O Tom Ausente de Azul
Dedicatória
Em memória de Wilkie Crawford, 2006-2007
E para seus pais
Suponhamos, então, que uma pessoa usufruiu sua visão durante trinta anos e se familiarizou perfeitamente com cores de todos os tipos, com exceção, digamos, de uma particular tonalidade de azul, com a qual nunca teve a ventura de deparar. Suponhamos que todas as diferentes tonalidades dessa cor, com exceção daquela única, sejam dispostas diante dessa pessoa, descendo gradualmente da mais escura para a mais clara; é claro que ela perceberá um espaço vazio onde falta aquele tom, e perceberá que naquele lugar há, entre as cores contíguas, uma distância maior que em qualquer outro lugar. Pergunto agora se lhe seria possível suprir essa falta a partir de sua própria imaginação e trazer à sua mente a ideia daquela tonalidade particular, embora esta jamais lhe tenha sido transmitida pelos sentidos.
David Hume, Investigações sobre o entendimento humano e sobre os princípios da moral*
E o abismo? O abismo?
O abismo é fácil mesmo:
Fica bem onde estás —
Um degrau só a mais.
Theodore Roethke, “O abismo”**
Notas:
*Investigações sobre o entendimento humano e sobre os princípios da moral, David Hume; tradução de José Oscar
de Almeida Marques. São Paulo: Unesp, 2004. (N. T.)
**And the abyss? The abyss?/ The abyss you can’t miss:/ It’s right where you are —/ A step down the stair. (N. T.)