O Tom Ausente de Azul

Jennie Erdal · Capítulo 18 de 59

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O Tom Ausente de Azul

Capítulo 17

 

A primeira vez que pescamos, no dia seguinte, Sanderson me confidenciaria que, nos

primeiros dias de seu casamento, estava convencido de que sentira felicidade — “o que quer

que qualquer um queira dizer com isso”. Estávamos arrumando nosso equipamento na grama à

beira da lagoa, onde a água fazia o som de leves bofetadas. A essa altura o sol já se pusera,

deixando para trás raios azul-escuros por todo o céu. Passei o dia aprendendo a jogar a mosca

na água — hora após hora de curvar a linha de volta para trás da cabeça e deixá-la cair com

leveza no lago —, com Sanderson a meu lado, orientando-me e me incentivando de um modo

gentil. Deve ter sido uma tarefa inglória, mas ele não deu sinal algum disso. O que fez crescer

minha estima por ele e pensar nas possibilidades da amizade. Mais do que isso, tudo na pesca

— sentir o peso da linha, encontrar o equilíbrio correto, os ritmos e as repetições, o arco no

ar e o círculo na água — tudo isso parecia ter exercido influência na atmosfera do dia e a

tornara suave. Agarrei a oportunidade.

— Bem, o que você quer dizer com isso?

Por alguns momentos, Sanderson continuou organizando sua caixa de moscas, pondo-as em

fileiras arrumadas de acordo com tamanho e cor. Depois disso, disse que era difícil se sentir

confiante em usar a palavra, pelo menos sem alguma qualificação ou modificação, e sem soar

constrangido ou sarcástico. “Mas, como você está me pressionando, eis um exemplo

concreto.” E ele me pediu para imaginar estar sentado num trem lotado de Edimburgo para

Londres, com alguém falando bobagens em outra parte do vagão. “Você conhece o tipo. Um

sujeito que fala alto, burro e sem imaginação, absolutamente nada na cabeça que valha a pena

dizer, mas decidido a falar de qualquer jeito. Quando chega a Newcastle você já está pronto a

estrangulá-lo com as próprias mãos, qualquer coisa que o faça parar de tagarelar. E, então,

aleluia, ele desce em York.” Sanderson bateu as mãos uma na outra. “Pois bem, isso é a felicidade!”

Não houve jeito de eu não me decepcionar. Esperava mais. Ele estava caçoando de mim.

— Ah, mas não estou não, Eddie. Estou falando seriíssimo. Se você leu Montaigne, vai se

lembrar dele dizendo que a maior sensação de bem-estar de sua vida foi quando uma pedra

dos rins lhe saiu do pênis.

— La belle lumière de santé, foi como ele a chamou. — retruquei, como se citar o

original francês pudesse me dar alguma vantagem. — Mas isso com certeza não é felicidade.

Isso é alívio.

— Alívio, sem dúvida, só que é mais que isso. Não é apenas a liberação física da dor... é

algo transcendental. Uma leveza do ser.

— Bem, os franceses, e eu tendo a concordar com eles, acham que Montaigne falava

demais sobre seus problemas do aparelho urinário.

Enquanto falava, eu sabia que aquilo soava estúpido e infantil.

— Sem dúvida, você pode fazer melhor que isso, Eddie — disse Sanderson, com um

sorriso, dando-me um pontapé de leve com sua wellington como que para marcar nossa

amizade.

— Desculpe — disse eu, sentindo-me levemente envergonhado. Mas, na verdade, eu

estava feliz, não arrependido. Sanderson estendera uma bota amistosa na minha direção, e eu

gostei disso.

— Então, o que você está dizendo? Que a felicidade, nos seus exemplos, não poderia ter

surgido não fosse o tormento inicial?

— Exatamente. Que é o motivo pelo qual penso que a felicidade muitas vezes se revela

como um contraponto. Seus limites são definidos por seu contrário.

Ele prosseguiu dizendo que haviam se apropriado da palavra. Pelos evangélicos

carismáticos — a turma dos crentes contentes — e por aqueles que atuavam no psicologismo

barato da Nova Era. O que cria dificuldades para os demais de nós, disse ele.

— Mesmo no nível da filosofia, é quase impossível evitar os slogans. Você conhece esse

tipo de coisa: “Se você precisa se perguntar se está feliz, você não está”, ou o mantra dos

hedonistas: “Quanto mais você mira na felicidade, menos você obtém dela.” Tudo soa muito

superficial. Eles lhe dizem como é quando está feito, Eddie, mas não lhe dizem como fazer. —

Ele riu. — Se isso não soar muito absurdo.

Lembrei-lhe que ele ainda não me dissera o que de fato queria dizer com aquilo. Ele

fechou a caixa de moscas num gesto rápido, e por um momento pensei que o assunto estivesse

encerrado. No entanto, em vez disso, ele se virou para me olhar e, hesitando por uns instantes, como se houvesse alguma indecisão sobre como prosseguir, disse que acreditava no seguinte:

que havia uma coisa chamada felicidade corriqueira — nada muito exaltado ou emocionante

— e havia outra coisa que podia ser chamada de infelicidade corriqueira — novamente, nada

muito extremo. Nada de fome, dilúvio ou tragédias. Dentro desses parâmetros havia uma

escala, e em diferentes pontos de nossa vida, estávamos em pontos diversos da escala. “O

problema com todos os ismos no meu livro é que nenhum deles considera adequadamente a

natureza humana.”

Sempre foi subjetivo?, perguntei. Ou podia ser medido objetivamente? “Visto que é uma

sensação de bem-estar, um estado de espírito (chame como quiser), ela precisa ser subjetiva.”

Ela poderia ser isolada? Ele duvidava. Mas, sim, as pessoas têm tentado medi-la. Os

cientistas têm observado fatores que promovem a felicidade — calibrando níveis de

serotonina e coisas assim. E os governos estavam interessados nesses achados. Havia mesmo

indícios que sugeriam que as pessoas mais felizes eram aquelas com crenças religiosas.

— E você duvida disso?

— Não, eu não duvido. Mas aonde isso nos leva, Eddie? A crença em Deus é só mais uma

escolha de estilo de vida, como correr em volta do parque Meadows ou ir para Tenerife nas

férias. É só uma possibilidade entre muitas. A religião não é, por isso, uma condição

necessária para a felicidade.

As pessoas falavam um monte de besteiras sobre o significado da vida, disse Sanderson,

como se isso fosse exclusivo da religião. Mas o significado podia ser encontrado em muitas

coisas: atar uma mosca perfeita, dar uma boa palestra ou consertar uma torneira que esteja

vazando, talvez.

— Eu, por exemplo, nunca poderia crer em Deus, nem mesmo com uma arma apontada

para a minha cabeça. Mas, felizmente, ser religioso não é o único modo de pensar. Há outros

estados menos delirantes. Ou talvez eles sejam apenas outras formas de delírio.

— O que você quer dizer com isso?

Ele respondeu que mal sabia por onde começar. O mundo estava cheio de ilusões, e a

forma como as interpretávamos envolvia vários graus de autoilusão. A crença religiosa era a

mais óbvia. Desde os tempos primitivos, as pessoas tinham propensão a crer em algo.

Queriam um propósito, algo que desse significado às suas vidas, em vez de elas serem coisas

sem valor — “não são as únicas duas alternativas, embora muitas vezes pareça.” Depois de

comer e beber, disse, havia uma busca por significado. Mas esse significado estava sempre

mudando, e ele deu o exemplo de crentes que oscilam constantemente entre a afirmação da

verdade literal e a metáfora, de modo que, assim que algo fosse incapaz de suportar o peso do significado atribuído pela teologia cristã — como a ressurreição —, essa coisa de repente se

tornava simbólica. E a religião, todas as religiões, existia nesse domínio do chove não molha.

— Mas não existe algo que possamos chamar de verdade simbólica? — Isso foi tudo em

que consegui pensar, uma forma de permanecer na conversa.

— Verdade simbólica é só uma espécie de equívoco sofisticado, Eddie, de ter as coisas

dos dois modos. — Sanderson sugou o cachimbo. — Não há nada que não possa ser

configurado para se adequar à crença — disse ele. — Os crentes interpretam o mundo de

acordo com algum plano divino, e o que quer que ocorra nele, por mais brutal e catastrófico, é

acomodado dentro do plano, que é, de alguma forma, considerado nobre e benevolente em

face dos indícios acachapantes do contrário. Deus foi criado para preencher a lacuna do que o

homem não consegue explicar. Não importa o que aconteça: Deus dá as cartas. A última

palavra e a última risada. — Soltou uma risada alta, competindo com Deus.

— O livre-arbítrio não entra nisso em algum lugar?

Poderia ter sido uma pergunta idiota, mas Sanderson assentiu sua aprovação.

— Você foi direto ao ponto, Eddie. O livre-arbítrio só é mencionado quando as pessoas

religiosas querem apontar a estupidez do homem, nunca a crueldade de seu Deus benevolente

e seu infame plano divino.

A verdade era que a religião prosperava com o medo, e, mesmo hoje, no século XXI, ela

era propagada de forma compulsória, “como batatas no reinado de Catarina, a Grande”.

Falsas narrativas têm poder, “sempre foi assim” — e a religião oferecia conforto, ainda que

um conforto falso.

— Digamos assim, Eddie: Deus é o maior dos amigos imaginários — disse ele.

— Mas todos nós não temos nosso próprio tipo de amigo imaginário? Não precisa ser

Deus. — Eu estava pensando em todos os acessórios que me ajudaram a passar os anos da

minha infância.

— É claro que não, e esse é justamente o argumento que eu estou tentando usar. Todos

acreditamos em algo. Pode ser destino ou sorte ou magia ou algo inobservável e sem

substância: um bazar metafísico onde se pode conseguir uma pechincha.

Com a mão inchada, ele agarrou uma pechincha imaginária no ar e a levou para o seu olhar

fixo.

Mas é tudo autoilusão, fogo-fátuo.

Autoilusão era mesmo um assunto interessante, disse ele. Ela chegava a ter uma aparência

paradoxal. Algumas pessoas, filósofos entre elas, argumentavam até que isso não existe.

Afinal, como se poderia tratar de enganar a si mesmo? Com certeza, você já saberia o que estava aprontando, o que arruinaria a ilusão. E, se você soubesse o que estava fazendo, como

seria possível enganar a si mesmo para que pensasse em outra coisa? Mas os filósofos sempre

superestimaram o lado racional do comportamento humano, disse Sanderson. A autoilusão

poderia parecer exigir que a mesma pessoa fosse o enganador e o enganado; e, no entanto,

todos sabíamos muito bem o que se queria dizer e o que se entendia com isso. Éramos até

tolerantes a respeito, justamente porque era considerada uma dessas coisas que não se pode

evitar — uma espécie de transgressão irracional, uma fraqueza moral pouco importante. “É

aqui que a literatura é mais instrutiva que a filosofia”, disse ele. “Romances são cheios de

pessoas infelizes; não só porque é difícil escrever sobre a felicidade, mas porque há uma

imensidão de sofrimento inevitável no mundo, e é trabalho dos escritores refletir isso de volta

para os leitores.” E, se algum dia a felicidade era abordada, disse ele, era sempre restrita ou

provisória, do modo exato que a conhecíamos na vida real.

“Pense em Anna Karenina”, continuou Sanderson, animado agora. “Vronsky fica mais feliz

quando está a caminho de ver Anna, não quando está com ela.” Ele pausou para encher e

acender o cachimbo, revelando, entre inalações, que notara outra coisa: que aqueles que eram

mais iludidos muitas vezes eram retratados como os mais felizes. A felicidade podia até ser

uma espécie de loucura. “Talvez você tenha notado isso também. Pense no sr. Dick, em David

Copperfield, por exemplo. Ele é um louco gentil, cuja simplicidade permite que saiba

exatamente o que é necessário em situações que paralisam todos os outros personagens, os que

passam o tempo pensando demais. E, muito embora o sr. Dick tenha o suposto problema do rei

Carlos I na cabeça, seu coração permanece gentil e amoroso. E ele é feliz.”

— Mas você com certeza não gostaria de trocar de lugar com ele.

— Não tenho certeza. Não tenho certeza. — Sanderson tinha um aspecto de alta definição

agora, a pele mais vermelha, o rosto mais cheio, os cabelos um pouco mais desgrenhados. —

Desdenha-se muito da vida que não é examinada. De acordo com Sócrates, não vale a pena

vivê-la. Mas, na verdade, a vida, quando examinada, o conduz a todos os tipos de problemas.

Depois de Sanderson dizer isso, arrumamos tudo no carro e fizemos o caminho de volta

para Edimburgo. Mais tarde, no pub onde paramos, levei-o de volta ao ponto de partida,

quando ele mencionou que, nos primeiros dias do casamento, ele conhecera a felicidade.

Sanderson agora tinha o ar de um homem que tenta se agarrar a algo antes que essa coisa

finalmente lhe escape. Olhando para trás, disse ele, tinha certeza de que ainda podia

identificá-la, como um barco distante no horizonte. Mas outra coisa lhe tomara o lugar, uma

coisa cuja intensidade era difícil de explicar. Com certeza, não tinha relação com o que sentira

antes. Mas era esse o problema. Ele se tornara confuso quanto aos sentimentos, em quais deles confiar, quais ignorar (presumindo que fosse possível ignorar um sentimento, embora ele

estivesse quase certo de que não). Em grande parte, ele e a esposa moravam juntos como

pessoas submetidas à hipnose, e suas conversas eram coisas mortas. Agora, eles nem sequer

se chamavam pelo nome quando se comunicavam. Ele adorava o nome dela no começo: afora

ser vivo e alegre, combinava com ela. Carrie não gostava nem um pouco do nome — nunca

perdoou os pais por terem lhe batizado, num acesso de virtude bíblica, de Caritas. Quando ela

e Sanderson se conheceram, ele lhe dissera que era um belo nome — e um milhão de vezes

melhor que Faith e Hope, nomes que amaldiçoavam as vidas das irmãs dela. Além disso, com

suas conotações de amor abnegado, Caritas se adequava perfeitamente à ideia original que

Sanderson tinha dela. Mas isso aconteceu antes de tudo “engrossar e se embrutecer”, como ele

definiu. E, com o engrossamento, o nome de sua mulher passou a soar ridículo, quase uma

zombaria. Agora, ele tentava não dizê-lo se pudesse evitar. Na verdade, se “Carrie” escapasse

acidentalmente, ele considerava isso um lapso estético.

Vindo de um homem inteligente, isso me pareceu um comentário estúpido. Era Sanderson

— não o nome de Carrie — que era ridículo. Entretanto, esse era outro sinal de seu sofrimento

— um mal menor que se tornou o foco da dor, uma distração da angústia subjacente.

Reduzia um pouco seu próprio nome, continuou ele, talvez sentindo a necessidade de

explicar, porém ficando indignado no processo. Como ele detestava que eles fossem um “casal

que rima”: Harry e Carrie. E que estranho que esse verso pudesse, um dia, ter soado

harmonioso. Agora, ele era simplesmente risível, “como um jingle irritante ou um esquete que

já não tem graça”. As pessoas no pub estavam começando a olhar em nossa direção. Era hora

de ir embora. Havia sido um longo dia no lago, e, embora eu não tivesse pegado nada, minhas

mãos e roupas ficaram impregnadas com o cheiro de peixe. Queria muito voltar e tomar um

banho. Mas Sanderson ainda não estava pronto para ir.

Ele disse que não conseguia se lembrar de quando isso começara. A dúvida. O desalento.

Era tudo um pouco obscuro. A esposa não era mais ela mesma, não vinha sendo havia um

tempo. Ele não sabia dizer quanto tempo. Houve a coisa com o garoto, é claro, mas isso já

acabara. E, com certeza, não era suficiente para explicar tudo. Ele agora não fazia ideia do

que se passava na cabeça dela. Ela evitava falar com ele, se possível. Exceto quando eles

entravam em conflito, o que acontecia com bastante frequência. Como tudo isso acabou

acontecendo? O declínio parecia não ser linear — e mais labiríntico e sinuoso. Mal eles

acabavam de confrontar uma questão difícil e lidavam com ela, o problema ressurgia

misteriosamente e precisava ser enfrentado todo outra vez. Como isso aconteceu? Ele

desejava saber. Na verdade, ele não conseguia mais se lembrar dos motivos iniciais para se casar, se de fato houve motivos reais. Talvez a mente estivesse em outro lugar, e ela, a esposa,

tenha feito o casamento. Ah! — outro tiro disparado. Ocasionalmente, ele admitiu, eles faziam

algo que exigia esforço e determinação juntos, uma tentativa consciente de sair daquele

atoleiro. Há apenas uma semana, eles tinham comprado uma mesa na IKEA, uma espécie de

gesto na direção de uma vida normal juntos — uma mesa da IKEA, que é, ao mesmo tempo,

um gesto frívolo e mais sério do que uma mesa de outra loja de departamentos. Frívolo por

causa da facilidade com que uma pessoa pode se dirigir à loja junto com centenas de outras

pessoas e apenas escolhê-la, pagar por ela no andar inferior e levá-la, ali, na hora, em vez de

aguardar uma semana ou duas pela entrega — tudo isso leva a pessoa a acreditar que o que

está fazendo é absolutamente normal e prazeroso, denotando harmonia doméstica — caso

contrário por que tantos outros casais estariam fazendo o mesmo? Mas uma mesa da IKEA

também era uma coisa séria porque era preciso montá-la quando se chegava em casa. Era

preciso entender o diagrama, tentar ser paciente e razoável, conectar a ilustração e as

instruções com a aterrorizante coleção de peças espalhadas no chão e encaixar as peças certas

juntas, macho com fêmea, parafuso com rosca. Uma metáfora da vida doméstica, na verdade.

Sanderson pausou e suspirou pesadamente, o que me deu a primeira oportunidade de

perguntar:

— O que foi a coisa com o garoto? O que aconteceu?

— Ah, ele saiu dos trilhos. Começou a imaginar coisas. Ouvir vozes. Tudo que se possa

imaginar. Acontece muito, pelo visto.

 

Não pude deixar de pensar que tudo o que aprendera sobre Sanderson até aquele momento

devia estar conectado a essa história maior. Era apenas a minha sensação — impossível saber

ao certo. Raramente vemos as coisas como são de fato — outra coisa que meu pai me disse

pouco antes de morrer. Havíamos nos encontrado para almoçar, e eu vinha tentando fazer meu

pai falar sobre a guerra, um assunto sobre o qual sua reticência era enlouquecedora. Eu queria

saber mais sobre suas missões na França, se ele sentira medo, como ele encontrara a coragem

para continuar. Coragem não teve nada a ver com isso, disse ele. Era apenas uma questão de

obedecer a ordens. Quando pressionado, ele permaneceu firme. Era algo sobre o qual não se

pensava, continuou meu pai. Mantínhamos apenas a cabeça baixa e seguíamos adiante com

nosso trabalho. Ele me disse para lembrar que a perspectiva inteira raramente estava à vista,

muito menos era entendida. Só era possível ver fragmentos individuais, e, com eles, uma

imagem se criava, preenchia as lacunas como você achasse melhor, sempre de acordo com o

que você sentia, ou lhe haviam dito, em vez do que sabia. A imagem nunca é completa — está sempre inclinada ou distorcida de algum modo. Como o desenho de uma criança, a

composição é geralmente fora de proporção ou condensada. É o mesmo com as pessoas,

sentenciou meu pai. “O que se sabe sobre qualquer indivíduo é finito, e o que não se sabe é

infinito.”

 

*

 

Mas isso é adiantar minha história. De volta ao escritório naquele dia, entre a fumaça e o odor

de uísque, Sanderson ainda estava num estado de tensão, preocupado com o que havia

acontecido mais cedo. “Eu tenho dado palestras introdutórias a alunos de filosofia desde

sempre”, disse Sanderson. Os alunos se aprimoraram ao longo dos anos — ele gostava de

pensar assim. Sanderson polira as piadas, cortara fora a gordura. Agora, ele podia proferi-las

com o pé nas costas. “Na verdade, foi o que eu disse a eles. Posso fazer isso com o pé nas

costas. Talvez, vocês todos preferissem isso. Pelo menos, ia divertir vocês. Enquanto, na

verdade, não há muita coisa divertida na minha matéria. Ah, a verdade! Pois bem, eu disse.

Verdade!”

Ele estava sentado de frente para o outro lado da escrivaninha, mas, nesse ponto, se

levantou e andou com os pés doloridos até a janela. Ele ficou de pé com suas costas voltadas

para mim, dirigindo-se a uma plateia imaginária. “Imagino que haja alguns de vocês que

pensam que a filosofia tem a ver com a verdade. Deixem-me dizer uma coisa: vocês estão

enganados. A verdade é um pé no saco. A maioria de nós passa pela vida buscando-a,

procurando algo que possamos chamar de verdadeiro. Quando encontramos, e se encontramos,

nos sentimos mais seguros e a repetimos para outras pessoas, mais para afirmá-la para nós

mesmos do que para qualquer outra coisa. Mas a verdade não é necessariamente válida. É

temporária, provisória. Aceitamos uma verdade e negamos outra. O difícil é admitir isso.

Outros entre vocês podem pensar que a filosofia lhes fornecerá respostas. Ah! Vocês não

poderiam estar mais errados. Eu adoraria poder lhes dizer que a filosofia é um modo de vida,

um manual para a experiência cotidiana — Como Viver Melhor e merdas do tipo. Mas não é.

O máximo que a filosofia vai lhes ensinar é como identificar o problema.”

Quando terminou, Sanderson voltou o rosto para mim uma vez mais e ficou em silêncio por

um momento antes de explicar que, nesse instante, em sua fala aos alunos, ele notou Macrae –

“o velho cara de cenoura” — olhando com desagravo para ele e anotando algo num caderno.

Isso só serviu para provocar Sanderson, que havia se aquecido para seu tema e abandonado

toda a inibição. “Levaram chumbo grosso”, disse ele, com os olhos fulgurantes e tomando uma nova dose. “Contei aos alunos que havia muita bobagem sobre a filosofia hoje em dia, e

muitos filósofos de meia-tigela, cabeças de bagre que davam má reputação à filosofia.”

Cabeças de bagre? Imaginei um cardume de peixes pensantes, envolvidos no diálogo

socrático.

Vocês não devem imaginar, aconselhara ele aos alunos, que estudar filosofia ajudará com o

caos da vida. Nada pode ajudar com isso. “Neste assunto sem luzes, tudo precisa ser

descontruído primeiro, para que possa ser respondido. E qual a utilidade disso? Meus colegas

sem dúvida darão palestras sobre a razão e a supremacia da vida racional. Mas é tudo uma

piada. Nós nos enganamos ao pensar que fazemos apenas escolhas racionais. Razão é aquilo

que vinculamos às nossas escolhas depois do impulso ou desejo inicial. E de uma coisa vocês

podem ter certeza: o desejo é anárquico, imprevisível. Ele ataca sem avisar e domina sua

vítima. A literatura lhes ensinará isso, e a filosofia não vai salvá-los. Nem os filósofos. Como

todo mundo, levamos vidas ridículas.”

Achei difícil discordar dessa última afirmação. Sanderson fazia triste figura, e, com as

calças enroladas para cima, sacos nos pés e a pele descamando, sua aparência pairava entre a

comédia e a farsa. Havia um toque teatral em seu discurso bombástico, algo de Téspis —

influência de Alice talvez? De volta à narrativa de Sanderson, entretanto, essa menção a vidas

ridículas foi evidentemente demais para o chefe do departamento, que levantou num salto e

anunciou de forma abrupta que o tempo havia acabado. Anunciou que os alunos encontrariam

detalhes de todos os cursos oferecidos num folheto no fundo da sala e era possível marcar

reunião com qualquer membro da equipe para discutir dúvidas que surgissem.

O que aconteceu, ele havia perguntado a Sanderson logo que ficaram sozinhos. Que diabos

aconteceu? O rosto de Macrae estava vermelho de raiva, suas sardas um ou dois tons mais

escuras.

— O que aconteceu? O que aconteceu? — Sanderson devolveu a pergunta de Macrae, e

agora, ao recontar, ele despejava perdigotos em minha direção. — Como filósofo, você

deveria saber que jamais se pode dizer que algo aconteceu com qualquer grau de precisão. Há

uma característica de ambiguidade em tudo, diferentes interpretações, relatos diferentes.

Interprete isso como quiser, meu caro rapaz. Você é o chefe do departamento. Interprete como

quiser. Esse é o meu conselho.

E, como toque final, ele havia acrescentado um e vai se foder antes de ir embora.

 

Eu me perguntava por que ele estava me contando tudo aquilo. Àquela altura, nós mal nos

conhecíamos. No dia seguinte, experimentaríamos o tipo de camaradagem que surge quando dois homens passam o dia pescando juntos, mas, naquele momento, havia muito pouco que nos

ligasse. No entanto, tudo foi despejado sem ser solicitado, como se ele não pudesse deixar de

expelir. Eu estava dividido entre o constrangimento e uma espécie de comichão mórbida —

também um desejo de ajudar, obscurecido por uma sensação mais forte de que nada havia a

fazer. Ele era apenas um homem em crise, revelando-se perante meus olhos, e o estranho era

que eu me sentia atraído e alheio a tudo isso ao mesmo tempo. A falta de ligação era algo que

me vinha naturalmente. O outro impulso era incomum — me desconcertava. Sanderson,

evidentemente, não sentia nenhum embaraço. De forma curiosa, ele parecia revigorado por

seus desabafos. Ele falava como se sua vida dependesse disso. E exigia muito pouco de mim

em retorno. Em certos momentos, ele perguntava: Você entende o que eu quero dizer? Mas ele

não esperava uma resposta.

Seriam profissionais os seus problemas? Ou puramente domésticos? Examinei-o em busca

de possíveis pistas. Seu rosto, que devia ter sido bonito um dia, estava inchado e levemente

corado. Por baixo da pele coberta de manchas, havia sinais de um sistema vascular complexo.

Ele se animara durante a narração, balançando em sua cadeira, batendo na escrivaninha com

os pés enfaixados, rasgando o ar com o cachimbo na mão e uísque na outra. Pensei no inseto

de Kafka, de bruços, agitando as pernas.

Parecia um bom momento para ir embora. Levantei-me para sair, mas Sanderson, de

repente notando mais uma vez minha presença, virou-se para me olhar. Fumando cachimbo e

mantendo o dedo sobre o bojo, ele disse:

— Você já pensou no que poderia ter sido, Eddie? — Sua voz era mais baixa agora. —

Quer dizer, se não tivesse ido parar na tradução?

Movendo-me para a segurança da porta, contei-lhe que antes desejava ser um filósofo. A

ironia me fez corar.

— Ora, ora — disse ele. — Você escapou por pouco.

— Tinha a ver com meu pai. Imagino que todos os garotos em certo ponto querem se tornar

os pais.

— Eu não. — Ele olhou para seu uísque. — Às vezes, eu me sinto bastante envergonhado

de pensar o quanto não queria ser meu pai.

— Por que não?

— Por que não? — repetiu ele, parecendo surpreso pela pergunta. — Não tenho certeza.

Eu mal o considerava um indivíduo. Alguém. Ele apenas estava lá. Para que eu pudesse

discutir, para que se pudesse ter vergonha.

— Vergonha?

— Vergonha. Ah, que ironia! — Outra risada explosiva. — E pensar que hoje tenho

vergonha de ter tido vergonha.

Sanderson não falou mais de seu pai, mas ele não estava pronto para parar. Disse que, às

vezes, pensava em quem mais poderia ter sido, o que mais poderia ter feito. Depois de um

curto silêncio, disse: “Um encanador. Acho que gostaria de ter sido um encanador.” As

pessoas sempre ficam satisfeitas ao ver encanadores, disse ele. No mundo inteiro, eles são

saudados com uma mistura de gratidão e alívio. Ninguém jamais ficou satisfeito da mesma

maneira ao ver um professor de filosofia moral. Na verdade, fora do ambiente protegido da

universidade, Sanderson ficava envergonhado de admitir o que fazia na vida. Se ele ia ao

dentista ou ao barbeiro, mantinha-se calado quanto a isso. “Enquanto nenhum homem jamais

precisa sentir vergonha de dizer que é encanador.”

Foram-lhe necessários quarenta anos para perceber que boa parte do que era crucial no

mundo não era entendido pelos acadêmicos, que pensavam que conheciam as coisas

importantes. Ele pensara assim certa época. Hoje, fazia apenas um aceno ocasional para uma

ideia; fora isso, seu raciocínio era moribundo. Era tudo questão de puxar as alavancas certas,

mover algumas chaves, como dirigir uma grua. Enquanto isso, as pessoas da administração

queriam que ele pensasse nos alunos como clientes. E os clientes queriam respostas que a

filosofia não podia dar. Ele devia ter ficado com a literatura russa.

— Pense só, Eddie, o páthos nisso. Eu amava meu trabalho. Havia uma conexão entre o

ensino e o resto da vida. Era difícil distinguir o dançarino da dança. O dançarino era a dança,

porém era também diferente da dança. Pelo menos, eu ousava pensar que poderia ter sido bom

nisso. Acreditava que fazia diferença. Outros também pareciam pensar assim. Até um ou dois

anos atrás, eu era alguém que tinha status, respeito, autoestima, o que os evolucionistas da

moda chamam de valor reprodutivo. Agora, eu me sento aqui com meus pés no azeite, pondo-

os de molho na bacia que uso para desovar peixe, e com minha pele descamada por todo o

tapete.

Ele pausou por um instante. Em algum lugar no corredor, era possível ouvir o ronco de um

aspirador de pó distante.

— Um dia, você é um pavão — disse ele —; no dia seguinte, é um espanador. Essa é uma

história muito, muito velha.