O Tom Ausente de Azul

Jennie Erdal · Capítulo 53 de 59

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O Tom Ausente de Azul

Capítulo 52

 

Depois que minha mãe morreu, foi estirada numa mesa de cavaletes no chambre d’amis, o

quarto de hóspedes, que, na verdade, nunca fora usado para o propósito do seu nome. Não

houvera amigos, e nenhum hóspede jamais fora para ficar. Enquanto estive ao lado da minha

mãe, deitada em seu caixão simples, era como se o quarto de hóspedes tivesse finalmente

encontrado sua razão. Naquela tardinha, ao cair da noite, eu deixei o apartamento e vaguei sem

destino em volta do quartier latin. Retornando à casa várias horas mais tarde, vi que a

livraria estava iluminada. Do lado oposto da rua, observei meu pai andando como uma

sentinela para cima e para baixo da loja, pausando vez por outra para percorrer as lombadas

dos livros com as mãos. O simples gesto parecia conter tudo o que meu pai normalmente

mantinha oculto. Tomei isso como um sinal de que, apesar das esperanças perdidas, ele não

era um homem prostrado. Nem um homem que jamais deixara de amar a esposa. Nesses

poucos momentos, observando-o enquadrado pela janela, fui tomado de ternura por ele.

Na maior parte da minha infância, minha mãe fora envolta num casulo de mal-estar difícil

de romper. No entanto, as crianças aceitam o amor onde quer que o encontrem (foi nisso que

passei a acreditar), e consegui encontrar o amor também em minha mãe, apesar da diluição

homeopática. Com o tempo, ela gradualmente desistiu de falar. Não dependia mais de

palavras, transcendera-as. Eu ficava maravilhado com seu silêncio, sua reserva. Quando

soube da doença da minha mãe, eu a observava com cuidado em busca de sinais de declínio.

Do lado de fora do quarto dela, ouvia o som de sua respiração, e, quando saía para a escola

de manhã, passei a pôr seu lenço azul na mochila — minha forma infantil de mantê-la segura.

Se cuidasse do lenço e o mantivesse limpo, o destino seria enganado, e ela permaneceria viva.

Por muitos anos, minha mãe sofreu com uma imaginação catastrofista, a maldição que a

obrigava a ficar em vigilância perpétua. Anos depois, porém, uma calma parecia ter se instalado nela. Ao mesmo tempo, parte da luz de seus olhos a deixou, e ela se encolhia em si.

Não ia mais à livraria. A maior parte do tempo, ficava sentada sozinha, sem falar, com os

membros imóveis, a cabeça inclinada de modo estranho, como se seu corpo pudesse se virar

somente no eixo daquilo que a afligia. Devemos fazer o que pudermos, disse meu pai, para

ajudá-la a se recuperar.

No ano seguinte, nos primeiros dias da primavera, ele preparou para ela um pequeno

jardim no quintal que ficava nos fundos da livraria. Primeiro, encomendou a entrega de terra

preta fértil. Depois, levou sementes e estacas de galhos e vários vasos grandes de cerâmica.

Com enorme paciência, falando com ela o tempo inteiro, ele lhe mostrou como semear e

plantar as jovens plantas nos recipientes. Dia após dia, ele fazia isso, e, aos poucos, ela

parecia ser confortada, como uma criança, pela repetição. Em pouco tempo, minha mãe

começou a semear e plantar as jovens flores no solo. O jardim se tornou seu domínio. Ele

dava a impressão de subordinar o medo da minha mãe e protegê-la de seus piores efeitos. Ela

não se tornou sadia novamente, mas era possível acreditar que um tipo de satisfação estava

surgindo. Não bonheur ou joie, mas contentement.

Com o tempo, minha mãe adquiriu mais vasos e caixas de sementes. Cultivava ervas

aromáticas e rosas perfumadas, trepadeiras e plantas rasteiras. Por fim, o quintal resplandecia

de cores e estava repleto de perfumes adocicados, cada planta parecia ser uma agente de

prazer para ela. Os fregueses da livraria faziam questão de visitá-la e elogiar seu sucesso.

Quando eu voltava da escola, sempre a encontrava no jardim, e não apenas sentada, como

fizera em seu quarto, mas ocupada com algum afazer. Quando eu falava com ela, às vezes ela

se encolhia como uma ave amedrontada, tornando-se menor, tentando não ser vista. Eu gostava

de pensar que isso se devia menos a ela estar amedrontada do que abstraída em seu próprio

mundo. Às vezes, ela olhava para mim, como se tentasse lembrar se me conhecia, e, caso me

conhecesse, onde cargas d’água teria sido. Conheço você?, perguntava. Je vous connais? O

que me fazia ter esperança de que talvez ela estivesse protegida do tipo de sofrimento que

surge do conhecimento do mundo. Em outras ocasiões, quando tinha ciência da minha

presença, sorria, e eu sabia que ela havia me reconhecido e estava satisfeita em me ver. Veio

ver meu jardim, mon bébé? Ela nunca dizia meu nome nessa época, sempre mon bébé. O que

me fazia pensar nos bebês que ela perdeu e nas plantas que adotou, e se eles estariam ligados.

À medida que ela se voltava cada vez mais para si, o mundo da horticultura se tornava seu

domínio. As plantas e as flores eram o que importava.

Um dia, não muito antes de morrer, ela sussurrou para mim:

— Às vezes, eu consigo me sentir morrendo, sabe? Tenho de tentar me impedir antes que seja tarde demais. Depois que se começa a morrer, pode ser difícil parar.

Sua voz era aguda e fraca, e sua cabeça balançava de um lado para outro como uma dessas

bonecas penduradas na janela dos carros. Ela esticava as mãos, com as palmas para cima,

como se estivesse cedendo à ação de forças misteriosas.

— As suas plantas morrem? — perguntei a ela, num impulso, não querendo dizer nada com

isso, apenas para ter algo a dizer. Sim, elas morriam, respondeu ela, mas elas não podiam

evitar. Era o amor que as matava. O amor?, repeti. Essa é a minha mãe, disse a mim mesmo.

Num sentido profundo, éramos estranhos um para o outro.

— Sabe guardar segredo, mon bébé? — Enquanto fazia um sinal para que eu chegasse

mais perto, ela me contou que as plantas sabiam guardar segredo. Inclinei-me o bastante para

sentir sua respiração em minha bochecha. — L’amour, c’est pas ce qu’on croit — disse ela, o

amor não é o que parece. — Outras coisas, que não são o amor, residem próximas. Um leve

deslocamento para o lado pode destruir tudo.