Eu Mato
Quinto carnaval
O HOMEM ESTÁ DE VOLTA.
Tranca com cuidado a porta herm ética de seu posto de paredes de m etal. Silencioso e só, com o sem pre. Agora está isolado do m undo outra vez, exatam ente com o o m undo está isolado lá fora.
Sorri enquanto apoia delicadam ente um a m ochila na m esa de m adeira encostada na parede. Dessa vez tem certeza de que não com eteu erros. Senta e acende a luz sobre a m esa com os gestos solenes de um ritual. Solta as fivelas de pressão da m ochila e a abre com os m esm os m ovim entos cerim oniais. Retira um a caixa negra de papelão, que coloca sobre a m esa. Fica alguns instantes adm irando a caixa, com o quem contem pla um presente e adia voluntariam ente o prazer de descobrir o que tem dentro.
A noite não se passou em vão. O tem po dobrou-se com docilidade às suas conveniências. Outro hom em inútil dobrou-se às suas necessidades, entregando-lhe o que precisava. A m úsica está livre, agora. Em sua cabeça ressoa a m archa triunfal da vitória.
Abre a caixa e enfia cuidadosam ente as m ãos. A luz do abaj ur ilum ina o rosto de Allen Yoshida quando ele o retira delicadam ente do invólucro de papelão. Algum as gotas de sangue caem , j untando-se às outras no fundo da caixa. O sorriso do hom em se alarga. Dessa vez tinha prestado m uita atenção e usado um a cabeça de plástico leve, do tipo que se usa para guardar perucas, com o suporte para seu troféu.
Exam ina com atenção a m áscara m ortuária e seu sorriso adquire um a nova razão de ser. Pensa que nada m udou. Do vazio de um estúpido m anequim hum ano ao plástico inerte de outro boneco.
Passa delicadam ente as m ãos sobre a epiderm e esticada, acaricia os cabelos cuj a luz a m orte apagou, verifica se não há nenhum dano no couro cabeludo ou na pele. Nenhum corte, nenhum a escoriação. O círculo dos olhos é perfeito. Os lábios, o ponto m ais difícil, são cheios e carnudos. Apenas algum as m anchas de sangue ofuscam a beleza daquele rosto.
Ótim o trabalho. Relaxa um m om ento contra o encosto da cadeira, cruzando as m ãos atrás da nuca. Curva a espinha para alongar os m úsculos do pescoço.
O hom em está esgotado. A noite foi proveitosa, m as extrem am ente cansativa. A tensão dim inui pouco a pouco e a exaustão chega para cobrar seu preço.
O hom em bocej a, m as ainda não é hora de dorm ir. Prim eiro tem de acabar seu trabalho. Levanta-se e abre um m óvel. Pega um a caixa de lenços de papel e um vidrinho de desinfetante e volta a sentar-se diante da m esa. Com eça a lim par com delicadeza as m anchas de sangue sobre a m áscara.
Agora a m úsica em sua cabeça tem o som pacato de certos tem as new-age, ondula no contraponto delicado de coros em sobreposição. Um instrum ento étnico, talvez um a flauta de Pã, acaricia sua m ente com o m esm o m ovim ento suave com que ele acaricia aquilo que j á foi o rosto de um hom em .
Agora term inou. Na m esa, ao lado da m áscara, alguns lenços com m anchas rosadas. O hom em adm ira sua obra-prim a com os olhos sem icerrados.
Desde que entrou, praticam ente não fez barulho, m as a voz chega assim m esm o, cheia de apreensão:
É você, Vibo?
O hom em levanta a cabeça e olha para a porta que se abre ao lado da escrivaninha em que está sentado.
— Sim , sou eu, Paso.
Por que demorou tanto? Estava me sentindo sozinho aqui, no escuro.
O hom em tem um esgar de nervoso, m as não deixa transparecer na voz. Vira o rosto para a abertura im ersa na penum bra da porta à sua esquerda.
— Não fui m e divertir, Paso. Tudo o que fiz foi para você…
Há um leve tom de censura, que provoca um a resposta repentinam ente subm issa.
Eu sei, Vibo, eu sei. Sinto muito. Desculpe. É que o tempo não passa nunca quando você não está aqui.
O hom em sente um a onda de ternura por dentro. Sua pequena cólera se esvai. É, de repente, o leão que relem bra os j ogos infantis da ninhada. É o lobo que defende e protege os m ais fracos da m atilha.
— Tudo bem , Paso. Agora vou dorm ir aqui, com você. E além disso, trouxe um presente.
Voz surpresa. Voz im paciente.
O que é, Vibo?
O sorriso retorna ao rosto do hom em . Recoloca o rosto na caixa e fecha a tam pa. Apaga a lâm pada diante de si. Dessa vez, tudo seria perfeito. Sem pre sorrindo, pega a caixa e vai para a porta além da qual estão a escuridão e a voz.
Com o cotovelo acende a luz de um interruptor à sua esquerda.
— Um a coisa da qual você vai gostar, vai ver…
O hom em entra no quarto. É um quarto nu, de paredes de m etal pintadas de cinza, cor de chum bo. À direita, um a cam a de ferro espartana com um a m esinha de cabeceira de m adeira, tam bém m uito sim ples. No tam po do m óvel, um abaj ur e nada m ais. A cam a está feita, sem um a prega. O travesseiro e a barra do lençol dobrada sobre a colcha estão perfeitam ente lim pos.
Paralela ao leito, a cerca de um m etro de distância, há um a caixa de vidro de aproxim adam ente dois m etros, suspensa do chão por dois cavaletes sem elhantes aos que seguram a m esa do outro aposento. O fundo da caixa é conectado por m eio de um furo a um tubo de borracha com vedação herm ética que acaba num a pequena m áquina apoiada no chão, entre as pernas do cavalete m ais próxim o da porta. Da m áquina parte um fio elétrico que vai até um a tom ada.
Estendido na caixa há um corpo m um ificado. É o cadáver de um hom em de cerca de um m etro e oitenta de altura, com pletam ente nu. Os m em bros ressequidos revelam que devia ter um a com pleição m uito sem elhante à do hom em , em bora agora a pele apergam inhada tenha m urchado evidenciando as costelas, destacando as articulações dos j oelhos e dos cotovelos, que despontam com o nos artelhos de certos anim ais.
O hom em se aproxim a e apoia a m ão no vidro. O calor desenha um leve halo sobre o vidro perfeitam ente lim po. Seu sorriso se alarga. Ergue e m antém seu presente suspenso sobre o cadáver, na altura do rosto de pergam inho.
Não vai me dizer o que é, Vibo?
O hom em olha o corpo com afeto. Percorre com o olhar o rosto esfolado do qual alguém com habilidade cirúrgica retirou com pletam ente toda a pele da face e da cabeça. O hom em responde ao sorriso do cadáver com um sorriso m isterioso, busca com os olhos seus olhos apagados, espia com ansiedade sua expressão rígida, com o se percebesse um a m udança nos m úsculos ressequidos que têm a cor de um a cera acinzentada.
— Já vai ver. Quer um pouco de m úsica?
Sim. Não. Não, depois, primeiro quero ver o que tem aí dentro. Quero ver o que você trouxe para mim.
O hom em dá um passo para trás, com o se brincasse com um a criança que é preciso controlar e defender de sua própria im paciência.
— Não, esse é um m om ento im portante, Paso. Precisam os de um pouco de m úsica. Espere, volto logo…
Não, Vibo, depois, agora quero…
— Só um segundo, espere.
O hom em coloca o presente num a cadeira de m adeira dobrável aberta ao lado do caixão transparente.
Desaparece atrás da porta. O cadáver fica sozinho, im óvel em sua pequena eternidade, a fitar o teto. Pouco depois, da sala, ouvem -se as notas dolentes do “Instrum ental Solo”, de Jim i Hendrix em Woodstock, m ovendo-se no ar. O hino am ericano, traduzido pela guitarra distorcida, perde seu ar triunfal. Não há m ais heróis com suas bandeiras. Há som ente o lam ento de quem partiu para um a guerra estúpida e o pranto de quem , por causa da m esm a guerra estúpida, não o viu voltar nunca m ais.
A luz da sala se apaga e o hom em reaparece no vão escuro da porta.
— Gosta dessa, Paso?
Claro, você sabe que sempre gostei. Mas agora, deixe eu ver o que trouxe para mim…
O hom em se aproxim a da caixa colocada sobre a cadeira. O sorriso em seu rosto não se apagou. Tira a tam pa com gestos solenes e deposita-a no chão, ao lado da cadeira. Pega a caixa de presente e coloca sobre o esquife, na altura do peito do corpo estendido no interior.
— Você vai gostar, vai ver só. Tenho certeza de que vai ficar ótim o em você.
Com gestos precisos, tira o rosto de Allen Yoshida que envolve a cabeça de m anequim com o um a m áscara de plástico. Os cabelos têm m ovim ento, com o se ainda estivessem vivos, com o se fossem tocados por um vento que nunca chegará até ali, em baixo da terra.
— Aqui está, Paso. Olhe!
Oh, Vibo, é lindo. É para mim?
— Claro que sim . Vou colocar agora m esm o.
O hom em , com a m áscara na m ão esquerda, aperta com a direita o botão colocado na ponta do caixão. Sente-se o leve assobio do ar enchendo o caixão transparente. Agora j á pode levantar a tam pa, que se abre girando sobre as dobradiças colocadas do lado direito do esquife.
Segurando a m áscara com as duas m ãos, coloca-a com delicadeza sobre o rosto do cadáver, prestando atenção para encaixar as aberturas dos olhos nos olhos vítreos do m orto, nariz com nariz, boca com boca. Com infinita precaução, enfia a m ão sob a nuca do cadáver para erguê-la e colocar a m áscara na parte de trás, aproxim ando as bordas de m odo que não form em pregas.
A voz é im paciente e tem erosa ao m esm o tem po.
Como ficou, Vibo? Posso ver?
O hom em afasta-se um passo e observa inseguro o resultado de seu trabalho.
— Espere. Espere só um segundinho. Falta um a coisa…
O hom em se aproxim a da m esinha de cabeceira, abre a gaveta e retira um pente e um espelho. Retorna à cabeceira do m orto com a ansiedade de um pintor que volta a um quadro incom pleto, que a últim a e definitiva pincelada de cor vai transform ar num a obra-prim a.
Com o pente aj eita os cabelos da m áscara, j á opacos, sem brilho, com o se quisesse lhes dar um toque de vida que não possuem m ais. Naquele m om ento, o hom em é pai e é m ãe. É a dedicação sem tem po e sem lim ites. Em seus gestos há um a ternura e um afeto infinitos, com o se carregasse dentro de si vida e calor suficientes para os dois, com o se o sangue de suas veias e o ar de seus pulm ões se dividissem igualm ente entre ele e o corpo sem m em ória estendido em seu caixão de vidro.
Levanta o espelho diante do rosto do m orto com um a expressão de triunfo.
— Pronto!
Um segundo de estupefato silêncio. A guitarra esfiapada de Jim i Hendrix dá voz ao cam po de batalha percorrido por “The Star-Spangled Banner”. Lá estão os feridos de todas as guerras e a busca de sentido para todos os que m orreram por valores sem valor.
Um a lágrim a em ocionada cai do rosto do hom em sobre o rosto do cadáver coberto pela m áscara. Parece um a lágrim a de alegria do m orto.
Vibo, agora eu também estou bonito. Tenho um rosto como todo mundo.
— Sim , Paso, está realm ente bonito, m ais do que todos os outros.
Nem sei como agradecer, Vibo. Não sei o que seria de mim sem você. Primeiro…
Há em oção naquela voz. Há gratidão e lam ento. Há o m esm o afeto e a m esm a dedicação que estão nos olhos do hom em .
Primeiro, você me libertou do meu mal e agora me deu… me deu esse presente, um rosto novo, um rosto lindo. Como poderei pagar minha dívida com você?
— Não deve nem dizer isso, entendeu? Não deve dizer isso nunca. Fiz isso por você, pois os outros estão em dívida com você, têm que devolver tudo o que roubaram . Farei de tudo para recom pensá-lo por tudo que lhe fizeram , eu prom eto…
Quase sublinhando a am eaça daquela prom essa, a m úsica transform a-se de repente na energia avassaladora de “Purple Haze”, a m ão de Hendrix atorm entando as cordas de m etal em sua corrida rum orosa para a liberdade e o aniquilam ento.
O hom em volta a fechar a tam pa que pousa sem rum or na guia de borracha. Aproxim a-se do com pressor colocado no chão e aperta o botão. Com um cicio a m áquina com eça a funcionar e extrair o ar do interior do caixão. Por causa do vácuo, a m áscara adere ainda m ais ao rosto do m orto, provocando um a leve prega de um lado que dá ao cadáver a expressão de um sorriso satisfeito.
O hom em vai para a cam a tirando a cam iseta preta que vestia. Joga-a num banco encostado na estrutura de ferro da cam a. Continua a se despir até ficar nu. Enfia o corpo atlético entre os lençóis, apoia a cabeça no travesseiro e fica estendido de costas fitando o teto, na m esm a posição do corpo estendido em seu esquife brilhante.
A luz se apaga. Da sala chega apenas o brilho em baçado das luzes verm elhas e verdes dos aparelhos eletrônicos, furtivos com o olhos de gato num cem itério.
A m úsica chegou ao fim .
No silêncio de túm ulo, o hom em vivo desliza para um sono sem sonhos com o o sono dos m ortos.