Sonho de uma Noite de Verão
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William Shak
William
Shakespeare
E, no fragrante ar noturno da Índia,
Sonho de
Às vezes ficávamos a falar
espear
Nas areias amarelas de Netuno,
Olhando as naus mercantes a singrar,
uma noite
E como ríamos das velas infladas,
e
Sonho de
Grávidas do vendaval libertino;
uma noite
E ela, com um movimento suave
Do útero enriquecido do menino,
de verão
de verão
Sonho
As imitava, a singrar a terra
A me trazer mimos e retornar,
Como de uma viagem, plena de dádivas.
Mas, por ser mortal, faleceu no parto, Tradução Rafael Raffaelli
de uma
William Shakespeare
E é por ela que cuido do menino,
Por ela não me separarei dele.
Tradução Rafael Raffaelli
noite de
Sonho de uma noite de verão é considerada a maior comédia de verão Shakespeare. A ação, que se passa em Atenas, retrata os desencontros amorosos de quatro jovens. Completam o enredo as altercações entre o casal de deuses Titânia e Oberon, criando Edição bilíngue
um contraponto às desventuras dos mortais. A parte final do Inglês e Português
texto traz uma passagem bastante curiosa: como parte das comemorações do casamento de Teseu e Hipólita, alguns personagens encenam uma peça que emula de forma atabalhoada a tragédia de Romeu e Julieta. Divertida, original e 9 7 8 8 5 3 2 8 0 7 5 0 2
enigmática, é um clássico imperdível da literatura universal.
Sonho de uma
noite de verão
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA Reitor
Luiz Carlos Cancel ier de Olivo
Vice-Reitora
Alacoque Lorenzini Erdmann
EDITORA DA UFSC
Diretora Executiva
Gleisy R. B. Fachin
Conselho Editorial
Gleisy R. B. Fachin (Presidente) Ana Lice Brancher
Andreia Guerini Clélia Maria Lima de Mel o e Campigotto João Luiz Dornel es Bastos
Kátia Maheirie
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Wil iam Shakespeare
Sonho de uma
noite de verão
A midsummer night’s dream
Tradução
Rafael Raffaelli
2016
© 2016 Editora da UFSC
Coordenação editorial:
Paulo Roberto da Silva
Capa:
Leonardo Gomes da Silva, com imagem de William Blake, Oberon, Titania and Puck with Fairies dancing (c.1786), Tate Britain Collection
Editoração:
Carla da Silva Flor
Revisão:
Júlio César Ramos
Ficha Catalográfica
(Catalogação na publicação pela Biblioteca Universitária da Universidade Federal de Santa Catarina)
S527s Shakespeare, William
Sonho de uma noite de verão / William Shakespeare ; tradução Rafael Raffaelli. – Florianópolis : Ed. da UFSC, 2016.
199 p.
Edição bilíngue: portugês e inglês.
1. Teatro – Inglês. I. Título.
CDU: 820-2
ISBN 978-85-328-0750-2
Este livro está sob a licença Creative Commons, que segue o princípio do acesso público à informação. O livro pode ser compartilhado desde que atribuídos os devidos créditos de autoria. Não é permitida nenhuma forma de alteração ou a sua utilização para fins comerciais.
br.creativecommons.org
Sumário
Introdução
• 7 •
The persons of the play | Personagens da peça
• 14 | 15 •
Notas do tradutor
• 193 •
Introdução
A datação de Sonho de uma noite de verão ( A midsummer night’s dream) é especulativa, na ausência de fontes seguras e confiáveis que determinem o ano exato de sua composição ou encenação, embora se suponha que tenha sido escrita de encomenda para as núpcias de alguma dama da nobreza próxima à Rainha Elizabeth I. As evidências que melhor permitem estabelecer uma datação aproximada advêm da comparação de seu estilo e temática com outras obras de Shakespeare.
Nesse sentido, a semelhança estilística permite incluí-la num grupo de peças, que se inicia em 1594-1595 com Trabalhos de amores perdidos ( Love’s labour’s lost), seguida em 1595 por Ricardo II ( Richard II). Em 1595-1596 teria sido composta Romeu e Julieta ( Romeo and Juliet) e, nesse mesmo período, Sonho de uma noite de verão. A última peça desse grupo é O mercador de Veneza ( The merchant of Venice) de 1596-1597. Esse grupo – com exceção de Ricardo II – assinala a introdução de trechos em prosa nas peças de Shakespeare, cujo principal personagem histriônico desenvolvido a partir desse recurso é o primeiro clown a surgir em suas obras, o tecelão Novelo ( Bottom).
Sonho de uma noite de verão mantém, inclusive, uma curiosa relação com Romeu e Julieta, pois parece emular de forma cômica o tema da tragédia na representação burlesca da peça dentro da peça denominada A mais lamentável comédia e a morte mais cruel de Píramo e Tisbe ( The most lamentable comedy and most cruel death of Pyramus and Thisbe), encenada
por uma trupe de palhaços. O leitmotiv é o mesmo: amantes que sofrem a interdição familiar amam-se em segredo, mas por causa de um desencontro chegam a um fim trágico, com a amante matando-se sobre o corpo do amado morto; contudo, o tom de uma e outra é totalmente diverso, como se Shakespeare estivesse se autorreferenciando ao trocar a máscara da tragédia pela da comédia.
Muitos creem que Sonho de uma noite de verão é a maior conquista de Shakespeare no gênero, não só pela criatividade do entrecho da comédia, como também pela ressonância arquetípica que evoca, pois nela existem mistérios que resistem às interpretações. Não por acaso, é uma das peças mais encenadas em todo o mundo, sendo, para muitos espectadores, o primeiro contato com a obra de Shakespeare.
8
Embora não exista uma única fonte para a peça, os relatos das Metamorfoses de Ovídio – obra que Shakespeare ão
conhecia sobejamente pela tradução de Arthur Golding ere v
de 1567 – podem ser considerados a sua maior inspiração.
Outra influência entre os textos clássicos é a “Vida de Teseu”, oite d
a n biografia literária publicada em Vidas paralelas ( Plutarch’s lives) de Plutarco, na tradução de Thomas North originalmente e um
o d
publicada em 1579; essa tradução também foi fonte para outras peças de Shakespeare, como Júlio César, Coriolano e Sonh
Antônio e Cleópatra. A história de Dido, presente na Eneida de Virgílio, também é brevemente citada, e a transformação de Novelo em asno ecoa as Metamorfoses de Apuleio.
Outro texto relevante é o Conto do cavaleiro ( Knight’s tale) – que inicia Os Contos da Cantuária ( The Canterbury Tales) – de Geoffrey Chaucer (c. 1343-1400) que, da mesma forma que Shakespeare, abre sua narrativa com as núpcias do duque ateniense com a rainha das Amazonas, a qual é aprisionada e trazida a Atenas após sua derrota em batalha.
O mesmo conto também serviu de inspiração para outra obra de Shakespeare em parceria com John Fletcher, Os dois
nobres parentes ( The two noble kinsmen), de 1613. Por sua vez, a inspiração de Chaucer para compor o seu conto provém do poema Teseida de Giovanni Boccaccio (1313-1375).
O personagem Oberon, rei das fadas, é citado em O livro do duque Huon de Bordeaux ( The book of duke Huon of Bordeaux) – texto do século XIII do gênero denominado Bibliothèque bleue – traduzido do francês por Lord Berners entre 1533 e 1542; também é mencionado no poema de Edmund Spenser (1552/1553-1599), A rainha das fadas ( The faerie queene). Oberon é a tradução francesa para Alberich, feiticeiro e rei dos elfos na mitologia germânica e nas lendas épicas da dinastia merovíngia, sendo ainda um dos personagens de Canção dos Nibelungos ( Nibelungenlied), epopeia medieval concebida no século XIII.
9
Essas referências literárias e míticas são apenas o pano de fundo sobre o qual Shakespeare modula sua trama, pois as e
emprega com absoluta liberdade e sem se comprometer com pear
nenhuma delas, amalgamando-as com histórias (o homem es
da lua) e personagens do folclore inglês, como é o caso do hak
trickster Puck ( Robin Goodfel ow).
am Silli
Exemplar nesse aspecto é o casal de deuses, Titânia e W
Oberon, que possui uma evidente conexão com a Índia, como se essa fosse a sua origem, embora inexista referência a ela nas Metamorfoses de Ovídio ou nas obras literárias e nos mitos em que Oberon é citado. A Índia é mencionada quatro vezes na peça – mais que em qualquer outra obra de Shakespeare –
e essa associação é fruto exclusivo de sua imaginação. Sem dúvida, o interesse pela Índia na Inglaterra da época pode ser avaliado pela carta que Elizabeth I enviou ao imperador mogol Akbar, o Grande, em 1585; todavia, não se pode esperar coerência nesse sentido numa peça que transcorre em Atenas, na qual os deuses evocados pelos personagens pertencem ao panteão romano. Pode-se arguir, então, que o intuito de Shakespeare não seria referenciar-se propriamente
a uma divindade helenística, romana ou hindu, ou mesmo estabelecer uma correlação entre elas, mas antes construir personagens arquetípicos com função dramática numa urdidura onde realidade e sonho se confundem.
E, nesse sentido simbólico, é Vênus, como corpo celeste e como a deusa homônima – auxiliada pelo seu filho Cupido – que rege, em conjunção com a lua, o desenrolar da trama, cujo tema central trata das vicissitudes da escolha amorosa.
A edição utilizada como base da presente tradução foi a de R. A. Foakes (2012) para a coleção The New Cambridge Shakespeare, publicada pela Cambridge University Press, cotejada com a edição de P. Hol and (2008) para a coleção The Oxford Shakespeare, publicada pela Oxford University Press.
Ambas as edições são provenientes do Primeiro Quarto (Q1), 10
impresso provavelmente por Richard Bradock em 1600, que é considerado o texto padrão da peça.
ão
O Segundo Quarto (Q2) foi uma reimpressão de Q1
ere v
realizada por William Jaggard em 1619, o qual também esteve envolvido na publicação do Primeiro Fólio (F1) em 1623, em oite d
a n
que o texto de Sonho de uma noite de verão deriva de Q2, com algumas correções e adições.
e um
o d
As diversas disparidades entre Q1 e F1 são motivo de controvérsia entre os críticos e editores, e a principal questão Sonh
refere-se ao nome do personagem que atua como Mestre de Cerimônias em 5.1. Em Q1 o personagem não é nomeado e não há menção a Egeu depois de 4.1; já em F1, é Egeu que aparece como Mestre de Cerimônias. Por uma questão de coerência, manteve-se na tradução essa função alocada a Filóstrato, pois aparentemente ele já a ocupava em 1.1, em conformidade com a edição de R. A. Foakes supracitada.
O projeto tradutório contemplou a variação do original entre verso branco, verso rimado e prosa, com o emprego de uma dicção contemporânea. Os versos metrificados em pentâmetros iâmbicos no original foram traduzidos em
metrificação irregular, com a predominância de decassílabos, preservando-se as rimas.
A métrica exerce um papel secundário na tradução, pois considerei mais relevante preservar a poética e a elegância vernacular, por meio de uma expressão linguística diversificada e refinada, do que ater-me a uma amarra formal unicamente por razões estilísticas.
Além disso, o texto traduzido corresponde linha a linha ao original, buscando soluções criativas e originais, como, por exemplo, as denominações das fadas de Titânia.
Complementando a tradução, 82 notas buscam esclarecer aspectos controversos ou obscuros do texto, provendo o leitor com informações ou interpretações que contribuem para uma melhor fruição da peça.
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e
Rafael Raffaelli
peares
hak
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•
Sonho de uma
noite de verão
•
The persons of the play THESEUS, Duke of Athens
HIPPOLYTA, Queen of the Amazons, betrothed to Theseus EGEUS, father of Hermia
LYSANDER, in love with Hermia
DEMETRIUS, preferred by Egeus as match for Hermia HERMIA, in love with Lysander
HELENA, in love with Demetrius
PHILOSTRATE, Master of The Revels at the court of Theseus OBERON, King of the Fairies
TITANIA, Queen of the Fairies
PUCK or ROBIN GOODFELLOW, Oberon’s jester and attendant
PEASEBLOSSOM
COBWEB
MOTH
Fairies attending on Titania
MUSTARDSEED
A FAIRY, in the service of Titania Peter QUINCE, carpenter ( Prologue in the play of ‘Pyramus and Thisbe’)
Nick BOTTON, weaver ( Pyramus) Francis FLUTE, bel ows-mender ( Thisbe) Tom SNOUT, tinker ( Wal ) Robin STARVELING, tailor ( Moonshine) SNUG, joiner ( Lion)
‘ Lords and Attendants’ on Theseus and Hyppolyta
Personagens da peça
TESEU, Duque de Atenas
HIPÓLITA, Rainha das Amazonas, noiva de Teseu EGEU, pai de Hérmia
LISANDRO, apaixonado por Hérmia
DEMÉTRIO, preferido por Egeu como pretendente de Hérmia HÉRMIA, apaixonada por Lisandro HELENA, apaixonada por Demétrio FILÓSTRATO, Mestre de Cerimônias na corte de Teseu OBERON, Rei das Fadas
TITÂNIA, Rainha das Fadas PUCK ou ROBIN BOM-COMPANHEIRO, bobo e serviçal de Oberon
FLORERVILHA
TEIARANHA
MARIPOSA
Fadas a serviço de Titânia
SEMOSTARDA
UMA FADA, a serviço de Titânia Pedro CUNHA, carpinteiro (Prólogo na peça ‘Píramo e Tisbe’)
Nico NOVELO, tecelão (Píramo)
Chico FLAUTA, remendão de foles (Tisbe) Tom BICO, funileiro (Muro)
Robin FAMINTO, alfaiate (Luar)
JUSTO, marceneiro (Leão)
“Nobres e Serviçais” de Teseu e Hipólita
1.1
1.1 Enter THESEUS , HIPPOLYTA , PHILOSTRATE , with others THESEUS
Now, fair Hippolyta, our nuptial hour Draws on apace; four happy days bring in Another moon – but O, methinks, how slow This old moon wanes! She lingers my desires Like to a stepdame or a dowager
Long withering out a young man’s revenue.
HYPPOLITA
Four days will quickly steep themselves in night; Four nights will quickly dream away the time; And then the moon, like to a silver bow 16
New bent in heaven, shall behold the night 10
Of our solemnities.
ão
THESEUS
er
Go, Philostrate,
e v
Stir up the Athenian youth to merriments, oite d
Awake the pert and nimble spirit of mirth; a n Turn melancholy forth to funerals;
e um
The pale companion is not for our pomp.
o d
Exit Philostrate
Sonh
Hippolyta, I wooed thee with my sword, And won thy love doing thee injuries; But I will wed thee in another key,
With pomp, with triumph, and with revelling.
20
Enter EGEUS and his daughter HERMIA , LYSANDER
and DEMETRIUS
EGEUS
Happy be Theseus, our renownèd Duke!
THESEUS
Thanks, good Egeus. What’s the news with thee?
1.1 Entram TESEU, HIPÓLITA, FILÓSTRATO1 e outros 1.1
TESEU
Bela Hipólita, nosso enlace
Avizinha-se. Quatro dias2 trarão
A lua nova – mas, penso, como tarda A minguar a velha lua! Adia meu anseio Como fazem a madrasta ou a viúva
Que retêm os bens do jovem herdeiro.
HIPÓLITA
Quatro dias logo se abismam em noites, Quatro noites, sonha-se um tempo breve;3
Então, a lua, tal qual arco prateado4
10
Recém-curvo no céu, verá a noite
17
De nossas cerimônias.
e
TESEU
pear
Vá, Filóstrato,5
es
Conclame os jovens de Atenas à festa, hak
Desperte o espírito da alegria.
am S
Deixe a tristeza para os funerais,
illiW
Essa fria presença não nos convém.
Sai Filóstrato
Hipólita, cortejei-a com a espada,
E conquistei o seu amor ferindo-a.
Mas a desposarei em outro tom,
20
Em triunfo e com comemorações.
Entram EGEU e sua filha HÉRMIA , LISANDRO e DEMÉTRIO
EGEU
Salve ó Teseu, renomado Duque!
TESEU
Grato, bom Egeu. E quais são as novas?
1.1
EGEUS
Full of vexation come I, with complaint Against my child, my daughter Hermia.
Stand forth Demetrius! – My noble lord, This man hath my consent to marry her.
Stand forth Lysander! – And, my gracious Duke, This hath bewitched the bosom of my child.
Thou, thou, Lysander, thou hast given her rhymes, And interchanged love-tokens with my child.
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Thou hast by moonlight at her window sung With feigning voice verses of feigning love, And stolen the impression of her fantasy With bracelets of thy hair, rings, gauds, conceits, Knacks, trifles, nosegays, sweetmeats – messengers 18
Of strong prevailment in unhardened youth; With cunning hast thou filched my daughter’s heart, ão
Turned her obedience, which is due to me, ere v
To stubborn harshness. And, my gracious Duke, Be it so she will not here, before your grace, 40
oite d
a n
Consent to marry with Demetrius,
I beg the ancient privilege of Athens: e um
o d
As she is mine, I may dispose of her –
Which shall be either to this gentleman Sonh
Or to her death, according to our law Immediately provided in that case.
THESEUS
What say you, Hermia? Be advised, fair maid: To you your father should be as a god, One that composed your beauties, yea, and one To whom you are but a form in wax,
50
By him imprinted, and within his power To leave the figure or disfigure it.
Demetrius is a worthy gentleman.
EGEU