Eu Mato

Giorgio Faletti · Capítulo 20 de 76

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Eu Mato

Quarto carnaval

 

QUANDO ALLEN YOSHIDA VOLTA A SI, tem o olhar enevoado e sente a cabeça doer.

Tenta m over um braço, m as não consegue. Pisca os olhos para recuperar a nitidez da visão. Finalm ente, reabre os olhos e descobre que está num a poltrona, no centro da sala. Suas m ãos e pernas estão presas com aram e. Sua boca, coberta por um pedaço de fita isolante.

Diante dele, sentado num a cadeira, está um hom em que o fita em silêncio. Não se vê absolutam ente nada desse hom em .

Veste algo que parece ser um j aleco de trabalho com um , de tecido escuro e de tam anho pelo m enos quatro ou cinco vezes m aior que o dele. O rosto está coberto por um a touca ninj a preta e a parte descoberta na altura dos olhos esconde-se atrás de grandes óculos escuros com lentes espelhadas. Na cabeça, um chapéu preto de abas abaixadas. As m ãos estão cobertas por luvas igualm ente pretas.

O olhar aterrorizado de Yoshida percorre a figura. Sob o j aleco, as calças, pretas com o todo o resto, m ostram as m esm as características: um tam anho m uito m aior que do hom em . Caem bem longas, apoiando-se em sapatos de tecido, form ando pregas, com o as calças de alguns j ovens adeptos do hip-hop.

Yoshida percebe um a coisa estranha. Na altura dos j oelhos e dos cotovelos, veem -se protuberâncias que estendem o tecido das roupas, com o se a pessoa sentada diante dele tivesse prolongam entos ligados às pernas e aos braços.

Ficam em silêncio por certo tem po, que para Yoshida parece interm inável, o hom em que não se decide a falar e ele que não pode fazê-lo.

Com o fez para entrar? Em bora estivesse sozinho em casa, a m ansão é cercada por um serviço de segurança intransponível, com posto de hom ens arm ados, cães e câm eras de TV. Com o conseguiu superar essas barreiras?

Mas, sobretudo, o que quer com ele? Dinheiro? Se o problem a é esse, pode lhe dar quanto ele quiser. Qualquer que sej a seu desej o, pode realizá-lo. Não há nada que o dinheiro não possa com prar. Se ao m enos pudesse falar…

O hom em continua a fitá-lo em silêncio, sentado na cadeira.

Yoshida em ite um gargarej o indistinto, sufocado pela fita isolante que aperta sua boca. A voz do hom em sai finalm ente daquela m ancha escura que é seu corpo.

— Salve, sr. Yoshida.

A voz é quente e harm oniosa, m as, estranham ente, para o hom em am arrado à poltrona, ela parece m ais dura e cortante do que o aram e que aperta suas pernas e braços.

Arregala os olhos e em ite de novo um ganido indistinto.

— Não se esforce para tentar se com unicar. Não posso entender o que diz e, de todo m odo, o que poderia m e dizer não tem nenhum interesse para m im .

O hom em se levanta da cadeira m ovendo-se de m odo estranho por causa das roupas enorm es e das estranhas próteses nos j oelhos e cotovelos.

Dirige-se para as costas de Yoshida, que tenta virar a cabeça para segui-lo. Ouve a voz de novo, proveniente de algum ponto atrás dele.

— Criou um belo lugarzinho aqui, um local discreto, onde pode gozar suas pequenas alegrias privadas. Na vida, há prazeres que dificilm ente se podem com partilhar com alguém . Posso entendê-lo, sr. Yoshida. Creio que ninguém pode entendê-lo m elhor que eu…

Falando, o hom em voltou a ficar diante dele. Indica com um gesto o am biente a seu redor.

A sala retangular em que se encontram não tem j anelas. A ventilação é garantida por um sistem a cuj as saídas se abrem nas paredes um pouco abaixo do teto. No fundo, encostada à parede, há um a cam a com lençóis de seda encim ada por um quadro, única concessão à sim plicidade quase m onástica da peça. As duas paredes m ais longas são quase inteiram ente recobertas por espelhos para elim inar qualquer sensação claustrofóbica com a ilusão de ótica de um aposento m aior.

Diante da cam a, um a série de m onitores de plasm a, organizados segundo um esquem a de m ultivisão e conectados a um grupo de videocassetes e aparelhos de DVD. Proj etando um film e, pode-se ter a im pressão de estar cercado pelas im agens e de estar no centro da ação.

Tam bém há videocâm eras que cobrem organizadam ente toda a área da sala, de m odo que nenhum ângulo fique de fora. Elas tam bém estão conectadas aos videocassetes.

— É aqui que relaxa, sr. Yoshida? É aqui que esquece o m undo quando quer que o m undo se esqueça do senhor?

A voz quente do hom em com eça pouco a pouco a transm itir frio. Yoshida sente o frio subir de suas pernas e braços, os quais estão perdendo a sensibilidade por falta de circulação. Sente o fio de ferro cavando um sulco em sua carne, exatam ente com o aquela voz escava sua m ente.

Com seus m ovim entos artificiais, o hom em se inclina para um a bolsa de tecido que está no chão, ao lado da poltrona em que estava sentado antes. Extrai um disco, um velho LP com a capa protegida por um envelope de náilon.

— Gosta de m úsica, sr. Yoshida? Esta é celestial, pode acreditar. Um a coisa de verdadeiros conhecedores, com o o senhor, aliás…

Aproxim a-se do equipam ento de som encostado na parede e o exam ina. Vira-se para ele e a luz do quarto é um breve lam pej o no espelho dos óculos.

— Parabéns, cuidou de todos os detalhes. Tinha m e preparado para um a alternativa, caso não houvesse toca-discos, m as vej o que, ao que tudo indica, está m uito bem equipado.

Liga o som e coloca o disco no prato depois de retirar com cuidado a capa. Apoia a agulha sobre o vinil.

As notas de um trom pete saem das caixas e espalham -se no ar. É um a m úsica dolente, suave evocação de lem branças, de m elancolias capazes de tirar o fôlego, de sofrim entos agudos que só pedem para ser esquecidos. É um a m úsica sem m em ória, que a m em ória desej a para deixar de existir.

O hom em fica um instante im óvel ouvindo, a cabeça levem ente inclinada para o lado. Yoshida pode im aginá-lo com os olhos sem icerrados por trás dos óculos escuros. Mas é só um m om ento, depois o hom em desperta.

— Bonito, não? Robert Fulton, um dos grandes. Talvez o m aior de todos. E com o todos os grandes, um incom preendido…

Aproxim a-se curioso do painel de controle de vídeo.

— Espero que consiga entender algum a coisa. Não gostaria que tivesse um a aparelhagem com plicada dem ais para m eus parcos conhecim entos, sr. Yoshida. Não, tudo parece bastante claro.

Aperta alguns botões e os m onitores se acendem , com a estática típica da ausência de program a. Mexe por m ais alguns instantes e finalm ente as câm eras de vídeo entram em funcionam ento. Nas telas aparece a figura de Yoshida, im obilizado na poltrona no centro da sala, diante de um cadeira vazia.

O hom em parece satisfeito consigo m esm o.

— Ótim o. Seu equipam ento é m esm o extraordinário. Aliás, não esperaria m enos que isso do senhor.

O hom em volta a ficar de frente para seu prisioneiro, gira a cadeira e senta com dom ínio da situação. Apoia os braços deform ados nas costas da cadeira. As próteses nos cotovelos esticam o tecido do j aleco que usa.

— Deve estar se perguntando o que quero com o senhor, não é m esm o?

Yoshida em ite m ais um ganido prolongado.

— Eu sei, eu sei. Se pensa que quero seu dinheiro, pode ficar tranquilo. Dinheiro não m e interessa, nem o seu, nem o de qualquer outra pessoa. Estou aqui para um a troca.

Yoshida deixa escapar um j ato de ar pelo nariz. Menos m al. Quem quer que sej a aquele hom em , qualquer que sej a seu preço, talvez haj a algum m odo de chegarem a um acordo. Se não é dinheiro que quer, certam ente é algum a coisa que o dinheiro pode com prar. Não há nada que o dinheiro não possa com prar, repete consigo m esm o. Nada.

Relaxa na poltrona. A m ordida do aram e parece m ais leve agora que consegue entrever um respiradouro, um a possibilidade de negociação.

— Dei um a olhada em suas fitas enquanto dorm ia, sr. Yoshida. Creio que eu e o senhor tem os m uitos pontos em com um . Am bos, de algum a m aneira, tem os interesse na m orte de pessoas que não conhecem os. O senhor para seu prazer íntim o, eu porque tenho de fazê-lo…

O hom em inclina a cabeça com o se exam inasse a m adeira brilhante da cadeira. Yoshida tem a im pressão de que está seguindo um raciocínio e de que aquele pensam ento o levou para longe dali por alguns instantes. Sua voz transm ite o senso de inelutabilidade que é a própia essência da m orte.

— E aqui term inam todos os pontos com uns entre nós dois. O senhor faz isso por interm édio de outras pessoas, eu sou obrigado a fazê-lo por m im m esm o. O senhor é um a pessoa que olha m atar, sr. Yoshida…

O hom em aproxim a o rosto sem cara do dele.

— Eu mato…

De repente, Yoshida percebe que não tem saída. As m anchetes de todos os j ornais dedicadas aos hom icídios de Jochen Welder e Arij ane Parker, a m ulher que estava com ele, voltam à sua m ente. Há alguns dias, os telej ornais têm estado cheios de detalhes horripilantes dos dois crim es, inclusive a assinatura em sangue deixada pelo assassino na m esa de um barco. As m esm as palavras pronunciadas pelo hom em que agora está sentado diante dele. É assaltado pela angústia. Ninguém viria em seu socorro, pois ninguém sabe da existência da sala secreta. Mesm o que os seguranças viessem procurá-lo, ao não encontrá-lo em casa, continuariam suas buscas fora dela.

Com eça a ganir de novo e a agitar-se na cadeira, dom inado pelo pânico.

— O senhor tem algo que m e interessa, sr. Yoshida, que m e interessa m uito. É por isso que posso dizer que m e sinto no dever de lhe propor um a troca.

Levanta-se da cadeira e vai abrir a portinhola de vidro do m óvel onde estão as fitas VHS. Pega um a fita virgem , tira o invólucro e coloca no videocassete.

Aperta o botão que com anda o início da gravação.

— Um a coisa para m eu prazer, contra um a coisa para seu prazer.

Com um m ovim ento fluido, enfia um a m ão no bolso do j aleco e, quando a retira, segura um punhal que brilha sinistram ente. Aproxim a-se de Yoshida, que se agita de m aneira selvagem , sem se im portar com o aram e que corta sua carne. Com o m esm o m ovim ento fluido, planta o punhal num a coxa. O ganido histérico do prisioneiro transform a-se num grito de dor sufocado pela fita isolante que tem na boca.

— Aí está, sr. Yoshida, essa é a sensação.

Aquele enésim o “sr. Yoshida”, pronunciado com voz sufocada, soa na sala com o um elogio fúnebre. O punhal m anchado de sangue voa de novo, dessa vez na outra coxa da vítim a.

O m ovim ento é tão rápido que dessa vez Yoshida quase não sente dor, só um a sensação de frescor na perna. Logo depois, a um idade m orna do sangue que escorre pela perna.

— Estranho, não? Talvez as coisas m udem , vistas por um a outra ótica. Mas vai ver que no final ficará igualm ente satisfeito. Vai ter, m ais um a vez, o seu prazer.

Com fria determ inação, o hom em continua a apunhalar a vítim a presa à poltrona e seus gestos são gravados e reproduzidos nas telas ligadas às câm eras de vídeo. Yoshida se vê apunhalado m uitas e m uitas vezes. Vê o sangue aflorar em longas m anchas verm elhas na cam isa branca, com o hom em que ergue e desce, na sala com o na tela, a lâm ina de seu punhal, m ais e m ais. Vê seus próprios olhos enlouquecidos de terror e dor encherem o espaço indiferente do m onitor.

A m úsica de fundo, nesse m eio-tem po, m udou. O trom pete lacera o ar com agudos sustentados por um ritm o acentuado, um a sonoridade feita de percussões étnicas que evocam ritos tribais e sacrifícios hum anos.

O hom em e seu punhal continuam sua ágil dança ao redor do corpo de Yoshida, abrindo feridas em toda parte, e o sangue j orra com o testem unha, nos tecidos da roupa e no chão de m árm ore.

A m úsica e o hom em param sim ultaneam ente, com o num balé ensaiado ao infinito.

Yoshida ainda está vivo e consciente. Sente o sangue e a vida escorrerem das feridas abertas em todo seu corpo, que agora é um sinal único de dor. Um a gota de suor desliza em sua testa e queim a o olho esquerdo. O hom em lim pa seu rosto m olhado com a m anga da cam isa m anchada de sangue. Um traço averm elhado, curvo com o um a vírgula, desenha-se na testa.

Sangue e suor, suor e sangue, com o tantas outras vezes. E sobre aquilo tudo, o olhar nada surpreso das câm eras de vídeo.

O hom em está ofegante sob a touca de lã. Desliga o gravador e aperta o botão de rebobinagem . Quando a fita volta ao com eço, aperta o botão de play.

Nas telas, diante dos olhos sem icerrados de Yoshida e de seu corpo que vai se esvaindo lentam ente em sangue, tudo recom eça do início. É de novo a prim eira punhalada, aquela que atravessou a coxa com o um ferro em brasa. E depois a segunda, com seu sopro fresco. E depois as outras…

A voz do hom em é agora a voz do destino, suave e indiferente.

— Esta é a m inha oferta. Meu prazer pelo seu prazer. Fique tranquilo, sr. Yoshida. Relaxe e se veja morrer…

Yoshida ouve a voz chegar através de um espaço cheio de algodão. Tem os olhos fixos na tela. Enquanto o sangue abandona lentam ente seu corpo, enquanto o frio avança pouco a pouco para ocupar cada célula, não consegue evitar de sentir idêntico e doentio prazer.

Quando a luz abandona seus olhos, não dá para saber se está m irando o inferno ou o paraíso.