O Tom Ausente de Azul
Capítulo 53
No período trágico que se seguiu à morte de Sanderson, Carrie apareceu quase todos os dias
na minha casa, passando cerca de uma hora a cada vez na garagem. A porta que ligava a
garagem à casa não era mais mantida trancada, ou mesmo fechada. Carrie ia e vinha
livremente. O segredo da meditação, disse ela, era conhecer a escuridão, aceitá-la, e, com ela,
a luz. Esse tempo entre nós parecia ter valor especial, seu próprio ritmo. Permaneça no
momento, pensei. Não o deixe passar. Mais de uma vez durante esse período, refleti sobre
como Sanderson tivera sorte em compartilhar sua vida com Carrie, sem merecer. E como era
desleal pensar desse jeito.
Para Carrie, a morte obscurecia e esclarecia tudo. “Quando se pensa a respeito”, disse ela
certa noite, sentada à mesa da cozinha, colando flores do funeral num álbum, “amor e morte
são as principais preocupações da vida da maioria das pessoas. Não importa como se veja
isso, esse é um dos fatos da vida”. Ela percorria regularmente o mesmo caminho, revivendo
determinadas cenas e conversas, sem chegar a lugar algum. Era completamente possível que o
amor e a morte fossem coisas separadas, é claro, disse ela, que tivessem um conhecimento
superficial um do outro durante certo tempo de vida normal. Mas era mais comum que eles se
misturassem, que um esbarrasse no outro. “Um pouco como espigas de milho ao vento.” O
pior era quando elas colidiam, disse ela, e nos cercavam, sem deixar tempo para preparação,
nenhum jeito de escapar. Foi assim que ela se sentiu quando lhe contaram que Harry havia
morrido.
Eu tentava não falar sobre Sanderson. Não havia necessidade. Mesmo na morte, ele estava
sempre presente.