O Tom Ausente de Azul

Jennie Erdal · Capítulo 3 de 59

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O Tom Ausente de Azul

Capítulo 2

 

Cheguei a Edimburgo no último dia de agosto. Todo mundo já ouviu relatos desfavoráveis

sobre o verão na Escócia, mas era fácil duvidar deles naquele dia. O calor que eu deixara

para trás em Paris era do tipo que sufocava e fazia a gente se sentir apenas meio vivo, mas,

naquela segunda-feira de agosto, a cidade que seria meu lar temporário se expandia de forma

gloriosa sob um vasto céu azul. Quando desci do ônibus que sai do aeroporto no Centro da

cidade, havia uma brisa fresca que alisava a pele e me enchia com uma sensação de

possibilidade. Era um desses raros momentos em que o mundo físico exterior parecia em

perfeita harmonia com o eu interior. Edimburgo era claramente uma cidade en fête: as ruas

estavam cheias de malabaristas e homens com pernas de pau, e todas as superfícies pareciam

exibir um cartaz, cada um prometendo uma atração cultural diferente: tambores japoneses,

ópera-cômica, balé russo, Shakespeare condensado (o que quer que fosse isso). Eu já me

sentia bem só de estar lá.

Eu passaria seis meses na Escócia, trabalhando com manuscritos do século XVIII

guardados na Biblioteca Nacional do país. Uma editora em Paris me contratara pouco tempo

antes para fazer uma edição francesa dos ensaios de David Hume. A ideia de ir a Edimburgo

para trabalhar com a obra de Hume vinha se formando em minha cabeça havia anos, e, quando

finalmente aconteceu, eu estava me sentindo um pouco tonto de ansiedade. Eu poderia

consultar os manuscritos originais na biblioteca onde o próprio David Hume havia sido

curador e, fantasiando, gostava de pensar que seu espírito inspiraria o projeto. A decisão de ir

para Edimburgo também continha um elemento de peregrinação pessoal. Além de ser a cidade

em que Hume havia vivido e morrido, era o lugar onde meu pai havia estudado.

Os meses anteriores tinham sido gastos com a resolução de coisas práticas: certificar-me

de que a Biblioteca Nacional em Edimburgo deixaria os manuscritos de Hume disponíveis para mim, candidatar-me a bolsas de várias fundações culturais em busca de financiamento

extra, escrever para a Universidade de Edimburgo para solicitar um cargo sem honorários no

departamento de filosofia; assim, eu teria acesso a bibliotecas e instalações do corpo docente.

Tudo se encaixara de forma rápida e suave. A única coisa que faltava era colocar meu

apartamento em Paris para alugar e arranjar acomodação em Edimburgo. Nisso, mais uma vez,

a universidade ajudou, pondo-me em contato com um acadêmico chamado Martin Blandford,

com o qual tive a sorte de fazer uma simples troca. Ele queria passar sua licença sabática na

Sorbonne, escrevendo um livro sobre Jean-Paul Sartre. A simplicidade desse acordo — Sartre

em troca de Hume — era perfeita, e não havia dúvida em minha cabeça de quem havia levado

a melhor.

A residência de Martin Blandford em Edimburgo, como vim a saber, ficava perto da

Calton Hill, numa charmosa fileira de casas em forma de ferradura, a leste do Centro da

cidade. O taxista dissera: “Ah, é uma das antigas cocheiras”, e no meu léxico mental imaginei

antigas coxias — com certeza a coisa exata para uma aventura literária. Mais tarde, quando

conheci a cidade, descobri muitas cocheiras antigas, construídas no início do século XIX para

servir como anexo para os casarões próximos. Seus térreos haviam sido usados para

acomodar cavalos, e os cavalariços e cocheiros dormiam no andar de cima. Pelo que eu sabia,

não havia equivalente a essas antigas cocheiras em Paris, pelo menos nenhuma que eu tivesse

visto. O que me fez divagar sobre onde todos os cavalos franceses e seus cocheiros passavam

as noites.

Minha antiga cocheira — minha coxia — adequava-se perfeitamente a mim, mais do que

qualquer coisa que eu poderia ter imaginado no meio de uma cidade. Pequena como uma casa

de boneca, ficava numa fileira de cerca de uma dúzia de outras iguais em formato de

ferradura, num pátio de paralelepípedos com um jardim elevado em forma de pera, cheio de

árvores e arbustos ao centro. Um pequeno esconderijo reservado, como uma vila em

miniatura, que dava a impressão de não ter conexão óbvia com o restante da cidade; a rua

parecia ter sido desenhada por uma criança — pitoresca e assimétrica, com a perspectiva toda

torta. A casinha em si estava coberta de hera, e, à direita da porta, havia uma garagem anexa

(o antigo estábulo), pintada de azul. Dentro, existia um hall de entrada com uma mesa estreita,

com o restante do térreo dedicado a uma cozinha e uma sala de jantar interligadas. Saindo da

cozinha, havia uma pequena área de serviço com uma máquina de lavar e secar e, de modo

bizarro, uma bicicleta pendurada num gancho no teto. Outra porta, que presumivelmente

levava à garagem, estava fortemente trancada. No andar de cima, havia uma sala de estar, uma

cama de casal e um pequeno escritório com uma mesa e duas estantes vazias — ideais para o meu objetivo. No canto da sala de estar, um pano de batique colorido estava disposto sobre

algo grande e quadrado. Eu quase esperava descobrir um pássaro dormindo numa gaiola, mas

não: era um aparelho de TV, escondido. O quarto era parcamente mobiliado, e as paredes, fora

uma pintura solitária, estavam nuas. Parecia ter sido preparado para alguém que estivesse ali

de passagem, para morar por seis meses. Blandford tinha sido muito atencioso. Tudo cheirava

a frescor e limpeza, e havia até flores colhidas num vaso alto na mesa do hall. As cores tinham

certa suavidade, tons que as pessoas às vezes chamam de femininos. Quase certamente gay,

concluí, embora fosse bem possível que Blandford estivesse fazendo a mesma suposição a

meu respeito, baseada em meu apartamento cuidadosamente preparado em Paris. Na verdade,

eu nada sabia sobre a vida de Blandford, mas tudo apontava para a moradia solitária e o gosto

pela ordem: nenhuma desorganização doméstica, nenhum brinquedo de criança, nenhum

indício da bagunça da vida corriqueira, nenhum ornamento ou objeto medonho, só uma ou duas

tigelas cerâmicas de bom gosto aqui e ali, e uma única fotografia em preto e branco de um

casal, presumivelmente do casamento de seus pais. Fora a fotografia e alguns livros de

referência numa prateleira, os cômodos eram bastante impessoais. Eu gostava daquilo. A

pessoalidade podia desviar muito a atenção e chegar a ser perturbadora. Minha preferência

era por algo como um quarto de hotel, um lugar para onde seria fácil se mudar e do qual fosse

igualmente fácil desaparecer no meio da noite sem deixar marcas. Olhei em volta para meu

novo ambiente e mal podia acreditar na minha sorte. Aquele era um lugar que oferecia a

possibilidade de satisfação.

Na mesa ao lado das flores, Blandford deixara um bilhete.

 

Caro Edgar,

 

Bem-vindo a Edimburgo. Espero que encontre tudo em ordem por aqui. Há um molho de chaves reserva no nº. 16, caso

você fique trancado do lado de fora, e um bloco de “Notas explicativas sobre a casa” na gaveta da mesa do hall. Você

pode usar minha bicicleta — ela está pendurada na área de serviço. A garagem contém meus itens pessoais e, portanto,

está trancada. A sra. Bannerman (a faxineira) vem toda terça-feira às 8h30 e fica por duas horas. Você não precisa

estar aqui (ela tem a chave), mas deve deixar 15 libras em dinheiro na mesa do corredor toda semana.

Meus melhores votos de meses produtivos.

Atenciosamente,

Martin Blandford

 

P.S.: Deixei um convite que pode lhe interessar. Por favor, sinta-se à vontade para ir em meu lugar.

 

O convite — por sinal, para mais tarde no mesmo dia — era para uma palestra com o título “A

humanidade de Hume” seguida por uma recepção. Eu planejara desfazer as malas e me instalar em meus novos aposentos, mas isso parecia interessante demais para perder. Desfaria as

malas depois. Agora percebo, em retrospectiva, que talvez essa tenha sido a primeira de uma

série de decisões que não combinavam com meu temperamento. Edimburgo já estava tendo um

efeito libertador.

A palestra ocorreria na David Hume Tower — era evidente que havia toda uma indústria

em torno de Hume nessas paragens. O cartão impresso tinha as letras SUPA na parte de cima e,

embaixo, entre parênteses, o nome da associação de filosofia das universidades escocesas:

Scottish Universities Philosophical Association. Estranhamente, havia outro cartão ao lado

desse com uma sigla em negrito — uma notificação da SEPA (Scottish Environmental

Protection Agency), a agência de proteção ambiental escocesa, avisando que um exame da

água fornecida seria realizado durante a semana seguinte. SUPA e SEPA, eu disse em voz alta,

experimentando as estranhas novas palavras.