O Tom Ausente de Azul
Capítulo 41
Acordei com um som estranho, um estrondo surdo martelando que penetrava os ritmos do meu
sonho. Desci a escada cambaleando, tonto de sono, piscando os olhos contra a luz. Carrie
estava à minha porta, um pálido fantasma. Atrás dela, as árvores negras eram vultos enormes
como montanhas. Ela se sacudiu como um pequeno animal encharcado. Os olhos dela
brilhavam no rosto, vítreos e diáfanos — o que os franceses chamam de chatoyant. Meu
primeiro pensamento foi: a meditação podia ser assim tão urgente? O segundo: por que ela não
usou a chave? O seguinte: usando meus pijamas de flanela de algodão e chinelos de vovô, eu
devo parecer um caso perdido para ela.
Não tinha a ver com meditação. Ela ficara acordada a noite inteira. Sanderson estava
bebendo, com um temperamento sombrio e hostil. Ficava indo e voltando no quarto, disse ela,
uma fera enjaulada, censurando o mundo. Meu Deus!, exclamei, ele a tinha ameaçado,
machucado? Não, não, nada assim. Era algo pior, muito pior.
Nada poderia ser pior, pensei.
— Harry foi suspenso — disse ela. — Da universidade.
— Suspenso? Por quê?
— Investigações em andamento.
— Investigações? — Lá estava eu, repetindo tudo, de novo.
— Houve queixas. Comportamento impróprio, foi disso que chamaram. Com uma aluna.
Fiz chá, disse o que podia. Sente-se. Me dê seu casaco. Tente não se preocupar. As palavras
não vinham com facilidade agora. Elas se ligavam de um modo desajeitado. Não estava
habituado a mulheres, ao jeito delas. Os cabelos de Carrie estavam úmidos e se prendiam à
nuca. Eu conseguia ver o sangue bombeando em sua garganta. Emoções são coisas muito desorganizadas. O comportamento humano é caótico, imperfeito, confuso. Minha casa, que
quase não tinha mobília, parecia amontoada.