Sua voz era grave e espessa, com uma camada sobre

ela, como um perfeito crème brûlée. Tendo como base seus movimentos corporais, imaginei

que podia visualizar toda a extensão da pontuação de seu texto: uma ligeira elevação de

sobrancelhas para uma vírgula; uma ainda mais alta para um ponto e vírgula; e um abaixar de

cabeça para algo mais substancial, como um ponto-final ou dois-pontos. De vez em quando,

ele dirigia o olhar furtivamente para a lateral do palco, como se esperasse que alguém

aparecesse das alas, e, quando levantava os braços para pontificar algo, as dobras de sua beca

se elevavam, dando-lhe a aparência de uma ave de rapina prestes a mergulhar em sua próxima

refeição. Eu o visualizava como um falcão-peregrino por causa de seu peito branco (colete) e

bico amarelo (gravata-borboleta), junto com a massa de plumagem negra (beca acadêmica).

É inevitável ter pensamentos desse tipo em palestras. Depois que se permite para eles um

espaço, ainda que minúsculo, na cabeça, eles podem rapidamente sair do controle. A gente

começa — como comecei — a ver todos em volta como um tipo diferente de pássaro e, antes

que se perceba, vários minutos de tolice fantasiosa se passaram, durante os quais não se

absorveu uma palavra da palestra. Assim que voltei a me concentrar em Whitebrook, as

recompensas foram enormes. Ele falava com tanto bom senso e clareza que era quase como se

tivesse sido contagiado com algumas das qualidades do próprio David Hume. Os perigos

envolvidos em criticar a religião no século XVIII eram muito grandes, dizia ele à plateia, tanto

que Hume foi forçado a usar artifícios retóricos sofisticados para esconder seu ceticismo mais extremo. Exemplos textuais disso foram projetados em slides acima de nossas cabeças, cada

um deles cuidadosamente decodificado pelo professor, que pausava esporadicamente para

saudar a coragem e a astúcia de Hume. Esse grande homem, disse ele, havia atribuído a

origem da crença religiosa a “esperanças e medos incessantes que estimulam a mente

humana”. Whitebrook pausou por um momento e, depois de remover os óculos e fixar o olhar

no fundo do corredor, finalizou com um lembrete sombrio de que, embora a morte de Deus

tenha sido decretada muitas vezes nos duzentos e cinquenta anos seguintes, essas esperanças e

medos ainda estavam vivos e eram mais perniciosos do que nunca.

 

A recepção ocorreu numa sala pequena e sem nenhuma luz natural, na saída do auditório.

Dentro dela, havia trinta ou quarenta pessoas, a maioria parecendo ser de acadêmicos. Peguei

uma taça de vinho tinto (gelado e um pouco ácido demais) e fiquei nos fundos, perto da

entrada, já prevendo a necessidade de escapar. Grandes aglomerados de pessoas me deixam

inquieto, a menos que eles estejam nas ruas de Paris, no metrô ou no mercado, onde raramente

há obrigação de interagir. (Atribuo isso a ser filho único — uma explicação conveniente para

quase tudo de problemático na vida adulta.) As pessoas na sala se dividiam entre ouvintes e

palestrantes — a razão era provavelmente de cinco para um. Era notável que os palestrantes

pareciam se divertir mais do que os ouvintes. Eu identificava apenas uma palavra ou outra,

geralmente quando ela era posta em itálico, como em escárnio ou descrença, talvez, mas era

impossível encontrar sentido na conexão das passagens. Burburinho em alto volume em inglês

soa muito diferente do que soaria em francês. Em francês, ainda dá para notar que é uma

língua, que as pessoas estão se comunicando em frases com significado e usando todos os tons

de voz. Mas ali, no andar térreo, o som homogeneizado reverberando no teto baixo parecia

mais animal do que humano, como gado sendo empurrado para dentro de um caminhão que o

levaria ao abate.

Depois de um breve intervalo, alguém cujo nome não consegui entender bateu no meu

braço e me conduziu até um pequeno círculo de seis pessoas, todos homens, professores de

filosofia na universidade. Como aluno, eu havia encontrado apenas um filósofo de cada vez, e

nunca socialmente. Será que havia um substantivo coletivo para filósofos? Fiz uma nota mental

para pesquisar. Durante meu duradouro caso de amor com os idiomas, certa vez tomara o

caminho fascinante dos coletivos — um conclave de cardeais, uma turba de crianças, e

assim por diante. Com base no grupo à minha frente, decidi que teria que ser uma fatuidade de

filósofos. Eles competiam abertamente uns com os outros — dados a falar, detestavam ouvir.

Outra característica marcante era uma ansiedade curiosa, a partir do momento em que fui apresentado, de demonstrar uma familiaridade com o francês. Não demorou, e o ar estava

cheio de rigueurs e billets-doux e até bien-pensants. Isso certamente não podia ser normal.

Era difícil imaginar que eles falassem normalmente daquele jeito entre si. Um homem com um

olhar altivo ficava dizendo au contraire a cada poucos segundos, deixando essas duas

palavras na conversa, ostensivamente em resposta a qualquer coisa que tivesse sido dita, mas

de forma vazia. Outro — novamente acho que com boa intenção — se ofereceu para me pôr

em contato com alguns franceses que ele conhecia. Agradeci-lhe efusivamente, desesperado

para não me comprometer com coisa alguma. Todo cuidado é pouco em situações assim. E

mais outro, um homem de rosto redondo e nariz bulboso, levantou sua taça para o grupo

reunido e exclamou: “Après moi le déluge!” Que diabos havia de errado com todo mundo? O

diagnóstico mais caridoso seria nervosismo ou talvez uma gentileza confusa, mas logo que se

tornou razoável fazer isso, dei um sorriso de tenho-que-ir-embora e me encaminhei à saída.

 

Que foi onde encontrei Sanderson, também prestes a sair. Era um homem de cerca de sessenta

anos, achava eu, levemente desgrenhado, com uma cabeça grande e um rosto sólido que

parecia ter sido moldado pelo martelo de um ferreiro. Seu cabelo, escasso e ligeiramente

despenteado, parecia o de W. B. Yeats no final da vida, e, abaixo de seus olhos, havia bolsões

cor de ferrugem que lembravam um sabujo. Ele estendeu a mão — a pele estava rachada e

descamava — e se apresentou. O aperto de mão era úmido — não suado, mas curiosamente

oleoso. Harry Sanderson, disse ele, o que me causou desalento, pois “Harry” era um dos

nomes mais difíceis para um francês pronunciar, mesmo um francês que se sente à vontade em

inglês. Tudo nele é difícil — o agá aspirado, o “erre” vibrante no céu da boca, a brevidade e a

simplicidade enganosa. Harry é o tipo de nome que se contorce numa boca francesa e pode

terminar soando como uma escarrada.

— Edgar Logan — disse eu, sacudindo sua mão e pensando que meu nome era muito mais

benevolente com ele.

— Ah, o homem que está exportando Hume para o outro lado do Canal.

Poderia ter sido um comentário agressivo, mas o modo como ele disse foi cordial e franco.

Mesmo assim, é sempre desconcertante saber de sua existência na mente de estranhos,

especialmente quando se está acostumado ao anonimato. Notando minha surpresa, ele explicou

que ensinava filosofia na universidade e vira minha candidatura ao cargo honorário no

departamento.

— Todo mundo chama você de Edgar? — perguntou. Sua voz era escocesa, nítida com um

toque de aspereza. Lembrava a do meu pai.

— Sim, exceto meu pai. Ele sempre me chamava de Eddie.

— Bem — disse ele, tirando um cachimbo do bolso e batendo-o no sapato —, se não se

importar, vou chamá-lo de Eddie também.

— Tudo bem — disse eu, percebendo a chance de fazer um trato. — Você me chama de

Eddie. Vou chamá-lo de Sanderson. Não tenho certeza se consigo dizer Harry.

E assim começou uma conversa que continuaria por vários meses e mudaria ambos.