O Tom Ausente de Azul

Jennie Erdal · Capítulo 26 de 59

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O Tom Ausente de Azul

Capítulo 25

 

Em certo ponto, ficou claro que minha mãe não estava bem. Comecei a notar que os fregueses

regulares da livraria usavam um tom particular quando a mencionavam para o meu pai. Como

vai sua esposa?, perguntavam eles. Ça va? Uma pergunta normal, mas dava para notar que não

era uma pergunta casual. Eles queriam saber se ela havia melhorado, e as expressões deles

continham algo que eu pensava ser pena. Um dia — é difícil identificar exatamente quando foi

— perguntei a meu pai o que havia de errado com minha mãe. Eu devia ter pelo menos treze

anos porque me lembro de ter perguntado em inglês. Mas sua resposta, quando veio, foi em

francês, como se o inglês pudesse ser desleal com o tema. Ele ficou em silêncio por alguns

instantes. Depois, limpou a garganta. Disse que não vinha sendo a mesma havia alguns anos e

que era improvável que fosse melhorar. Câncer? Sussurrei a palavra sabendo que era a pior

das coisas. Não, ele disse. C’est la tête qui va pas. É a cabeça dela. E ele colocou os braços

em volta de mim e me abraçou forte. Desse modo, compreendi que a situação era séria e que

nós devíamos cooperar.

Algum tempo antes dessa conversa, eu calculara que minha mãe usava peruca, mas

somente mais tarde fiquei sabendo que o cabelo dela caíra numa única noite, após ter perdido

o primeiro filho. Esse evento evidentemente moldou tudo o mais que se seguiu. Haveria mais

dois bebês, os dois natimortos, e com vários anos de separação, antes que eu chegasse ao

mundo, chorando e berrando a plenos pulmões — de acordo com meu pai, o som mais feliz

que já se ouvira na residência dos Logan.

Por um tempo após meu nascimento, minha mãe ficara inteiramente absorvida pelo

recomeço e pelas esperanças renovadas que um bebezinho traz, mas, na verdade, a dor

anterior havia se instalado em algum lugar profundo em seu peito e não queria desocupá-lo.

Ao longo dos anos, minha mãe se tornou cada vez mais congestionada pela dor. “Sabe, Eddie”, explicou meu pai, “o novo bebê, você fez algum progresso para fechar as feridas”.

Ele parou, sem saber como continuar. “Mas as feridas mesmo não estavam limpas.” Ele

acreditara que uma nova vida fosse protegê-la de mais dor, mas se enganara. Nos primeiros

anos, disse ele, as energias dela foram tomadas com os cuidados de seu adorável menininho,

mantendo-me longe do perigo e lidando com um pouco de ansiedade. “Mas, sob a superfície, a

tristeza a roía como um rato.” Com o tempo, a tristeza se tornou um mal monstruoso, e, aos

poucos, minha mãe perdeu sua conexão com o mundo.

Não temos memória da primeira infância, mas às vezes eu me perguntava se o mesmo rato

havia me roído também, quando eu era novo demais para saber. Talvez algo desses primeiros

anos tenha fixado residência no meu corpo — aquilo que se apresentava mesmo agora como

um aperto ocasional no peito.

Depois que minha mãe morreu, fiquei sabendo mais. Neste ponto, meu pai se sentia

liberado para falar a respeito. “Devíamos talvez ter aprendido a sofrer juntos”, disse ele um

dia, “mas não aprendemos”. E, assim, eles seguiram separadamente por um longo corredor

escuro, do qual meu pai saíra sozinho, enquanto minha mãe permanecera lá, presa num

doloroso túnel de vento. “Era quase como se ela não quisesse ficar inteiramente curada”,

disse ele. “Parte dela pensava que, se ela relaxasse demais, se ela parasse de sofrer e

baixasse a guarda, você também poderia ser tomado dela. Ela sentia que precisava fazer

penitência, barganhar com Deus. Tinha a ideia de que estava sendo punida por ter se

apaixonado, por ter se separado dos pais, por ter desdenhado da vida que eles haviam

planejado para ela. Não havia sentido em lhe dizer que Deus não existia, não havia ninguém

com quem barganhar.” Ele deu um suspiro, alisando os dedos um de cada vez, como se

estivesse verificando os ossos finos em busca de fraturas.

“Antes da coisa com os bebês, sua mãe e eu entendíamos tudo muito bem. De vez em

quando nos descobríamos concordando com Stendhal: a gente pode estar andando pela rua,

maravilhando-se com as estrelas, e de repente é morto por um cabriolé e seu cavalo. É assim

que Stendhal pensava nas coisas, e é assim que as coisas são. Durante a guerra, nós dois

sabíamos disso e aceitávamos. Não há sentido em pensar que podemos nos proteger contra

catástrofes. É tudo absolutamente aleatório.”

Mas, em vez de confiar em Stendhal, ao que parece, minha mãe tratara de criar estruturas

elaboradas para sobreviver melhor, de maneira que todos nós ficássemos seguros. Com esse

fim, ela criou as regras pelas quais viveríamos — “uma tentativa vã de vencer o próprio

medo”, disse meu pai. Ele continuou contando como ela presumia que devia haver problema

em cada esquina, sentindo o perigo até nas atividades mais inocentes. E, embora estivesse sempre em contato com Deus, era incapaz de deixar as coisas inteiramente nas mãos Dele,

nem mesmo as grandes decisões. Tinha fé no poder da oração, mas acreditava que, uma vez

que Deus decidira, não havia oração capaz de mudar uma decisão.

Ouvir meu pai falar sobre essas coisas trouxe de volta à minha mente um incidente da

infância. Eu caíra dos últimos seis degraus da escada que levava do nosso apartamento até a

livraria. Minha cabeça bateu no piso de pedra com um estrondo, mas, embora doesse, não

houve lesão grave. No entanto, num instante, minha mãe ficou histérica, sacudindo-me em seus

braços e querendo saber sucessivamente as respostas para todo tipo de perguntas — meu

nome, minha idade, meu endereço — como se tivesse prendido um suspeito na cena do crime.

Meu pai tentava contê-la e acalmá-la, mas ela se soltou e se atirou ao chão, dando graças a

Deus por Ele ter poupado seu pobre filho.

Afora Deus, disse meu pai, havia as leis da natureza que deviam ser consideradas. E,

embora elas também pudessem ser creditadas a Deus, não havia como saber quando uma

catástrofe poderia fugir do controle Dele. Nenhum desastre, por mais remoto ou improvável,

podia ser descartado. Minha mãe extrapolava com base nas histórias terríveis dos jornais ou

do rádio. Fome, terremoto, assassinato — tudo representava uma ameaça. Na rua, era ainda

pior, por que, lá fora, dava para ver o perigo. Todos os cães tinham raiva, todo o trânsito era

mortal, todos os estranhos, psicopatas. No final, isso lhe afetou o equilíbrio mental. Aos

poucos, ela parou de trabalhar na livraria. Não demorou, e minha mãe mal saía do

apartamento. Às vezes, ela se surpreendia na escada, disse ele, sem se lembrar se estava

descendo ou subindo, ou para quê.

 

*

 

Tudo isso, escrito com frieza na página branca, faz com que pareça uma história triste, cheia

de sofrimento. Mas vivê-la não foi assim de forma alguma, não da forma que se afigura agora,

transmitida com essas palavras duras. Houve tristeza nas sombras, um sussurro baixo dentro

da cabeça, mas não foi opressivo. E, ao final, minha mãe foi, em muitos aspectos, mais

carinhosa em seu estado alterado do que na encarnação anterior. Depois que se ultrapassava a

pena por ela não ser alguém que se pudesse chamar de mãe e isso ter o significado comum,

minha mãe era uma pessoa querida. Era também mais calma que antes, e, embora nunca tenha

perdido inteiramente a ansiedade, em seus últimos anos, foi como se algo apertado tivesse se

afrouxado nela.