Eu Mato

Giorgio Faletti · Capítulo 2 de 76

Páginas do PDF

Eu Mato

Capítulo 1

1

 

JEAN-LOUP VERDIER APERTOU O BOTÃO do controle rem oto, m as só ligou o m otor quando a porta autom ática estava m eio aberta, para não respirar m onóxido de carbono no espaço fechado da garagem . A luz dos faróis deixou lentam ente a porta de m etal que subia para perfurar a tela negra da escuridão à sua frente. Colocou a alavanca do câm bio autom ático na posição e, quando a porta abriu com pletam ente, apertou o acelerador e guiou a Mercedes SLK para fora. Acionou o fecham ento apontando o controle com o braço erguido na altura da cabeça e, enquanto esperava o clang da porta se fechando, ficou olhando o panoram a que se abria diante do pátio de sua casa.

Montecarlo era um leito de cim ento sobre o m ar. Sob seus olhos, a cidade quase não tinha form a, envolta na leve névoa de vapor que refletia as luzes acesas da noite. Um pouco abaixo dele, j á em território francês, os cam pos ilum inados do Country Club, onde provavelm ente algum a estrela do tênis internacional estava treinando, ao lado do dedo levantado do Parc Saint-Rom an, um dos arranha-céus m ais altos da cidade. Mais abaixo, na direção de Cap d’Ail, sob o bastião da cidade velha, adivinhava-se o bairro de Fontvieille, arrancado da água m etro a m etro, palm o a palm o.

Acendeu um cigarro ao m esm o tem po que ligou o rádio, j á sintonizado na Rádio Monte Carlo. Enquanto conduzia o carro pela ram pa que levava à rua, com andou a abertura do portão com o controle. Virou à esquerda e desceu lentam ente para a cidade, desfrutando o ar j á quente do fim de m aio.

“Pride”, um a canção do U2, saía do rádio, seu ritm o inconfundível de guitarra ao fundo. Stefania Vassallo, a DJ que com andava as transm issões da Rádio Monte Carlo naquele horário, tinha um a autêntica paixão por “The Edge”, o guitarrista da banda irlandesa. Não perdia um a ocasião de encaixar algum a coisa deles na program ação. Na rádio, ela foi alvo de piadas durante vários m eses por causa do ar sonhador que exibiu, com o se fosse um a m aquiagem , quando finalm ente conseguiu um a entrevista com os ídolos.

Enquanto a estrada cheia de curvas que leva até o centro descia de Beausoleil, com eçou a m arcar o ritm o com o pé esquerdo alternando com um m ovim ento da m ão direita sobre o volante, acom panhando Bono, que contava com sua voz rouca e cheia de m elancolia a história de um hom em que veio in the name of love.

Havia um a antecipação do verão no ar, com aquele perfum e particular que só as cidades litorâneas têm . Cheiro de m aresia, pinheiros, alecrim e, na verdade, de nada. Prom essas e apostas. Não cum pridas as prim eiras, perdidas as segundas.

O m ar, os pinheiros, o alecrim e as flores de verão ainda estariam ali por m uito, m uito tem po depois dele e de todos os que, com o ele, se debatiam naquele lugar e em outros lugares com o aquele.

Mesm o assim , dirigia o carro com a capota abaixada, o vento balançando seus cabelos, sem sentir frio, ele tam bém com suas boas prom essas no coração e suas boas apostas na vida.

Havia coisa m uito pior neste m undo.

Apesar da hora, estava sozinho na rua.

Pegou a ponta do cigarro entre o polegar e o m édio e deu um peteleco para cim a, seguindo no retrovisor sua parábola lum inosa. A últim a baforada perdeu-se no m esm o vento.

Chegou ao fim da descida e ficou um instante indeciso sobre que rua tom ar para chegar à m arina. Enquanto percorria o trevo, optou por um giro pelo centro e pegou o Boulevard d’Italie.

Os turistas com eçavam a encher o Principado. O período do Grande Prêm io de Fórm ula 1, recém -encerrado, servia com o um sinal do início do verão m onegasco. Daí em diante, os dias, as tardes e as noites da costa se transform ariam num vaivém de atores e espectadores. De um lado, lim usines com m otorista e gente com ar esnobe e entediado. Do outro, m odelos econôm icos com gente suada e deslum brada. Exatam ente iguais aos que estavam em pé agora, diante das vitrines, com o reflexo das luzes nos olhos. Havia seguram ente alguém se perguntando com o arrum ar tem po para com prar aquela j aqueta, enquanto um outro se perguntava com o arrum ar o dinheiro. Eram o branco e o preto, duas categorias extrem as, em m eio às quais se estendia um a série im pressionante de nuances de cinza. Muitos vivendo com o único obj etivo de j ogar fum aça nos próprios olhos, outros tentando afastá-la.

Jean-Loup pensou que as prioridades da vida eram , afinal, bastante sim ples e repetitivas, e em poucos lugares do m undo era possível quantificá-las m elhor do que naquele. A caça ao dinheiro em prim eiro lugar. Alguns têm e todos os outros desej am ter. Sim ples. Um lugar-com um só se torna com um graças à dose de verdade que contém . Talvez o dinheiro não trouxesse felicidade, m as enquanto a felicidade não vinha, era um a bela m aneira de passar o tem po.

Era o que todos pensavam .

O celular no bolso da cam isa com eçou a tocar. Ele o pegou e respondeu sem verificar na tela o nom e de quem ligava, pois sabia m uito bem quem era. A voz de Laurent Bedon, diretor e redator de Voices, o program a que Jean-Loup apresentava toda noite na Rádio Monte Carlo, chegou m isturada ao m urm úrio do vento no m icrofone do celular.

— Está pensando em nos dar a honra de sua presença ou terem os que nos virar sem nossa estrela?

— Oi, Laurent. Estou chegando, j á estou a cam inho.

— Ótim o. Sabe que quando um DJ não está na rádio pelo m enos m eia hora antes da transm issão, o m arca-passo de Robert entra em parafuso. Ele j á está botando fum aça pelas ventas.

— Fum aça pelas ventas? A do cigarro não basta?

— Parece que não.

Nesse m eio-tem po, o Boulevard d’Italie tinha se transform ado em Boulevard des Moulins. As vitrines ilum inadas dos dois lados da rua estavam escancaradas sobre um m ar de prom essas, com o os olhos convidativos de prostitutas de luxo. Assim com o no caso destas, um pouco de dinheiro era suficiente para obtê-las…

A leve interferência da eletrônica do celular em conflito com o rádio do carro com eçou a perturbá-los. Jean-Loup trocou o telefone para a outra orelha e o barulho sum iu. Com o se fosse um sinal entre eles, Laurent m udou de tom .

— Brincadeiras à parte, dá um a acelerada. Tive algum as…

— Espere um instante. Polícia — interrom peu Jean-Loup.

Abaixou a m ão rapidam ente e com pôs sua m elhor cara de pau. Estava no sinal, no cruzam ento da Avenue de la Madone, e tinha parado na faixa da esquerda à espera do sinal verde. Um policial uniform izado estava em pé na esquina, verificando se os m otoristas cum priam à risca as instruções de seu colega lum inoso. Esperava ter escondido o telefone rápido o suficiente para não ter sido visto. Em Montecarlo eram m uito rigorosos em relação ao uso de celulares ao volante. Naquele m om ento, não tinha nenhum a vontade de perder tem po em discussões com um inflexível policial do Principado.

Quando o sinal ficou verde, Jean-Loup virou à esquerda passando sob o olhar desconfiado do agente. Viu que ele virava a cabeça e seguia com os olhos a SLK que desaparecia pela suave descida em frente ao Hotel Metropole. Assim que teve certeza de estar fora de seu alcance, levantou a m ão e colou o celular de novo na orelha.

— Perigo afastado. Desculpe, Laurent. O que você estava dizendo?

— Estava dizendo que tive algum as ideias plausíveis e queria discutir com você antes de entrar no ar. Venha logo.

— Plausíveis com o? Com o o 32 ou o 27?

— Vá à m erda, seu bosta — rebateu de im ediato, irônico, m as um pouco aborrecido.

— Com o dizia o outro, não preciso de conselhos, preciso de endereços.

— Pare de falar besteira e trate de chegar logo.

— Certo. Já estou na entrada do túnel — m entiu Jean-Loup.

Do outro lado da linha, a com unicação foi interrom pida. Jean-Loup sorriu. Laurent sem pre definia suas novas ideias daquela form a: plausíveis. Dando a César o que é de César, tinha que adm itir que quase sem pre eram m esm o. Infelizm ente, ele definia da m esm a form a os núm eros que sentia que iam sair na roleta, o que não acontecia quase nunca.

No cruzam ento, dobrou à esquerda na descida da Avenue des Spelugues. Entreviu o reflexo das luzes da praça à direita, com o Hotel de Paris e o Café de Paris posicionados um em frente ao outro com o sentinelas dos dois lados do Cassino, partilhando suas luzes. As barreiras e tribunas erguidas naquele local para o Grande Prêm io tinham sido desm ontadas em tem po recorde. Nada deveria ofuscar por m uito tem po a sacralidade pagã daquele lugar, inteiram ente consagrado ao culto do j ogo, do dinheiro e das aparências.

Deixou a praça do Cassino para trás, à direita, e percorreu em velocidade m oderada a descida que poucos dias antes as Ferrari, as William s e as McLaren tinham percorrido num ritm o alucinado. Depois da curva do Portier, a brisa que vinha do m ar e as luzes am arelas do túnel bateram em seu rosto. Percorreu o túnel sentindo o ar ficar m ais fresco, im erso naquela lum inosidade artificial que m isturava as cores, tornando-as todas iguais. Na outra saída, reencontrou o espetáculo da m arina ilum inada, onde m uito provavelm ente um a centena de m ilhões de euros em barcos flutuava naquele m om ento. No alto, à esquerda, a fortaleza, com a residência real envolvida em luzes difusas, parecia garantir com galhardia que o sono do príncipe e de sua fam ília não fosse perturbado.

Apesar do hábito, era um espetáculo que não deixava ninguém indiferente. Jean-Loup conseguia entender com o um habitante de Osaka, de Austin ou de Joanesburgo perdia o fôlego diante de um a im agem daquelas e ficava com dor nos braços de tanto tirar fotografia.

Já estava chegando. Contornou a m arina, onde os trabalhos de rem oção das estruturas prosseguiam bem m ais tranquilam ente, passou diante das Piscinas e, logo depois da Rascasse, dobrou à esquerda e pegou a ram pa do estacionam ento subterrâneo, três andares de escavação exatam ente em baixo do am plo pátio que ficava diante da rádio.

Estacionou o carro na prim eira vaga livre e subiu a escada até chegar no exterior. O eco da m úsica do Stars ’N Bars chegou até ele através de suas portas abertas. Era um a parada obrigatória para os frequentadores da vida noturna de Mônaco, um videobar onde podiam beber um a cervej a ou apreciar a cozinha tex-m ex, esperando que a noite envelhecesse antes de espalharem -se pelas discotecas e nightclubs ao longo da costa.

Os pórticos da grande construção que abrigava a sede da Rádio Monte Carlo, debruçados sobre o Quai Antoine Prem ier, hospedavam um acúm ulo de atividades extrem am ente heterogêneas: restaurantes, showroom s de iates, galerias de arte e os estúdios da Tele Monte Carlo.

Jean-Loup parou diante da porta envidraçada e apertou o botão do intervideofone. Ficou na frente da câm era de m odo que só pudesse enquadrar um prim eiríssim o plano de seu olho direito.

A voz de Raquel, a secretária, saiu do aparelho tão am eaçadora quanto conseguia ser.

— Quem é?

— Boa-tarde, sou o sr. Olho por Olho. Pode abrir, por favor? Estou usando lentes de contato e a identificação da retina não funciona.

Recuou para que a m oça pudesse reconhecê-lo. Do interfone saiu prim eiro um a risadinha sufocada e depois um a voz condescendente.

— Pode subir, sr. Olho por Olho…

— Obrigado. Minha intenção era vender um a enciclopédia, m as nessa altura dos acontecim entos serve um pouco de colírio…

Logo depois, ouviu-se o estalido da fechadura ao abrir. Quando chegou ao quarto andar, a porta autom ática do elevador deslizou de lado e ele se viu diante do rosto gorducho de Pierrot, parado no saguão com um a pilha de CDs nas m ãos.

Pierrot era um a espécie de m ascote da rádio. Tinha 22 anos, m as o cérebro de um a criança. Era um pouco m ais baixo que a m édia, com um rosto redondo e alguns fios de cabelo sem pre espetados, que davam a Jean-Loup a divertida im pressão de que sorria perenem ente em oldurado por um abacaxi.

Pierrot era o ser vivo m ais incorruptível que havia na face da Terra. Tinha o dom , que apenas alguns tem peram entos sim ples têm , de inspirar sim patia à prim eira vista e de ter sim patia apenas por aqueles que, segundo ele, m ereciam . E seu instinto raram ente se enganava.

Adorava m úsica e sua m ente, que se atrapalhava nos raciocínios m ais sim ples, tornava-se subitam ente analítica e linear quando falava do assunto. Tinha um a m em ória de com putador no que dizia respeito ao im enso arquivo da rádio e à m úsica em geral. Bastava m encionar o título ou o tem a de um a canção para vê-lo partir com o um raio e voltar em seguida com o disco ou o CD correspondente nas m ãos. Por causa dessa sem elhança com o personagem do film e, era cham ado na rádio de Rain Boy.

— Oi, Jean-Loup.

— Oi, Pierrot, o que está fazendo aqui um a hora dessas?

— Minha m ãe vai trabalhar até m ais tarde hoj e. Os patrões estão dando um j antar. Ela vem m e buscar quando é um pouco mais depois.

Jean-Loup sorriu por dentro com o disparate. O m odo de Pierrot se expressar pertencia a um a língua toda particular, um a linguagem à parte que, às vezes, se transform ava num a piada fulm inante graças à candura dos equívocos e à absoluta inocência com que eram ditos. Sua m ãe, a que vinha buscá-lo quando é um pouco mais depois, ganhava a vida com o faxineira na casa de um a fam ília de italianos residentes em Montecarlo.

Conhecera-os dois anos antes, quando se deparara com duas figuras paradas na porta da rádio. Jean-Loup quase não notara a estranha dupla, m as a m ulher se aproxim ou e falou com ele, com aquele ar de quem está sem pre pedindo desculpas ao m undo por sua presença. Percebeu que estavam esperando por ele.

— Desculpe, o senhor é Jean-Loup Verdier?

— Sim , sou. O que posso fazer pela senhora?

— Bem , desculpe o incôm odo, m as poderia dar um autógrafo para o m eu filho, por favor? Pierrot sem pre ouve a rádio e o senhor é o preferido dele.

Jean-Loup exam inou seu vestido m odesto, olhou os cabelos que pareciam ter ficado grisalhos antes do tem po. Devia ter m enos idade do que aparentava. Sorriu.

— Claro, senhora. É o m ínim o que posso fazer por um ouvinte tão assíduo.

Enquanto pegava com um a das m ãos a folha e a esferográfica que a m ulher lhe estendia, Pierrot foi se aproxim ando.

— É igual.

Jean-Loup ficou perplexo.

— Igual a quê?

— Igual que nem na rádio.

Jean-Loup virou-se para a m ulher, perplexo. Ela abaixou o olhar e a voz.

— Sabe, m eu filho é… quer dizer…

Parou com o se não encontrasse a palavra que conhecia há tanto tem po. Jean-Loup olhou para Pierrot com m ais atenção: notou algo de diferente em seu rosto e sentiu pena dele e da m ulher.

Igual que nem na rádio…

Jean-Loup percebeu que Pierrot queria dizer, em sua linguagem própria, que o radialista era exatam ente com o ele im aginava que fosse ao ouvir sua voz na rádio. Foi então que Pierrot sorriu: aquele pedaço da calçada se ilum inou e nasceu a im ediata e instintiva sim patia que só aquele rapazola esquisito sabia suscitar.

— Muito bem , m eu rapaz, agora que sei que é m eu ouvinte, posso dizer que esse vai ser um bom dia. Portanto, o m ínim o que posso fazer por você é lhe dar um autógrafo m uito especial. Pode segurar isso, por favor?

Para liberar as m ãos, estendeu ao rapaz o m aço de folhas e cartelas que levava debaixo do braço. Enquanto Jean-Loup caprichava no autógrafo, Pierrot pegou a prim eira folha do m aço que tinha nas m ãos. Levantou a cabeça e olhou para ele com ar satisfeito.

— Three Dog Night — disse com sua vozinha tranquila.

— Com o?

— Three Dog Night. A resposta à prim eira pergunta é Three Dog Night. E a da segunda é Allan Allsworth e Ollie Alsall — repetiu Pierrot com um a pronúncia inglesa personalíssim a.

Jean-Loup viu que se tratava do questionário m usical para um quizz do program a da tarde, que ele tinha organizado algum as horas antes.

A prim eira pergunta era: “Que grupo dos anos setenta cantava a canção Celebrate?” E a segunda: “Quais foram os guitarristas do Tem pest?”

Pierrot leu e respondeu com precisão às duas prim eiras perguntas. Jean-Loup ficou olhando boquiaberto para a m ãe. A m ulher levantou os om bros com o se pedisse desculpa por aquilo tam bém .

— Pierrot tem paixão por m úsica. Se desse ouvidos ao que diz, deixaria de com prar pão para com prar discos. Ele é… bem , ele é com o é, m as quando se trata de m úsica lem bra m uita coisa do que ouve na rádio e do que lê.

Jean-Loup indicou a folha de perguntas que ainda estava com Pierrot.

— Quer tentar responder às outras tam bém , Pierrot?

Um a a um a, sem hesitação, Pierrot desencavou quinze respostas certas, precisando apenas do tem po necessário para ler as perguntas. E não eram das m ais fáceis. Jean-Loup estava pasm o.

— Minha senhora, isso é m uito m ais do que lem brar m uita coisa. Isso significa ser um a enciclopédia.

Pegou as folhas das m ãos do rapaz, respondendo a seu sorriso com um sorriso. Apontou para o edifício da Rádio Monte Carlo.

— Pierrot, gostaria de dar um a volta pela rádio e ver com o transm itim os a m úsica?

Jean-Loup o acom panhou pelos estúdios, m ostrou o local de onde vinham as vozes e a m úsica que ele ouvia em casa, ofereceu um a Coca-Cola. Pierrot exam inava tudo com ar fascinado, com os m esm os olhos cintilantes com que a m ãe lia a alegria no rosto do filho. Mas quando entrou no arquivo, no subsolo, e ficou diante daquele m ar de CDs e discos em vinil, o rosto de Pierrot se ilum inou com o um a alm a santa na porta do Paraíso.

Depois, quando todo o pessoal da rádio ficou conhecendo sua história (o pai tinha sum ido de um dia para o outro assim que a deficiência do filho se confirm ou, deixando a criança e a m ãe sozinhos, com um a m ão na frente e a outra atrás), e sobretudo quando puderam testar ao vivo sua cultura m usical, logo arranj aram um a m aneira de incluí-lo na equipe da Rádio Monte Carlo. A m ãe não podia acreditar. Pierrot tinha um lugar para ficar enquanto ela estava no trabalho e, além do m ais, receberia um pequeno salário.

Porém , m ais que isso, ele estava feliz.

Prom essas e apostas, pensou Jean-Loup. Às vezes algum a se cum pria, às vezes se vencia algum a. Talvez houvesse coisa m elhor no m undo, m as j á era um com eço.

Pierrot entrou no elevador, segurando os CDs num a só m ão para apertar o botão com a outra.

— Vou lá em baixo no quarto guardar esses aqui, depois volto, assim posso ver o seu programa.

Quarto era seu m odo particular de definir o arquivo, m as ver o programa não era, no caso, um a de suas costum eiras alquim ias linguísticas. Significava que naquele dia podia ficar atrás dos vidros ouvindo e vendo Jean-Loup, seu m elhor am igo, seu ídolo absoluto, com um olhar de adoração. Norm alm ente, no horário em que Jean-Loup entrava no ar, Pierrot j á estava em casa e costum ava ouvir o program a no rádio.

— Certo, vou guardar um lugar na prim eira fila.

A porta se fechou sobre o sorriso de Pierrot, m uito m ais lum inoso que as luzes assépticas do elevador.

Jean-Loup atravessou o saguão e digitou no teclado alfanum érico o código de abertura da porta. Bem na frente da entrada, ficava a escrivaninha em que Raquel desem penhava ao m esm o tem po as funções de recepcionista e secretária. A m oça, um a m orena esguia de rosto m agro, m as agradável, que em geral exibia um a atitude à altura da dignidade da situação, recebeu-o com um dedo apontado em sua direção.

— Está correndo perigo. Um dia desses ainda vou deixá-lo do lado de fora.

Jean-Loup aproxim ou-se e desviou o dedo com o se fosse um a pistola carregada.

— Nunca lhe disseram que não deve apontar o dedo desse j eito? E se estivesse carregado? E se disparasse sem querer? Você é que precisa explicar o que está fazendo aqui a essa hora. E Pierrot tam bém está por aí. Tem algum a festa m arcada e não m e avisaram ?

— Festa nenhum a, só hora extra. Tudo culpa sua, que está arrebentando na audiência e obrigando todo m undo a trabalhar com o operários.

Indicou um ponto às suas costas com a cabeça.

— Fale com o chefe, tem novidade.

— Boas? Ruins? Assim , assim ? Resolveu finalm ente pedir m inha m ão?

— Só sei que quer falar com você. Está na sala do presidente — respondeu Raquel sorrindo, m as sem esclarecer m ais nada.

Jean-Loup deu alguns passos, abafados pelo carpete azul pontilhado de pequenas coroas estilizadas de cor crem e. Parou diante da últim a porta da direita. Bateu e abriu sem esperar um convite para entrar. O chefe estava sentado na escrivaninha e, não precisava nem dizer, falava ao telefone. Naquela hora, a sala j á tinha se transform ado num local m ístico, cheio de fum aça de cigarro, um ponto de encontro entre o exem plar que ele tinha naquele m om ento entre os dedos e os m uitos outros fum ados anteriorm ente.

O diretor de Rádio Monte Carlo era a única pessoa que Jean-Loup conhecia que fum ava aqueles infectos cigarros russos com um a longa piteira de papelão que devia ser dobrada segundo um ritual quase vodu antes de acender.

Robert fez sinal para que ele se sentasse.

Escolheu um a das poltronas de couro preto na frente da escrivaninha. Enquanto Robert acabava seu telefonem a e fechava o flip de seu Motorola, Jean-Loup agitou o ar à sua frente com a m ão.

— Estam os transform ando essa sala num local para os nostálgicos da neblina? Londres ou m orte? Ou m elhor, Londres e m orte? O presidente sabe que você infesta a sala dele quando ele não está? Se for o caso, tenho m aterial para chantageá-lo até o fim de seus dias.

A Rádio Monte Carlo, a em issora em língua italiana do Principado, tinha sido encam pada por um a sociedade que adm inistrava um a rede de em issoras privadas, cuj a sede ficava na Itália, em Milão. A direção, em Mônaco, estava inteiram ente nas m ãos de Robert Bikj alo, e o presidente só aparecia para as reuniões m ais im portantes.

— Você não passa de um m oleque, Jean-Loup. Um m oleque sacana e fracote.

— Não sei com o consegue fum ar essa porcaria. Está pronto para superar aquele lim ite im palpável entre a fum aça e o gás nervoso. Talvez j á o tenha até superado há m uitos anos e nós continuam os a conversar com o seu cadáver sem perceber nada.

Robert se m anteve im passível, tão insensível ao hum or de Jean-Loup quanto à fum aça de seus próprios cigarros.

— Meu silêncio expressa m inha evidente superioridade diante desses com entários quase fem ininos. Não fiquei aqui esperando que seu precioso traseiro sentasse em m inha poltrona para ouvir piadinhas sobre m eus cigarros. E vej a bem que eu disse “precioso” porque todos sabem que é com ele que você raciocina…

A troca de ofensas j á fazia parte de um pequeno ritual estabelecido havia anos entre eles. Apesar disso, Jean-Loup pensava que estavam bem distantes do que se podia definir com o am igos. O uso daquele hum or cáustico escondia, na verdade, a dificuldade de ir além da superfície quando se tratava de Robert Bikj alo. Talvez fosse um a pessoa inteligente e, com certeza, era bem esperto. Um hom em inteligente às vezes dá ao m undo m ais do que recebe, um esperto tenta pegar tudo o que puder e, em troca, dar o m ínim o indispensável. Jean-Loup conhecia bem as regras da dança do m undo, em geral, e de seu am biente em particular; era o DJ que apresentava Voices, um dos program as de m aior sucesso na Rádio Monte Carlo. Gente com o Bikj alo só o ouvia em função da quantidade de gente que o ouvia em casa.

— Só queria dizer o que penso sobre você e sobre seu program a, antes de j ogá-lo inexoravelm ente no olho da rua…

Apoiou-se no encosto da poltrona e finalm ente apagou o cigarro num cinzeiro j á cheio de cadáveres. Deixou um silêncio de m esa de pôquer cair entre eles. Prosseguiu com o tom de quem “paga pra ver” tendo as cartas certas na m ão.

— Recebi um telefonem a a respeito de Voices, o seu program a. Era um a pessoa próxim a do Palácio. Não pergunte quem , pois só posso dizer o m ilagre, o nom e do santo, não…

O tom do diretor m udou de repente. Um sorriso de quarenta dentes floriu em seu rosto, com o se descesse um a escada real.

— O príncipe em pessoa expressou sua satisfação com o sucesso do program a!

Jean-Loup levantou da poltrona com um sorriso idêntico, bateu a m ão aberta na m ão que o outro estendia e voltou a se sentar. Bikj alo continuou seu voo nas asas do entusiasm o.

— Em todo caso, a im agem de Montecarlo sem pre foi a de um lugar rico, de um paraíso fiscal para sonegação de im postos do m undo inteiro. Ultim am ente, com toda a confusão que tem acontecido nos Estados Unidos e com a crise econôm ica que circula m ais ou m enos em toda parte, nosso brilho m urchou um pouco…

Disse aquele “nosso” com o um a gentil concessão ao m undo, m as tinha o ar de quem acha que não tem m uito a ver com os problem as alheios. Tirou outro cigarro do m aço, dobrou o filtro com as m ãos, enfiou na boca e acendeu com o isqueiro que estava na escrivaninha.

— Alguns anos atrás, nessa época, havia duzentas m il pessoas na praça do Cassino. Agora, há noites em que o ar de day after dá até m edo. O engaj am ento que você conseguiu transm itir a Voices, centrando o program a na questão social, trouxe um novo alento. Agora m uita gente acha que tam bém em Montecarlo existe um lugar onde é possível resolver os problem as, para onde você pode telefonar e pedir aj uda. Para a rádio tam bém foi um a grande j ogada, não escondo isso, tem os um m onte de patrocinadores no horizonte, o que é um term ôm etro do sucesso do program a.

Jean-Loup levantou um a sobrancelha instintivam ente e sorriu. Robert era um em presário e, para ele, o sucesso significava, em últim a análise, um suspiro de alívio e um sentim ento de satisfação na hora de fazer o balanço. Os tem pos heroicos da Rádio Monte Carlo, os tem pos dos program as de Awanagana e Jocely n e de Herbert Pagani, para dar um exem plo, tinham se acabado. Agora vivíam os os tem pos econôm icos.

— Devo dizer que estam os ótim os. Sobretudo você. À parte a fórm ula vencedora do program a e as evoluções que sofreu em seguida, o sucesso se deve decisivam ente à sua capacidade de apresentá-lo em italiano e francês sim ultaneam ente. Eu só fiz m eu trabalho…

Bikj alo fez um gesto vago de m odéstia que certam ente não com binava com ele. Referia-se, em todo caso, à sua aguda intuição do ponto de vista em presarial. A qualidade do program a e o talento bilíngue do apresentador anim aram -no a tentar um a m anobra que conseguiu concluir com a habilidade de um diplom ata consum ado. Tinha criado, apoiado pelos ouvintes e pelos resultados, um a espécie de joint-venture com a Europe 2, um a em issora francesa com linha editorial bem próxim a da Rádio Monte Carlo, que retransm itia de Paris.

O resultado disso era que Voices cobria, no ar, grande parte dos territórios italiano e francês.

Robert Bikj alo colocou os pés na escrivaninha e soprou a fum aça do cigarro para o alto. Jean-Loup pensou que era um a posição m uito institucional e alegórica. Provavelm ente, o presidente não pensaria assim .

O diretor prosseguiu, triunfal.

— Entre o fim de j unho e o com eço de j ulho terem os o Music Awards. Soube que estão pensando em você com o apresentador. E depois, tem o Festival du Cinéma et de la Télévision. Você está na crista da onda, Jean-Loup. Muitos apresentadores do seu tipo enfrentaram dificuldades na hora da passagem do rádio para a TV. Mas você tem um a boa aparência e, se j ogar bem suas cartas, tem o que acabe sendo a causa de um a queda de braço entre rádio e TV.

Jean-Loup sorriu e olhou o relógio. Levantou-se da poltrona.

— Acho que nesse m om ento Laurent está fazendo um a bela queda de braço com o próprio fígado. Ainda não nos falam os e tem os que fazer toda a escaleta do program a dessa noite.

— Diga àquela espécie de redator-chefe que o olho da rua tam bém está esperando por ele.

Jean-Loup dirigiu-se para a porta. Quando estava saindo, Robert o deteve.

— Jean-Loup?

Ele se virou. Bikj alo estava sentado na poltrona e se balançava com a expressão de um Fraj ola que finalm ente conseguiu devorar o canarinho.

— Diga.

— Creio que é evidente que, se todas essas histórias de televisão se realizarem , seu em presário sou eu…

Jean-Loup pensou que Bikj alo tinha a m esm a cara que o pranteado La Palisse* devia ter quando dizia um a das suas. Decidiu que venderia bem caro a própria pele.

— Sofri m uito para suportar o percentual de fum aça de seus cigarros. Para ter um percentual do m eu dinheiro você vai ter que sofrer pelo m enos tanto quanto eu.

Quando fechou a porta, Robert Bikj alo olhava para o teto com expressão sonhadora. Jean-Loup teve a im pressão de que j á estava contando o dinheiro que ainda não havia ganhado.

 

*Senhor de La Palisse (1470-1525), fam oso guerreiro francês, m orto em com bate na batalha de Pavia. (N. da E.)