Eu Mato

Giorgio Faletti · Capítulo 8 de 76

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Eu Mato

Capítulo 6

6

 

DESCENDO DO CARRO, O DELEGADO Nicolas Hulot, da Sûreté Publique do Principado de Mônaco, viu o barco a vela preso entre outros dois, ligeiram ente inclinado de lado.

Dirigiu-se para a m arina. O inspetor Morelli veio até ele percorrendo a prancha de desem barque do Baglietto, o barco que tinha sido abalroado pelo de dois m astros. Quando ficaram frente a frente, o delegado ficou surpreso ao vê-lo tão perturbado. Morelli era um ótim o policial. Tinha treinado até no Mossad, o serviço secreto israelense, e j á vira as piores coisas. Contudo, estava pálido e, enquanto falava, evitava sustentar seu olhar, quase com o se aquilo que estava acontecendo fosse culpa sua.

— E então, Morelli?

— Delegado, é um a carnificina. Nunca vi nada igual…

Deu um longo suspiro e por um segundo Hulot teve a im pressão de que ia com eçar a vom itar.

— Acalm e-se, Claude, e explique direito. O que entende por “carnificina”? A m im , disseram que foi um hom icídio.

— Dois, delegado. Tem os os corpos de um hom em e um a m ulher ou pelo m enos o que resta deles.

O delegado Hulot virou-se para olhar a m ultidão de curiosos aglom erada atrás das barreiras que delim itavam a área. Teve um terrível pressentim ento. O Principado de Mônaco não era um lugar onde coisas sem elhantes aconteciam . A polícia era um a das m ais eficientes do m undo e as taxas de crim inalidade eram tão baixas que só existiam ali e nos sonhos de qualquer m inistro do Interior. Havia um policial para cada 60 habitantes. Tinham câm eras em todo lugar. Tudo estava sob controle. Ali, os hom ens enriqueciam ou se arruinavam , m as não se m atavam . Não havia roubos, não havia hom icídios, não havia subm undo do crim e.

Em Montecarlo, por definição, nunca acontecia nada.

— Alguém viu algum a coisa?

Morelli indicou com a m ão um hom em por volta dos trinta anos sentado do lado de fora do bar, entre um agente e um assistente do m édico-legista. O local, que naquela hora em geral transbordava de gente, estava sem ideserto. Todos os que poderiam ser úteis com o testem unhas tinham sido retidos, m as o acesso fora vetado aos dem ais. O proprietário estava na soleira da porta, ao lado de um a garçonete de seios exuberantes, e torcia as m ãos nervosam ente.

— O m arinheiro do Baglietto, o barco abalroado pelo veleiro. Se cham a Roger Sei-lá-o-quê. Abordou o veleiro para protestar contra a colisão. Com o não viu ninguém no convés, desceu para a cabine e encontrou os dois. Está em estado de choque, m as estão tentando extrair algum a coisa dele. O agente Delorm e, que é novo, entrou no barco depois dele. Está sentado no carro nesse m om ento e seu estado não é m uito m elhor que o do outro.

Mais um a vez, o delegado virou a cabeça para o outro lado, para os curiosos presos entre as barreiras e o Boulevard Albert Prem ier, onde um grupo de operários desm ontava as estruturas dos boxes e das tribunas construídas para a corrida. Lam entou a confusão do Grande Prêm io, a m ultidão e as pequenas ansiedades que às vezes carregava consigo.

— Vam os ver isso.

Subiram a prancha oscilante do Baglietto e de lá, graças a um a outra prancha estendida entre os dois barcos, passaram para o Beneteau. Vindo do alto, Hulot viu o tim ão bloqueado com o botaló e depois o rastro de sangue j á coagulado que partia do pavim ento de teca azul-m arinho e continuava até se perder na escuridão da cabine. Apesar do sol que a essa altura j á esquentava de verdade, ele sentiu as pontas dos dedos repentinam ente geladas.

Mas que diabo tinha acontecido naquele barco?

Morelli indicou os degraus que levavam às cabines.

— Se não se im portar, vou esperar aqui, delegado. Um a vez j á dá e sobra, num a única m anhã.

Descendo os degraus recobertos de m adeira antiderrapante, quase colidiu com o dr. Lassalle, o m édico-legista, que estava subindo. No Principado aquele cargo era um a verdadeira sinecura e sua experiência profissional era bastante lim itada. Hulot não sentia nenhum a estim a por ele, nem com o pessoa, nem com o profissional. Obteve o cargo graças aos conhecim entos e relações públicas da m ulher e gozava a vida e o salário sem fazer quase nada do trabalho para o qual era pago. De todo m odo, Hulot sem pre com parou o m édico a um funcionário público de luxo. Sua presença ali significava que era a única pessoa disponível no m om ento.

— Bom -dia, dr. Lassalle.

— Bom -dia, delegado.

O m édico parecia aliviado com sua presença. Era claro que se encontrava diante de um a situação que não tinha condições de adm inistrar.

— Onde estão os corpos?

— Ali, venha ver.

Agora que seus olhos tinham se habituado à penum bra, viu a trilha de sangue que seguia o pavim ento e desaparecia atrás de um a porta aberta. À sua direita havia um a m esa de alm oço aberta, sobre a qual alguém tinha feito um a inscrição.

Eu mato…

Hulot sentiu que suas m ãos se transform avam em duas pedras de gelo. Obrigou-se a respirar profundam ente pelo nariz para se acalm ar. Chegou até ele o cheiro adocicado do sangue e da m orte, que trazem consigo angústia e m oscas.

Seguiu o rastro de sangue e entrou na cabine que se abria à esquerda. Quando chegou à porta e viu o que havia no interior, o frio percorreu suas m ãos num instante e se transm itiu para todo seu corpo, que se transform ou num bloco único de gelo.

Estendidos na cam a, um ao lado do outro, estavam os cadáveres de um hom em e de um a m ulher, com pletam ente nus. A m ulher não apresentava feridas aparentes no corpo, enquanto no peito do hom em , na altura do coração, havia um a longa m ancha averm elhada, da qual o sangue tinha saído para os lençóis. Havia sangue por todo lado. Nas paredes, nos travesseiros, no chão. Parecia im possível que naqueles dois pobres corpos sem vida pudesse haver tanto sangue.

O delegado obrigou-se a olhar para o rosto dos dois cadáveres. Dois rostos que não existiam m ais. O assassino tinha arrancado com pletam ente a pele da cabeça, inclusive os cabelos, exatam ente com o se tira o couro de um coelho.

Ele ficou observando, estarrecido, os olhos arregalados para um teto que j á não viam , os m úsculos do rosto verm elhos de sangue coagulado, os dentes expostos num sorriso m acabro que a ausência de lábios não perm itiria que se apagasse nunca.

Hulot teve a sensação de que sua vida ficaria parada ali para sem pre, que ele ficaria em pé na porta daquela cabine fitando eternam ente aquele espetáculo de horror e m orte. Por um instante, im plorou aos céus que a pessoa capaz daquele m assacre tivesse tido pelo m enos a m isericórdia de m atar aqueles dois coitados antes de infligir-lhes tal suplício.

Recobrou-se com dificuldade e voltou para a cozinha, onde Lassalle esperava por ele. Morelli tam bém tinha feito um esforço e descido os degraus. Estava em pé na frente do m édico, observando o rosto do delegado para ver sua reação.

Dirigiu-se prim eiro ao m édico.

— O que m e diz, doutor?

Lassalle deu de om bros.

— A m orte aconteceu há algum as horas. O rigor mortis m al com eçou. As m anchas hipostáticas parecem confirm á-lo. Presum ivelm ente, o hom em foi m orto com um a arm a branca, um golpe seco que transpassou seu coração. Sobre a m ulher, à parte… — O m édico fez um a pausa para engolir um bocado de saliva. — … à parte as m utilações, não há m arcas, pelo m enos na parte frontal. Não m exi nos corpos, pois estam os esperando a perícia. Seguram ente, a autópsia vai esclarecer m uita coisa.

— Alguém sabe quem eram ?

Dessa vez foi Morelli quem respondeu.

— No livro de bordo, o barco está em nom e de um a em presa de Montecarlo. Ainda não confirm am os isso por causa da natureza da prova.

— A perícia vai encher o saco. Tanta gente entrou e saiu desse barco que a cena está alterada e não dá para saber quantas pistas foram perdidas.

Hulot olhou para o chão e para o rastro de sangue. Havia pegadas, aqui e ali, que ele não tinha percebido antes. Quando voltou os olhos para a m esa, surpreendeu-se com a absurda esperança de que aquele escrito desesperado não estivesse m ais lá.

Ouviu duas vozes alteradas vindas do convés. Subiu os poucos degraus e, de repente, retornou a um outro m undo, ao sol, à luz e à vida, ao ar fresco de m aresia, sem o cheiro de m orte que se respirava lá em baixo.

De pé na coberta, um agente tentava segurar um hom em de seus 45, 50 anos, que berrava em francês com forte sotaque alem ão e tentava ultrapassar a barreira representada pelo policial.

— Deixe-m e passar, j á disse!

— Não pode, é proibido. Ninguém pode passar.

O hom em tentava se desvencilhar à força do policial que segurava seus braços. Seu rosto estava verm elho e seu com portam ento era histérico.

— Estou dizendo que preciso entrar. Preciso saber o que acont…

O agente viu o delegado e um a expressão de alívio cobriu seu rosto.

— Desculpe, delegado, m as não conseguim os detê-lo.

Hulot fez um sinal de que estava tudo bem e o agente largou a presa. Claram ente irritado, o hom em aj eitou seu terno e dirigiu-se ao delegado com o ar de quem finalm ente vai conseguir falar com alguém do seu nível. Parou diante dele e tirou os óculos escuros para encará-lo diretam ente nos olhos.

— Bom -dia, delegado. Posso saber o que está acontecendo nesse barco?

— E eu posso saber com quem estou falando?

— Meu nom e é Roland Shatz e garanto que é um nom e que vale algum a coisa. Sou am igo do proprietário dessa em barcação e exij o um a resposta.

— Sr. Roland Shatz, m eu nom e é Hulot e provavelm ente vale m uito m enos que o seu, m as sou um delegado de polícia. Isso significa que, neste barco, quem faz perguntas e exige respostas sou eu, até prova em contrário.

Hulot pôde ver claram ente a cólera subindo aos olhos de Shatz. O hom em deu um passo à frente e o tom de sua voz baixou um pouco.

— Senhor delegado… — sibilou a poucos centím etros de seu rosto. Havia um desprezo infinito em suas palavras. — Este barco pertence a Jochen Welder, duas vezes cam peão de Fórm ula 1, de quem sou em presário e am igo pessoal. E tam bém sou am igo pessoal de Sua Alteza, o príncipe Albert, de m odo que agora o senhor vai m e dizer tintim por tintim o que aconteceu com este barco e com seus ocupantes!

Hulot deixou aquelas palavras suspensas entre eles por alguns instantes. Depois sua m ão voou com a velocidade de um raio para agarrar o nó da gravata de Shatz, torcendo-o até que o ar lhe faltasse. Viu seu rosto ficar repentinam ente violáceo.

— Ah, você quer saber… Pois então vou satisfazê-lo, venha ver o que está acontecendo com este barco e com seus ocupantes, seu escroto!

Estava furioso. Sacudiu violentam ente o em presário e obrigou-o a segui-lo até a cabine.

— Venha, am igo pessoal do príncipe Albert, venha ver com seus próprios olhos o que está acontecendo neste barco!

Parou diante da porta da cabine e finalm ente largou sua presa. Indicou com a m ão os dois corpos estendidos na cam a.

— Olhe!

Roland Shatz recuperou o fôlego ao m esm o tem po que o perdia. Quando entendeu o sentido daquela cena, seu rosto ficou m ortalm ente pálido. O branco de seus olhos foi um breve lam pej o na penum bra e ele caiu no chão desm aiado.