O Tom Ausente de Azul

Jennie Erdal · Capítulo 42 de 59

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O Tom Ausente de Azul

Capítulo 41

 

 

Acordei com um som estranho, um estrondo surdo martelando que penetrava os ritmos do meu

sonho. Desci a escada cambaleando, tonto de sono, piscando os olhos contra a luz. Carrie

estava à minha porta, um pálido fantasma. Atrás dela, as árvores negras eram vultos enormes

como montanhas. Ela se sacudiu como um pequeno animal encharcado. Os olhos dela

brilhavam no rosto, vítreos e diáfanos — o que os franceses chamam de chatoyant. Meu

primeiro pensamento foi: a meditação podia ser assim tão urgente? O segundo: por que ela não

usou a chave? O seguinte: usando meus pijamas de flanela de algodão e chinelos de vovô, eu

devo parecer um caso perdido para ela.

Não tinha a ver com meditação. Ela ficara acordada a noite inteira. Sanderson estava

bebendo, com um temperamento sombrio e hostil. Ficava indo e voltando no quarto, disse ela,

uma fera enjaulada, censurando o mundo. Meu Deus!, exclamei, ele a tinha ameaçado,

machucado? Não, não, nada assim. Era algo pior, muito pior.

Nada poderia ser pior, pensei.

— Harry foi suspenso — disse ela. — Da universidade.

— Suspenso? Por quê?

— Investigações em andamento.

— Investigações? — Lá estava eu, repetindo tudo, de novo.

— Houve queixas. Comportamento impróprio, foi disso que chamaram. Com uma aluna.

 

Fiz chá, disse o que podia. Sente-se. Me dê seu casaco. Tente não se preocupar. As palavras

não vinham com facilidade agora. Elas se ligavam de um modo desajeitado. Não estava

habituado a mulheres, ao jeito delas. Os cabelos de Carrie estavam úmidos e se prendiam à

nuca. Eu conseguia ver o sangue bombeando em sua garganta. Emoções são coisas muito desorganizadas. O comportamento humano é caótico, imperfeito, confuso. Minha casa, que

quase não tinha mobília, parecia amontoada.