O Tom Ausente de Azul
Capítulo 47
O toque do telefone era como o despedaçar de um vidro. Quebrava a noite em duas, e suas
bordas irregulares ficavam protuberantes, à espera de me ferir. A névoa no meu cérebro me
informou que devia ser a sra. Bannerman para me dizer que não podia ir naquele dia. A
faxineira se tornara uma explicação conveniente para tudo. Mas nunca era a faxineira.
— Harry não voltou. Estou preocupada. — Carrie parecia perturbada. Ela não controlava
a própria voz.
— Quando o viu pela última vez?
— Ontem de manhã, no café da manhã.
— E ele estava bem?
— Sim. Acho que sim. Tinha uma consulta no hospital. Tratamento com ultravioleta. Liguei
para o hospital. Ele não apareceu.
— E desde então nada?
— Não. Eu pensei que ele podia ter ido ao pub, ficado lá o dia todo. Estou esperando
desde então.
— Dê um pouco de tempo. Tenho certeza de que há uma explicação simples.
Era o meio da noite, mas decidi descer. Eu não conseguiria mais dormir. Num capricho,
abri a porta, meio esperando que Sanderson estivesse no degrau de entrada ou à espreita nos
arbustos. Mas havia apenas uma névoa gelada, girando em espiral à luz da lâmpada.
O silêncio era palpável, como se a cidade inteira tivesse prendido a respiração. Tremi e
fui para dentro, imaginando Carrie completamente sozinha, desejando que seu Harry
retornasse.
Naquele dia, uma terça-feira, eu mal consegui me concentrar no trabalho. Meu cérebro estava aturdido pela falta de sono, e eu ficava pensando em Carrie, sentada ao lado do telefone,
aguardando notícias. Mantenha a rotina, pensei. E, então, subi Salisbury Crags, imaginando
David Hume fazer a mesma coisa quando estava preocupado. Depois, li as notas do dia
anterior, como de costume, digitei-as no computador, fiz ajustes e burilei o texto enquanto
prosseguia. Mas minha cabeça continuava se voltando para Sanderson.
A sra. Bannerman estava mexendo no andar de baixo. Era sempre difícil me concentrar
quando ela estava na casa. Em seu devido tempo, como que em resposta, ela aparecia na porta
do meu escritório. “Vou só dar uma aspirada rápida no seu tapete, o senhor nem vai notar que
estou aqui.” Ela sempre dizia isso. Passava o aspirador nas estantes, quase sem encostar. Ela
não via muito sentido em livros — disse-me isso no começo. A gente pode encontrar tudo de
que precisa saber apenas vivendo, disse ela. O livro de Sanderson estava na mesa —
impecável em sua sobrecapa e completamente livre de poeira. A sra. Bannerman passou o
aspirador nele assim mesmo, torcendo os lábios para as letras em negrito do título. “Arram.
Como se a gente tivesse sido posto no mundo para ser feliz!”, disse ela. “Ele devia tentar
trabalhar para ganhar a vida.” A sra. Bannerman não tinha o dom da clareza, mas raramente
havia dúvida em suas opiniões. Concordei educadamente e fugi da casa. Iria à biblioteca mais
cedo do que o normal. Era uma quebra na minha rotina, mas o que importava? Quando cheguei
ao final da Calton Hill, contudo, dei por mim fazendo a curva na direção do apartamento dos
Sanderson, depois de todas as ruas com nomes da realeza — rua George, rua Hanover, rua
Frederick, rua Queen.
Carrie me deixou entrar e imediatamente me abraçou, não como uma mulher abraça, mas
forte demais, como uma criança amedrontada. Ah, Eddie, disse ela. Eu temia que ela tivesse
descoberto algo terrível. Alguma notícia?, perguntei. Não, nada. Ela estava pálida, e sua voz,
trêmula. Eu nunca soube o que fazer quando mulheres choravam. Não tinha aprendido com a
minha mãe, e não sabia agora. E, ainda assim, eu tinha o ímpeto de confortá-la. Poderia haver
todos os tipos de explicações, mencionei, não necessariamente agourentas. Ela verificou se
ele tinha levado o carro? Ele não estava no lugar de sempre, respondeu, mas isso não
significava nada. Bebemos café, e mais café, tentando tirar o pior da cabeça. Ela se sentou à
mesa da cozinha, dobrando e desdobrando um pequeno pedaço de papel. Poderia haver muitas
explicações, repeti. As pessoas às vezes saíam de suas próprias vidas, por exemplo. Era uma
condição psicológica conhecida. La fugue dissociative, como chamavam em francês.
“Acontece de repente, quando alguém não consegue encarar a própria vida e foge dela,
reaparecendo uma ou duas semanas depois, talvez um mês ou dois, às vezes por mais tempo.”
Como eu sabia disso?, perguntou ela. Havia acontecido comigo? Não, não, balancei a cabeça. Eu tinha visto isso num livro sobre a Primeira Guerra Mundial. As pessoas testemunhavam
coisas tão horrendas que, às vezes, escapavam das próprias vidas. Era um tipo de sumiço, só
que não no sentido normal. Na época, ninguém havia compreendido isso. Na verdade, eles a
chamavam de doença dos fingidos, descartando-a como covardia. Alguns até foram mortos por
isso. Mas que coisa horrível, ela queria saber, Harry poderia ter testemunhado? As veias se
estufaram no rosto. Ah, não precisava ser algo que se testemunhe, disse eu, arrependendo-me
de ter seguido por esse caminho. Poderia haver outros gatilhos, acrescentei. Todo o tipo de
coisa, eu tinha certeza disso.
— E você acha que uma dessas coisas pode ter acontecido a Harry?
— Não sei. — Era cruel lhe dar esperança. Mais tarde, quando era hora de ir embora, eu
disse: — Se ele não procurá-la em breve, talvez você deva ligar para a polícia.