Eu Mato
Capítulo 17
17
MARGHERITA VIZZINI ENTROU NA RAMPA de entrada do estacionam ento dos Boulingrins, na praça do Cassino. Tinha pouca gente na rua, àquela hora da m anhã. Os m oradores que agitavam a vida noturna de Montecarlo, os ricos ou os desesperados, ainda estavam dorm indo. E era um pouco cedo dem ais para o turism o sazonal. Só quem circulava eram as pessoas que iam para o trabalho, com o ela. Passou da luz do sol, das pessoas sentadas no Café de Paris tom ando café da m anhã, das aleias coloridas e ordenadas para a penum bra quente e úm ida do estacionam ento. Parou seu Fiat Stilo ao lado da coluna e inseriu seu cartão m agnético na m áquina. A barreira levantou e ela entrou lentam ente.
Margherita chegava todas as m anhãs de Ventim iglia, na Itália, onde m orava. Trabalhava no Escritório de Investim ento do ABC, Banco Internacional de Mônaco, na praça do Cassino, bem em frente à butique Chanel.
Foi um a sorte e tanto encontrar aquele trabalho em Montecarlo. E sobretudo consegui-lo sem interm ediações ou recom endações de ninguém . Depois de se form ar em Econom ia e Adm inistração com a nota m ais alta, tivera diversas propostas de trabalho, com o sem pre acontece com os estudantes que se distinguem particularm ente. Surpreendentem ente, um a delas foi da ABC.
Com parecera a um a entrevista sem nenhum a esperança, m as, para seu espanto, foi selecionada e contratada. A em presa oferecia inúm eras vantagens. Antes de tudo, o salário inicial era bem m ais alto do que o que poderia conseguir na Itália. E depois havia o fato de que, trabalhando em Montecarlo, o im posto de renda era bem m enor…
Margherita sorriu. Era um a m oça graciosa, de cabelos castanhos curtos sobre um rosto sim pático e agradável aos olhos. Um a nuvem de pequenas sardas sobre o nariz regular dava ao rosto a expressão travessa da versão fem inina de um elfo.
Um carro estava dando ré para sair do estacionam ento e ela foi obrigada a esperar. Aproveitou a parada para conferir a aparência no espelho retrovisor. O que viu deixou-a totalm ente satisfeita.
Michel Lecom te iria ao banco hoj e e ela queria estar bem .
Michel…
A lem brança do olhar m eigo daquele hom em lhe causou um a agradável sensação de calor na boca do estôm ago. Aquilo que os ingleses cham am de “estôm ago cheio de borboletas”. Há algum tem po, tinha se estabelecido entre eles um j ogo extrem am ente sedutor, envolvente, m as delicado. Agora, tinha chegado a hora de apertar um pouco o acelerador.
O cam inho estava livre. Pegou a ram pa e com eçou a descer para as profundezas do estacionam ento, que ocupava vários andares sob a praça. Dispunha de um a vaga pessoal, no penúltim o andar, num espaço reservado aos funcionários do banco.
Guiava com prudência, m as com desenvoltura. Desceu diversos níveis, sentindo os pneus deslizarem sobre o pavim ento liso quando girava o volante para fazer a curva para a ram pa seguinte. Finalm ente chegou a seu andar. O espaço reservado para o banco ficava no fundo, logo depois de um a parede divisória.
Dobrou levem ente à esquerda para ultrapassar a divisória e surpreendeu-se ao ver que um a grande lim usine, um a reluzente Bentley preta de vidros fum ê, ocupava sua vaga.
Estranho. Era m uito raro ver um carro daqueles no estacionam ento subterrâneo. Era um carro que costum ava ter um m otorista de terno escuro parado de pé ao lado da porta traseira escancarada para a entrada ou a saída dos passageiros, ou ser abandonado despreocupadam ente na porta do Hotel de Paris, deixando a tarefa de estacioná-lo nas m ãos do m anobrista.
Provavelm ente, pertencia a algum cliente do banco. O m odelo do autom óvel parecia proibir qualquer tipo de protesto, de m odo que resolveu estacionar na vaga ao lado.
Talvez porque estivesse distraída, com eteu um pequeno erro de avaliação e bateu na traseira da Bentley, no canto esquerdo, durante a m anobra. Sentiu o barulho dos faróis de seu carro se espatifando, enquanto a pesada lim usine absorvia o choque com um leve bam boleio das suspensões.
Margherita deu ré lentam ente, com o se essa atenção pudesse atenuar de algum a form a o pequeno acidente que tinha causado. Quando teve a visão livre, olhou ansiosa para a traseira da Bentley. Havia um a m ossa na carroceria, não m uito grande, m as bem visível, com a m arca do plástico cinza de seu para-choque.
Aborrecida, bateu com a palm a das m ãos no volante.
Agora teria que enfrentar toda a insuportável burocracia ligada ao acidente, sem contar com o eventual em baraço de ter que confessar a um cliente do banco que tinha batido em seu carro.
Desceu do carro e aproxim ou-se da lim usine, perplexa. Parou na altura da j anela traseira. Teve a im pressão de que havia alguém , um a silhueta enevoada atrás do filtro dos vidros fum ê.
Aproxim ou a cabeça do vidro, protegendo os olhos com as m ãos para defendê-los de algum reflexo. De fato, dava a im pressão de que havia alguém no banco traseiro.
Mas achou estranho. Se fosse assim , a pessoa que estava lá dentro certam ente teria descido do carro depois da batida.
Apertou os olhos. Naquele m om ento, a figura no interior inclinou-se e deslizou de lado, apoiando a testa na j anela.
Estarrecida, Margherita viu o rosto de um hom em todo verm elho de sangue, os olhos sem vida fitando-a arregalados, os dentes com pletam ente descobertos num sorriso de caveira.
Deu um salto para trás e quase sem perceber com eçou a gritar.