O Tom Ausente de Azul

Jennie Erdal · Capítulo 37 de 59

Páginas do PDF

O Tom Ausente de Azul

Capítulo 36

 

Agora que estava claro que Carrie era a presença invisível na minha casa, uma sensação de

alívio, seguida de uma deliciosa calma, infiltrou-se em mim. Talvez fosse estranho não se

sentir violado ou, de algum modo, invadido, mas, na verdade, minha sensação era mais

próxima de um prazer ridículo por morar num lugar em que Carrie tinha interesse. Quando

pensava nela entrando pela porta e indo às escondidas pela área de serviço até a garagem com

todos os seus tapetes e almofadas e kilims, eu sentia como se minha vida tivesse adquirido

milagrosamente uma dimensão diferente. Fora o fato de que havia uma leve dor no meu peito

pelo sofrimento malcompreendido de uma mulher de quem eu não sabia quase nada. (Do

homem com quem ela compartilhava a vida, eu às vezes achava que sabia quase tudo.)

Nenhum desses pensamentos estava adequadamente formado ou era de todo consciente. Eu não

tinha ímpeto de fazer nada. Era apenas questão de esperar.

 

Enquanto isso, continuei com a atividade de traduzir — um trabalho feito com prazer, no caso

de David Hume. Ele era uma lembrança constante de que, se alguém deseja ser um tradutor

passável, não é suficiente aprender a língua, por melhor que se tenha aprendido. É preciso

também estar em harmonia com o autor, transformando e moldando suas palavras em novas

palavras que se conectarão a um grupo diferente de leitores, não familiarizados com o

original. O tradutor precisa ser escrupuloso e aplicado, mas não apenas com as palavras —

esse tipo de rigidez pode deixar um texto mortinho da silva. O espírito da obra tem a mesma

importância. Dante acreditava que transformar um trabalho artístico de uma língua para a outra

destruía toda a sua doçura, e, embora talvez haja alguma verdade nisso, ainda acho que vale a

pena tentar provar, de modo incansável, que Dante estava errado. Com esse fim, sempre

aplico o “teste da doçura” ao ler o meu trabalho do dia. Os tradutores franceses têm certa reputação de liberalidade com o texto, e, se são acusados de alterar o sentido do original,

geralmente se defendem com argumentos previsíveis: “Tudo ganha em ficar um pouco mais

afrancesado, isso é claro, e, de qualquer forma, o texto soa menos ‘traduzido’ assim.” Eu

mesmo não tenho tempo para esse tipo de atitude soberba. Ela quebra o laço de confiança

entre o escritor e o tradutor. E o idioma francês, como qualquer outro, precisa estar aberto a

novas correntes e associações. É assim que ele prospera. A pureza de um idioma é uma coisa

mítica — o caminho mais certo para a atrofia.

Com a tradução, nós nos expomos a outras mentes, outros modos de ser, outras

possibilidades. É essa a beleza da coisa. Podemos imaginar mundos que não tivemos a

oportunidade de conhecer. E isso se aplica tanto ao leitor quanto ao tradutor. Deve haver uma

sensação de confiança, quando nos dedicamos a ela. Talvez, nem sempre a confiança seja

recompensada; porém, quando é, as recompensas são enormes.

Com os ensaios de Hume, parte da tarefa era captar o esplendor da beleza de suas

reflexões e o clímax estilístico de suas frases. Senti-me grato pela elegância de estilo de

Hume, até porque elegância era algo que os leitores procuravam numa tradução, e, caso ela

estivesse ausente, o tradutor sempre era o principal suspeito. Nunca esqueci o elogio ambíguo

feito por um resenhista de um dos meus romances policiais: “elegante mesmo em tradução” —

même en traduction. Como se a elegância fosse algo que os tradutores em geral eliminassem,

só pelo gostinho. Ou como se, na hipótese de uma parte da elegância sobreviver, isso fosse

algo inteiramente acidental. Por alguma razão, há uma falta de generosidade com tradutores,

embora seja difícil saber por quê.

Com o empreendimento atual, parte de mim ansiava por ser capaz de restaurar a fé na

tradução. Parecia um objetivo de proporções ridículas, mas não havia perigo que eu nutrisse

ideias grandiosas sobre mim: o trabalho diário me reduzia ao meu tamanho a todo tempo. Essa

era sua natureza. Mesmo assim, numa parte remota da mente, havia uma leve esperança de que,

se eu conseguisse realizá-lo bem o bastante, meu trabalho com Hume seria, um dia, uma

tradução de confiança. Valorizada, até. A tarefa era hercúlea, mas houve breves momentos —

em geral, quando eu tinha acabado de burilar um dos ensaios — em que me senti à altura dela.

Um dos objetivos declarados do próprio Hume tinha sido reconciliar a filosofia com o que

ele chamava de “vida comum”, e, portanto, ele se esforçou nos ensaios para tornar a escrita ao

mesmo tempo útil e acessível. “Não posso deixar de me considerar uma espécie de enviado

diplomático ou embaixador dos domínios do aprendizado para os da conversação: e devo

pensar que é meu dever constante promover a correspondência contínua entre esses dois

estados, que têm uma dependência tão grande um do outro.” Seu Tratado da natureza humana anterior, no qual ele investira grandes esperanças, fracassara em se conectar com as pessoas,

saindo natimorto da gráfica, conforme ele descreveu. Determinado a não repetir o fracasso,

ele usou em seus ensaios palavras que pertenciam à linguagem comum da época. Por essa

razão, eles poderiam ser traduzidos razoavelmente para uma espécie de francês cotidiano —

uma tradução moderna-padrão —, e essa, sem dúvida, teria sido a preferência de Mauvignier,

meu editor de pouca cultura. No entanto, decidi-me contra isso desde o início. Parecia

importante não perder a diversidade e a riqueza do vocabulário de Hume, e, tão importante

quanto isso, usando palavras francesas ligeiramente arcaicas, reter a elegância de sua pena e

dar o verdadeiro sabor de certos paradigmas característicos do tempo em que Hume viveu.

Não tomei liberdades com o texto; meu objetivo foi sempre transmitir o sentido o mais

precisamente possível sem tirar nem pôr. Era importante refletir o estilo de Hume, não impor

o meu. Com esse fim, eu às vezes passava o dia inteiro numa única palavra, oscilando entre a

determinação de acertar e o desespero de lhe fazer justiça. Recentemente, por exemplo, eu me

afligia com a palavra commonwealth, que, no tempo de Hume, tinha conotações de corpo

político — o estado, a comunidade e a república — sem corresponder estritamente a nenhum

deles. République não daria conta: era muito geral, muito francês e implicava que

commonwealth era uma espécie de regime republicano. Depois de um dia de indecisão, visitei

o túmulo de Hume na volta para casa e passei alguns minutos consultando-o aos sussurros —

uma estratégia que invariavelmente levava a resoluções felizes. Deixei o cemitério

caminhando animado, o problema já desaparecido na escuridão. A decisão tomada era óbvia:

commonwealth era insubstituível. Não havia equivalente em francês. A palavra precisaria,

portanto, ser mantida — junto com uma nota de rodapé.

 

*

 

Eu havia chegado ao inglês cheio de esperança e ansiedade, e essa sensação otimista nunca me

deixou por inteiro. Como era satisfatório ganhar a vida com ele e tirar dele a vida —

especialmente uma vida tão discreta a ponto de ser invisível. Em momentos de fantasia, eu me

imaginava uma espécie de ponte humana entre culturas — uma ideia de grandeza, talvez, mas

temperada com um desejo intenso de que as pessoas atravessariam a ponte sem nem sequer

notar que eu estava lá.

Há muito tempo, quando anunciei minha decisão de me tornar tradutor, meu pai se

declarara orgulhoso de um filho que trabalharia com palavras. Ele acreditava que a língua era

a coisa que nos atrelava ao mundo. “Se pararmos para pensar”, dizia ele, “é o tecido conjuntivo. Os órgãos vitais não podem ficar sem ele”. Mas ele emitiu uma nota de alerta.

Podia também ser uma barreira, disse ele, uma tela que obscurece, e, mesmo quando as

pessoas falam a mesma língua, a comunicação eficiente nem sempre ocorre. “Na verdade,

quando ocorre, é um milagre.”

Momentos como esse, que continham um selo paternal de aprovação, eram armazenados

cuidadosamente na memória. E não era somente das palavras que eu me lembrava. Como se

estivesse assistindo a um filme, conseguia ver meu pai nos mínimos detalhes, cada aceno de

cabeça, cada movimento de mãos, o olhar distante.

Na minha carteira, levo uma fotografia do meu pai recostado nas prateleiras da livraria, de

cigarro na mão. Adoro essa fotografia, principalmente porque ela capta perfeitamente a vida e

a morte. Era um homem que, muitas vezes, se levantava ao raiar do dia e descia a escada para

se sentar em meio aos livros. E foi em meio aos livros que sua vida chegou ao fim. Muitas

vezes, tiro a fotografia da carteira e passo a mão pela superfície, como que para sentir o

áspero tweed de sua jaqueta e me lembrar dos odores complexos que o tecido antigo

acumulara — cigarros Gitanes sem filtro, poeira, naftalina.

No dia em que meu pai morreu, havíamos combinado de nos encontrar para o café da

manhã. É provável que ele tenha sofrido um ataque cardíaco no início da manhã, enquanto

empilhava as prateleiras altas. Mas, quando cheguei à livraria, ele estava deitado, ainda vivo,

no chão, e, naqueles primeiros momentos, tudo apontava para um assalto: escada virada de

lado, livros espalhados e sangue saindo de um talho na cabeça. Ajoelhei-me ao lado dele,

segurando sua cabeça, dizendo-lhe que era eu, que eu estava lá, que tudo ficaria bem. Ele não

conseguia falar, mas seu último olhar penetrante parecia dizer: “Não se preocupe. Isso é o que

acontece; minha hora chegou, estou lhe mostrando como fazer. Quando sua hora chegar você

vai saber.” Naqueles últimos e intensos minutos antes que os paramédicos chegassem, falei

suavemente com ele, palavras tranquilizadoras em sua língua materna, relembrando, enquanto

isso, os momentos em que havia sido diferente e fora ele quem me segurara nos braços e me

confortara. Agora, não parecia importar quem de nós era quem. Éramos um e a mesma pessoa.

Mais tarde, coube a mim a tarefa de organizar os livros na loja. Por semanas, parecia que

eu estava desmantelando meu pai e a vida que ele vivera. Embalar cada caixa era um pequeno

ato de agressão, e, quando terminou, o lugar estava desocupado, vazio de sentido. Por muito

tempo, uma sensação de perda terrível me perseguiu, sempre visível no espelho retrovisor. E,

mesmo quando não havia mais que um ou dois pontinhos a distância, ela nunca desapareceu

por completo.