O Tom Ausente de Azul
Capítulo 48
Quando voltei para casa no início da noite, tive dois choques. O primeiro foi encontrar meu
computador desligado. Quando fugi da sra. Bannerman e do aspirador de pó, deixara o
computador no modo de espera — tinha certeza absoluta disso. Mas agora não havia a luz
verde tranquilizadora, e o cabo estava desligado da tomada. Telefonei para a sra. Bannerman,
sabendo que de nada adiantaria. Só queria saber por que a senhora desligou meu computador,
perguntei, não querendo soar muito severo. É um relacionamento complicado, esse, entre quem
faz a limpeza e quem recebe o serviço. Ela sempre se certificava de desligar as luzes ao sair,
disse ela. Assim ela foi criada. “O senhor ficaria surpreso com o tanto de dinheiro que isso
poupa”, disse, com a voz esganiçada. Passei horas tentando fazer o computador iniciar, porém
nada funcionou. Tinha cópias da maioria dos ensaios, mas havia três no computador, nos quais
havia trabalhado recentemente, nenhum deles com backup.
O segundo choque chegou com o correio e estava no capacho, escondido entre toda a
correspondência comercial que precede o Natal. Era um envelope A4, com meu nome e
endereço em caneta preta, e dentro havia uma folha datilografada com um postal contendo uma
ilustração presa com um clipe na parte de cima. A imagem era um close-up de uma mosca de
rabo comprido e escura com a legenda: Thunder and Lightning — receita tradicional
escocesa de isca para salmão. No verso, Sanderson havia escrito:
Caro Eddie,
Faça a gentileza de entregar a carta anexa à universidade.
Cordialmente,
Harry
A Que m Inte re ssar Possa*
Toda carta de demissão devia ter uma epígrafe, não acham? A minha está abaixo. Entendam como quiserem. Sintam-se
à vontade para adotá-la como parte da missão da Universidade.
SÓCRATES: Ilustrarei o que pretendo dizer, Teodoro, com a pilhéria que se diz que a espirituosa criada da Trácia fez sobre Tales, quando ele caiu num poço enquanto contemplava as estrelas. Ela disse que ele estava tão ansioso para saber o que acontecia no céu que não conseguiu ver o que acontecia a seus pés. Esse é um gracejo igualmente aplicável a todos os filósofos. Pois o filósofo desconhece inteiramente seu vizinho ao lado; o filósofo ignora não só o que o vizinho está fazendo, mas mal pode afirmar se o vizinho é homem ou animal; o filósofo está em busca da essência do homem e ocupado em descobrir o que é apropriado a tal natureza para que aja e sofra de forma diferente de qualquer outra. Percebe o que digo, Teodoro?
Platão, Teeteto
Como Pascal, se eu houvesse tido mais tempo, teria escrito uma carta mais curta. Mas, quando se trata de pedidos de
demissão, a brevidade não é tudo. Meu comunicado chegará por meio da rota turística porque estou restrito pelas
condições de minha suspensão, uma das quais me proíbe de entrar em contato com qualquer membro da universidade.
Esta será, portanto, entregue aos senhores por um terceiro — um tipo da Velha Aliança, um homem que tenho a
felicidade de contar como meu amigo, e alguém suficientemente familiarizado com David Hume a ponto de não se
intimidar por aquelas sentinelas gêmeas, a retidão moral e a soberba, que guardam o portão dos seus egos para proteger
a mediocridade abissal dos senhores.
Uma palavra de passagem sobre minha suspensão. Qual foi exatamente meu crime? Um juiz sóbrio poderia dizer que
meu único crime foi chorar sem o devido cuidado e atenção. Longe de ser um delito capital. A não ser que me punam
pelo lacrimae rerum. E, se for esse o caso, o que dizer do velho Heráclito, nosso próprio “filósofo que chora”? Ele foi
reverenciado por sua sabedoria e sensibilidade, ainda que nos tempos pré-socráticos. Talvez, hoje em dia, ele também
tivesse seu computador confiscado. Infelizmente, ao que parece, por sua linha de investigação fui acusado de algum tipo
de terrível perturbação, atestado por uma moça histérica e pela descoberta de apetrechos questionáveis (azeite de oliva,
elásticos e sacos plásticos, pelamordedeus!), que agora, sem dúvida, alimentam a imaginação sensacionalista de meus
ex-colegas. Bem, apenas para que fique registrado, eu não pus um dedo inchado e supurante naquela moça americana.
Essa não é uma negação clintoniana (embora talvez a srta. Suzello seja uma prima em primeiro grau da srta. Lewinsky,
e elas compartilhem uma imaginação febril). A ideia de fumar e não tragar e tudo o mais. Para evitar dúvidas, sempre
traguei quando havia a menor possibilidade, só que não com a srta. Suzello. Nessa ocasião, meu único delito foi chorar.
O que evidentemente alarmou a srta. Suzello. É irônico, na verdade. Minha querida esposa sempre se ressentiu do fato
de que (em geral) eu não chorava. Isso é uma coisa que as mulheres fazem, creio — reclamar da falta de choro de seus
homens. “Por que é ruim não chorar?”, eu às vezes protestava. “Talvez você é que chore demais. Chorar demais
também não é ruim?” Agora, que chorei, vejam só aonde isso me levou — suspenso de meus deveres e meu destino nas
mãos de uma assembleia de almas sem salvação. Como gostaria de ser um escritor como Tchekhov, para transformar
essa banalidade mortal em algo que valesse a pena registrar.
A maior ilusão, porém, é pensarmos que somos indispensáveis, que, se desaparecêssemos amanhã, faria alguma
diferença. Mas, se aprendi algo nesta vida, é que (como meu querido e velho pai dizia), no fim, todo mundo vai feder do
mesmo jeito. Saio, portanto, sem ilusão e sem arrependimento.
E não se preocupem, eu tenho um plano. Decidi, afinal, fazer algo útil com a minha vida. De agora em diante, meu
cérebro será usado para resolver os problemas de sifões tipos S e P. Minha missão será maniqueísta: interromper
inundações e fazer a água fluir novamente. Meu local de trabalho não será um escritório aquecido demais, mas debaixo
de pias, em porões e sótãos. Há muito tempo tenho a ambição de ser encanador, e é difícil pensar num trabalho mais útil.
Ninguém precisa de verdade de um filósofo, mas todos nós precisamos de um encanador em algum ponto de nossas
vidas. E esse momento é invariavelmente um desafio: quando os canos estouram, quando as cisternas transbordam,
quando os drenos entopem — todos símbolos curiosamente poderosos de uma vida conturbada, la condition humaine.
E, assim, caros colegas, sempre que não conseguirem achar seus registros ou suas privadas entupirem, espero que
pensem em mim.
Finalmente, para aqueles do meu departamento que se apegam contraditoriamente à fé em Deus (eles saberão quem
são), permitam-me deixá-los com as palavras de Woody Allen: “Como é possível crer quando não se consegue nem
mesmo um encanador num domingo?”
Harry Sanderson [assinado]
*Adoro essa expressão, e vocês? A Quem Interessar Possa. Soa tão apropriado e formal, como se tudo estivesse sendo
feito de acordo com as regras, com reserva impecável. E a quem é muito diplomático — não individualiza ninguém — e
o possa é tão indeciso, convidando à reação: Eu? Não, isso não ME interessa. E, antes, há “interessar”; se existe uma
palavra ambígua, é essa, que permite a possibilidade de que o conteúdo seguinte seja apenas de interesse, sem lhe dizer
respeito.