Eu Mato

Giorgio Faletti · Capítulo 3 de 76

Páginas do PDF

Eu Mato

Capítulo 2

2

 

ATRAVÉS DA GRANDE VIDRAÇA DA CABINE de direção, Jean-Loup olhava a cidade e os j ogos de luzes que se refletiam na água im óvel da m arina. Acim a dele, envolvida na escuridão, a presença protetora do m onte Agel, cuj o cum e, m arcado por um a série de luzes verm elhas, abrigava a antena de transm issão da rádio, que perm itia que alcançassem e cobrissem toda a Itália.

Ouviu a voz de Laurent às suas costas, saindo do interfone.

— Fim do intervalo, volta ao trabalho.

Sem se preocupar em responder, o DJ afastou-se da j anela e voltou para seu lugar. Aj eitou os fones de ouvido e sentou na frente do m icrofone. Através do vidro da cabine de direção, Laurent m ostrou a m ão aberta a Jean-Loup, indicando que faltavam cinco segundos para o final das inserções publicitárias.

Em seguida, colocou no ar o breve j ingle de Voices para sublinhar o retorno da transm issão. Tinha sido, pelo m enos até aquele m om ento, um program a tranquilo, bastante divertido em alguns m om entos e sem as lam entações que às vezes tinham de suportar.

— Com vocês, m ais um a vez, Jean-Loup Verdier. Voices, da Rádio Monte Carlo, está de volta, esperando que nessa bela noite de m aio ninguém estej a precisando de nossa aj uda, som ente de nossa m úsica. Mas acabaram de m e avisar que tem os alguém na linha.

De fato, a luz verm elha no alto da parede estava acesa e Laurent apontava o indicador da m ão direita para ela, confirm ando que tinha alguém na linha. Jean-Loup apoiou os cotovelos na m esa e dirigiu-se ao m icrofone que estava na sua frente.

— Alô?

Ouviram -se dois disparos e depois, silêncio. Jean-Loup levantou a cabeça e olhou para Laurent erguendo as sobrancelhas. O diretor deu de om bros indicando que a interferência não era deles.

— Alô?

Finalm ente a resposta chegou pelo ar, e pelo ar a rádio a retransm itiu e ela se tornou de todos. Ocupou seu lugar nas caixas de difusão da direção, nas suas m entes e nas suas vidas. Daquele m om ento em diante e por m uito tem po, a escuridão ficaria um pouco m ais escura e precisariam de m uito barulho para cobrir todo aquele silêncio.

— Olá, Jean-Loup.

Havia algo de artificial no som daquela voz. Parecia soar dentro de um tubo e era estranham ente igual, sem expressão e sem cor. As palavras tinham o rastro de um eco sufocado, com o a decolagem de um avião m uito distante.

Mais um a vez, Jean-Loup olhou para Laurent interrogativam ente. Mais um a vez ele usou o indicador da m ão direita, fazendo breves círculos no ar, para m ostrar que a distorção vinha da ligação.

— Olá. Quem é você?

Houve um instante de hesitação do outro lado da linha. Depois a resposta quase soprada, reverberando artificialm ente.

— Não tem importância. Sou um e nenhum.

— Sua voz está distorcida, não o escuto bem . Onde você está?

Pausa. O rastro leve de um avião indo para não se sabe onde.

O interlocutor não deu im portância à observação de Jean-Loup.

— Isso também não interessa. A única coisa que conta é que chegou o momento de nos falarmos, mesmo que isso signifique que nunca mais seremos os mesmos, nem eu nem você.

— Em que sentido?

— Logo serei um homem perseguido e você vai estar entre os cães de caça que rosnam correndo atrás de sombras. É uma pena, pois agora, nesse exato momento, eu e você somos iguais, somos a mesma coisa.

— Som os iguais em quê?

— Para o mundo, nós dois somos uma voz sem rosto, a ser ouvida com os olhos fechados, com a imaginação. Lá fora está cheio de gente que só pensa em encontrar uma cara que possa mostrar com orgulho, que seja diferente de todas as outras, gente sem nenhuma preocupação a não ser essa. Chegou o momento de sair e ver o que há por trás disso…

— Não estou entendendo o que quer dizer.

Outra pausa, longa a ponto de dar a im pressão de que a ligação tinha caído. Depois a voz retornou e alguns dentre os ouvintes tiveram a im pressão de sentir a som bra de um sorriso.

— Vai entender, com o tempo.

— Não estou acom panhando seu raciocínio.

Mais um a pausa ligeira, com o se o hom em do outro lado da linha estudasse suas próxim as palavras.

— Não se preocupe. Às vezes é difícil até para mim.

— Então, por que ligou, por que está aqui falando com igo?

— Porque estou só.

Jean-Loup abaixou a cabeça sobre a m esa e apertou-a entre as m ãos.

— Fala com o um hom em fechado num a prisão.

— Todos estão fechados numa prisão. Eu construí a minha sozinho, mas nem por isso é mais fácil sair.

— Sinto m uito por você. Posso perceber que não gosta m uito das pessoas.

— E você, gosta?

— Nem sem pre. Às vezes tento entendê-las e quando não consigo, tento pelo m enos não j ulgá-las.

— Até nisso nós somos iguais. A única coisa que nos diferencia é que, quando acaba de falar com elas, você tem a possibilidade de se sentir cansado. Pode ir para casa e desligar a mente e todas as suas doenças. Eu não. Eu não consigo dormir de noite, porque meu sofrimento nunca acaba.

— E nessas noites, o que faz para se livrar do seu sofrim ento?

Jean-Loup pressionou um pouco o interlocutor. A resposta se fez esperar e foi com o se um obj eto em brulhado em diversas cam adas de papel cobrisse lentam ente a luz.

— Eu mato…

— O que signif…

A voz de Jean-Loup foi interrom pida por um a m úsica que saía das caixas. Era um trecho delicado, m elancólico, de m elodia envolvente. No entanto, depois daquelas palavras, parecia se espalhar no ar com o um a am eaça. Durou cerca de dez segundos; depois, assim com o tinha chegado, se foi.

No silêncio viscoso que se seguiu, todos ouviram distintam ente o clique da com unicação interrom pida. De repente, Jean-Loup levantou a cabeça para os outros. Na sala, o rum or fresco do ar-condicionado e o gelo de seus pensam entos… No entanto, foi com o se todos, sim ultaneam ente, tivessem olhado para o brilho ofuscante de Sodom a e Gom orra em cham as.

Depois do episódio, conseguiram , m al ou bem , arrastar a transm issão até a hora do encerram ento. Não houve outros telefonem as do público. Ou m elhor, depois daquela cham ada estranha, a central ficou congestionada de telefonem as, m as nenhum deles foi para o ar.

Jean-Loup tirou os fones e deixou-os sobre a m esa, ao lado do m icrofone. Percebeu que naquela noite, apesar do ar-condicionado, tinha os cabelos suados, com o se tivesse corrido um trecho pequeno.

Nunca mais seremos os mesmos, nem eu, nem você.

No tem po restante, só transm itiu m úsica, dem orando-se na análise da estranha analogia entre Tom Waits e o italiano Paolo Conte, am bos atípicos com o intérpretes e extrem am ente significativos com o com positores. Traduziu as letras de duas de suas canções e sublinhou sua im portância. Felizm ente, dispunham de várias escapatórias para as situações de em ergência, e aquela, sem dúvida, era um a delas. Havia alguns núm eros de reserva para servir de apoio quando o program a não decolava. Ligaram para alguns artistas am igos pedindo que participassem e passaram quinze m inutos em com panhia da poesia e do hum or de Francis Cabrel.

A porta de com unicação se abriu e a cabeça de Laurent despontou no um bral.

— Tudo bem , Jean-Loup?

Jean-Loup olhou para ele com o se não o visse.

— Sim , tudo bem .

Ele levantou e saíram j untos do estúdio, cruzando com os olhares perplexos e m eio fugidios de Barbara e de Jacques, o técnico de som . A m oça usava um a cam iseta azul e Jean-Loup notou que tinha duas grandes m anchas de suor nas axilas.

— Recebem os um m onte de ligações. Duas perguntando se era um a história policial em capítulos e quando seria o próxim o, depois pelo m enos um a dúzia de pessoas indignadas com os m eios que som os obrigados a usar para aum entar a audiência. O chefe tam bém ligou e chegou aqui com o um a águia. Já está no gabinete do presidente, esperando por você. Ele tam bém caiu na história e perguntou se tínham os ficado loucos. Parece que um dos patrocinadores ligou logo em seguida e não acho que tenha sido um telefonem a de congratulações.

Jean-Loup im aginava a sala ainda m ais densa de fum aça, com o se fosse possível, e um discurso levem ente m enos entusiasm ado do que aquele de antes da transm issão.

— Mas com o a central não filtrou a ligação?

— Que m e caia um raio na cabeça se consigo entender o que aconteceu. Raquel disse que a ligação não passou por ela. Por algum m otivo que não sabe explicar, foi diretam ente para a linha do estúdio. Devem ter feito um contato qualquer, sei lá. Para m im é a nova central telefônica com eçando a lutar pela autoconsciência. Vai ver que um dia desse serem os obrigados a lutar contra as m áquinas, com o em Exterminador do Futuro.

Saíram da sala do diretor um ao lado do outro, rum o ao gabinete de Bikj alo, sem coragem de se olhar de frente. Entre eles, o fino acolchoado daquelas duas palavras.

Eu mato…

Passaram na frente da sala dos com putadores, perplexos. O som angustiante daquela voz ainda flutuava no ar.

— E aquela m úsica final. Tenho a im pressão de que conheço…

— Eu tam bém . Se não m e engano, é um a trilha sonora. Acho que de Um homem, uma mulher, um velho film e de Lelouch. Um a produção de 1966 ou antes.

— E o que significa isso?

— Com o vou saber?

Jean-Loup parecia desorientado. Diante deles, um fato absolutam ente novo, que não conseguiam classificar em suas experiências radiofônicas anteriores. Sobretudo no nível em ocional.

— O que acha?

— Que é bobagem .

Laurent acom panhou as palavras com um gesto despreocupado da m ão, m as apesar disso, parecia ter falado m ais pelo desej o de convencer a si m esm o do que para convencer o outro.

— Diga?

— À parte a questão da central, acho que é só um a brincadeira de m uito m au gosto de algum idiota.

Pararam diante da porta da sala de Bikj alo e Jean-Loup segurou a m açaneta. Finalm ente, olharam -se nos olhos. Laurent reiterou seu pensam ento.

— Deve ser apenas um a coisa esquisita que a gente vai contar no Sporting Club e rir um pouco.

Contudo, a expressão de Laurent era de alguém que não estava com pletam ente convencido do que dizia. Jean-Loup em purrou a porta e, enquanto entravam na sala do diretor, perguntou-se se aquele telefonem a seria um a prom essa ou um a aposta.