O Tom Ausente de Azul

Jennie Erdal · Capítulo 35 de 59

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O Tom Ausente de Azul

Capítulo 34

 

Em algum momento — depois, não foi fácil lembrar o instante exato —, pensei ter ouvido o

som de um pássaro, urgente e a plena voz, porém abafado pelo chilro ruidoso da água que

corria pelas pedras. Olhei para cima, esperando ver um pássaro advertindo os filhotes, e só

quando o grito veio de novo, dessa vez não o de um pássaro, mas humano, foi que olhei na

direção de Sanderson. Que estava em perigo. Aparentemente, ele perdera o equilíbrio e movia

as mãos de modo furioso, como um acrobata que tenta ficar na corda bamba. Larguei tudo e

tomei o atalho da margem do rio até chegar a seu lado. Quando penetrei o rio, a água

imediatamente parecia sólida e minhas pernas, pesadas, como se estivessem se arrastando por

cimento molhado. “Fique aí! Estou indo!”, gritei. Mas, a cada passo, havia uma enorme sucção

nas minhas botas quando elas afundavam no cascalho voraz. Meus waders logo se encheram

de água, gelada e cortante. Pela aparência, os de Sanderson também estavam inundados. Suas

pernas estavam sendo empurradas para a superfície — sinal de que havia ar dentro das botas

impermeáveis. Com uma das mãos, ele se agarrava a um pedregulho — liso demais para

Sanderson se segurar bem — e com a outra ele segurava a vara. “Largue a vara!”, gritei.

“Largue a vara!” Mas o ruído da água engoliu minhas palavras, e com os passos seguintes o

fundo irregular do rio me desequilibrou, e fui abaixo na torrente agitada. Com grande esforço,

consegui me firmar amparado num bloco de pedra e reencontrei o equilíbrio. Ele já estava

quase ao meu alcance, e era claro o que precisava ser feito: pô-lo de pé novamente e levá-lo

em segurança de volta à margem. Não duvidava da minha força física para fazer isso; cheguei

a me permitir uma breve imagem heroica — o galante chevalier indo em salvamento de seu

amigo, que nunca teria, dali por diante, motivo para duvidar da força da ligação entre eles.

Depois de enfrentar a corrente e readquirir equilíbrio, agarrei seus ombros por trás e gritei

para ele largar a rocha e a vara. Era uma troca de papéis, e, por um momento, houve uma sensação parecida com a euforia. “Não se preocupe, você está seguro agora!” Mas Sanderson

não demonstrou sinal de alívio ao me ver. E pior: em vez de se permitir ser resgatado, ele

lutou como um urso. Devia ser o medo, pensei. Ele acha que vai morrer. Havia um olhar de

terror em seu rosto, e, em pânico, ele se movia com violência, agitando os braços e golpeando

a água, em certo momento me agarrando pela garganta, emitindo ao mesmo tempo um zurro

medonho, como um homem nos últimos estertores da morte. Antes que eu pudesse exercer o

domínio completo, Sanderson pôs sua mão imensa no meu queixo, empurrando-o para trás e

chocando minha cabeça contra uma pedra. Depois disso — não faço ideia de quanto tempo —,

tudo ficou escuro e silencioso, e houve apenas a sensação mais leve de que tudo diminuía

pouco a pouco, como a imagem de uma tela de televisão velha, reduzida a um pequeno ponto

branco no centro. A próxima coisa de que me dei conta foi o frio da água no meu rosto e, sobre

mim, um peso horrível — a massa robusta do corpo de Sanderson.

O perigo físico aciona reflexos ancestrais, trazendo consigo um fluxo extraordinário para a

cabeça e o coração, fazendo situações aparentemente sem remédio se tornarem coisas

administráveis. Essa, pelo menos, parecia ser a única explicação para a força sobrehumana

disponível para mim de uma só vez e que me permitiu puxar Sanderson da garganta escura do

rio. Mesmo assim, eu continuaria por muito tempo a me maravilhar com os recursos que

consegui invocar para levar a mim e a um homem que se afogava para a segurança da terra

seca.

Por alguns momentos, ficamos sentados na margem gramada, tontos e encharcados. Quando

o frio se instalou, lutamos para voltar para o carro, Sanderson com o peso apoiado em mim,

nós dois tropeçando e cambaleando pela grama crescida e pelas urtigas que espetavam.

Podíamos muito bem ser uma dupla de bêbados voltando para casa no sábado à noite; exceto

pelo fato de que não havia libação nem risos, apenas o grunhido da respiração trabalhosa de

Sanderson e o som de nossas botas de borracha chapinhando, como limpadores de para-brisa

em vidro seco.

 

Naquela noite, sonhei que estava sendo carregado por uma corrente que fluía rápido. Seguia e

seguia, veloz pela água turbulenta, desviando por pouco de pedregulhos, animais mortos e

árvores caídas, que eram apenas um borrão por causa da rapidez da viagem. Não há saída, não

há saída — esse era o único pensamento que eu repetia para mim enquanto era carregado

pelas águas. O barulho da água era ensurdecedor; ainda assim eu conseguia ouvir um sussurro

em minha cabeça dizendo para traduzi-la para o francês — apenas isso poderia me salvar.

Mas, embora eu procurasse desesperadamente as palavras, não conseguia encontrá-las e sequer as conhecia, e, de qualquer modo, minha mãe estava parada na margem distante,

gritando algo em francês que eu não compreendia e sacudindo sobre a cabeça careca um lenço

azul que mudava do azul-claro para o escuro e de volta ao claro. E, ao lado da minha mãe,

dançando em torno dela e procurando em toda parte a cabeça a que pertencia, havia um par de

olhos arregalados.