Eu Mato

Giorgio Faletti · Capítulo 12 de 76

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Eu Mato

Capítulo 9

9

 

SAINDO DO COMANDO DA POLÍCIA, Frank dobrou à esquerda na Rue Suffren Ray m ond e, depois de uns dez m etros, chegou ao Boulevard Albert Prem ier, a avenida que contornava a m arina. Um a grua se m ovia com indolência sobre o fundo azul do céu. O grupo de operários ainda trabalhava desm ontando as estruturas dos boxes e carregando-as para um cam inhão.

Tudo prosseguia conform e as regras.

Ele atravessou a rua e parou no passeio diante da m arina, observando os barcos ancorados. Não havia o m enor vestígio daquilo que tinha acontecido.

O Beneteau tinha sido rebocado e, com certeza, estava em algum lugar à disposição da polícia para o prosseguim ento da investigação. O Baglietto e o outro barco que ele tinha abalroado ainda estavam ali, boiando sem m em ória, com prim indo suas balaustradas um a contra a outra, quando o m ovim ento das ondas os aproxim ava. As barreiras tinham sido retiradas. Não havia m ais nada para ver.

O bar da m arina tinha retom ado suas atividades norm ais. Provavelm ente os fatos tinham até servido para aum entar a clientela, alim entada por curiosos que queriam estar no local onde tudo acontecera. Talvez o j ovem m arinheiro que descobriu os cadáveres estivesse ali, gozando de seu m om ento de fam a e contando o que tinha visto. Ou, talvez, calado diante de um copo para tentar esquecer.

Frank sentou-se no banco de pedra.

Um m enino passou a toda velocidade sobre os patins Rollerblade, seguido por um a m enina m enor que tinha dificuldades com os seus e pedia que esperasse com voz chorosa. Um hom em com um labrador preto esperou pacientem ente que o cão acabasse de fazer suas necessidades para retirar do bolso um saquinho plástico e um a pá, recolher do chão o produto do m alfeito canino e dirigir-se diligentem ente até a lixeira para depositá-lo.

Gente norm al. Pessoas que viviam com o tantas outras, com o todo m undo, talvez com m ais dinheiro, talvez com m ais felicidade ou com a ilusão de poder encontrá-la m ais facilm ente. Talvez fosse apenas aparência e m ais nada. Em bora dourada, um a gaiola é sem pre um a gaiola, e cada um é artífice do próprio destino. Cada um construía, ou destruía, a própria vida segundo as regras que im punha a si m esm o. Ou as regras que se recusava a im por a si m esm o.

Não havia saída para ninguém .

Um barco estava saindo da m arina e um a m ulher loura de m aiô azul agitou a m ão na proa, acenando para alguém na m argem . Vista de longe, era parecida com Harriet.

Frank sentiu um a onda de calor nervoso subir do estôm ago para o rosto. Num segundo, o m ar se sobrepôs ao m ar, o reflexo ao reflexo, a m em ória ao olhar.

 

Depois que saiu do hospital, ele e Harriet alugaram uma casa de praia na costa da Geórgia, num local isolado. Era uma casa de madeira, com teto de telhas canadenses vermelhas, construída entre as dunas, a 100 metros do mar. Tinha uma varanda na frente com grandes vidraças corrediças, que podiam ser abertas no verão, transformando a varanda numa espécie de pátio.

De noite, ouviam o vento que soprava através da vegetação esparsa e o barulho das ondas que quebravam à beira-mar. Ficavam na cama e Frank sentia que a mulher se apertava contra ele, como se tivesse uma necessidade frenética de assegurar-se de sua presença, como se não conseguisse se convencer de que ele estava mesmo ali, vivo.

De dia, ficavam na praia tomando sol e nadando. Aquele trecho da costa era praticamente deserto. Os que buscavam o mar e a confusão da praia cheia iam para longe, para os lugares da moda, para admirar os adeptos da musculação que se exercitavam ou as moças de seios e traseiros siliconados que passavam rebolando, como se estivessem fazendo um teste para Bay watch.

Ali, deitado na toalha, Frank podia exibir ao sol, sem acanhamento, seu corpo emagrecido, as cicatrizes avermelhadas espalhadas por todo lado, a marca dolorida da operação no coração que servira para remover o estilhaço que por pouco não o matara.

Às vezes, deitada a seu lado, Harriet percorria com o dedo a carne sensível das cicatrizes e seus olhos se enchiam de lágrimas. Não falavam do que tinha acontecido. Às vezes, o silêncio caía entre eles: era quando os dois pensavam na mesma coisa com pensamentos diferentes, quando recordavam os sofrimentos daqueles últimos meses e o preço que tinham pagado.

Então, não tinham coragem de olharem-se nos olhos. Cada um virava o rosto para seu pedacinho de mar até que um dos dois, sempre em silêncio, encontrava forças para virar e abraçar o outro.

De vez em quando, desciam para fazer compras em Honesty, uma vila de pescadores que era o centro habitado mais próximo. Parecia uma cidade da Escócia, e não americana. Era um lugar tranquilo, sem nenhuma pretensão turística, feito de casas de madeira, muito parecidas entre si, construídas ao longo da rua que seguia uma linha paralela à praia, onde um deque de cimento colocado sobre as rochas represava as ondas durante o inverno.

Almoçavam num restaurante com grandes janelas de vidro que davam para o cais, construído sobre estacas com um piso de madeira que ressoava sob os passos dos garçons. Bebiam vinho branco tão gelado que embaçava os copos e comiam lagosta recém-pescada, sujando os dedos e manchando a roupa quando tentavam abrir a carapaça. Muitas vezes riam como crianças e Harriet parecia não pensar em nada, assim como Frank.

Não tinham falado nada até o momento em que o telefone tocou.

Estavam em casa e Frank cortava verduras para uma salada. Do forno, saía o perfume delicioso do peixe assado com batatas. Lá fora, o vento levantava areia do alto das dunas e o mar estava todo salpicado de espuma branca. As velas solitárias de dois windsurfes cortavam velozes as ondas, bem na frente de uma grande picape estacionada na praia. Harriet estava na varanda e não ouviu o telefone tocar por causa do assovio do vento. Ele veio até a porta da cozinha com um grande pimentão vermelho na mão.

— Harriet, telefone. Pode atender, por favor, que estou com as mãos ocupadas?

Sua mulher se levantou e andou na direção do velho aparelho preso na parede, que continuava a tocar à moda antiga. Tirou o fone do gancho e ele ficou olhando para ela.

— Alô?

Assim que recebeu a resposta, sua expressão mudou, como acontece quando se recebe uma má notícia. O sorriso se apagou e ela ficou em silêncio por um instante. Depois, apoiou o fone na mesa e olhou para Frank com uma intensidade que durante muito tempo voltou para atormentar suas noites.

— É para você. Homer.

Ela se virou e voltou para a varanda, sem dizer mais nada. Ele foi até o aparelho e pegou o fone, no qual ainda pôde sentir o calor das mãos da mulher.

—Alô.

— Frank, sou eu, Homer Woods. Como vai?

—Ótimo.

—Bem mesmo?

—Sim.

Se Homer tinha percebido seu jeito lacônico, não deu a entender. Continuou como se tivessem conversado pela última vez há dez minutos.

— Nós os pegamos.

— Quem?

— Os Larkin, claro. Dessa vez pegamos os dois com a boca na botija e sem bombas no meio. Houve um tiroteio e Jeff Larkin entregou a alma ao Criador. Havia uma montanha de entorpecentes e uma montanha ainda maior de dólares. E papéis. Abriram-se novas perspectivas que prometem muito. Com um pouco de sorte, temos material suficiente para colocar um monte de gente contra a parede.

— Ótimo.

Disse a mesma palavra de antes, com o mesmo tom, porém, mais uma vez, o chefe não deu mostra de ter percebido.

Imaginava Homer Woods em sua sala de madeira escura, sentado na escrivaninha com o telefone na mão, os olhos azuis por trás dos óculos de armação de ouro, imutáveis como o terno cinza com colete e a camisa de listras azuis.

— Frank, foi graças ao trabalho de vocês dois, você e Cooper, que chegamos aos Larkin. Todos aqui sabem disso e eu queria muito lhe dizer isso. Quando pensa em voltar?

— Francamente, não sei. Logo, acho eu.

— Certo, não tenho intenção de pressioná-lo. Mas lembre-se do que lhe disse.

— Certo, Homer. Obrigado.

Desligou e saiu para procurar Harriet. Ela estava sentada na varanda e olhava os dois rapazes que estavam colocando windsurfes, já desmontados, no teto da picape.

Em silêncio, sentou-se a seu lado no banco de madeira de dois lugares. Ficaram um pouco ali, um ao lado do outro, olhando a praia, até que o carro dos jovens se afastou, como se aquela presença estranha, mesmo distante, fosse por si só um impedimento para qualquer comunicação.

Foi Harriet quem rompeu o silêncio.

— Ele perguntou quando está pensando em voltar, não foi?

— Sim.

Entre eles nunca existiram mentiras e Frank não pensava em começar bem agora.

— É o que você quer?

Frank se virou para ela, mas Harriet tratou cuidadosamente de evitar seu olhar. Voltou, ele também, a olhar para o mar e para as ondas que se perseguiam no vento, brancas de espuma.

— Harriet, sou um policial. Não escolhi essa vida por necessidade, mas por prazer. Sempre quis fazer o que faço e não me adaptaria a outra coisa. Nem sei se seria capaz. Há um provérbio italiano que minha avó sempre repetia. Dizia que quem nasce quadrado não morre redondo…

Levantou-se e apoiou a mão no ombro da mulher, agora levemente tenso.

— Não sei a qual das duas formas pertenço, Harriet, mas o que sei é que não quero mudar.

Entrou em casa de novo e, quando voltou para procurá-la, ela tinha desaparecido. Viu suas pegadas na praia diante de casa, dirigindo-se para as dunas. Reconheceu-a lá longe, caminhando junto ao mar, uma figura minúscula de cabelos agitados ao vento. Seguiu-a com os olhos até que outras dunas esconderam-na de sua vista. Pensou que ela queria ficar sozinha e que, no fundo, era melhor. Retornou para a casa e sentou-se à mesa, diante de uma comida que não tinha mais vontade de comer.

De repente, não se sentiu mais tão seguro sobre o que tinha dito antes. Talvez houvesse uma outra vida possível para eles dois. Talvez fosse verdade que quem nasceu quadrado não morre redondo, mas sempre se podia lixar os cantos, arredondá-los, de modo que ninguém ficasse ferido.

Sobretudo as pessoas amadas.

Decidiu que pensaria melhor durante a noite e, na manhã seguinte, voltaria a conversar com ela. Juntos, ele tinha certeza de que encontrariam uma solução.

Não houve nenhuma manhã seguinte para eles dois.

Esperou pelo retorno de Harriet até o meio da tarde. Quando o sol começou a cair e alongar as sombras das dunas como dedos escuros sobre a praia, viu duas figuras se aproximando lentamente ao longo da orla. Apertou os olhos para protegê-los do reflexo do brilho incandescente do sol poente. Estavam muito distantes para que pudesse distingui-los bem. Frank, através da janela aberta, via as pegadas das pessoas que se aproximavam irem se imprimindo na areia atrás deles a cada passo, deixando um rastro a partir das dunas que delimitavam seu horizonte ao fundo. Suas roupas esvoaçavam ao vento e suas silhuetas tremulavam, como filtradas pelo vapor que sai do asfalto à distância. Quando estavam perto o suficiente para que pudesse reconhecê-los, Frank viu que um deles era o xerife de Honesty.

Sentiu a agitação crescer dentro dele como um presságio sinistro. Finalmente, encontrou-se diante do homem que mais parecia um contador que um policial e seus temores se transformaram em horripilante realidade. Segurando o chapéu na mão e evitando o mais que podia encontrar seu olhar, o xerife informou-o do que tinha acontecido.

Cerca de duas horas antes, pescadores que estavam costeando o litoral a 200 metros da praia avistaram do barco uma mulher que correspondia à descrição de Harriet. Estava em pé no alto de um rochedo que, como um acidente geológico, interrompia a longa litania de dunas da costa. Estava sozinha e olhava para o mar. Quando chegaram mais ou menos à sua altura, a mulher se jogou. Como não a viram voltar à tona, desviaram a rota imediatamente para socorrê-la. Um deles mergulhou na água no local em que ela tinha caído mas, apesar dos esforços, não conseguiram encontrá-la. Avisaram a polícia e as buscas logo começaram, mas revelaram-se infrutíferas até aquele momento.

O mar só devolveu o corpo de Harriet dois dias depois, quando as correntes o empurraram para as areias de uma enseada, três quilômetros ao sul da casa.

Durante a identificação, Frank se sentiu como um assassino diante do cadáver de sua vítima. Observou o rosto da mulher em repouso na bancada do necrotério e com um aceno de cabeça simultaneamente confirmou a identidade de Harriet e assinou sua própria condenação. Graças aos testemunhos dos pescadores, praticamente não houve investigação, mas isso não serviu para liberar Frank do remorso que carregava dentro de si.

Estava tão ocupado consigo mesmo que não percebera a profunda depressão em que sua mulher tinha caído. Ninguém tinha notado, mas isso não era atenuante. Ele deveria ter percebido a inquietação da esposa. Ele deveria ter entendido. Todos os sinais estavam lá, mas em seu delírio de autocomiseração, conseguiu ignorá-los. E a discussão depois do telefonema de Homer tinha sido o golpe de misericórdia.

Definitivamente, ele não era redondo nem quadrado, era simplesmente cego.

Foi embora daquele lugar com o corpo de sua mulher fechado num caixão, sem sequer passar em casa para fazer as malas.

Durante todo aquele tempo, não conseguiu derramar uma única lágrima.

 

— Mãe, olha, tem um hom em chorando.

A voz infantil sacudiu-o daquela espécie de transe em que tinha caído. A seu lado, um a m enina de cabelos louros e vestido azul levou um repelão da m ãe para que se calasse. A m ulher olhou para ele, sorriu em baraçada e foi em bora às pressas, levando a filha pela m ão.

Frank não tinha percebido que chorava. Nem sabia quanto tem po fazia que estava chorando.

Aquelas lágrim as chegavam de longe. Não eram a salvação, não eram o esquecim ento, m as sim plesm ente um alívio. Representavam um a pequena trégua para respirar um pouco, sentir nem que fosse por um m om ento a tem peratura do sol, ver a verdadeira cor do m ar, ouvir seu coração bater no peito pelo m enos um a vez sem o som de um tam bor fúnebre.

Estava expiando sua loucura.

O m undo inteiro estava expiando sua loucura.

Repetiu isso horas a fio, depois da m orte de Harriet, sentado num banco do j ardim da St. Jam es Clinic, onde tinha sido internado à beira da loucura. Com preendeu definitivam ente m eses depois, durante a tragédia do World Trade Center, quando viu na televisão as duas torres caírem com o só as ilusões costum am cair. Hom ens lançavam aviões contra arranha-céus em nom e de Deus, enquanto alguém , com odam ente sentado num escritório, j á estava inventando um m odo de usufruir de sua loucura na Bolsa. Outros hom ens ganhavam a vida fabricando e vendendo m inas, e, no Natal, levavam presentes para seus filhos, à custa de m atar e estropiar outras crianças. A consciência era um acessório cuj o valor estava ligado às flutuações do preço do barril do petróleo. Em m eio a tudo aquilo, não era de espantar que, de vez em quando, aparecesse alguém que, sozinho, escrevia com sangue seu destino.

Eu mato…

O rem orso pela m orte de Harriet seria um com panheiro de viagem cruel o suficiente para não abandoná-lo nunca m ais. Sozinho, seria um a pena suficiente para o resto de seus dias. Não esqueceria. Não poderia fazê-lo nem que sua vida durasse para sem pre. E não conseguiria se perdoar nem que sua vida durasse o dobro da eternidade.

Não podia dar cabo da loucura do m undo. Só podia dar cabo da sua própria, e esperar que quem ainda fosse capaz de fazê-lo seguisse seu exem plo. E apagar para sem pre aquele e outros escritos com o aquele. Ficou sentado na pedra, chorando, sem se preocupar com a curiosidade dos passantes, até perceber que não tinha m ais lágrim as.

Então se levantou e, lentam ente, dirigiu-se para a chefatura de polícia.