O Tom Ausente de Azul
Capítulo 32
Depois da visita ao apartamento dos Sanderson, peguei minha bicicleta e fui direto para
Waverley, a estação de trem central em Edimburgo. A ideia de trabalhar era impossível —
estava me sentindo muito agitado. Algumas horas na estação de trem poderiam me tranquilizar.
Depois de prender a bicicleta nas grades, desci os degraus da estação, exposto às correntes de
ar como um túnel de vento, e fiz o trajeto até a área de espera principal, disposta como um
café de rua com lojas nas beiradas. Por alguns minutos, fiquei sob o imenso quadro de
informações que exibia as partidas e chegadas. Na Gare du Nord, em Paris, eu havia feito a
mesma coisa muitas vezes, fingindo verificar as informações de um trem, mas, na realidade,
aproveitando a oportunidade para me acomodar, para entrar na disposição correta.
Em Waverley havia mais de cinquenta pessoas na minha visão periférica, atravessando o
terminal, dirigindo-se à bilheteria, às bancas de comida, ou às instalações de lavanderia.
Havia o burburinho usual da estação: os sons de campainha dos anúncios informativos, o
bipe-bipe dos veículos de limpeza do piso avançando por grupos de pessoas deslocadas, e,
em todo lugar, o clamor coletivo de uma população que fala ao celular. Atrás de mim, um
homem contava à pessoa que o acompanhava: ela disse que estava tendo uma das dores de
cabeça dela, mas não acreditei, mas, se era indignação ou resignação, era difícil dizer.
Sextas-feiras são dias agradavelmente agitados em todas as estações principais. Nesse tipo de
multidão, ninguém me notaria. Pedi um café e sentei num banco alto numa das mesas elevadas,
de onde havia uma boa vista de quem chegava e saía. Minha visão sempre é atraída para
aqueles que estão apenas passando o tempo, prestes a embarcar numa viagem ou esperando
alguém que chega. Muitas vezes, observei que a própria espera é um tempo morto curioso, que
não se dá todo no presente, mas, em grande parte, em algum outro lugar ainda indefinido. É
tempo pelo qual se precisa passar, e a maioria das pessoas fica impaciente para que chegue ao fim.
A cada poucos segundos, as portas imensas de vidro que levam às plataformas da ferrovia
se abriam como cortinas no palco, revelando pequenas cenas de cumprimentos e despedidas.
Essas portas tinham um efeito hipnótico, calmante também. Encontros e partidas: era nisso
talvez que consistia a maior parte da vida.
No lado oposto do que se chamava de centro de viagens, havia fileiras de assentos, todas
elas ocupadas. Quando consegui me convencer a deixar de olhar as portas, fiz o que muitas
vezes faço em lugares públicos: usei meus olhos como a lente de uma câmera, registrando
imagens em ângulos amplos da multidão antes de focalizar um rosto específico, segurando a
visão tempo bastante para procurar pistas quanto à vida por trás dele e reforçando minha
teoria de que todo mundo está escapando de algo: um casamento, um segredo de família, um
passado criminoso.
*
Primeiro, pensei que eu o imaginara, que o tinha conjurado das sombras da minha mente. Mas
não havia dúvida sobre o cabelo despenteado, o sobretudo surrado, aquelas feições de ferro,
moldadas numa funilaria. Ele poderia ser um dos vagabundos de Esperando Godot, um
homem que talvez lutasse para remover as botas. Estava sentado no canto do bar que se abria
para a plataforma do terminal. Essa é a rotina dele, pensei. O café-bar com seus babados e
toldos tinha a localização perfeita para observá-lo sem ser notado. Que diabo ele fazia na
estação? Era bem possível que estivesse aguardando para encontrar alguém saindo de um trem
— talvez um filósofo em visita —, embora isso parecesse improvável, especialmente depois
do que a secretária dissera. Era muito mais provável que ele mesmo estivesse prestes a viajar,
embora, fora uma mala de mão, ele não parecesse ter bagagem alguma. Foi ficando mais claro
que ele estava ali para beber. Durante duas horas, ele deixou seu assento apenas duas vezes,
as duas vezes para fazer um pedido no bar. Enquanto isso, eu bebia café aos baldes. Tinha ido
à estação em busca de tranquilidade, mas minha cabeça agora estava muito agitada.
De repente, ele esvaziou o copo e saiu do bar. Encaminhava-se para a saída da estação,
devagar, com seus pés doloridos, mas, mesmo assim, com determinação, na direção da rua
Princes. Não me ocorreu nada, a não ser segui-lo. No meio da subida dos degraus da
Waverley, ele parou, segurando-se na grade para ganhar fôlego. Eu estava perto o bastante
para ver as feridas infeccionadas no dorso das mãos dele. Dispensa médica — era a
explicação óbvia. Ele deve ter decidido esconder de Carrie.
No topo da escada, ele se virou para a direita e atravessou a North Bridge no semáforo.
Desviando de pedestres e carrinhos de bebê, mantive uma distância segura, decidido a não
perdê-lo de vista na multidão de consumidores, já me perguntando como mais tarde eu
justificaria aquele comportamento para mim mesmo. No outro lado da North Bridge, ele se
dirigiu para fora do centro da cidade, subindo a Calton Hill, na direção das antigas cocheiras.
Momento em que decidi voltar para pegar minha bicicleta e segui-lo pela subida da colina —
dessa forma, se ele me visse, seria obra do acaso. Eu seria simplesmente um homem que volta
para casa, não alguém que age de modo suspeito seguindo uma pessoa que age de modo
suspeito. Meu outro pensamento foi o seguinte: como era injusto estar sentindo culpa...
Quando Sanderson fez a curva e saiu da estrada principal para a rua lateral que levava à
minha casa, parecia razoável esperar atrás por um instante. Dessa forma, ele teria tempo para
fazer o que pretendia antes de ser pego no flagra — o que quer que fosse. Mas, quando pedalei
até o pátio de paralelepípedos, não havia sinal dele. E, no entanto, ele tinha de estar por perto
em algum lugar — só havia um caminho para entrar e sair. Será que ele já estava dentro da
casa? Fique calmo. Tudo seria explicado. Após deixar minha bicicleta encostada no muro da
casa, procurei no bolso a chave da porta. Foi então que vislumbrei o jardim do pátio refletido
no vidro da janela e, por um momento fugaz, o movimento inconfundível de uma forma humana
se refletiu nele. Sanderson estava à espreita nos arbustos outra vez.
Por alguns segundos, congelei, em parte esperando que um machado dividisse meu crânio
em dois pedaços. Nas semanas anteriores, ele me impressionara como um homem complexo,
atormentado, mas até aquele momento não me havia ocorrido que ele poderia ser um psicopata
perigoso. Emotivo, sim, e às vezes de um modo excessivo. Mas, com certeza, nada cruel.
Contudo, por que um homem perderia tempo do lado de fora da casa de outro se não estivesse
mal-intencionado? Não era a primeira vez que eu desejava ser mais confiante na minha
avaliação de outras pessoas. O segredo era conseguir ligar os pontos. Os próprios pontos
eram, é claro, interessantes, mas não suficientes.
Com um estremecimento, entrei na casa o mais rápido possível, fechando a porta atrás de
mim com todo o peso do corpo, encostando-me na porta para evitar que o mundo virasse de
cabeça para baixo, tentando organizar minhas ideias. Antes que qualquer pensamento pudesse
se formar, porém, outra coisa surgia em mim: a sensação de que eu não estava sozinho na casa.
Verifiquei um cômodo de cada vez, como um detetive, embora um detetive ignorante daquilo
que procurava. Eu tocava a mobília e corria as mãos pelas paredes, como que para ter certeza
de que eram sólidas. No fundo do corredor, um leve odor indistinto penetrou minhas narinas — algo de perfume sutil, uma essência oriental, como sândalo ou almíscar. Meu nariz me
guiou até a área de serviço. Nada óbvio. Como antes, pus o olho no buraco da fechadura da
porta que levava à garagem. Mas, dessa vez, em vez da escuridão, era possível identificar, do
outro lado da porta, duas formas ovais, brancas nas extremidades e pretas no centro, brilhando
levemente. Um par de olhos humanos.
Fujo da casa, sem trancá-la, sem olhar para trás, o coração batendo na garganta, desço em
disparada a Calton Hill, passo pelo cemitério, em volta dos fundos da estação de trem,
correndo por todo o caminho até Holyrood Park e Salisbury Crags, e continuo até as ladeiras
que exigem muito dos pulmões no Arthur’s Seat, onde me atiro na grama e seguro minha
cabeça para fazê-la parar de martelar. Há uma urgência terrível para chorar, e tenho de me
concentrar muito para impedir que uma única lágrima venha — por alguma razão, isso parece
importante. Há um som de choramingo que deve estar vindo de mim. Pego uma pedra pequena
e a atiro o mais distante que consigo, depois outra e mais outra. O sol, fraco, já deu lugar a
uma massa de folhas de amoreira no imenso céu, uma mistura de nuvens e da escuridão que
cai. No parque, as pessoas cuidam de suas vidas — correndo, levando os cães para passear,
chutando bolas —; no entanto, mal as vejo. Elas estão em outro mundo, imensamente distante.
Tudo o que vejo, ainda, são os olhos do outro lado da porta, uma visão perturbadora de algo
inexplicável no centro de tudo.
Quem pode dizer por quanto tempo fiquei sentado lá ou o que fiz para passar o tempo? Por
fim, o frio no meu corpo me trouxe de volta a mim. Enquanto abotoava a camisa, ainda
molhada de suor, de repente, notei um movimento em minha linha de visão, um pouco distante
por trás de alguns arbustos. Na penumbra, era bem possível identificar um casal esparramado
na grama. Como eles tinham sorte de ter um ao outro, de estar deitados nos braços um do outro
num fim de tarde de sexta-feira, em vez de tremer numa camisa ensopada. Era esse o
pensamento que estava se formando na minha cabeça aturdida, quando o homem (ele não
parecia mais velho que um garoto) de repente se levantou e começou a gritar e gesticular para
mim. “Taolhanduquê, hein?”, gritou ele. “Se manda, taraduducaralhu!”
Um calor terrível subiu pelos lados do meu pescoço, enquanto eu cambaleava pela grama
para longe do casal, mantendo as mãos para cima como se estivesse preso ou à espera de
receber um tiro pelas costas, o chão inclinado e se despedaçando sob mim. Corri todo o
caminho até o cemitério, onde, ao lado do túmulo de Hume, me sentei quieto até que a
escuridão caiu.