O Tom Ausente de Azul

Jennie Erdal · Capítulo 12 de 59

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O Tom Ausente de Azul

Capítulo 11

 

É possível dizer que alguma decisão é verdadeiramente espontânea? Talvez não. O

subconsciente está sempre trabalhando, mexendo os pauzinhos.

Ao deixar a biblioteca naquele dia, com a cabeça ainda rodando pela emoção de ter em

mãos os escritos de Hume, peguei minha bicicleta no bicicletário da Parliament Square. Um

vendedor de flores havia montado sua barraca logo na entrada, e, num impulso — foi o que me

pareceu de qualquer forma —, comprei flores para Carrie como agradecimento pela noite

anterior. Fazer algo sem planejamento normalmente me deixava ansioso, mas, apesar disso,

escolher seis girassóis enormes para uma mulher que eu mal conhecia me pareceu

curiosamente estimulante.

Carrie acionou o botão que abria o portão eletrônico e apareceu no topo da escada. Ela

estava usando um avental de pintor um pouco rasgado e com pingos coloridos, as mangas

arregaçadas para revelar braços fortes e musculosos. Seu rosto brilhou quando ela viu as

flores. “Elas provavelmente vieram da França”, disse ela. “Que nem você!” Ela me apontou o

interior da casa e saiu para procurar um vaso. Ia avisar a Harry que tinham visita. “Mas, antes,

venha ao estúdio enquanto termino de me limpar.”

O estúdio de Carrie era espaçoso e iluminado. Tacos de madeira salpicados de tinta, sem

cortinas, jarras grandes com pincéis, telas escoradas nas paredes, itens curiosos suspensos do

teto, uma pia no canto e, perto dela, um antigo armário de pinho, no qual um bule e uma

chaleira velha com ranhuras no bojo estavam apoiados. Muita bagunça e caos — o tipo de

desordem que geralmente me deixava nervoso. Carrie pegou uma grande jarra verde no

armário da cozinha e colocou os girassóis. Eles entraram sem dificuldade, formando um grupo

agradável, como se respondessem ao ambiente de bom gosto e ao toque da artista. No

cavalete, havia uma grande tela brilhando de tinta fresca. Eu queria comentar algo inteligente sobre ela, mas não conseguia entendê-la. Naquele momento, a linguagem para interpretar uma

pintura estava simplesmente fora do meu alcance. Mais tarde, Carrie me diria que isso era

uma vantagem. Meus olhos eram inocentes como os de uma criança, embora para mim eles

fossem apenas rudes e ignorantes.

Andei pelo estúdio, assimilando tudo, torcendo para não estar me intrometendo, consciente

de como seria odioso se alguém entrasse no meu espaço de trabalho.

— Espero que você não se importe com a interrupção — falei.

Carrie respondeu com um sorriso e me disse que havia chegado ao fim do dia de trabalho

— era raro que pintasse depois das cinco ou seis da tarde. Ela chegava ao auge no meio da

manhã, disse, desde que pudesse entrar na disposição de espírito certa.

— Não sou uma dessas pessoas que conseguem saltar da cama e pegar o pincel.

Carrie me perguntou, então, sobre meu trabalho, como meu dia era estruturado. Enquanto

falava, retirou o avental e, com uns poucos movimentos graciosos, dobrou-o e jogou-o num

canto. Descrevi como meu tempo em Edimburgo seria dividido — manhãs em casa, tardes na

biblioteca — e como era importante para mim ter uma rotina fixa. Pensei: isso deve parecer

muito chato. Mas as perguntas continuavam, e ela parecia interessada e atenta. Às vezes, não

se percebe a importância de uma conversa na hora em que acontece.

Enquanto despejava o chá em duas canecas, Carrie disse que não sabia praticamente nada

sobre tradução, embora notasse que, quando as pessoas as elogiavam, elas geralmente as

chamavam de fiéis.

— Sabe, como aquele Greyfriars Bobby ou algo assim.

Ela riu, e, porque ela o fez, ri também.

— Quem é Greyfriars Bobby?

Ela riu de novo, dessa vez de mim, mas não me importei. Quando me contou a história do

cachorro que se sentava ao lado da sepultura do dono durante catorze anos, até sua própria

morte, eu disse que a conexão não era óbvia — entre uma boa tradução e deitar-se numa

sepultura. “Embora talvez eu devesse tentar.” Mais risos.

A conversa foi fácil e ansiosa, e, pelo menos para mim, a experiência era bastante nova.

Senti-me tão relaxado que qualquer um que estivesse olhando poderia ter pensado que eu

estava acostumado a esse tipo de envolvimento. Contei-lhe que os franceses tinham uma

máxima que comparava a tradução às esposas — ou elas são sem graça e fiéis, ou elas são

belas e traiçoeiras.

— Soa melhor em francês do que em inglês, porque rima: Les traductions sont comme les

femmes: quand elles sont belles, elles ne sont pas fidèles; et quand elles sont fidèles, elles ne sont pas belles.

Carrie disse que achava essa uma ideia muito francesa — a ideia de que uma esposa não

podia ser ao mesmo tempo bela e fiel. Ocorreu-me que eu poderia tê-la ofendido, mas o

sorriso dela me indicava o contrário. Eu disse que, na tradução, é preciso tentar ser fiel, sim,

mas, não importa o quanto se tente, alguma coisa sempre vai se perder. É preciso

simplesmente aceitar os fatos, é algo que sempre se soube, e às vezes ameaçava dominar o

tradutor, embora se tente evitar. Levantei-me e fui até o cavalete.

— Imagino que seja bem diferente com a pintura.

Carrie não me respondeu imediatamente, mas eu senti seus olhos nas minhas costas, e,

então, ela falou:

— Na verdade, a maior parte do que pinto é sobre perda. Tem sido assim faz um bom

tempo.

Queria saber mais, porém algo me conteve. Aquela conversa ficaria para outro dia.