O Tom Ausente de Azul
Capítulo 50
Houve muitas perguntas, e cada uma delas deixava um rastro de confusão próprio. Por que ele
havia ido para o norte, por que foi o rio Tay, lugar em que, até onde Carrie sabia, ele nunca
havia pescado? Sua vara favorita com anéis de bronze e linha vermelho-vivo também fora
recuperada. Tudo apontava para uma viagem planejada de pesca. Havia até uma de suas belas
moscas para salmão amarradas — embora, no começo de dezembro, uma mosca para salmão
não fizesse sentido algum. Talvez ele tenha escorregado, comentei, pensando se o bastão de
apoio tinha sido encontrado junto com a vara. Mas por que ele não contou a ninguém — isso
ela perguntou uma vez atrás da outra —, por que não deixou um bilhete? Talvez a carta de
demissão tenha sido um bilhete, disse eu. Nenhum de nós mencionou suicídio, mas ele estava
em segundo plano, ocasionalmente deslizando para o primeiro quando Carrie dizia coisas
como: “Não achava que ele fosse do tipo que faria isso.” E, numa ironia que o próprio
Sanderson poderia ter apreciado, o ensaio que eu traduzia durante aqueles dias terríveis era
“Sobre o suicídio” de Hume, no qual ele sustenta que “nenhum homem jamais se desfez de sua
vida enquanto valia a pena mantê-la”. Podemos até pensar nisso, ele escreve, como “nosso
dever com nós mesmos” — notre devoir envers nous-même, uma vez que a felicidade e o
bem-estar não podem mais ser alcançados. Pensei em mencionar isso para Carrie como forma
de conforto, mas decidi não fazê-lo. Com o tempo, ela começou a questionar o sentido de
tentar compreender o que havia acontecido exatamente, ou por quê. Descobrir a sequência
precisa de eventos não tornaria as coisas mais suportáveis, disse Carrie. Ela pensava que, ao
colocar os eventos numa ordem escolhida, apenas formalizamos o horror do que havia
acontecido. Você está certa, disse eu, desesperado para concordar com ela, talvez fosse um
erro tentar ver a situação com clareza demais. Sim, respondeu Carrie, as pessoas pareciam
sofrer mais quando compreendiam as coisas muito bem. Se olharmos a vida de soslaio, podemos ser poupados de parte de sua dureza. “A realidade mata, a obliquidade salva.” Era
essa a ideia a que ela se agarrava, e tudo que se seguiu foi, de certa forma, um extrato disso.
Um carro de polícia sem identificação nos buscou — “Achei que vocês não iam gostar de
entrar numa viatura oficial”, disse um dos policiais com leveza — e nos levou por oitenta
quilômetros, até Dundee. A bochecha de Carrie ficou pressionada contra a janela do carro
durante todo o caminho. Mais tarde, ela me contaria que tinha se concentrado em manter os
pensamentos sombrios distantes pensando nos nomes de tudo o que via pela janela, como
alguém que está aprendendo um idioma. Ao longo da orla marítima, havia um trem fazendo a
grande curva da ponte que atravessa o rio. Era um trem comprido, que traçava um arco quase
perfeito enquanto se preparava para parar na estação. O rio que havia levado Sanderson
brilhava, benigno, à luz do sol, enquanto se misturava ao mar.
O necrotério era parte de um hospital, um monumento ao planejamento moderno no
noroeste da cidade. O imenso complexo foi escavado numa inclinação leve, uma grande
Legolândia que dava vista para o vale no coração de Perthshire. Os acessos eram todos de
paralelepípedo e concreto, nada que acalmasse a alma ou aliviasse os olhos.
Enquanto nos aproximávamos da entrada, havia um grupo organizado do lado de fora das
portas, não um comitê de boas-vindas, mas um pelotão de fumantes, segregados por seu hábito.
Eles estavam em várias posições, uma confraria improvável — homens idosos, skinheads,
amputados em cadeiras de rodas, grávidas —, inalando profundamente, formando desenhos no
chão com guimbas e fósforos usados.
Anexa à entrada principal, havia uma construção parecida com uma varanda alta feita de
vidro e aço. As portas automáticas se abriam com intervalo de poucos segundos, mas o ar lá
dentro era quente e rançoso. Depois da varanda, via-se uma área grande não muito diferente
do saguão de um aeroporto — e tão cheia quanto. Metade das pessoas estava indo a algum
lugar, a outra metade estava sentada em volta, sem ter para onde ir. Havia lojas de vestuário,
floriculturas e cafés. No lado de fora da banca de jornal, um cartaz dizia: CORPO
ENCONTRADO NO TAY. Tentei me concentrar no ambiente em volta. Notei que não havia
curvas, somente linhas retas e colunas em forma de cruzes que dividiam a imensa amplidão em
naves centrais e transeptos. Eu imaginava se os arquitetos haviam tido a intenção de sugerir
uma igreja, para ajudar a aliviar os dramas particulares que se desenrolavam ali.
Quando viramos no final de um corredor, tão solitário e deserto como um palco vazio,
começamos a longa caminhada, os dois policiais um pouco à frente, virando-se para ver
Carrie a cada poucos passos, abrindo e segurando cada par de portas de incêndio que interrompia o corredor em intervalos regulares. Prosseguimos em silêncio. O único som era
das botas com cadarços de Carrie no piso de linóleo cinzento. Não falar parecia a única
defesa possível contra o que estava acontecendo.
Cada um de nós era restrito pelo protocolo da ocasião, embora, no meu caso, não tivesse
ideia do que ele poderia envolver. Para os policiais, imaginei que devia ser parte do trabalho,
tanto quanto organizar o trânsito ou lidar com roubos a residências. Para mim, era um dever
absurdo, uma consequência de estar ligado a um homem que aparentemente havia se afogado
num rio. Mas era também um tipo estranho de privilégio estar com Carrie numa hora dessas. O
policial que deu a notícia lhe perguntou o nome de alguém que pudesse fazer uma identificação
formal do corpo. Em certas circunstâncias, explicou ele, uma segunda pessoa era solicitada
pelo procurador para realizar esse dever. “Precisa ser alguém que tinha conhecimento do
falecido”, disse ele com precisão, como se estivesse recitando um livro de regras. Que
expressão estranha, disse-me Carrie depois, como se você pudesse ter conhecimento de uma
pessoa da mesma forma que podia ter de um fato. Ela levara alguns momentos para perceber
que o policial queria dizer alguém que conhecesse Harry. E, depois, ela disse: “Ah, Eddie.
Seria melhor que fosse Edgar”, acenando para mim. “Edgar?”, repetiu o policial. Seu caderno
e sua caneta estavam prontos. “E Edgar tinha conhecimento do dr. Sanderson?”
Fomos a uma porta assinalada Área de Recepção. Cada policial ficou de um lado da porta
e acenou para que entrássemos. A área era do tamanho de uma sala de espera de dentista, sem
janela, com várias poltronas baixas arrumadas em torno de uma mesa de centro de vidro com
pernas tubulares. O teto era baixo, e, no canto, havia uma porta com as letras WC numa
imitação de ouro. O lugar lembrava dolorosamente o meu quarto na unidade psiquiátrica há
tantos anos. Parecia que a ausência de beleza era requisito nesses lugares.
Todos nos sentamos, como se tivesse havido um acordo prévio. Sentia que havia bondade
no ar, que os policiais seriam gentis, tanto quanto a situação permitia. Só de olhar para eles
dava para dizer que tinham estado ali muitas vezes. Depois, Carrie disse que o pensamento de
que sua dor não era nova, que ela já fora vivida e sofrida antes, tornou tudo ainda mais difícil
de suportar. Devia ter sido um conforto, continuou ela, mas, por alguma razão, ela queria que
essa experiência fosse exclusiva, que fosse dela e de mais ninguém.
“Sra. Sanderson”, começou o policial. “Sabemos como isso deve ser difícil para a
senhora.” Minha garganta se contraiu. “Precisamos de uma identificação positiva do corpo que
encontramos, e esperamos que a senhora e o sr. Logan possam nos fornecer a identificação
positiva de que precisamos.” As bochechas do policial estavam fundas, como se ele tivesse
chupado uma fruta amarga. “Em alguns momentos, pedirei que os senhores fiquem de pé ao lado da janela, de onde poderão ver o corpo.” Ele acenou com a cabeça para a extremidade da
sala onde havia um painel de vidro, estranho chamá-lo de janela, cortado na parede na altura
dos olhos. Tinha cerca de um metro de comprimento e formato de losango com uma cortina
grossa por trás do vidro. Do outro lado, haveria um atendente que removeria o lençol do
corpo quando Carrie estivesse pronta. Não havia tempo para que todas as palavras
adquirissem significado. Isso é terrível demais, pensei, não pode estar acontecendo. “Está
pronta, sra. Sanderson? Leve o tempo que precisar.”
Ficamos alinhados na frente do vidro, um policial de cada lado de Carrie. Eu conseguia
ver nossos reflexos absurdos no vidro. A mão grande do policial se estendeu a frente e
pressionou um botão na parede. Houve um zunido baixo, e a cortina começou a se abrir.
Há um momento em que se imagina que outros resultados são possíveis. Esse foi meu
pensamento quando a cortina se abriu. É apenas um breve instante, mas tem grande
importância e pode parecer uma eternidade. A gente sente o inevitável; no entanto, tenta
resistir a ele com todas as forças.
Através do vidro, num carrinho de ferro, Sanderson jazia morto. Não havia dúvidas de que
estava morto. Mesmo que não nos tivessem contado, saberíamos. Seu corpo estava
visivelmente inchado, sua pele mais escura na morte do que em vida, como se ele tivesse
absorvido a lama negra do rio. A pele em seu peito parecia fria e macerada, como um pato
preparado para ir para o forno, e as costas das mãos estavam pálidas e inchadas. Os lugares
onde sua pele estava rasgada por feridas tinham a aparência de ferimentos de bala. Contudo, o
horror era estranhamente passageiro — como era possível? —, e dei por mim absorvendo os
detalhes como se mais tarde eu pudesse ser testado quanto a eles. Narinas de largura desigual,
unhas dos dedos descascadas, olhos como o do Quasímodo, um mais afundado do que o outro.
Quanto ao que achava que devia sentir, não houve quase nada. O tanto que experimentava de
tristeza, eu o fazia apenas indiretamente, por intermédio de Carrie. Mais agudamente quando
ela estendeu a mão de modo instintivo para tocar o marido morto e descobriu que o vidro não
permitiria. Depois, ela reclamaria que o cabelo dele estava muito liso, que alguém deve tê-lo
enchido de óleo e penteado do jeito errado. Por que eles tinham de fazer isso?
— Reconhece o corpo, sra. Sanderson?
— É o Harry — disse ela, apertando a língua entre os dentes.
— A senhora tem certeza?
— Tenho, sim.
Com que rapidez o extraordinário é absorvido e assimilado, e que violência ele provoca ao se tornar comum: Sanderson, deitado num carrinho, esperando para ser jogado de volta no
frigorífico. As pessoas falam sobre dignidade na morte. O que quer que isso significasse, não
era estar deitado numa placa sob um lençol vinho.
No momento imediatamente posterior, tudo ficou nublado para Carrie, assim ela relatou mais
tarde. Houve atividade frenética: telefonemas, visitas, os aspectos práticos exaustivos da
morte, todo o choque e a descrença. Mas a atividade parecia estar em outro lugar, fora de
alcance. Ela se sentia como uma inválida, ou uma criança, jovem demais, doente demais para
tomar decisões. Enquanto isso, tudo estava coberto numa espécie de névoa sépia pela qual ela
prosseguia com dificuldade, aos tropeços, derrubada pela densidade pura de tudo. Ela
gostaria de um pouco de chá? Estava bem-aquecida? Que tal uma caminhada? Nenhuma
resposta era obrigatória. As perguntas expressavam meramente as necessidades daqueles que
as perguntavam.
Depois que esses dias iniciais passaram, Carrie disse que não poderia reconstituí-los.
Quantos tinham sido? Dois ou três, nove ou dez — ela não fazia ideia. As pessoas
subscreviam com energia ao imperativo: A Vida Tem de Continuar. Mas era uma vida
estranha, vista por trás da névoa. Suas irmãs chegaram com os maridos, aparentando falta de
jeito e piedade. Entregaram flores envoltas em celofane e trocaram olhares de horror. E foram
embora. A mãe apareceu brevemente e falou sobre o poder da oração. Outros vinham e iam
embora e prometiam voltar. Falavam para preencher o silêncio, tagarelando porque não
conseguiam evitar, carregando a atmosfera com aquela piedade especial e profunda, com
traços de culpa, reservada para o luto de outra pessoa. O telefone tocava sem parar, mas
Carrie não atendia. Os vizinhos apareceram com panelas de sopa e bolos grandes. Tanta
comida, disse Carrie. Outras visitas se preocupavam com pequenas tarefas práticas, fazer
café, dobrar guardanapos, tirar migalhas da torradeira, limpar superfícies já perfeitamente
limpas. O que quer que estivessem sentindo foi transformado em vigor e boas obras. Comecei
a me perguntar se era somente quando alguém estava morto que as coisas eram limpas assim.
A própria Carrie mal notava tudo aquilo. Quando falou sobre esses dias, depois de
terminados, ela disse que mal registrara as pessoas boas e gentis. Ela notara seus rostos
através de vidro fosco, ouvira suas vozes a distância e desejara que Harry estivesse em casa,
e não num carrinho no necrotério.
Enquanto isso, nos raros momentos que não eram tomados pela morte de Sanderson, eu
contemplava o desastre dos ensaios perdidos.