O Tom Ausente de Azul

Jennie Erdal · Capítulo 16 de 59

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O Tom Ausente de Azul

Capítulo 15

 

Depois de cerca de uma semana na Biblioteca Nacional, comecei a reconhecer rostos

familiares, a maioria deles carentes da luz do sol, com um tom de pele que sugeria longos anos

passados num bunker ou num submarino. Era possível acreditar que não havia sangue por

baixo da pele, somente espuma de sabão ou — como estávamos na Escócia — mingau de

aveia. A cada dois dias, uma senhora idosa, com os cabelos amarrados para trás num laço de

forca, dividia a mesa comigo. Ela usava jaqueta de tweed e saia; apoiava-se em pernas finas

de garça, as quais pareciam prestes a ceder quando ela se movia com dificuldade até o balcão

que distribuía os livros. Sua pesquisa era sobre os primeiros missionários na África — isso

eu entendi por sua conversa com o homem que tossia —, e sua voz, que era bonita, parecia vir

direto de um antigo filme em preto e branco, suas vogais moduladas de um jeito sofisticado,

como as de Celia Johnson em Desencanto. Eu poderia ouvi-la falar o dia inteiro. Imaginava

que tipo de vida teria vivido — será que ela teria vivido a paixão, como a srta. Johnson de

voz semelhante? Teria também sido correspondida? Na mesa em frente à minha, havia outro

usuário habitual, um homem grandalhão e com aparência de tuberculoso, de higiene pessoal

precária, sua careca perfeita e lisa como um ovo intacto. Imaginei-o num sótão solitário,

comendo direto de latas e vivendo com ratos. E, na mesa mais distante da porta, estava

sentado um homem com aparência de bielorrusso. Com dentes ruins e hálito de cebolas cruas,

ele usava botas que mal cabiam e um terno marrom que parecia não lhe pertencer. Ao

inspecionar mais de perto, concluí se tratar de um ucraniano sem recursos, um ex-acadêmico

familiarizado com bibliotecas, mas que as usava agora como fonte de abrigo e calor.

Quando não estava inventando vidas trágicas para os meus companheiros, passava o tempo

cotejando os manuscritos originais dos ensaios de Hume com a edição inglesa da qual estava

traduzindo. Não há edição inglesa absolutamente definitiva, em parte porque Hume passou a maior parte da vida revisando e alterando o texto dos ensaios — na verdade há, ao todo,

dezessete edições. Hume também mudou a ordem de seus ensaios conforme apareciam em

diferentes edições durante a vida, retirando completamente algumas partes ou adiando a

publicação de outras até depois de sua morte. Portanto, tomei uma decisão fundamental: na

minha tradução, os ensaios seriam organizados em ordem cronológica, refletindo, assim, sua

evolução como escritor e pensador.

De vez em quando, eu descobria um erro, o que fazia todo o intenso trabalho valer a pena.

Por exemplo, em seu ensaio “Da tragédia”, a expressão “sweet sinning” [doce pecado]

aparece numa frase que se relacionava com o que os italianos consideravam essencial para

todos os prazeres. Essas palavras, traduzidas da expressão italiana dolce peccante, são

reproduzidas em todas as edições modernas, e surgiram na edição póstuma de 1777, que o

próprio Hume, é claro, por ter morrido, não pôde verificar. Olhando o manuscrito original,

descobri que o que Hume de fato escrevera era dolce piccante — em outras palavras,

“agradavelmente acre” e nada a ver com pecado, doce ou de qualquer outro tipo. Depois

desse tipo de descoberta, eu saía da biblioteca andando nas nuvens, como se tivesse resolvido

sozinho o mistério do mundo. Num cantinho da minha cabeça, eu sabia que esse

comportamento era ridículo.

 

Mesmo assim, com cada dia que passava, havia uma sensação crescente de que esse período

da minha vida era perfeito, e que, muito embora ele pudesse crescer, mudar e surpreender, não

poderia ser melhorado. Cada manhã, antes do café da manhã, eu galgava o Salisbury Crags —

um anfiteatro natural de rocha sólida — alegremente andando à sombra de Hume,

aprofundando a conexão a cada passada firme, assim eu imaginava. No caminho para casa,

saindo da biblioteca, passei a visitar o velho cemitério em Calton Hill, onde Hume foi

enterrado. Dessa forma, cada dia começava e terminava com uma pequena cerimônia de

homenagem. Eu adorava a sensação de conexão, seguida da de desconexão, só para me

conectar novamente.

De acordo com a placa próxima ao portão, o cemitério foi inaugurado em 1718 para o

enterro de empresários e comerciantes. As lápides confirmam isso, com a concentração de

nomes tradicionais escoceses — Alexander Henderson, Alexander Walker, John Middleton,

John Reid. Na extremidade sul do cemitério, há uma fileira de grandes sepulturas internas,

como casas em miniatura construídas com pedra e sem telhados. Na sepultura de Jean

Ormiston (morta em 1817, aos cinquenta e dois anos), esposa de William MacRedie (morto

em 1831, aos setenta e dois anos), a parede dos fundos não foi construída. Em seu lugar há uma cerca de ferro, e, se pressionarmos o rosto nas barras, somos recompensados com uma

visão maravilhosa de Edimburgo — a Cidade Velha, os prédios altos, estreitos e pintados nas

ruas da Royal Mile, no Arthur’s Seat, no novo Parlamento escocês — e, imediatamente

abaixo, nos telhados da Waverley Station. Quando o vento está na direção certa, os anúncios

das partidas e chegadas do trem chegam até o cemitério e caem entre as sepulturas. Se ao

menos os mortos pudessem ver e ouvir, seria o lugar perfeito para estar enterrado — vista

panorâmica com uma sensação de continuidade das coisas. Não é de admirar que Hume tenha

escolhido este lugar como seu descanso final. Em 1776, prevendo sua morte, ele havia

comprado um lote para o enterro. Seria algo simples, sem espalhafato — sans cérémonie,

como escrevi na introdução dos ensaios. Em seu testamento, ele especificou que um pequeno

monumento “com um custo que não excedesse 100 libras” seria construído sobre seu corpo

com uma inscrição simples, que informasse apenas seu nome, ano de nascimento e morte. Mas,

na verdade, seu monumento é bem grandioso, um grande mausoléu neoclássico cilíndrico com

uma urna elegante disposta num nicho sobre o vão de entrada. Não é mesmo uma sepultura

adequada a um homem tão modesto; ainda assim, passei a adorá-la. A maior parte dos dias eu

abria o portão de ferro batido e ficava do lado de dentro, convencendo-me de que isso

invocava a presença de Hume. Às vezes, eu chegava a falar com ele, relatando meu progresso

e algum problema ocasional que tivesse. Os aborígines acreditavam que se pode saber a

resposta para qualquer pergunta três dias depois da morte da mãe. Basta ficar ao pé de sua

sepultura e perguntar. Não era o que eu fazia; ficar perto da sepultura de Hume era uma

espécie de ritual prazeroso para marcar o fim do dia de trabalho. Mas, em algum lugar remoto

da minha mente, suspeito que mesmo os mais modestos rituais possam ter o poder de

transformar.