O Tom Ausente de Azul

Jennie Erdal · Capítulo 28 de 59

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O Tom Ausente de Azul

Capítulo 27

 

Sanderson tinha razão. Talvez eu tivesse lido romances demais. Certamente, eu os lera de um

modo bem particular. Como tradutor, não se pode apenas avançar às pressas, depreender o

essencial, compreender o bastante para seguir a narrativa. É muito mais intenso do que isso. É

preciso olhar todas as palavras, cada uma delas, e como elas se ligam às outras. Depois, a

gente se sente exausto, como se tivesse corrido uma maratona. Mesmo tentando se desligar,

mesmo lendo apenas por prazer, não dá para não notar certas coisas: a arquitetura do livro, o

caráter geral, o que vai por baixo da superfície, os vasos sanguíneos, as veias — a luz e a

sombra que a linguagem pode lançar na página. As palavras são apenas o ponto de partida.

É uma ironia que eu tenha me interessado por traduzir ficção por parecer uma opção

segura. Depois do meu colapso, aparentava ser necessário. A argumentação era a seguinte: a

ficção — isto é, histórias inventadas — seria uma espécie de proteção contra a realidade. É

claro, logo fiz a descoberta infeliz de que essa proteção é limitada. Os personagens e o enredo

são inventados, sim, mas todos os sentimentos que sustentam a narrativa — amor e perda,

felicidade e tristeza — são exatamente os mesmos obtidos no mundo. E, como é preciso dar a

cada linha uma atenção cuidadosa — pôr-se no lugar dela, por assim dizer —, você fica ainda

mais exposto que o leitor comum. Às vezes, sou surpreendido com a injustiça disso, mas é

assim que as coisas são. Quase todas as minhas experiências na vida, os altos e baixos, as

esperanças e as decepções, os relacionamentos caóticos — o que de fato interessa na vida, na

verdade —, tudo foi mediado pela palavra escrita. Com o resultado de que os romances me

deram a sensação (a ilusão talvez) de uma conexão com os outros, com a estrutura de vidas

reais. Foi assim que vivi por quase um quarto de século, e isso me gerou uma espécie de

satisfação. Ah, satisfação, essa palavra de novo. Sanderson teria dito que eu estava evitando

o assunto da felicidade. Não tenho certeza. Com todas as suas expectativas e encargos inerentes, felicidade é uma palavra pesada. Satisfação, por outro lado, é mais prática, o tanto

que um homem talvez possa pedir com justiça da vida. Em Edimburgo, porém, tudo isso estava

sob ameaça. Teria sido mais fácil encontrar Sanderson num romance, assisti-lo se abrir de

uma distância segura. Mas, quando se está acostumado a se conectar com as pessoas apenas

por meio de romances, a coisa real pode ser uma baita surpresa.

Sanderson, sem dúvida, contava como a coisa real. E o processo de conhecê-lo estava

longe de ser lento ou gradual. Era como aprender um novo idioma, não com um livro de

gramática básica ou de frases de viagem, mas usando um método de imersão completo. À

medida que os dias e as semanas se passavam, era impressionante como, sem o menor

encorajamento, ele falasse tão abertamente sobre si. Era difícil explicar a intempestividade ou

a pura indiscrição contida nisso, salvo pensando que era um interlúdio inesperado, o tipo de

intimidade que pode ocorrer nas férias entre estranhos, que abrem suas vidas um para o outro,

confiantes de que seu encontro é uma breve conjunção, inapelavelmente intensa e indiscreta,

mas logo finda e, em pouco tempo, esquecida. Sanderson encontrara alguém com quem podia

conversar, sem que isso importasse muito, sem ter de pensar nas consequências, sabendo que,

em questão de meses, eu teria sumido de sua vida. Percebi que a mesma oportunidade estava,

é claro, aberta também a mim, desde que eu quisesse aproveitá-la.

Embora nossas conversas parecessem se estender de um modo amplo e livre, eu

perceberia mais tarde que nosso papo havia sido, na maior parte, sobre pessoas e como elas

se comportavam em relação às outras. Afora seu próprio casamento, Sanderson falava

regularmente sobre seus pais, há muito falecidos, mas com vida ativa em sua memória e sua

consciência. Disse que chorava por seus pais, não por eles exatamente, mas pela ideia deles, e

por como teria sido muito melhor se ele ao menos tivesse feito um esforço para lhes dar o

devido valor na época. Eles tinham sido pessoas boas. Sanderson conseguia ver isso agora.

— Talvez a virtude fosse mais fácil no dia a dia das gerações anteriores — disse eu,

pensando em meu próprio pai.

— Como assim?

— Bem, as pessoas sofriam todas as mesmas emoções: mágoa, raiva, culpa, vergonha, mas

mantinham a maior parte disso em silêncio. Eram estoicas. Era como as pessoas se

comportavam antes.

— Não dá para dizer que estoicismo é o mesmo que virtude.

— Pode parecer virtude.

— Ah, pois bem: ninguém jamais me acusou de virtude, isso é certo. Mas você, você ainda

é jovem. Ainda há tempo para você.

— Tenho 45 anos. Não sou tão jovem assim.

— Mas seus erros estão provavelmente no futuro. Enquanto eu já cometi os meus. Meu

futuro está todo no passado.

Ele pressionou um pouco de tabaco no fornilho do cachimbo, não de forma mecânica, mas

como alguém que tentasse suprimir tudo o que tivesse arruinado sua vida.

— Quando morava na casa dos meus pais, eu vivia em oposição ao meu pai. Eu lia e me

sentia superior. Meu pai não tinha tempo para pensar. Para ele, a vida não examinada era o

único tipo de vida que valia a pena; foi o que me pareceu na época, pelo menos.

Sócrates insistira de modo célebre na vida examinada, disse Sanderson, e ao final morreu

por isso.

— Mas talvez meu pai fosse mais sábio que Sócrates. — Ele sorriu. — Trabalhava, saía

para pescar e cuidava do jardim. Mesmo a vida mais comum nos diz tudo o que precisamos

saber sobre como viver. E, mesmo assim, precisei da vida inteira para ver.

O pai de Sanderson trabalhara numa mina de carvão. No subterrâneo, no escuro, apenas

com uma lâmpada de mineiro e um canário como companhia. Durante a vida, ele evitara

assuntos difíceis. Sempre que um aparecia no horizonte, ele começava a falar sobre suas

dálias — um tema seguro. “Ele sempre dizia que não tinha como errar com as dálias.”

Seu pai sempre fora também um homem que mantinha a cabeça baixa — “extremo

pacifista”, disse ele, um homem que desaparecia silenciosamente para o jardim ao menor sinal

de conflito. Sanderson agora o considerava um homem de infinita gentileza e boas maneiras —

“nada polido ou falso, mas algo que vinha do coração.” Na verdade, ele fora a incorporação

perfeita da eudaimonia dos antigos gregos — não felicidade, como pensamos agora, mas um

conceito muito mais parecido com viver bem, ser uma boa pessoa. O melhor caminho para a

eudaimonia era por meio de algo chamado ataraxia, um estado que talvez pudesse ser

expresso como imperturbabilidade. Manter-se calmo, sem se perturbar. Os filósofos ao longo

dos séculos discutiram sobre a melhor forma de atingir esse estado. Ainda assim, seu pai,

percebia Sanderson agora, tinha compreendido tudo. Por que ele não percebera isso na época,

por que não aprendera com ele? Ao lado do pai, Sanderson dizia se sentir fútil, fraco, inútil.

Agora, o que não daria por uma hora de sua companhia. Ele parou e limpou a garganta.

É claro que os pais dos outros garotos haviam lutado na guerra, prosseguiu ele, já com a

voz mais forte. Um deles teve a perna amputada — um sinal claro de heroísmo e bravura. Mas

a mineração de carvão era uma ocupação dita reservada, e o pai de Sanderson não trabalhava

lá obrigado. “O que fazia dele o alvo de insultos de gente de estudo e resmungos de gente

ignorante.” No entanto, ele parecia não dar importância. “Ele vinha de uma longa linhagem de esnobes, por isso conhecia o esnobismo melhor do que ninguém.”

A mineração não lhe salvara a vida, porém. “Longe disso. Toda aquela poeira negra de

carvão deve ter achado um jeito de entrar, e, no fim, ele ficou doente dos pulmões.” Era o tipo

de homem que considerava a doença uma fraqueza de caráter deplorável. Sofria terrivelmente,

mas nunca reclamava. “Só tentava ao máximo morrer sem fazer estardalhaço. Visitei-o

próximo do fim. O médico disse que ele não passaria daquela noite, mas meu pai nem sonharia

em morrer na presença de uma visita, especialmente se fosse seu próprio filho. Ele se foi no

dia seguinte, depois que eu tinha ido embora.”

Sanderson era mais reticente quanto à mãe, revelando apenas que ela havia se desgastado

pensando em outras pessoas, com o que alimentá-las, como cuidar melhor delas. Era o dever

que a movia, e não o amor. “Minha mãe nunca se permitiria, nem em mil anos, o amor.” O

amor era uma dessas coisas que podem causar muita confusão, particularmente se a gente

falasse sobre ele. O que ela nunca fez. O dever a oprimia; contudo, ela era definida por ele.

Depois da morte do pai de Sanderson, quando não tinha ninguém em quem pensar a não ser em

si mesma, ela não conseguiu descobrir sentido ou propósito na vida. A vida parou no dia em

que ele morreu, e ela não conseguia fazê-la recomeçar. Ela foi lançada à deriva e morreu

pouco tempo depois.