O Tom Ausente de Azul
Capítulo 34
Em algum momento — depois, não foi fácil lembrar o instante exato —, pensei ter ouvido o
som de um pássaro, urgente e a plena voz, porém abafado pelo chilro ruidoso da água que
corria pelas pedras. Olhei para cima, esperando ver um pássaro advertindo os filhotes, e só
quando o grito veio de novo, dessa vez não o de um pássaro, mas humano, foi que olhei na
direção de Sanderson. Que estava em perigo. Aparentemente, ele perdera o equilíbrio e movia
as mãos de modo furioso, como um acrobata que tenta ficar na corda bamba. Larguei tudo e
tomei o atalho da margem do rio até chegar a seu lado. Quando penetrei o rio, a água
imediatamente parecia sólida e minhas pernas, pesadas, como se estivessem se arrastando por
cimento molhado. “Fique aí! Estou indo!”, gritei. Mas, a cada passo, havia uma enorme sucção
nas minhas botas quando elas afundavam no cascalho voraz. Meus waders logo se encheram
de água, gelada e cortante. Pela aparência, os de Sanderson também estavam inundados. Suas
pernas estavam sendo empurradas para a superfície — sinal de que havia ar dentro das botas
impermeáveis. Com uma das mãos, ele se agarrava a um pedregulho — liso demais para
Sanderson se segurar bem — e com a outra ele segurava a vara. “Largue a vara!”, gritei.
“Largue a vara!” Mas o ruído da água engoliu minhas palavras, e com os passos seguintes o
fundo irregular do rio me desequilibrou, e fui abaixo na torrente agitada. Com grande esforço,
consegui me firmar amparado num bloco de pedra e reencontrei o equilíbrio. Ele já estava
quase ao meu alcance, e era claro o que precisava ser feito: pô-lo de pé novamente e levá-lo
em segurança de volta à margem. Não duvidava da minha força física para fazer isso; cheguei
a me permitir uma breve imagem heroica — o galante chevalier indo em salvamento de seu
amigo, que nunca teria, dali por diante, motivo para duvidar da força da ligação entre eles.
Depois de enfrentar a corrente e readquirir equilíbrio, agarrei seus ombros por trás e gritei
para ele largar a rocha e a vara. Era uma troca de papéis, e, por um momento, houve uma sensação parecida com a euforia. “Não se preocupe, você está seguro agora!” Mas Sanderson
não demonstrou sinal de alívio ao me ver. E pior: em vez de se permitir ser resgatado, ele
lutou como um urso. Devia ser o medo, pensei. Ele acha que vai morrer. Havia um olhar de
terror em seu rosto, e, em pânico, ele se movia com violência, agitando os braços e golpeando
a água, em certo momento me agarrando pela garganta, emitindo ao mesmo tempo um zurro
medonho, como um homem nos últimos estertores da morte. Antes que eu pudesse exercer o
domínio completo, Sanderson pôs sua mão imensa no meu queixo, empurrando-o para trás e
chocando minha cabeça contra uma pedra. Depois disso — não faço ideia de quanto tempo —,
tudo ficou escuro e silencioso, e houve apenas a sensação mais leve de que tudo diminuía
pouco a pouco, como a imagem de uma tela de televisão velha, reduzida a um pequeno ponto
branco no centro. A próxima coisa de que me dei conta foi o frio da água no meu rosto e, sobre
mim, um peso horrível — a massa robusta do corpo de Sanderson.
O perigo físico aciona reflexos ancestrais, trazendo consigo um fluxo extraordinário para a
cabeça e o coração, fazendo situações aparentemente sem remédio se tornarem coisas
administráveis. Essa, pelo menos, parecia ser a única explicação para a força sobrehumana
disponível para mim de uma só vez e que me permitiu puxar Sanderson da garganta escura do
rio. Mesmo assim, eu continuaria por muito tempo a me maravilhar com os recursos que
consegui invocar para levar a mim e a um homem que se afogava para a segurança da terra
seca.
Por alguns momentos, ficamos sentados na margem gramada, tontos e encharcados. Quando
o frio se instalou, lutamos para voltar para o carro, Sanderson com o peso apoiado em mim,
nós dois tropeçando e cambaleando pela grama crescida e pelas urtigas que espetavam.
Podíamos muito bem ser uma dupla de bêbados voltando para casa no sábado à noite; exceto
pelo fato de que não havia libação nem risos, apenas o grunhido da respiração trabalhosa de
Sanderson e o som de nossas botas de borracha chapinhando, como limpadores de para-brisa
em vidro seco.
Naquela noite, sonhei que estava sendo carregado por uma corrente que fluía rápido. Seguia e
seguia, veloz pela água turbulenta, desviando por pouco de pedregulhos, animais mortos e
árvores caídas, que eram apenas um borrão por causa da rapidez da viagem. Não há saída, não
há saída — esse era o único pensamento que eu repetia para mim enquanto era carregado
pelas águas. O barulho da água era ensurdecedor; ainda assim eu conseguia ouvir um sussurro
em minha cabeça dizendo para traduzi-la para o francês — apenas isso poderia me salvar.
Mas, embora eu procurasse desesperadamente as palavras, não conseguia encontrá-las e sequer as conhecia, e, de qualquer modo, minha mãe estava parada na margem distante,
gritando algo em francês que eu não compreendia e sacudindo sobre a cabeça careca um lenço
azul que mudava do azul-claro para o escuro e de volta ao claro. E, ao lado da minha mãe,
dançando em torno dela e procurando em toda parte a cabeça a que pertencia, havia um par de
olhos arregalados.