O Tom Ausente de Azul
Capítulo 25
Em certo ponto, ficou claro que minha mãe não estava bem. Comecei a notar que os fregueses
regulares da livraria usavam um tom particular quando a mencionavam para o meu pai. Como
vai sua esposa?, perguntavam eles. Ça va? Uma pergunta normal, mas dava para notar que não
era uma pergunta casual. Eles queriam saber se ela havia melhorado, e as expressões deles
continham algo que eu pensava ser pena. Um dia — é difícil identificar exatamente quando foi
— perguntei a meu pai o que havia de errado com minha mãe. Eu devia ter pelo menos treze
anos porque me lembro de ter perguntado em inglês. Mas sua resposta, quando veio, foi em
francês, como se o inglês pudesse ser desleal com o tema. Ele ficou em silêncio por alguns
instantes. Depois, limpou a garganta. Disse que não vinha sendo a mesma havia alguns anos e
que era improvável que fosse melhorar. Câncer? Sussurrei a palavra sabendo que era a pior
das coisas. Não, ele disse. C’est la tête qui va pas. É a cabeça dela. E ele colocou os braços
em volta de mim e me abraçou forte. Desse modo, compreendi que a situação era séria e que
nós devíamos cooperar.
Algum tempo antes dessa conversa, eu calculara que minha mãe usava peruca, mas
somente mais tarde fiquei sabendo que o cabelo dela caíra numa única noite, após ter perdido
o primeiro filho. Esse evento evidentemente moldou tudo o mais que se seguiu. Haveria mais
dois bebês, os dois natimortos, e com vários anos de separação, antes que eu chegasse ao
mundo, chorando e berrando a plenos pulmões — de acordo com meu pai, o som mais feliz
que já se ouvira na residência dos Logan.
Por um tempo após meu nascimento, minha mãe ficara inteiramente absorvida pelo
recomeço e pelas esperanças renovadas que um bebezinho traz, mas, na verdade, a dor
anterior havia se instalado em algum lugar profundo em seu peito e não queria desocupá-lo.
Ao longo dos anos, minha mãe se tornou cada vez mais congestionada pela dor. “Sabe, Eddie”, explicou meu pai, “o novo bebê, você fez algum progresso para fechar as feridas”.
Ele parou, sem saber como continuar. “Mas as feridas mesmo não estavam limpas.” Ele
acreditara que uma nova vida fosse protegê-la de mais dor, mas se enganara. Nos primeiros
anos, disse ele, as energias dela foram tomadas com os cuidados de seu adorável menininho,
mantendo-me longe do perigo e lidando com um pouco de ansiedade. “Mas, sob a superfície, a
tristeza a roía como um rato.” Com o tempo, a tristeza se tornou um mal monstruoso, e, aos
poucos, minha mãe perdeu sua conexão com o mundo.
Não temos memória da primeira infância, mas às vezes eu me perguntava se o mesmo rato
havia me roído também, quando eu era novo demais para saber. Talvez algo desses primeiros
anos tenha fixado residência no meu corpo — aquilo que se apresentava mesmo agora como
um aperto ocasional no peito.
Depois que minha mãe morreu, fiquei sabendo mais. Neste ponto, meu pai se sentia
liberado para falar a respeito. “Devíamos talvez ter aprendido a sofrer juntos”, disse ele um
dia, “mas não aprendemos”. E, assim, eles seguiram separadamente por um longo corredor
escuro, do qual meu pai saíra sozinho, enquanto minha mãe permanecera lá, presa num
doloroso túnel de vento. “Era quase como se ela não quisesse ficar inteiramente curada”,
disse ele. “Parte dela pensava que, se ela relaxasse demais, se ela parasse de sofrer e
baixasse a guarda, você também poderia ser tomado dela. Ela sentia que precisava fazer
penitência, barganhar com Deus. Tinha a ideia de que estava sendo punida por ter se
apaixonado, por ter se separado dos pais, por ter desdenhado da vida que eles haviam
planejado para ela. Não havia sentido em lhe dizer que Deus não existia, não havia ninguém
com quem barganhar.” Ele deu um suspiro, alisando os dedos um de cada vez, como se
estivesse verificando os ossos finos em busca de fraturas.
“Antes da coisa com os bebês, sua mãe e eu entendíamos tudo muito bem. De vez em
quando nos descobríamos concordando com Stendhal: a gente pode estar andando pela rua,
maravilhando-se com as estrelas, e de repente é morto por um cabriolé e seu cavalo. É assim
que Stendhal pensava nas coisas, e é assim que as coisas são. Durante a guerra, nós dois
sabíamos disso e aceitávamos. Não há sentido em pensar que podemos nos proteger contra
catástrofes. É tudo absolutamente aleatório.”
Mas, em vez de confiar em Stendhal, ao que parece, minha mãe tratara de criar estruturas
elaboradas para sobreviver melhor, de maneira que todos nós ficássemos seguros. Com esse
fim, ela criou as regras pelas quais viveríamos — “uma tentativa vã de vencer o próprio
medo”, disse meu pai. Ele continuou contando como ela presumia que devia haver problema
em cada esquina, sentindo o perigo até nas atividades mais inocentes. E, embora estivesse sempre em contato com Deus, era incapaz de deixar as coisas inteiramente nas mãos Dele,
nem mesmo as grandes decisões. Tinha fé no poder da oração, mas acreditava que, uma vez
que Deus decidira, não havia oração capaz de mudar uma decisão.
Ouvir meu pai falar sobre essas coisas trouxe de volta à minha mente um incidente da
infância. Eu caíra dos últimos seis degraus da escada que levava do nosso apartamento até a
livraria. Minha cabeça bateu no piso de pedra com um estrondo, mas, embora doesse, não
houve lesão grave. No entanto, num instante, minha mãe ficou histérica, sacudindo-me em seus
braços e querendo saber sucessivamente as respostas para todo tipo de perguntas — meu
nome, minha idade, meu endereço — como se tivesse prendido um suspeito na cena do crime.
Meu pai tentava contê-la e acalmá-la, mas ela se soltou e se atirou ao chão, dando graças a
Deus por Ele ter poupado seu pobre filho.
Afora Deus, disse meu pai, havia as leis da natureza que deviam ser consideradas. E,
embora elas também pudessem ser creditadas a Deus, não havia como saber quando uma
catástrofe poderia fugir do controle Dele. Nenhum desastre, por mais remoto ou improvável,
podia ser descartado. Minha mãe extrapolava com base nas histórias terríveis dos jornais ou
do rádio. Fome, terremoto, assassinato — tudo representava uma ameaça. Na rua, era ainda
pior, por que, lá fora, dava para ver o perigo. Todos os cães tinham raiva, todo o trânsito era
mortal, todos os estranhos, psicopatas. No final, isso lhe afetou o equilíbrio mental. Aos
poucos, ela parou de trabalhar na livraria. Não demorou, e minha mãe mal saía do
apartamento. Às vezes, ela se surpreendia na escada, disse ele, sem se lembrar se estava
descendo ou subindo, ou para quê.
*
Tudo isso, escrito com frieza na página branca, faz com que pareça uma história triste, cheia
de sofrimento. Mas vivê-la não foi assim de forma alguma, não da forma que se afigura agora,
transmitida com essas palavras duras. Houve tristeza nas sombras, um sussurro baixo dentro
da cabeça, mas não foi opressivo. E, ao final, minha mãe foi, em muitos aspectos, mais
carinhosa em seu estado alterado do que na encarnação anterior. Depois que se ultrapassava a
pena por ela não ser alguém que se pudesse chamar de mãe e isso ter o significado comum,
minha mãe era uma pessoa querida. Era também mais calma que antes, e, embora nunca tenha
perdido inteiramente a ansiedade, em seus últimos anos, foi como se algo apertado tivesse se
afrouxado nela.