O Tom Ausente de Azul

Jennie Erdal · Capítulo 45 de 59

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O Tom Ausente de Azul

Capítulo 44

 

Não sou uma dessas pessoas que dão grande importância à sincronicidade dos eventos. As

coisas ou acontecem juntas ou acontecem separadas. Mais tarde, no entanto, eu passaria a crer

que, se não fosse a coincidência de certas coisas, a catástrofe resultante poderia ter sido

evitada. Quando olho para trás, tudo, cada detalhe, parece adquirir uma importância enorme.

 

O livro de Sanderson, Felicidade: um guia filosófico estava para ser publicado no meio de

novembro. “Um acontecimento sem importância, Eddie”, disse Sanderson com segurança um

dia ou dois antes da publicação. “Você certamente está envolvido em algo que vale a pena,

enquanto não há dúvidas de que meu livro só vai pôr as pessoas para dormir.” Na melhor das

hipóteses, disse Sanderson, pode ser que ele, depois de alguns anos, receba uma curta resenha

em algum periódico de filosofia obscuro. Mas o mais provável é que fique juntando poeira

numa prateleira de biblioteca universitária em algum lugar.

Sanderson estava redondamente enganado em suas previsões. Alguns dias depois que o

livro saiu, cientistas da Universidade da Califórnia disseram ter descoberto um “gene da

felicidade”, e, de repente, todos os canais de notícias dos dois lados do Atlântico estavam

falando nisso, como se a felicidade fosse um fenômeno completamente novo. Poderia ser

verdade que a felicidade era herdada? Era questão de ancestrais, em vez de circunstâncias

externas? Era possível que tudo fosse predeterminado? Os responsáveis por definir a agenda

de notícias internacional rapidamente decidiram que felicidade era a notícia mais importante,

e os editores de toda parte estavam ansiosos para encontrar formas diferentes de apresentar a

história.

Como o estado de espírito de Sanderson o impedia de saber o que estava acontecendo no

mundo, o convite para aparecer na televisão no horário do café da manhã tomou-o de completa surpresa. Ele foi contatado de uma hora para outra, disse, “por algum jovem pesquisador

inteligente”, ansioso para ter “uma perspectiva filosófica” numa discussão sobre a

surpreendente nova descoberta do gene da felicidade. E foi assim que acabou se sentando num

estúdio em Edimburgo e sendo entrevistado no Bom-dia, Grã-Bretanha por um casal jovial

sentado num sofá em tons pastel em Londres. O apresentador de boa aparência tinha um

sorriso vazio e segurava um exemplar do livro de Sanderson para as câmeras.

— Pois bem, dr. Sanderson. A felicidade ainda é um terreno reservado ao estudo

filosófico? — perguntou a apresentadora, cuja alegria era tão intensa que chegava a ser

suspeita. — Ou apenas se resume a se os seus pais foram ou não felizes?

Sanderson dava a impressão de ter acabado de acordar de um longo sono que o

desconectara do mundo. Seus olhos estavam cheios d’água e mostravam ansiedade, e, por seu

rosto, havia feridas como crateras, que a maquiadora não conseguiu esconder por completo.

Ele pareceu surpreso com a pergunta e girou a cabeça, como que para achar o lugar de onde

vinha a voz.

— Bem, depende, é claro, do que se quer dizer com felicidade — disse ele. — As pessoas

falam de felicidade de forma vaga, mas, na verdade, ela não existe. — Ele soava titubeante,

inseguro.

— Não existe? — Foi a resposta do homem sorridente. — E, mesmo assim o senhor

escreveu um livro inteirinho sobre ela, não foi, dr. Sanderson? — Ele sorriu, exibindo uma

arcada perfeita de dentes brancos.

— Ah, sim, mas não foi exatamente uma escolha. Não foi uma questão de livre-arbítrio,

compreende? E, a propósito, uma das coisas que levaria uma vida a ser caracterizada, embora

inutilmente, como infeliz, é quando suas escolhas são limitadas pela intervenção de outras

pessoas.

— É... bem... voltando ao nosso assunto nessa manhã, o que é essa coisa chamada

felicidade, na opinião do senhor? Filosoficamente falando, quer dizer. — O homem sorridente

parecia satisfeito consigo mesmo de um jeito inexplicável.

Sanderson falava com a autossuspeita de alguém que espera que a vida o maltrate.

Aristóteles, dizia ele, havia ensinado que a vida ideal era a vida de eudaimonia como o mais

alto bem humano e tratava de estudar formas nas quais ela podia ser obtida. Isso nada tinha a

ver com o que foi chamado comumente de felicidade, que era essencialmente um estado

subjetivo, uma avaliação pessoal da qualidade da vida de alguém, com mais frequência

relacionada a prazer sensorial e gratificação instantânea.

— Ah, mas — interrompeu a alegre apresentadora, olhando suas notas — é melhor ser um porco satisfeito ou Sócrates insatisfeito? — Tinha o olhar de uma mulher que não está

familiarizada nem com Sócrates nem com porcos.

— Ah, essa é velha. — respondeu Sanderson. — O porco feliz ou o Sócrates infeliz. Bem,

se estivermos brincando disso, é muito melhor ser um Sócrates feliz, eu diria. O problema é

que ninguém jamais propôs uma forma razoável de medir a felicidade, palavra com a qual as

pessoas, em geral, querem dizer prazer, é claro. Não se pode quantificar o prazer de assistir

futebol ou ler poesia. Não há hierarquia. Não dá para pesar. As pessoas gostam de coisas

diferentes. Algumas gostam de sair para pescar. Outras se sentam em silêncio e ficam olhando

para uma parede. É simples assim. Não dá para criar um índice.

— Ah, mas com certeza é possível. — Era o rapaz sorridente de novo, dessa vez com um

brilho nos olhos que dizia “te peguei”. — Os governos estão a caminho de fazer exatamente

isso. De acordo com a secretária de Interior, nosso governo está criando um Índice de

Felicidade neste exato momento.

— Mas esse é o tipo de coisa maluca que os governos fazem — retrucou Sanderson. —

Eles já nos dizem o que comer, onde não fumar, o quanto se pode beber. Os governos futuros

provavelmente vão nos dizer como amar, como nos comportar quando estamos amando, o que

fazer quando ele terminar.

A mulher alegre começou a parecer um pouco nervosa. — Bem, o que o senhor diria a

Liev Tolstói — disse, com entusiasmo exagerado —, que achava que todas as famílias felizes

eram iguais, mas que cada família infeliz era infeliz à sua maneira? Não era Liev Tolstói,

como o senhor, também um pouco filósofo?

Sanderson bufou e disse que Tolstói estava apenas sendo espirituoso. As famílias felizes

não eram na verdade todas parecidas. Cada família feliz, se é que isso existia, tivera sorte

suficiente de encontrar o próprio caminho em meio aos empecilhos à felicidade, pelo terrível

pântano que era a família. As famílias infelizes geralmente eram assim por motivos quase

idênticos, todos eles relacionados aos sacrifícios de fazer parte de uma família.

Nesse ponto, os dois apresentadores, ainda sorrindo, agradeceram ao dr. Sanderson em

uníssono e terminaram a entrevista de modo abrupto.

Assisti à entrevista na televisão com uma mistura de admiração e receio, enquanto

Sanderson se recusava a dizer o que se esperava dele. Mas eu desejava que ele se saísse bem,

e a sensação predominante era de um estranho tipo de orgulho. Lá estava um homem à beira do

abismo, cuja pele estava descascando do corpo, que fora suspenso do emprego, que

suspeitava da mulher de forma paranoica e que se tornara repulsivo para si mesmo. Que um

homem desses tenha conseguido cumprir suas obrigações nessas circunstâncias era algo notável. Você se saiu bem, comentei com ele depois. Ah, é só ser conivente com uma farsa sem

sentido, foi a resposta. “Quando publicamos um livro, mexemos com forças malignas. Aquela

moça não enxergava um palmo adiante do nariz.”

As forças malignas se multiplicaram. À entrevista, logo se seguiu um artigo no The New

York Times, enviado para publicação pelo correspondente do jornal em Londres, que ficou

muito impressionado com Sanderson e com o que descreveu como “sua preocupação inocente

com a verdade” e “seu estilo de uma transparência invulgar”. O artigo do The New York Times

repercutiu imediatamente — quem era esse britânico que ousava se pronunciar sobre

felicidade? Era sacerdote ou profeta?

Em pouco tempo, Sanderson foi inundado de convites para participar nas maiores redes de

televisão dos Estados Unidos, e isso, por sua vez, aumentou o interesse por ele em seu próprio

país. Ele continuou evitando os artifícios que agradam ao público, mas isso teve o efeito

contrário ao que se esperava, aumentando sua popularidade. Quanto mais ele alertava contra a

felicidade, mais pessoas queriam ouvi-lo denunciá-la. No espaço de uma semana, ele se

tornou o foco de um frenesi da mídia. Enquanto isso, os políticos americanos assumiam os

microfones para lembrar aos seus vizinhos do outro lado do Atlântico que a busca da

felicidade era um dos direitos inalienáveis delineados por Jefferson e pelos pais fundadores

na Declaração de Independência. Pode ser verdade, disse Sanderson, mas a busca da

felicidade só se traduziu na busca por bens de consumo, e homens e mulheres com certeza não

morreram pelo direito à cobiça sem limites. E, na realidade, a felicidade não era a questão.

Era uma história muito mais complicada.

A fama de Sanderson atingiu novos píncaros quando ele apareceu no programa de

atualidades mais importante da BBC, com um link de satélite para um senador americano em

Washington. A entrevistadora, relativamente jovem e dona de um elegante pescoço de cisne,

tinha um olhar de permanente surpresa. Seu cabelo balançava para a frente e para trás como

uma cortina, e ela observava Sanderson com espanto, de olhos arregalados, como se dissesse:

“Veja! Um filósofo! Vamos ver que truques ele sabe.” A câmera focalizou o rosto de

Sanderson. Ele tinha o começo de uma barba, penugens, como um pêssego. Evidentemente, sua

pele não podia mais tolerar a lâmina. A entrevistadora começou sugerindo ao senador que o

debate saísse da genética e fosse para a questão mais ampla, sobre se a busca da felicidade

era, de fato, uma ambição sensata. O senador estava na defensiva, mas se empenhou para

parecer razoável, empregando uma série de “arrans” e “certos”, como se estivesse sendo

paciente com uma criancinha. Em seguida, lançou-se numa conversa de uma informalidade

afetada, uma série de “pras”, “dondes” e “dumas”. O direito de buscar a felicidade, disse ele, estava incorporado no documento fundador dos Estados Unidos. Como a vida e a liberdade,

ela era parte do ideal americano. E assim permaneceria. Simples assim.

Nesse ponto, Sanderson argumentou que seria muito difícil encontrar a felicidade, da

forma como ela é comumente entendida, onde as pessoas a buscam. A felicidade sempre seria

um efeito colateral surgido da sorte, não algo que pudesse ser projetado ou calculado. E, mais

importante, não apenas era inútil buscar a felicidade, mas, na melhor das hipóteses, seria

moralmente dúbio; na pior, completamente imoral. Isso porque a busca da felicidade própria

quase sempre envolvia dano a outras pessoas. Logicamente, para sermos felizes,

precisaríamos acabar com o que quer que nos fizesse infelizes — pobreza, por exemplo, ou

frustração sexual, para mencionar apenas duas coisas. Se esses fossem os obstáculos

específicos para nossa felicidade, não era preciso muita imaginação para pensar na variedade

de males que poderiam ser causados para remover os obstáculos ou o número de pessoas que

poderiam se fornicar no processo — bem literalmente se fornicar, acrescentou ele com um

sorriso amarelo.

O senador, claramente afetado por essa agressão a um direito inalienável, agora mudava o

argumento na direção da religião, buscando as palavras mais do que testadas que lhe tirariam

de apuros: os pais fundadores acreditavam que o direito de buscar a felicidade era um

presente de Deus, e até hoje essa era uma crença fortemente arraigada nos Estados Unidos.

— É verdade — disse Sanderson, entrando no ritmo — que os americanos têm um apetite

natural para a crença. — Fiquei surpreso pela forma que ele enfatizava o artigo indefinido: um

apetite natural. — Eles acreditam na verdade literal de muitas coisas que são descartadas

sumariamente no meu país. O escrutínio crítico não é altamente desenvolvido lá, milhões de

americanos acreditam, por exemplo, que, em algum momento, foram abduzidos por

alienígenas. E, no meu país, temos um primeiro-ministro cujas péssimas decisões são, assim

ele crê, sancionadas pelo Todo-poderoso. A crença não é sempre uma coisa positiva ou uma

coisa razoável.

O senador interrompeu Sanderson para lembrá-lo de que a ideia cristã de felicidade estava

muito relacionada com o amor ao próximo. Não era simplesmente questão de estar “em busca

do que se pode conseguir”, o que era uma acusação deprimente do comportamento humano. Os

americanos acreditavam sinceramente que uma dieta diária de Deus e boas obras os levariam,

por fim, à felicidade eterna, conforme prometida por Jesus Cristo.

— Na verdade, a ideia cristã de felicidade, como a entendo, é muito preocupada com a

própria alma. Ela envolve uma busca pessoal de um estado de graça, o que quer que se queira

dizer com isso. Isso pode envolver boas obras ou, no passado, podia envolver algumas Cruzadas. Atualmente, o mais provável é que seja um grupo de esquisitões de Jesus

balançando os braços no ar e tocando tamborins, embora pudesse significar, é claro, uma vida

monástica reservada, rezando pelas almas alheias. Qualquer que seja o caso, geralmente

envolve sofrimento. Quanto mais você sofrer, melhor. Que era só uma das coisas estranhas

com a religião, disse ele. Afinal, por que alguém buscaria a dor se o prazer comum se

oferecia? Mas essa era outra questão. Qualquer que fosse a forma que as pessoas

interpretassem o plano divino, ele seria apenas outra forma de construto humano. E isso,

certamente, não o tornava válido, ou mesmo sensato. As pessoas acreditavam nas coisas não

porque elas fossem verdadeiras, mas porque acreditar fazia com que elas se sentissem melhor.

Pense no mantra fracassado e perturbador de Tony Blair: “A coisa certa a fazer.” Como se

essa convicção tivesse feito alguma coisa para reduzir as consequências catastróficas para o

mundo, continuou Sanderson. E, quanto à crença na vida após a morte e na felicidade eterna,

isso era algo que fora provado como determinado pela cultura. — Por exemplo, quando os

chineses têm experiências de quase morte e relatam o que “viram”, isso inclui estar frente a

frente com cada pequena criatura cuja vida foi sacrificada para que eles vivessem, junto com a

imagem de um juiz medindo a retribuição deles por essa má conduta. Enquanto, na nossa

sociedade, e sem dúvida na sua também, em geral há relatos de uma luz branca e braços que se

estendem, acolhendo-nos ao “lar”, invariavelmente para os braços de Jesus.

Ele continuou por um bom tempo, dando passos arriscados agora, sem titubear. A derrota

do senador era visível. Cada ferida havia sido minúscula, mas o efeito geral foi mortal. Era

surpreendente para mim que não houvesse desdém no jeito de Sanderson, nem arrogância. Ele

ainda parecia vulnerável, desconfortável sob as luzes do estúdio, mas sua postura dava a

impressão de uma perplexidade de quem se diverte, como se não houvesse argumentação a ser

respondida.

Ao longo de uma ou duas semanas, sua estrela continuou subindo e ele se tornou uma

celebridade improvável. Foi aclamado na imprensa e nas ondas do rádio como alguém que

parecia ter tido uma vida difícil, no entanto permanecia com uma visão de mundo bastante

gentil e sensata. Seu livro, que, por qualquer previsão conhecida, deveria ter definhado na

obscuridade, foi alçado às listas de mais vendidos, em parte por causa da ferocidade de seus

críticos. “Saiu-se melhor que Luxúria”, disse o editor de Sanderson quando ligou, seu tom

com algo entre a empolgação e a incredulidade. Enquanto isso, a universidade foi inundada

com tantas perguntas da imprensa que precisou publicar uma declaração informando que o dr.

Sanderson era um acadêmico de primeira linha, reconhecido com justiça pela Faculdade de

Filosofia por sua pesquisa pioneira. Uma vez que estava de licença, porém, até novo aviso, a assessoria de imprensa não estava em condição de organizar nenhuma entrevista.

— Irônico — comentei, falando sobre a suspensão e o momento em que ocorrera.

— A ironia é o humor dos derrotados — disse ele. — É por isso que somos tão bons

nisso.