Eu Mato
Capítulo 50
50
REMY BRETECHER COLOCOU O CAPACETE e levantou com o pé o descanso lateral da m oto. Apesar da descida, não tinha dificuldade para dirigir a Pégaso. A excitação que sentia o faria segurar o peso de sua Aprília com um a perna só. Estacionou a m oto na praça do Cassino, no local reservado aos m otociclistas, na frente do Hotel Metropole, à direita. Através da viseira levantada, m antinha seu hom em , que tinha atravessado os j ardins e estava agora na altura do chafariz, sob controle. Rem y era experiente em certo tipo de tocaia. Em geral, agia em outros locais, os cassinos de Mentone ou de Nice, por exem plo, ou outras pequenas casas de j ogo que pipocavam por todo lado na Côte d’Azur. Às vezes chegava até Cannes. Para certo tipo de atividade, Montecarlo devia ser considerada off-limits. Perigoso dem ais, fechado dem ais e polícia eficiente dem ais por todo lado. Rem y sabia m uito bem que, m isturados aos clientes habituais, havia um núm ero exagerado de agentes à paisana nas salas de j ogo.
Naquela noite estava ali com o sim ples turista. Viera para assuntar um pouco, ver com o estavam os ares no Principado com aquela história do serial killer em circulação. Entrara no Café de Paris quase por acaso e som ente a força do hábito o fizera reparar naquele suj eito com cara de sifilítico e ar de fodão que ganhara três en plein seguidos na roleta, m ostrando um a sorte digna da loteria nacional.
Sem se fazer perceber, seguiu-o até o caixa e viu o m ontante da bolada que enfiou no bolso interno do paletó. Im ediatam ente, a noite de folga se transform ou num a noite de trabalho. Na realidade, Rem y era m ecânico num a oficina especializada no conserto e na personalização de m otocicletas na periferia de Nice. Era tão bom com os m otores que o sr. Catram bone, seu patrão, fechava os olhos para seu currículo. De fato, aquela à qual se dedicava naquele m om ento, e que podia ser definida com o um a atividade secundária do rapaz, havia lhe rendido, quando ainda era m enor de idade, duas passagens no reform atório. Experiências j uvenis devidas a um a substancial falta de experiência, repetição de palavras à parte. Até o m om ento, felizm ente, nenhum a estada nas cadeias pátrias. Os tem pos m odernos, aliás, consideravam a profissão de punguista com o pecado venial e Rem y era esperto o bastante para não usar arm as no curso de seus “contatos de trabalho”, com o costum ava defini-los. Bastava fazer as coisas com um pouco de m assa cinzenta para garantir um segundo salário que não causava incôm odo a ninguém .
De vez em quando, quando sentia que era a noite certa, peram bulava pelos cassinos de olho nos j ogadores solitários que conseguiam ganhar grandes som as de dinheiro. Tratava de segui-los na saída e perseguia-os de m oto. Se iam em bora de carro, a coisa ficava um pouco m ais com plicada. Tinha que segui-los até em casa, e se o prédio dispunha de estacionam ento interno, só lhe restava lam entar a viagem perdida. Ficava olhando o carro desaparecer além do portão ou da descida de um a garagem com as luzinhas de freio acendendo para indicar um a noite furada. Se estacionavam na rua, ao contrário, a coisa estava feita. Abordava o suj eito quando estava de pé na frente da porta de entrada do edifício, procurando as chaves de casa. Tudo acontecia num átim o de segundo. Aparecia com o capacete na cabeça, um a m ão no bolso da j aqueta e m andava que passasse todo o dinheiro. A m ão no bolso podia ser um sim ples blefe, m as tam bém podia esconder realmente a presença de um a arm a. As som as com que lidava, em geral, não eram quantias capazes de levar alguém a arriscar a vida para evitar que fossem roubadas. Isso favorecia a entrega do dinheiro ao novo proprietário. Em seguida, um a fuga em velocidade e tudo estava acabado. E ficava a surpresa de verificar, depois, com segurança, qual era o significado econôm ico daquela transação tipo caixa-eletrônico.
Quando, ao contrário, o “cliente” se afastava a pé, bastava esperar o m om ento certo — zona com pouco trânsito, nada de tiras e se possível ilum inação fraca — e depois os procedim entos eram os m esm os. Aliás, geralm ente m ais rápidos.
Com o só lidava com frequentadores de cassinos, Rem y se perguntou m ais de um a vez se aquilo não seria um a espécie de vício do j ogo, um a form a alternativa de dependência do feltro verde, com todas suas conexões. Chegou finalm ente à conclusão de que podia se considerar um a espécie de curandeiro para os viciados, a dem onstração viva de que a farinha do diabo se vai toda em farelo.
Em resum o, um a espécie de autoabsolvição.
A ideia de considerar-se com o um m ero delinquente com um nunca lhe passou pela cabeça.
Apertou o botão de partida e o m otor da Aprília girou docilm ente, ronronando baixinho, m as com um rum or audível até na velocidade m ínim a. Esperou que o hom em não fosse diretam ente para o ponto de táxi ao lado do Hotel de Paris. Isso poderia sim plificar um pouco as coisas, pois um táxi significava nada de estacionam ento num a garagem no subsolo. Porém , podia significar tam bém que a noitada ainda não tinha term inado, risco sem pre presente. Em geral, os j ogadores inveterados acabam gastando m al suas vitórias, num dos m uitos inferninhos dos quais Nice era um a vitrine m em orável e que, na m aioria dos casos, eram prostíbulos legalizados. Pagavam bebidas a rodo e no final ofereciam a um a entraîneuse um a quantia que daria para sustentar um a fam ília de três pessoas por um a sem ana, tudo por um boquete num reservado. Não achava j usto que o fruto de tam anha sorte acabasse descendo pela garganta de um a piranha.
Ergueu o pedal do câm bio com o pé e conseguiu cruzar com seu hom em quando atravessava a praça na altura da aleia central. Parou e recolocou a m oto sobre o descanso. Desceu com o se tivesse que verificar algum a coisa no baú colocado em cim a do para-lam a traseiro.
Aliviado, viu que o hom em ultrapassava o único táxi parado à espera. Se fosse na direção de Sainte-Dévote, seria um a sorte incrível. Aquela área quase nunca tinha trânsito de pedestres, sobretudo àquela hora, e podia fazer um servicinho lim po e rápido e, além do m ais, poderia pegar im ediatam ente a estrada para Nice e desaparecer num a das três corniches.
Rem y estava particularm ente anim ado com aquele trabalhinho inesperado. Saindo do Café de Paris, seguiu a vítim a a pé pelos j ardins. O hom em estava tom ando a direção que o levaria a poucos m etros do local onde estava estacionada a m oto. Podia aliviá-lo na penum bra daquela área. Não seria nada m al fazer o trabalho ali m esm o, com a possibilidade de escapar nas duas rodas em poucos segundos e desaparecer num piscar de olhos.
Viu o hom em se sentar num banco, m as seguiu reto, sem deixar que o vissem , pois um a outra pessoa havia se sentado a seu lado. Houve um m ovim ento estranho entre os dois. O hom em que ele seguira, o tal com cara de m orto, deu ao outro um a sacola que usava a tiracolo e recebeu em troca um a m aleta à la Jam es Bond.
Aquela história cheirava m al. Ou bem , dependendo do ponto de vista. Podia contar com a possibilidade, nem tão rem ota, de que aquela m aleta contivesse algo de precioso. Essa sensação positiva, som ada ao dinheiro que o viu em bolsar no Café de Paris, podia colocar aquela noite no top absoluto do lucro no seu Guinness Book pessoal.
Term inada a troca, quando os dois se separaram , perdeu o m om ento certo. Pela direita, chegou um grupo de pessoas descendo para o Cassino. Rem y se perguntou se devia agir assim m esm o. Mesm o que a vítim a pedisse aj uda, coisa que duvidava, ninguém costum a se m eter nessas histórias. Quando ocorre um roubo, as pessoas têm um a tendência a tratar im ediata e diabolicam ente de sua própria vida. Não era à toa que os cursos de autodefesa ensinavam que, quando se é vítim a de um roubo, não convém gritar “socorro, ladrão”, m as “fogo, fogo!”, se quiser ver alguém chegar para aj udar.
Rem y sabia m uito bem que os heróis não nascem em árvore. Em todo caso, sem pre pode haver um a exceção que confirm a a regra e achou m elhor não correr o risco.
Saiu com a m oto e cortou pela Avenue des Beaux Arts para dobrar à esquerda na Avenue Princesse Alice e tentar restabelecer contato visual com a pessoa em questão, que tom ara a Avenue de Montecarlo, um a via com vista para o m ar que desem bocava na Avenue d’Ostende, para a qual confluía a rua que ele tinha pegado.
Se não estivesse ocupado dirigindo a m oto, Rem y teria esfregado as m ãos. Aquele trecho da rua era praticam ente deserto, condição ideal para os anim ais com o ele em sua caçada pelo alim ento cotidiano.
Rem y seguia lentam ente, em segunda, com a viseira do capacete levantada, com o fecho ecler da j aqueta m eio aberto, com o um turista norm al em sua m oto, querendo gozar sem pressa o ar tépido daquela noite de verão.
Lá estava o hom em . Seguia sem pressa, fum ando um cigarro. Muito bem . No com eço da Avenue d’Ostende, o hom em atravessou a rua e ficou na m esm a calçada em que Rem y estava. E até segurava a m aleta com a m ão esquerda, posição nitidam ente favorável às suas intenções. Rem y não podia acreditar nos próprios olhos. Mesm o que tivesse escolhido pessoalm ente, as condições não poderiam ser m elhores. Pensou que seu próxim o cliente certam ente gastara toda sua dose de sorte da noite com a vitória no Café de Paris.
Dada a situação, pensou que deveria ser um pouco m enos delicado naquela ação do que costum ava ser. Quem não vai à estação não pega o trem , com o costum ava dizer seu patrão, o barbudo sr. Catram bone.
Respirou profundam ente e decidiu que havia chegado a hora. Encostou o pneu dianteiro no degrau da calçada e, com um im pulso para o alto, aj udou-o a superar o obstáculo.
A m oto estava atrás da vítim a, que bem naquele m om ento j ogou a guim ba do cigarro no chão. Tinha que ser rápido, antes que ele trocasse a m aleta de m ão. Rem y acelerou de repente e chegou atrás do hom em que, ouvindo o barulho da m oto, girou instintivam ente a cabeça. O punho de Rem y o atingiu no lado esquerdo do rosto, entre o nariz e a boca.
O pobre infeliz, talvez m ais pela surpresa do que pela pancada, caiu no chão, m as segurando a m aleta com toda a força. Rem y freou a m oto, derrapando um pouco com a roda de trás.
Apoiou-a no descanso lateral e desceu, rápido com o um gato. Prevendo suas necessidades, m odificara o m ecanism o de m odo que o m otor não desligasse autom aticam ente quando ele descia a alavanca.
Aproxim ou-se do hom em caído, a m ão esquerda no bolso esticando o couro da j aqueta.
— Não se m ova ou é um hom em m orto.
Rem y aj oelhou, enfiou um a m ão no paletó do hom em e retirou um m aço de notas que encontrou no bolso interno. Não foi m uito delicado e sentiu que o tecido leve do forro se rasgava. Sem nem olhar, enfiou o dinheiro na j aqueta. Levantou-se de novo e estendeu a m ão para o hom em caído.
— Largue a m aleta.
O suj eito j á tinha por si só um a cara de doente e um físico de m erda, agora, com o nariz cheio de sangue, estava ainda m ais parecido com alguém pronto para entregar a alm a ao Criador. Quem poderia im aginar que seria capaz de esboçar um a reação? Até então, tudo acontecera com tanta rapidez que ele não tinha podido nem se dar conta da situação. Quando finalm ente com preendeu o que ocorria, que estava sendo roubado por aquele suj eito de m otocicleta e j aqueta de couro, colocou-se de pé num salto e deu com a m aleta no capacete de Rem y.
O rapaz pensou que aquele cara não tinha tanta bala na agulha. Sua reação fora certam ente ditada pelo instinto e não por um a capacidade real de se defender. Fora sim ples pânico e m ais nada. Certam ente teria esm agado seus colhões se, em vez de dar um a pancada em seu capacete, sólido e inteiriço, com o único resultado de obrigá-lo a virar a cabeça de lado, tivesse enfiado a m aleta entre suas pernas com a m esm a violência.
Rem y era um rapaz robusto, m uito m ais forte que a vítim a. Socou a cara do hom em exatam ente no m esm o lugar de antes. Sentiu um dente ranger. Se não contasse com a proteção da luva, teria até m achucado a m ão.
Naquele instante, por sorte, não havia m ais ninguém a pé naquele trecho, m as um carro passou pelo outro lado, subindo. Um dos passageiros virou-se para olhar. Se tinha percebido o que estava ocorrendo e avisasse a polícia, que sem pre dispunha de algum agente na praça do Cassino, aquela história poderia ganhar contornos pouco confortáveis para ele. Precisava ser rápido.
Apesar do segundo soco, o hom em não largara a m aleta. No entanto, estava bastante abalado pelos golpes. O nariz sangrava aos borbotões, suj ando de verm elho o paletó e a cam isa. Tinha lágrim as nos olhos, fosse por causa da pancada no nariz, fosse pela raiva.
Rem y agarrou a alça da m aleta, puxou-a com toda a força e conseguiu arrancá-la de sua m ão. Virou-se e cam inhou em direção à m oto. A vítim a encontrou forças, talvez no desespero, para lançar os braços ao redor de seu pescoço e subir nas suas costas.
Rem y tentou sacudi-lo de cim a, m as não conseguiu.
Deu um a cotovelada em seu estôm ago. Sentiu o braço afundar com violência na carne m ole, enquanto o hom em agarrado às suas costas soltava um violento sopro de ar pela boca. Rem y pensou num balão esvaziando de repente.
Sentiu o peso do hom em abandonar suas costas. Virou-se e o viu dobrado em dois, segurando o estôm ago com os braços. Para evitar qualquer surpresa, deu-lhe um em purrão: não um chute, m as um sim ples em purrão com o pé num dos om bros para afastá-lo de si.
O hom em escorregou para trás, além da beira da calçada, e caiu no asfalto bem na hora em que um a grande lim usine escura chegava pela Avenue d’Ostende em alta velocidade.
Laurent Bedon foi atropelado em cheio e a pancada o j ogou do outro lado da rua com a bacia e a perna fraturadas. Sua cabeça chocou-se violentam ente contra o m eio-fio de pedra.
A m orte foi instantânea.
Não pôde ouvir o ruído de um a m oto se afastando a toda velocidade, o grito histérico de um a m ulher, o estrépito dos pneus de outro carro que freava para desviar de seu corpo estendido inerte no chão, sobre um a poça de sangue que com eçava a se alargar lentam ente no asfalto, sob a sua cabeça.
O acaso, que costum ava pregar peças tanto com os vivos quanto com os m ortos, levantou um repentino sopro de vento. Flutuando na brisa, um a folha de j ornal pousou sobre o rosto de Laurent, quase com o se quisesse esconder piedosam ente o horror daquela m orte dos presentes. Por ironia do destino, bem naquela noite em que com eçava a se sentir alguém , sobre seu rosto sem vida sobrepôs-se o rosto de Jean-Loup Verdier, im presso em tam anho natural na prim eira página do Nice Matin.
Em baixo da foto lia-se um a legenda em preto, sublinhada por um a linha verm elha.
A legenda dizia: O verdadeiro rosto de Ninguém.