O Tom Ausente de Azul

Jennie Erdal · Capítulo 54 de 59

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O Tom Ausente de Azul

Capítulo 53

 

No período trágico que se seguiu à morte de Sanderson, Carrie apareceu quase todos os dias

na minha casa, passando cerca de uma hora a cada vez na garagem. A porta que ligava a

garagem à casa não era mais mantida trancada, ou mesmo fechada. Carrie ia e vinha

livremente. O segredo da meditação, disse ela, era conhecer a escuridão, aceitá-la, e, com ela,

a luz. Esse tempo entre nós parecia ter valor especial, seu próprio ritmo. Permaneça no

momento, pensei. Não o deixe passar. Mais de uma vez durante esse período, refleti sobre

como Sanderson tivera sorte em compartilhar sua vida com Carrie, sem merecer. E como era

desleal pensar desse jeito.

Para Carrie, a morte obscurecia e esclarecia tudo. “Quando se pensa a respeito”, disse ela

certa noite, sentada à mesa da cozinha, colando flores do funeral num álbum, “amor e morte

são as principais preocupações da vida da maioria das pessoas. Não importa como se veja

isso, esse é um dos fatos da vida”. Ela percorria regularmente o mesmo caminho, revivendo

determinadas cenas e conversas, sem chegar a lugar algum. Era completamente possível que o

amor e a morte fossem coisas separadas, é claro, disse ela, que tivessem um conhecimento

superficial um do outro durante certo tempo de vida normal. Mas era mais comum que eles se

misturassem, que um esbarrasse no outro. “Um pouco como espigas de milho ao vento.” O

pior era quando elas colidiam, disse ela, e nos cercavam, sem deixar tempo para preparação,

nenhum jeito de escapar. Foi assim que ela se sentiu quando lhe contaram que Harry havia

morrido.

Eu tentava não falar sobre Sanderson. Não havia necessidade. Mesmo na morte, ele estava

sempre presente.