O Tom Ausente de Azul

Jennie Erdal · Capítulo 39 de 59

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O Tom Ausente de Azul

Capítulo 38

 

 

A história do que a vida lhe havia aprontado estava repleta de amor e piedade. Harry estava

certíssimo, disse Carrie. O amor que uma mãe sente por seu filho bloqueava tudo. Ela não

desejara ficar grávida, mas, logo que o bebê nasceu, foi completamente arrebatada. O bebê foi

colocado em seu corpo úmido macio, e o que ela sentiu quando o viu pela primeira vez

sempre permaneceu com ela. Nada, desde então, foi tão intenso ou importante. Ele era uma

criatura engraçada no início, disse ela, como um pequeno elfo — um rosto inteligente, pernas

finas avermelhadas e pelos negros pelas costas. Foi amor à primeira vista. Ela o chamara

Alfie, um nome que significava sábio conselheiro dos elfos. Foi um bebê perfeito: nenhum

bebê jamais sorriu, rolou, se sentou ou deu os primeiros passos de um jeito tão maravilhoso

quanto Alfie. Crescera uma criança sensível e gentil, com aguda consciência de seu ambiente e

dos sentimentos dos outros. Eles se tornaram muito íntimos, Carrie e Alfie — totalmente

inseparáveis. Houve um acordo tácito de que Harry nunca seria um pai para ele. Ela não se

importara. Na verdade, em segredo, ela queria Alfie para si e talvez achasse difícil

compartilhá-lo. E sabia que Harry nunca poderia tê-lo amado como ela o amou. Não era só

porque ele não tinha uma atração natural por crianças — ele simplesmente não era conectado

fisicamente a Alfie. O vínculo era com Carrie. Ela recordava muitos anos felizes, repletos de

uma disposição alegre. Foi uma época dourada, disse ela. Contudo, em seu devido tempo, a

natureza pregou uma terrível peça. Primeiro, veio a alegria, depois o pesado golpe para

estirpá-la. A alegria durou até a adolescência de Alfie — algo por que ela se sentiu grata —,

com poucos alertas do que estava por vir. O primeiro sinal de que algo ia errado foi quando

Alfie começou a se retrair. Ele ficava no quarto cada vez mais, perdendo refeições, sem tomar

banho. É o que os adolescentes fazem, dissera Harry. Depois veio o comportamento estranho.

Harry disse que era mau comportamento, e o que mais se podia esperar? Mas não era um comportamento ruim, era apenas estranho e imprevisível. Alfie começou a ouvir vozes,

receber sinais. Parecia positivo no começo, não patológico — as associações eram

interessantes e intensas, quase brilhantes. Mas as vozes se avolumaram, os sinais estavam por

toda parte — nas rachaduras da calçada, nas folhas das árvores, nas nuvens. Ele lera sobre a

rede de galerias e câmaras subterrâneas na cidade de Edimburgo e se convenceu de que elas

continham forças malignas decididas a capturá-lo. Passou a falar com voz de profeta,

alertando-os quanto à iminente catástrofe. A única chance de serem salvos era ouvi-lo,

“cuidai-vos” — era o que dizia sem parar. Apenas ele podia receber os sinais. Fingia ser

corajoso e forte, mas era bravata. O tempo todo Alfie tinha medo, e, com o tempo, o medo

expulsou todo o resto. Ele começou a reorganizar a mobília na casa, a vestir muitos suéteres

uns sobre os outros. Prendia sacolas plásticas nas torneiras. Qualquer coisa para manter

distantes as forças e o medo. As pessoas estavam olhando para ele, dizia, com câmeras e

microfones. Elas podiam chegar até pela chaminé ou pelos fios do telefone. As mensagens se

multiplicaram. Convenceu-se de que eles estavam plantados em seus canais auditivos, nas

obturações dos dentes, nos folículos capilares. Implorava que lhe injetassem líquido nos

ouvidos, que extraíssem seus dentes, que lhe raspassem a cabeça. Foi quando Carrie o levara

a um clínico geral, depois a um psiquiatra. Agora, ela sentia vergonha de sua segurança de

classe média — deve ser um terrível mal-entendido, pensava, tudo logo seria esclarecido.

Quando eles vissem Alfie, saberiam. Veriam como ele era amado e bem-cuidado, ririam e

diriam que ele era apenas um rapaz brilhante com uma imaginação vívida, nada com que se

preocupar. Mas eles não disseram isso. Usaram expressões como “delirante” e “paranoico” e

“acometimento rápido”. Teriam que interná-lo no hospital, avaliá-lo adequadamente, tratá-lo

com remédios. Desde o início, Alfie detestou o hospital. Seu quarto estava cheio de nigerianos

decididos a apanhá-lo, era o que dizia. O ataque era iminente. Seria um ataque por gás, viria

pelas luminárias, pela ducha do chuveiro. Não será por muito tempo, dissera-lhe ela, sem

saber que era mentira. Isso é um hospital; eles vão ajudá-lo aqui, fazer você melhorar. Mas

eles não fizeram-no melhorar. Davam-lhe remédios que ele não tomava, ou pior, fingia que

tomava. Em sua cabeça, Alfie não estava doente — era tudo uma conspiração. Carrie o

visitava todos os dias, voltando para casa para chorar. Detestava deixá-lo lá. Parecia uma

traição. E a equipe do hospital tentava tranquilizá-la com jeitos animados e joviais de bons

enfermeiros que a levavam a gritar por dentro. Mesmo quando Alfie tentou fugir, e ele tentou

muitas vezes, no começo eles disseram: não se preocupe, é o que eles fazem, isso é normal.

Mas não era normal, era atroz de um modo indescritível, imaginar seu filho doente e assustado

e em fuga, sem saber se apareceria vivo ou morto, ouvindo o policial da unidade de desaparecidos descrevê-lo como perigoso, quando o maior perigo era para ele mesmo. Em

pouco tempo, ela não conseguia fazer nada além de chorar. Naqueles meses iniciais, não

conseguia nem pintar. Harry disse que Alfie era um súcubo, extraindo vida do hospedeiro, sua

família. Os amigos pararam de falar sobre os próprios filhos, e, se por acaso o faziam, era um

lapso que eles rapidamente procuravam esconder. Quando se tem esse tipo de problema na

vida, disse Carrie, você acaba assustando as pessoas. Mesmo os amigos acham que podem se

contaminar de algum modo, que seus filhos podem pegar. Então, eles se mantêm afastados. As

pessoas não gostam de sofrimento em suas salas de estar, nem mesmo quando é o sofrimento

de seus amigos. Compreendiam o sofrimento da maneira que pudessem, mas não podiam

deixar essa coisa ruim entrar em suas vidas. Então, faziam conjecturas por uns minutinhos, o

tanto que suas sensibilidades permitiam. Depois, bum!, fechava-se a porta. O requisito — aqui

ela ecoou o que eu dissera antes — era felicidade, pensamentos positivos. Qualquer coisa

negativa precisava ser mantida a distância. Somente Alice não se importara, e isso porque ela

não tinha filhos e estava dormindo com Harry. Sempre que falava para outros pais sobre seu

filho defeituoso, disse Carrie, a voz assumia um tom estranho, como se ela fosse um cuidador

profissional e precisasse manter o controle, e não uma mãe desvairada, fora de si de

preocupação com seu filhinho querido. E esse tom, essa autorreserva, era algo que fazia por

eles, de modo que eles não se sentissem desconfortáveis. Várias pessoas, inclusive Harry,

pareciam pensar que Alfie havia causado isso a si mesmo, que ele merecera. Ou pior: que ela,

de alguma forma, causara isso nele, por amá-lo, por mimá-lo. E agora, que a doença fora

constatada, ela estava sendo conivente. Não havia fim para as medonhas teorias e fabulações

das pessoas. Aos poucos, ela sentira tudo começando a ruir. Não sabia como viver sua vida,

nem mesmo como ficar parada. Começou a vagar pelas ruas, tentando se livrar da dor,

buscando sinais idênticos em outras pessoas. Deve haver uma comunidade de sofredores,

pensou, perambulando incógnita. Não conseguia parar de chorar. E Harry, que detestava o

choro de Carrie, não conseguia parar de beber. A mãe disse que a própria Carrie causara isso,

que Deus a estava punindo. Ela devia ter feito a vontade de Deus e ter se casado com o pai da

criança há muitos anos. Harry chamou a mãe dela de perigosa e reacionária — disparara, é

claro, uma de suas cartas —, só para ouvir que o sofrimento era instrutivo para o espírito, que

ele introduziria o Cristo vivo na vida de sua filha.

 

No fim, foi Martin Blandford quem impediu Carrie de enlouquecer. Os hindus, disse,

acreditavam que, quando alguém está precisando de um professor, um professor aparece. E um

professor apareceu na forma de Martin, que lhe ensinou a aceitar a dor, não alimentá-la, não negá-la, mas se abrir para ela até que estivesse apenas presente, no sentido de que outras

coisas também estavam apenas presentes. Eles se sentavam juntos por horas, ela e Martin, em

silêncio, mantendo-se imóveis. Ele próprio perdera uma pessoa — anos antes, o homem que

amava havia tirado a própria vida. Ele, mais do que ninguém, compreendia o que era se sentir

desesperado e sabia como ajudá-la. Rapidamente, a garagem de Martin se tornou o lugar em

que Carrie se sentia segura. Ele lhe dera uma chave de modo que ela pudesse entrar e sair

quando quisesse. Quando Martin partiu com a licença para se dedicar aos estudos, ela ficou

com a chave.

 

Quando ela esgotou o assunto, houve silêncio, que eu por fim quebrei dizendo como

lamentava, que essa era uma das histórias mais tristes que já ouvira.

— Não é bem uma história — diz ela. — Não há integridade narrativa. — Ela passa o

pente nos cabelos, deslizando-o para cima e para baixo repetidas vezes. — É tudo torto, como

a pintura de uma criança. É um borrão, uma névoa densa, iluminada apenas por momentos de

doce melancolia. — Então, ela para de se pentear, e seu cabelo cai sobre o rosto, como uma

cortina de segurança. — É como se houvesse uma ferida permanentemente aberta — diz. O

que me faz pensar nas feridas da minha mãe há tantos anos; tratadas com curativos e

medicamentos, mas impossíveis de limpar.

— E como está o Alfie agora? — Parece ser a pergunta certa.

— Bondade sua perguntar — diz ela, com a voz entrecortada. — Ninguém pergunta mais.

Nem Harry. Ele tem medo de perguntar, sabe, medo de toda a emoção.

Sinto algo quente brotar sob meus cílios.

— Ele sempre me lembra de que ganha a vida com a razão. — Carrie segue por um tempo

por esse caminho e ao final dá um profundo suspiro. — Eu hesito um pouco em dizer isso em

voz alta, mas Alfie está realmente começando a fazer algum progresso. Ele está tomando uma

medicação nova, e, pela primeira vez em três anos, parece promissor.

 

Enquanto está na escada pronta para ir embora, pergunto se Sanderson sabe que ela medita no

quarto da garagem. Não, responde, ele não sabe. E ela não vai lhe contar. Ele não

compreenderia. Estou prestes a contar que ele vem rodeando a casa, mas penso melhor quanto

a isso. Ela já passou por bastante coisa para um final de tarde.

 

*

Fui dormir pensando na vida de Carrie, o sofrimento envolvido e todo o amor que ela

devotara a Alfie, desde o momento em que nasceu. O que aconteceu com esse amor? Onde ele

estava agora? Também pensei em todo o amor sem uso que eu, que nunca tivera filhos, devia

guardar. Provavelmente havia amor excedente, amor de sobra. Onde ele estaria? Minha mente

também se voltou para Martin Blandford e a bondade de um homem que nunca conheci, mas

em cuja casa estava hospedado, em cuja cama estava deitado. Ele ajudara Carrie de um modo

que Sanderson não fizera, nem saberia como. Não é de admirar que Sanderson tivesse ciúmes.

No entanto, ele certamente devia saber que Martin era gay. Não foi nenhuma surpresa para

mim quando Carrie mencionou isso mais cedo, embora eu tenha sentido certa emoção

vertiginosa, quase certamente um alívio. Admitir isso para mim mesmo foi meu último

pensamento consciente naquela noite.