O Tom Ausente de Azul

Jennie Erdal · Capítulo 29 de 59

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O Tom Ausente de Azul

Capítulo 28

 

No fim de setembro aconteceu novamente. Eu voltara para casa de bicicleta saindo da

biblioteca, fazendo minha visita usual ao cemitério para prestar homenagem. Tendo acabado

de terminar mais um ensaio, queria comemorar a ocasião com pompa no túmulo de Hume.

Logo que voltei para casa, entretanto, notei que havia algo de errado. Andei até a sala de estar

e acendi todas as lâmpadas. Tudo parecia igual. Nada dava a impressão de ter sido tocado.

Contudo, embora não houvesse indícios que apoiassem a tese, eu não conseguia me livrar da

sensação de que alguém havia estado lá durante minha ausência. Dois dias mais tarde, a

mesma sensação voltou. Fiquei no hall por uns minutinhos, ouvindo, procurando. Mas

procurando o que exatamente? Alguns dias depois, quando descobri que a porta da área de

serviço tinha sido deixada aberta, soube sem nenhuma dúvida que minhas suspeitas eram

reais. Eu tinha muito cuidado com portas: elas permaneciam fechadas, a não ser que eu

estivesse no cômodo, quando elas eram mantidas abertas. A gente adquire certos hábitos —

isso vem de morar sozinho.

Na área de serviço, girei a maçaneta da porta que dava para a garagem — ainda trancada.

Pus o olho no buraco da fechadura: escuridão. Como todo o equipamento de limpeza era

guardado na área de serviço — aspirador, esfregão, luvas de borracha —, eu disse a mim

mesmo que tinha de ser a sra. Bannerman. Era terça-feira, o dia normal de limpeza, mas eu

tinha deixado a casa depois dela, o que significava que todas as portas estariam fechadas. Ela

deve ter esquecido algo e retornado para pegar. Simples. Dessa maneira, tentei tirar minhas

suspeitas da cabeça, ou, pelo menos, evitar que elas se enraizassem e crescessem até se

tornarem algo multiforme e incontrolável. Impossível, é claro. Ao sair na manhã seguinte,

escorei um envelope atrás da porta. Se alguém entrasse por ela, ele cairia no capacho e

pareceria que as correspondências ainda não tinham sido recolhidas. Quando voltei, o envelope, como era de se esperar, havia caído no capacho. Mas, como o carteiro tinha

entregado outras cartas naquele dia, era possível que estas tivessem interferido na minha

simples arapuca.

No dia seguinte, decidi variar minha rotina, retornando no meio da tarde. Nada. Saí

novamente e fiquei lá por um minuto, olhando o pátio. Nenhuma das antigas cocheiras tinha

cortinas, ou, se tinha, nunca eram fechadas. Fiz uma observação panorâmica das janelas,

procurando por sinais de vida, sem encontrar nenhum. No canto mais distante do pátio, no lado

oposto do meu próprio alojamento, um cachorro dormia num degrau de escada, uma criatura

viva solitária. Mesmo assim, não consegui me livrar da sensação de que estava sendo

observado. Com uma percepção aguçada dos meus movimentos, fechei tudo e pedalei até a

estrada principal.

No dia seguinte, depois de ter saído para trabalhar, virei-me e retornei depois de cerca de

cem metros, prendi com cadeado minha bicicleta num poste e me aproximei do pátio das

antigas cocheiras pela outra direção. A maioria das garagens no terraço tinha sido incorporada

às casas, convertida em estúdios ou usada simplesmente como extensão do espaço da sala no

andar de baixo. Pelo menos duas das garagens, porém, eram usadas para guardar carros, e eu

notara que, quando os residentes em questão saíam de carro pela manhã para trabalhar, as

portas das garagens eram deixadas abertas. Eu também tinha observado, pelos espaços vazios,

que cada uma dessas garagens tinha uma entrada pelos fundos, que, imaginava eu, devia levar

a um caminho visível da minha janela de cima. Um portão que dava para uma passagem

estreita por fim me levou a um caminho que chegava ao outro lado das cocheiras. Meu coração

batia um pouco mais rápido do que o normal, mas eu disse a mim mesmo que, se alguém

parasse e me perguntasse, seria fácil explicar: francês, meio perdido, novo na cidade,

alugando uma das casas de campo e tentando encontrar a entrada pelos fundos.

A primeira porta estava fechada; então, andei três casas para a esquerda e tentei a porta

seguinte, que se abriu para uma garagem vazia e o pátio adiante. Quando cheguei ao jardim,

suspirei de alívio e tomei uma posição que não pareceria suspeita caso alguém perguntasse —

encostado numa faia nos fundos do jardim, com as mãos nos bolsos, como se aguardasse

alguém. Inclinando a cabeça apenas levemente, eu conseguia ter uma boa visão da minha porta

da frente. A distância, havia o abafado do trânsito da cidade. Fora isso, o único outro som era

o leve farfalhar das folhas que estavam começando a se soltar e cair das árvores. Aguardei e

aguardei, com uma percepção aguda da lenta passagem do tempo, e também da estranheza do

silêncio. Cheguei a me convencer de que era possível ouvir o suave som dos meus

pensamentos ricocheteando na minha cabeça e até o som da minha barba crescendo.

De repente, houve um som humano reconhecível — um homem que assoava o nariz fazendo

muito barulho. Olhei em volta do toco da árvore e fiquei surpreso ao ver Sanderson, alguns

metros à frente, olhando em outra direção, com as pernas encobertas pelos arbustos. Há quanto

tempo ele estaria ali? Será que ficara ali a noite inteira? Ele vestia um casaco surrado com a

gola virada para cima, mas o formato do corpo e a postura o denunciaram. Ele estava agindo

de modo estranho, gingando como um boxeador, por trás de um grande arbusto de

cotoneásteres. Observei-o por uns minutinhos, o suficiente para concluir que ele estava

espiando a casa. Mas por quê? O que estava procurando? O que estava fazendo ali? Fiquei lá

por um tempo, congelado no mesmo lugar, mal ousando respirar, sentindo-me, a princípio,

culpado de uma forma inexplicável, depois um pouco ressentido. Era meu território, no fim

das contas. Eu tinha todo o direito de estar lá. Era Sanderson quem precisava se explicar. Por

que ele não estava no trabalho? O que diabos ele queria? Talvez quisesse me espionar,

controlar meus movimentos. Mas por quê?

Tentei decidir o que faria. Não havia jeito de entrar de novo na casa, ou mesmo sair do

jardim sem que minha presença fosse revelada para Sanderson. Uma onda de pânico se

agitava em meu estômago. O que fazer? Devia me mostrar? Sim, devia. Eu ia enfrentá-lo.

Exigir saber o que ele estava fazendo. No entanto, nada fiz, e, por fim, estabeleceu-se uma

espécie de paralisia, seguida por uma noção do absurdo de dois homens adultos estarem se

escondendo, com propósitos incertos, no jardim de cocheiras antigas no meio da capital da

Escócia. Depois de um tempo, senti o cheiro da fumaça de tabaco. Sanderson devia ter

acendido o cachimbo. O que me irritou terrivelmente. O fato de que ele estava à espreita do

lado de fora da casa de outro homem não o envergonhava. Alguns momentos depois, ele

chegou mesmo a se aliviar no arbusto — um filete líquido cor de âmbar saía das raízes e fazia

uma pequena poça num buraco a apenas um ou dois metros de onde eu estava.