O Tom Ausente de Azul

Jennie Erdal · Capítulo 21 de 59

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O Tom Ausente de Azul

Capítulo 20

 

Algumas semanas mais tarde, em conversa com Carrie, tive motivos para recordar essa parte

do monólogo de Sanderson. Ao descrever sua própria primeira reação a Sanderson, Carrie

chamaria de paixão, antes de revisá-la no momento seguinte como paixonite. “Parecia uma

dor”, disse ela. “Nada que se pudesse chamar de amor. Meu pai acabara de morrer, e Harry

preencheu a lacuna.”

 

De volta à margem do lago, porém, Sanderson continuava com sua história. Antes de conhecer

Carrie, ele nunca havia considerado o casamento uma opção. Até onde pensara nisso, ele

havia esperado não ter de fazer um balanço de prós e contras. Com sorte, ele simplesmente

saberia. E com Carrie ele sabia, embora não tenha conseguido evitar fazer o balanço assim

mesmo, nem que fosse pelo prazer de descobrir que ele pesava muito em favor do casamento.

Parecia ser exatamente o que era necessário. Ela era vulnerável, ele a protegeria. Ela era a

artista, caótica e de espírito livre; ele era o pensador, ordenado e disciplinado. Ela era jovem,

nada mais que uma garota, na verdade, com muito a amadurecer; ele era bem mais velho, com

todas as vantagens que a experiência pode proporcionar. E o melhor de tudo: ela já tinha um

filho, portanto, ele não precisaria prover um. Depois de analisado o panorama, os detalhes

certamente se encaixariam. Eles se casaram no mesmo mês.

 

Mais tarde no pub, o humor de Sanderson se tornou sombrio. Ciúme era a última coisa que ele

esperava sentir, comentou. E, no entanto, ele surgiu torrencial, e o choque de vivenciar algo de

que se sentia incapaz nada fez para estancar o fluxo. “Eu queria toda a atenção dela”, disse

Sanderson. Mas Carrie estava completamente envolvida pelo garoto. Ele afetava tudo,

inclusive seu julgamento. Ela se sacrificava por ele de modo abnegado e sem reclamar, e ele, Sanderson, ficava com as raspas. Os restos emocionais, ele os chamava, tirando sua

tabaqueira. Com os dedos de uma das mãos, ele esfregava os flocos de tabaco na palma da

outra mão, fragmentando-os até que se soltassem o bastante para pô-los no fornilho do

cachimbo. “Revi minhas expectativas e disse a mim mesmo que aquela era a natureza do

casamento. Mas eu sabia que era mentira. Era a natureza de um tipo específico de mãe.”

Sua própria mãe sempre sustentara que era ruim para as crianças deixar que elas

percebessem que eram amadas. Elas ficavam muito confiantes, dizia ela. Se Sanderson tivesse

sido pai, esse conselho seria seguido à risca, comentou. Carrie, porém, era “pródiga de

amor”, pelo menos com seu filho. Ela não se aguentava.

— À medida que o garoto cresceu, tudo o que as pessoas consideram bom e miraculoso na

infância foi substituído por algo menos bom, menos miraculoso. A inocência se tornou

teimosia, a surpresa se tornou racionalidade, as brincadeiras se tornaram tristeza. Aos quinze

anos, ele era calado e taciturno, inacessível para nós. Bem, inacessível para mim, pelo menos.

A mãe ainda conseguia chegar até ele.

— E o aconteceu com ele?

— Ele começou a ter delírios. No princípio, pensei que estivesse fingindo, mas no final

ele foi internado numa unidade psiquiátrica e diagnosticado como esquizofrênico.

— Quanto tempo faz isso?

Sanderson teve de pensar antes de responder.

— Quase três anos, acho. Parece mais tempo.

— Qual é o nome dele?

— O nome dele — repetiu ele, como que surpreso pela pergunta. — Alfie. O nome dele é

Alfie.

Por um tempo, nenhum de nós falou. Depois, Sanderson quebrou o silêncio:

— Você não tem filhos, não é?

— Não.

— Aceite o meu conselho, Eddie. Fique assim. Você pode escolher quem vai ser sua

parceira na vida, mas não pode escolher seu filho.