O Tom Ausente de Azul

Jennie Erdal · Capítulo 14 de 59

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O Tom Ausente de Azul

Capítulo 13

 

No ano em que a guerra foi deflagrada, meu pai foi indicado para uma bolsa de filosofia em

Cambridge. Ele concluíra o mestrado em Edimburgo e deixara a Escócia para fazer o

doutorado em Cambridge, onde conhecera e fora aluno de Wittgenstein. Ele teria, quase com

certeza, uma carreira promissora pela frente — até que sobreveio a guerra, e tudo mudou.

Em 1940, logo depois de se casar com a filha do diretor do Trinity College — ele a

conhecera durante a época de pós-graduação —, meu pai foi convocado a trabalhar para a

Executiva de Operações Especiais, a organização de espionagem britânica. Um ou dois anos

depois, durante uma missão secreta na Normandia, sua identidade foi revelada, e ele recebeu

refúgio no sótão de uma casa que pertencia a uma família que trabalhava para o grupo de

guerrilha de resistência Maquis. Ele devia a vida à bravura deles, um fato que, sem dúvida,

contribuíra para que se apaixonasse por Marianne, a filha da família, uma jovem animada e

alegre que engatinhava todos os dias no minúsculo sótão para lhe levar comida, e a cada três

dias, mais ou menos, levando uma tigela de água quente e segurando um espelho sob a luz

tênue da noite para que ele fizesse a barba. Ela chegava a carregar para cima e para baixo o

que chamava de le pot de chambre, um velho balde que servia como privada. Todas as

conversas deles eram conduzidas num francês sussurrado, o que parecia lhes dar uma

intensidade e um significado particular. Meu pai vivia pelas visitas de Marianne; eram elas

que o mantinham são. Quando ela ia embora, ele preenchia as horas seguintes aguardando seu

retorno com ansiedade, ouvindo os sons complexos que vinham da casa abaixo. Ao mesmo

tempo, ele se forçava a pensar na esposa que o aguardava em casa. Essa era a realidade, ele

dizia para si, e tudo o mais — os estranhos produtos derivados da guerra — passaria. Mas

suas tentativas de manter-se ligado à realidade eram enfraquecidas pelas visitas de Marianne:

a realidade estava em suas mãos, sussurrando esperança e incentivo, dando-lhe notícias de pequenas vitórias na Resistência e elevando seu moral. Esses momentos começaram a se

sobrepor a todo o resto. O enigma era como eles tomavam tanto espaço em sua imaginação.

Tornaram-se tudo para ele, pareciam tomar todo o seu eu. Ele não conseguia acreditar que eles

eram transitórios, algo capturado entre outras existências, seu serviço na guerra e a vida que

deixou para trás em casa.

Depois da guerra, de volta a Cambridge, ele tentou retomar a vida anterior. Mas não

conseguiu se estabelecer. Tudo ficara misturado na guerra. O que antes parecia certo passou a

lhe parecer fora de lugar. E assim, com trinta e dois anos de idade e em nome do amor, ele

deixou a jovem esposa e retornou à França para ficar com Marianne, com quem havia trocado

cartas angustiadas nos meses anteriores. O pai de sua então esposa, diretor da faculdade,

denunciou-o como um vilão e um canalha, um homem que jamais trabalharia novamente em

nenhuma universidade com a qual ele tivesse alguma relação. E meu pai nunca mais trabalhou

em universidades. Nem foi possível ganhar a vida na cidadezinha de Marianne na Normandia.

Em 1946, ela já estava compromissada — prometida a um mecânico que vivia a algumas ruas

de distância, o filho de velhos amigos da família, alguém aceitável de todas as maneiras que

meu pai não era. Depois de alguns dias tempestuosos, nos quais o mecânico, apoiado por

muitos membros veementes das duas famílias, lutava para manter a noiva, meu pai e Marianne

fugiram em direção a Paris, onde esperavam ficar anônimos e trataram de tentar recriar o que

sentiram no sótão durante a guerra. Ambos estavam em exílio — de seus parentes, de tudo o

que lhes era familiar — e tinham apenas um ao outro. “Mas aquilo não parecia ser apenas”,

meu pai me contou certa vez. “Parecia que o que tínhamos era perfeito, completo em si mesmo

— um se sentia necessário ao outro.” O amor seria suficiente. Ia conduzi-los adiante.

Durante muitos anos, eu não soube de nada disso. Contudo, esses simples eventos foram

não apenas a razão da minha existência como também das circunstâncias nada usuais da minha

criação e de muito do que se seguiu. Particularmente à medida que eu ficava mais velho, foi

difícil considerar minha mãe alguém por quem homens poderiam brigar. E eu não conseguia

deixar de me perguntar sobre a jovem na Inglaterra, a filha do diretor, e o que acontecera a

ela. Nunca consegui perguntar a meu pai por medo de lhe causar aborrecimento ou acrescentar

à culpa que tinha certeza de que ele deve ter sentido. “Não somos livres quando se trata da

paixão”, disse-me ele um dia, perto do fim da vida, enquanto estávamos sentados num café no

bairro do Marais. “No entanto, nós a consideramos uma das coisas que fazemos com a maior

liberdade”. Foi pela bondade que ele se apaixonara?, perguntei. Era possível se apaixonar

pela bondade ou era preciso mais? Quem sabe, Eddie, respondeu ele, quem sabe? Acendeu um

cigarro e tragou profundamente. “Ninguém sabe de verdade o que liga as pessoas às outras.”

Na volta da casa dos Sanderson naquela noite, com o uísque aquecendo minhas veias, pensei

no começo da amizade e nas possibilidades que se apresentavam e as quais eu não

vislumbrara. E como os terapeutas recebem tanto dinheiro para fazer perguntas que novos

amigos fazem de graça.