Eu Mato
Capítulo 58
58
— PRONTO!
Gachot, o especialista em explosivos, um suj eito alto e m aciço com bigodes e cabelos tão escuros que parecem tingidos, levantou do chão com um a agilidade surpreendente para alguém corpulento com o ele. Frank achava que aquilo que inflava o uniform e do pessoal de operações especiais era um a sólida m assa de m úsculos e não o resultado de um a tendência a enfiar as pernas em baixo de um a m esa e a ter o m ovim ento dos m axilares com o única atividade física.
Afastou-se da porta de m etal. Presa à fechadura com um a fita adesiva prateada, via-se um a caixinha do tam anho de um telefone sem fio, com um a pequena antena e dois fios, um am arelo, o outro preto, que partiam do aparelho e acabavam num buraco feito na porta logo abaixo do volante de abertura.
Frank olhou o detonador, com pletam ente anônim o em sua sim plicidade. Pegou-se pensando nas babaquices que se viam nos film es, em que o aparelho destinado a explodir a bom ba atôm ica que destruiria a cidade e m ataria m ilhões de habitantes tinha sem pre um m ostrador verm elho no qual os segundos escorriam im placáveis, fazendo a contagem regressiva do tem po que faltava para a explosão final. Obviam ente, o protagonista conseguia desarm ar o aparelho quando faltava um único e fatal segundo, depois de longos instantes em que, j unto com os espectadores, ele vivia a dram ática dúvida entre cortar o fio verm elho ou o verde. Essas cenas sem pre o fizeram sorrir. O fio verm elho ou o fio verde. A vida de m ilhões de pessoas dependia do fato de o protagonista da história ser ou não ser daltônico…
Na realidade, tudo era diferente. Não havia necessidade algum a de visualizar o count-down de um detonador ligado a um cronôm etro, pelo sim ples fato de que, em geral, não havia ninguém para olhar para ele quando um a bom ba estava para explodir. E se alguém fosse obrigado a fazê-lo, não im portava nem um pouco se o cronôm etro fosse preciso ou não.
Gachot se aproxim ou de Gavin.
— Estou pronto. Melhor evacuar os hom ens.
— Distância de segurança?
— Não deveria haver problem as. Só usei um pouco de C4, que é um explosivo bastante m anej ável. Para o resultado que querem os, se analisei corretam ente, dá e sobra. As consequências da explosão devem ser bastante lim itadas. O único risco é representado pela porta, que é forrada de chum bo. Poderá haver estilhaços se por acaso errei os cálculos e usei um pouco dem ais. Diria que o m elhor é m andar todos eles para a garagem .
Frank adm irou o excesso de prudência do técnico, que tinha sido treinado tanto para desarm ar quanto para construir bom bas. Era a m odéstia natural de quem faz bem o seu trabalho, ainda m ais depois de Gavin ter dito que naquele assunto ele estava um passo à frente do próprio diabo.
Um passo à frente do homem que está fechado do outro lado dessa porta, então, pensou Frank.
— E a sala do andar de cim a?
Gachot sacudiu a cabeça.
— Nenhum problem a, se os hom ens ficarem distantes da escada que desce para a lavanderia. O deslocam ento de ar, repito, será bastante lim itado, m as vai escapar por ali e pelas lucarnas em frente.
Gavin se virou para os hom ens.
— Vocês ouviram , rapazes. Terem os um a queim a de fogos de artifício. Vam os esperar lá fora, m as logo depois da explosão, entrarem os correndo pela porta do corredor e pela sala de cim a para controlar a porta do abrigo. Não sabem os o que poderá acontecer. Certam ente, nosso hom em vai ficar um pouco aturdido com a explosão, m as pode escolher entre diversas opções.
O inspetor expôs todas as eventualidades que poderiam enfrentar, contando-as nos dedos da m ão direita.
— Prim eira, sai arm ado com intenção de vender bem caro a própria pele. Não quero saber de vítim as e nem m esm o de feridos entre nós. Se o caso for esse, assim que ele aparecer de arm a em punho, nem que sej a um canivete, tratem de acabar com ele sem piedade….
Olhou para os hom ens um a um para ver se tinham assim ilado o que acabara de dizer.
— Segunda, ele não sai. Então terem os que desentocá-lo com gás lacrim ogêneo. Caso ele decida sair com intenções belicosas, m esm o com portam ento de antes. Tudo claro?
Os hom ens fizeram um sinal afirm ativo com a cabeça.
— Muito bem , agora vam os nos dividir em dois grupos. Metade com Toureu no andar de cim a. Os outros com igo, na garagem .
Os soldados da unidade de operações especiais se afastaram com o passo silencioso que j á fazia parte de seu m odo de ser. Frank adm irava o grau de eficiência dem onstrado por Gavin e seus hom ens. Particularm ente agora, que estava em sua especialidade, o tenente se m ovia com desenvoltura e lucidez. Frank im aginou-os sentados nos bancos do furgão, transportados para cim a e para baixo, com a culatra do M-16 apoiada no chão. Conversando banalidades, à espreita.
Agora a espera chegava ao fim . No m om ento em que estavam para entrar em ação, cada um deles podia dar um sentido a todo seu tem po de treinam ento. Quando todos os hom ens saíram , Gavin virou-se para o inspetor Morelli e para o delegado Roberts.
— É m elhor reunir seus hom ens do lado de fora. Em caso de resistência, não quero ter gente dem ais lá em baixo, tropeçando uns nos outros. Só falta que um dos seus acabe com um a bala na cabeça atirada por um dos m eus ou viceversa. Acho que não seria um a coisa para nos orgulharm os. E ainda teríam os que ouvir os escrivanistas…
— Certo.
Os dois policiais se afastaram para colocar seus agentes a par da situação e dar instruções. Frank sorriu com seus botões. Im aginou que escrivanistas, segundo um neologism o todo próprio, fosse a form a com o Gavin se referia aos que ficavam sentados atrás de suas escrivaninhas dando ordens sem nunca terem arriscado o pescoço no cam po de batalha.
Na sala, restaram apenas os três: o tenente Gavin, Gachot e Frank.
O especialista em bom bas tinha um controle rem oto na m ão, um aparelho um pouco m aior que um a caixa de fósforos, com um a antena igual à do detonador grudado na porta.
— Só esperam os pelo senhor. Quando quiser — disse Gavin.
Frank refletiu um instante. Fitou o pequeno controle rem oto na m ão de Gachot. Na m ão dele parecia ainda m enor. Frank conj ecturou com o o sargento fazia para lidar com engenhocas com postas de peças m uitas vezes m inúsculas com aqueles dedos.
O sargento Gachot havia se apresentado no lim ite de tem po estipulado por Gavin. Chegara num furgão azul igual ao outro, com sua equipe com posta de dois hom ens, além do m otorista. Fora inform ado dos fatos e ao ouvir as palavras “abrigo antiatôm ico” seu olhar escureceu, parecendo ainda m ais negro. Os hom ens descarregaram seu m aterial e desceram para a lavanderia. Frank sabia m uito bem que num a daquelas m aletas de plástico preto com bordas de alum ínio, m odelo flight-case, estava o explosivo plástico. Mesm o sabendo que sem um detonador em condições bem específicas o explosivo era absolutam ente inócuo, não conseguia se sentir com pletam ente seguro. Era bastante provável que aquela m aleta contivesse um a quantidade de explosivo suficiente para reduzir a casa e todos eles a pedacinhos não m uito m aiores que um selo.
Quando chegou diante da porta, o especialista exam inou-a longam ente, em silêncio. Passou as m ãos pela superfície com o se o contato pudesse lhe com unicar algum a coisa que o m etal não queria lhe dizer espontaneam ente.
Depois fez um a coisa que Frank considerou um pouco ridícula, além de anacrônica. Tirou um estetoscópio do m eio de sua aparelhagem e auscultou as engrenagens do m ecanism o, girando o volante de um lado para o outro, a fim de verificar o sentido de rotação.
Frank estava de pé no m eio dos outros, estrem ecendo com o um ovo num a frigideira. Eles pareciam a fam ília de um doente, à espera do parecer do m édico a respeito da gravidade das condições do paciente.
Gachot se virou e, felizm ente, redim ensionou parcialm ente as previsões pessim istas do inspetor Gavin.
— Talvez sej a possível.
Frank pensou que o suspiro de alívio que escapou dos lábios de cada um deles poderia levantar o pavim ento da sala logo acim a em pelo m enos uns cinco centím etros.
— A porta é blindada para radiações e para garantir a segurança estrutural, m as não é um a caixa-forte. Quero dizer que não foi criada para guardar valores, m as apenas para salvaguardar a integridade física dos ocupantes. Portanto, o m ecanism o de fecham ento é, afinal, bastante sim ples, sobretudo se considerarm os o fato de que o m odelo j á é bem velhinho. O único risco que correm os é de que a fechadura, em vez de abrir, fique totalm ente bloqueada.
— E nesse caso? — perguntou Gavin.
— Nesse caso é um a m erda. Vou precisar realm ente de um a bom ba atôm ica para abri-la e não tenho nenhum a com igo, no m om ento.
Com a piada, pronunciada com o um a sentença, Gachot tinha j ogado um balde de água fria na agitação generalizada. Afastou-se para verificar as m aletas com a aparelhagem , que seus hom ens haviam trazido para j unto da porta. Tirou dali um a broca que parecia ter saído da bolsa de ferram entas da Enterprise, a nave espacial de Jornada nas Estrelas. Um dos hom ens encaixou nela um a ponteira feita de um m etal de nom e im pronunciável, m as que Gachot descreveu com o capaz de perfurar a blindagem de Fort Knox.
De fato, a ponteira penetrou na porta com discreta facilidade, pelo m enos até um a certa profundidade, produzindo lascas m etálicas que caíram no chão diante do hom em que m anej ava a furadeira. Depois de um certo tem po, ergueu a m áscara de proteção para dar lugar a Gachot. O sargento aj oelhou-se diante do furo e enfiou um cabo de fibra óptica, equipado em um a das extrem idades com um a m icrocâm era e na outra com um visor que parecia um a m áscara de m ergulho. Ele usou essa últim a para exam inar o m ecanism o da fechadura por dentro.
Finalm ente, abriu a m aleta.
Diante de seus olhos surgiram lâm inas de plástico envolvidas em papel-alum ínio. Gachot abriu um a delas e cortou, com um cortador, um pedaço de explosivo, cuj a aparência era de um a plastilina acinzentada. O técnico em explosivos m anej ava o m aterial com extrem a desenvoltura, m as, pelas caras dos presentes, Frank suspeitou que o pensam ento geral não estava m uito distante do que ele teve anteriorm ente, durante o transporte das m aletas.
Com a aj uda de um a baqueta de m adeira, Gachot enfiou pequenas quantidades de C4 dentro do furo feito na porta e depois ligou os fios que acabavam no detonador grudado ao lado da roda.
Agora estava tudo pronto. No entanto, Frank não conseguia se resolver a dar a ordem .
Seu tem or era de que algum a coisa saísse errado e que, do outro lado, por algum m otivo que ele não saberia explicar, pudessem encontrar um cadáver. Isso tam bém podia ser um a solução, m as Frank queria pegar Ninguém vivo, nem que fosse para ter diante dos olhos, para o resto de seus dias, a im agem daquele louco psicopata sendo levado em bora algem ado. Não era aquilo que queria fazer, m as era o que deveria ser feito.
— Esperem um segundo.
Aproxim ou-se da porta até quase encostar o rosto na superfície de chum bo. Tinha a intenção de tentar m ais um a vez falar com o hom em lá dentro, adm itindo-se que ele pudesse ouvi-lo, de renovar o convite para que saísse desarm ado e com as m ãos para cim a, sem obrigá-los a usar o explosivo. Era o que tinha feito antes da chegada do esquadrão antibom ba, sem obter nenhum resultado.
Bateu o punho com força no m etal, esperando que o barulho surdo que provocava fosse ouvido lá dentro.
— Está m e ouvindo, Jean-Loup? Vam os explodir a porta. Não nos obrigue a fazer isso. Pode ser perigoso para você. É m elhor sair. Prom eto que ninguém vai lhe fazer m al. Vou lhe dar m ais um m inuto para resolver, depois m andarei explodir a porta.
Frank se afastou, dobrou o braço direito e colocou o m ostrador do relógio diante dos olhos. Apertou o botão do cronôm etro.
O ponteiro dos segundos com eçou a girar, m arcando cada segundo com o um a lem brança ruim .
…8, 9, 10
Arijane Parker e Jochen Welder, seus corpos desfigurados no barco encalhado entre os outros dois, na marina…
…20
Allen Yoshida, seu rosto ensanguentado com um esgar de caveira, os olhos esbugalhados na janela do Bentley, em sua última viagem…
…30
Gregor Yatzimin, sua dignidade serena no leito, a flor vermelha sobre a camisa branca, em contraste com a horrenda mutilação do rosto…
…40
Roby Stricker estendido no chão, o dedo crispado na tentativa desesperada de deixar uma mensagem antes de morrer, com a angústia de quem sabe tudo e compreende que já não pode dizer mais nada…
…50
Nicolas Hulot, caído em seu carro com o rosto ensanguentado e esmagado contra o volante, morto pela culpa de ser o primeiro a conhecer um nome…
…60
Os corpos dos três agentes encontrados mortos na casa…
— Chega!
Frank parou os ponteiros. Aqueles sessenta segundos bloqueados em seu relógio, a últim a chance dada a um assassino, eram para ele o m inuto de recolhim ento que a m isericórdia de todos devia às suas vítim as. Sua voz era cortante com o a ponta da furadeira quando penetrou no m etal.
— Vam os abrir essa m aldita porta.
Os três atravessaram a lavanderia, chegaram ao corredor e logo em seguida viraram à esquerda para ficar com os outros que esperavam na garagem . Os hom ens estavam aj oelhados no chão, encostados à parede da direita, a m ais distante do ponto onde a explosão aconteceria. Morelli e Roberts estavam em pé no pátio. Frank fez um gesto para os dois e eles saíram do cam po de visão da porta da garagem para um lugar protegido.
Gavin aj eitou diante da boca o braço do fone de ouvido com o m icrofone que o ligava, via rádio, a seus hom ens.
— Chegou a hora, rapazes.
Juntaram -se aos outros que estavam próxim os à parede. Eles se apertaram para abrir espaço. O tenente Gavin fez um sinal com a cabeça para Gachot. Sem trair qualquer em oção, o técnico ergueu levem ente a m ão que segurava o controle rem oto e apertou o botão.
A explosão, perfeitam ente dosada, foi m uito lim itada. Foi percebida m ais com o um a vibração do que com o um a explosão. O deslocam ento de ar aconteceu, m as ficou circunscrito unicam ente à lavanderia. O barulho ainda ecoava quando os soldados saltaram em direção à porta, seguidos por Frank e Gavin.
Quando chegaram à lavanderia encontraram os hom ens, os que estavam na garagem e os que desceram correndo do andar de cim a, em form ação diante da parede de m etal, com os fuzis apontados.
Não havia danos evidentes no local. Só o m óvel de m adeira que escondia a entrada do abrigo tinha se soltado de um a das dobradiças e pendia de um lado. O pouco de fum aça que a explosão produzira estava saindo pelas lucarnas escancaradas pela onda de ar em direção ao alto.
A porta do bunker estava entrecerrada. A explosão a abrira apenas alguns centím etros, com o se alguém tivesse passado e encostado a porta sem fechar com pletam ente.
Da fresta provinha um a m úsica furiosa, num volum e infernal.
Esperaram alguns segundos m as nada aconteceu. No ar, sentia-se o cheiro acre do explosivo. Gavin deu um a ordem no intercom unicador.
— Lacrim ogêneo.
Quase sim ultaneam ente, seus hom ens tiraram da pequena m ochila que carregavam nas costas um a m áscara contra gases. Retiraram os capacetes de kevlar, enfiaram as m áscaras, e recolocaram os capacetes em cim a delas. Frank sentiu que batiam em seu om bro e encontrou Gavin a seu lado oferecendo-lhe um a.
— É m elhor que coloque isso, se quiser ficar aqui. Sabe com o usar? — perguntou com um a ponta de ironia na voz.
Com o única resposta, Frank vestiu a m áscara num segundo e corretam ente.
— Muito bem — disse Gavin satisfeito. — Vej o que o FBI ensina algum a coisa a vocês…
Depois de colocar a sua, fez um gesto a um dos hom ens. O soldado encostou o fuzil contra a parede e deslizou em direção à porta até ficar ao lado da roda, que ainda estava presa ao batente apesar do abalo da explosão.
Quando agarrou o volante e o puxou, a porta se abriu suavem ente, sem nenhum rangido, com o todos eles esperavam instintivam ente. Pela facilidade com que o fez, dava para ver que o m ecanism o de abertura era fácil de m anej ar e se m ovia sobre eixos em perfeito funcionam ento. A porta abriu apenas o suficiente para que um outro soldado pudesse j ogar na fresta a bom ba de gás lacrim ogêneo que segurava.
Depois de alguns segundos, saiu um a espiral de fum aça am arelada. Frank conhecia aquele gás. Irritava os olhos e a garganta de m aneira insuportável. Se houvesse alguém dentro do abrigo, seria im possível resistir a seu efeito.
Esperaram alguns segundos, que pareceram um a eternidade, m as ninguém saiu por aquela porta. Só e sem pre a m úsica obsessiva num volum e altíssim o e aquelas espirais de fum aça que agora pareciam ter um significado levem ente irônico.
Frank não estava gostando nada daquilo. Não, pensou ele, não estava gostando nem um pouco. Virou-se para Gavin e seus olhares se cruzaram através da viseira da m áscara. Pela expressão dos olhos, entendeu que pensava com o ele. Os dois percebiam o que aquilo significava.
Prim eiro: não havia ninguém no abrigo.
Segundo: ao se ver perdido, o hom em tinha preferido tirar a própria vida a cair vivo em suas m ãos.
Terceiro: aquele filho da puta tam bém tinha um a m áscara contra gases. Era um a hipótese que nada tinha de fantasiosa. Estavam habituados a esperar qualquer coisa daquele hom em . Nesse caso, se tentassem entrar, visto que pela porta não passava m ais que um hom em de cada vez, bastava que ficasse atrás de um a proteção qualquer para fazer m ais vítim as antes que conseguissem abatê-lo de algum a form a. Estava arm ado e todos sabiam do que era capaz.
Gavin tom ou um a decisão.
— Joguem um a granada. Depois terem os que correr o risco e entrar.
Frank entendia m uito bem o ponto de vista do tenente. Por um lado, sentia-se m eio ridículo naquela situação, com andando um grupo de hom ens em form ação de guerra para assaltar um a porta que podia dar para um a sala vazia. Por outro lado, não queria absolutam ente que algum de seus hom ens se adiantasse, pois pretendia evitar um a situação desagradável. Eram hom ens que ele conhecia pessoalm ente, um a um , e não podia colocar suas vidas em perigo.
Frank resolveu sanar qualquer dúvida. Apoiou sua m áscara na do tenente para que pudesse ouvir m elhor o que dizia.
— Depois da granada, quem entra sou eu.
— Negativo — respondeu secam ente Gavin.
— Não há m otivo para fazer seus hom ens correrem riscos inúteis.
O silêncio e o olhar de Gavin diziam bem claram ente o que pensava sobre isso.
— É um a proposta que não posso aceitar.
A resposta de Frank não adm itia réplicas.
— Não quero bancar o herói, tenente. Mas essa história se transform ou num a coisa pessoal entre m im e esse hom em . Devo lem brar que sou eu quem dirige as operações e que o senhor está aqui apenas com o tropa de apoio. Isso não é um a sim ples proposta, é um a ordem precisa.
Em seguida, m udou o tom de voz, esperando que o outro entendesse sua intenção apesar da precariedade das com unicações.
— Se nosso hom em tivesse m atado, além de todos os outros, um de seus m elhores am igos, você faria exatam ente o que estou fazendo.
Gavin fez um sinal com a cabeça, confirm ando que tinha entendido. Frank se aproxim ou da parede e sacou a Glock. Ficou de pé ao lado da porta. Sinalizou com a m ão que estava pronto.
— Granada — ordenou secam ente Gavin.
O soldado que tinha j ogado o gás lacrim ogêneo um pouco antes retirou o pino de segurança de um a granada de m ão e lançou-a no vão da porta. Aquela granada de m ão era um a arm a especificam ente concebida para esse tipo de incursão, desprovida de efeito dilacerante, m as capaz de aturdir os ocupantes de um a sala, sem ser letal.
Houve um lam pej o ofuscante e um forte estrondo, m uito m ais forte que os anteriores. Por um instante, a m úsica ensurdecedora que saía do abrigo pareceu se transportar para seu am biente natural, no fragor de um show, em m eio às fum aças coloridas e ao brilho ofuscante das luzes. Logo em seguida, o hom em à direita de Frank deu um passo e abriu a porta o suficiente para que pudesse entrar. Um a lufada de gás lacrim ogêneo m isturada à fum aça produzida pela granada saiu lá de dentro. A porta não estava aberta o bastante para perm itir que vissem o que acontecia no interior. Frank m oveu-se com a velocidade de um raio, enfiando-se no vão com a pistola em riste.
Os outros ficaram do lado de fora, à espera.
Passaram -se dois m inutos e cada um deles sentia dentro de si um germ e de eternidade. Então a m úsica cessou de repente, m as o silêncio que se seguiu era ainda m ais ensurdecedor. Finalm ente, viram a porta se abrir com pletam ente e a figura de Frank surgir na soleira, seguido por um a últim a espiral de fum aça que flutuou em torno de seus om bros com o aspecto inquietante de um fantasm a que o acom panhava de um retorno do além .
Ainda estava com a m áscara contra gases e não dava para ver seu rosto. Tinha os braços abaixados ao longo do corpo, com o se não tivessem energia. Ainda apertava a pistola na m ão. Sem falar, atravessou a lavanderia com o passo de um hom em que lutou e perdeu todas as guerras do m undo. Os hom ens foram se colocando de lado para deixá-lo passar.
Frank dirigiu-se para a porta que estava diante dele e entrou no corredor. Gavin o seguiu e j untos chegaram à garagem onde tinham esperado a detonação do explosivo plástico. Encontraram Morelli e Roberts com os rostos excitados pela adrenalina que todos tinham por baixo das m áscaras.
Viram a luz do sol que entrava pela porta aberta da garagem , desenhando um quadrado lum inoso no pavim ento.
Gavin foi o prim eiro a tirar o capacete e a m áscara. Tinha os cabelos m olhados e o rosto todo coberto de suor. Lim pou a testa com a m anga do uniform e azul das unidades de operações especiais.
Frank ainda ficou alguns instantes parado em pé no centro do local, no lim iar entre a luz e a som bra, depois tam bém retirou a m áscara. Surgiu o rosto de um hom em m ortalm ente cansado.
Morelli se aproxim ou.
— Frank, o que aconteceu lá dentro? Você parece alguém que viu todos os diabos do inferno.
Frank virou-se para olhar para ele e respondeu com a voz de um velho e os olhos de quem não precisa ver m ais nada nessa vida.
— Muito pior, Claude, m uito pior. Todos os diabos do inferno fariam o sinal da cruz antes de entrar nesse lugar.