Eu Mato
Capítulo 5
5
FRANK OTTOBRE ACORDOU E TOMOU CONSCIÊNCIA de seu corpo, estendido entre os lençóis de um a cam a que não era sua, num a casa que não era sua, num a cidade que não era sua.
Logo depois, a lem brança filtrou-se em sua cabeça com o o sol entre as persianas, e viu que a dor estava ali, intacta com o a tinha deixado na noite anterior. Se ainda havia um m undo lá fora e se naquele m undo havia um a m aneira de esquecer, sua m ente lhe vetava os dois. O telefone sem fio sobre a m esinha de cabeceira à sua esquerda com eçou a tocar. Virou-se na cam a e estendeu a m ão para a tela piscante do aparelho.
— Alô?
— Oi, Frank.
Fechou os olhos e logo lhe chegou o rosto que a voz naquele fone evocava. Nariz achatado, cabelos cor de areia, os olhos, o cheiro de loção pós-barba, andar indolente, óculos escuros às vezes e um terno cinza que era quase um uniform e.
— Oi, Cooper.
— Sei que é cedo para você, m as tenho certeza de que j á estava acordado.
— É… O que houve?
— Aqui, praticam ente tudo nesse m om ento. O m ais absoluto delírio. Trabalham os 24 horas por 24. Se fôssem os o dobro do que som os, ainda precisaríam os do dobro de hom ens para dar conta. Todos se esforçam para fazer de conta que nada aconteceu, m as têm m edo. E não podem os dizer que estão errados, visto que nós tam bém tem os m edo.
Houve um a breve pausa.
— E você, com o vai?
É, como vou?
Fez a pergunta a si m esm o com o se só naquele m om ento se lem brasse de que estava vivo.
— Bem , eu diria. Estou aqui em Montecarlo e passo os dias com o j et-set. O único perigo é que, entre tantos m ilionários, corro o risco de m e sentir rico tam bém . Vou em bora daqui no dia em que sentir desej o de com prar um barco de quarenta m etros e isso não m e parecer loucura.
Levantou da cam a segurando o telefone no ouvido e, com pletam ente nu, dirigiu-se para o banheiro. Na penum bra, sentou-se na privada e com eçou a urinar.
— Se conseguir com prá-lo, trate de m e contar com o fez, que eu tam bém quero tentar.
Cooper não se deixou enganar por sua ironia, m as resolveu aceitar o j ogo. Frank im aginou-o sentado em seu escritório, ao telefone, com um sorriso forçado e a pena que sentia dele estam pada no rosto. Cooper era com o sem pre tinha sido. Ele, ao contrário, era um hom em que estava naufragando e os dois sabiam disso.
Fez-se um m om ento de silêncio, depois Frank teve a im pressão de ouvir distintam ente quando Cooper deixou a ficção entre eles esvaziar. Sua voz agora era m ais dura e m ais ansiosa.
— Frank, não pensa…
Já sabia o que queria dizer e interrom peu-o bruscam ente.
— Não, Cooper. Ainda não. Não m e sinto capaz de voltar. Ainda é m uito cedo.
— Frank, Frank, Frank! Já se passou quase um ano. De quanto tem po acha que vai precisar para…
Na cabeça de Frank as palavras do am igo perderam -se no im enso espaço entre aquele lugar, os Estados Unidos e o vazio das galáxias. Ouvia apenas a voz de seus pensam entos.
Sim, de quanto tempo, Cooper? Um ano, cem anos, um milhão de anos? De quanto tempo precisa um homem para esquecer que tinha destruído duas vidas?
— Além do m ais, Hom er disse claram ente que você pode voltar ao serviço quando quiser, se isso lhe for útil. Você seria útil, em todo caso. Só Deus sabe o quanto precisam os de gente com o você nesse m om ento. Não acha que estar aqui e se sentir parte de algum a coisa, no final disso tudo…
A voz de Frank foi um corte repentino, tão afiado que interrom pia qualquer tentativa de aproxim ação.
— Cooper, no final disso tudo só há um a coisa…
O silêncio de Cooper era o de quem tem um a pergunta gritando dentro de si e tem m edo até de sussurrá-la. Depois sua voz chegou e todo o espaço entre aquele lugar e os Estados Unidos não era nada com parado com a distância que havia entre eles.
— Que coisa, Frank, pelo am or de Deus?
— Deus não tem nada com isso. É um a coisa que só tem a ver com igo. Eu e eu m esm o. E você sabe m uito bem que é um a guerra sem prisioneiros.
Afastou o telefone da orelha e, im erso na penum bra, ficou olhando seu dedo interrom per a com unicação.
Levantou os olhos para o seu corpo nu refletido no grande espelho do banheiro. Pés descalços sobre o m árm ore frio do chão, pernas m usculosas e de repente, acim a, os olhos apagados, e em baixo, o encontro com o tórax e as cicatrizes averm elhadas que o atravessavam .
Quase que anim ada por um a vontade própria, a m ão direita subiu lentam ente para tocá-las. Deixou que o fragm ento diário da m orte que carregava dentro de si fluísse livrem ente.
Quando despertou, a primeira coisa que viu foi o rosto de Harriet. Depois, lentamente, o rosto de Cooper emergiu da névoa. Quando conseguiu focalizar todo o quarto, viu Homer Woods sentado impassível numa poltroninha encostada na parede diante da cama, os cabelos penteados para trás, os olhos azuis que o miravam inexpressivos por trás dos óculos de aro de ouro.
Virou a cabeça na direção da mulher e percebeu, como num sonho, que estava num quarto de hospital, a luz esverdeada filtrando-se através das venezianas, um ramo de flores na mesa, tubos que saíam de seu braço, o monótono bipe de uma unidade de monitoramento, tudo girando. Tentou falar, mas a voz não saía de dentro dele.
Harriet se aproximou, pousando o rosto no seu e a mão em sua testa. Ele sentiu a mão, mas não ouviu as palavras, pois ainda estava mergulhado no lugar de onde tinha emergido.
Quando finalmente voltou a si e conseguiu falar e saber, Homer Woods estava lá, de pé ao lado de Harriet.
Cooper não estava.
A luminosidade no quarto tinha mudado, mas ainda era, ou era de novo, a luz do dia. Frank se perguntou quanto tempo teria se passado desde o último despertar e se Homer tinha ficado ali o tempo todo. O terno era o mesmo e a expressão também. Frank lembrou de nunca tê-lo visto com um terno ou uma expressão diferentes. Talvez tivesse em casa um armário cheio de ternos e expressões sempre iguais. “Mister Husky ”, era seu apelido no trabalho, por causa dos olhos azuis que tinham a consistência vítrea dos olhos de um husky siberiano.
Harriet ainda estava com a mão em seu cabelos e uma lágrima marcava seu rosto. Seu olhar dava a impressão de que aquela lágrima estava ali desde o início dos tempos, de que fazia parte dela.
— Oi, meu amor, bem-vindo.
Tinha se levantado da cadeira ao lado da cama para apoiar os lábios nos seus num leve beijo salgado. Frank respirou o cheiro de seu hálito como um marinheiro respira o ar que traz o perfume da costa, o ar de casa.
Homer recuou um passo, discretamente.
— O que houve? Onde estou? — perguntou Frank com uma voz monótona, que não parecia sua. A garganta doía estranhamente e ele não se lembrava de nada. A última imagem era a de uma porta empurrada com o pé e o enquadramento subjetivo de seus braços segurando uma pistola enquanto entrava na sala. Depois o relâmpago, o trovão e a sensação de que uma mão enorme o empurrava para cima, para uma escuridão sem dor.
— Está no hospital. Passou uma semana em coma. Você nos deu um belo susto.
A lágrima agora parecia grudada no rosto de sua mulher como se tivesse se transformado numa ruga de sua pele. Brilhava como sua dor.
Ela se colocou de lado e deu um olhadela para Homer, deixando tacitamente em suas mãos o resto das explicações. Ele se aproximou da cama e olhou para Frank por trás da tela de seus óculos.
— Os dois Larkin espalharam o boato de que haveria uma grande troca de mercadorias e dinheiro entre eles e seus contatos, naquele armazém. Muita mercadoria e muito dinheiro. Organizaram tudo muito bem para encher Harvey Lupe e seus asseclas de ganância e convencê-los a armar um golpe para surpreendê-los e pegar tudo, as coisas e o dinheiro. E o prédio estava recheado de explosivos. Conseguiriam se ver livres, com um único espetáculo de fogos de artifício, de todos os problemas de concorrência na praça. Mas em vez de Lupe, chegaram você e Cooper. Ele ainda estava do lado de fora do armazém, no lado sul, quando você entrou pelo lado dos escritórios. O tranco do lado de Cooper foi absorvido em parte pelos andaimes no interior e ele saiu apenas com algumas queimaduras na cara e alguns ferimentos. Você pegou o grosso da explosão e, felizmente para você, os Larkin são grandes traficantes mas péssimos pirotécnicos. É um milagre que esteja vivo. Não posso nem censurá-lo por não ter esperado a unidade de operações especiais. Se todo mundo tivesse entrado ali seria uma carnificina.
Agora sabia de tudo mas não lembrava de nada. Só pensava que ele e Cooper estavam trabalhando há dois anos para pegar os Larkin e em vez disso, sem querer, eles é que tinham sido pegos pelos Larkin.
Ele, para ser mais exato.
— O que tenho? — perguntou Frank, que recebia do corpo as informações mais confusas. Tinha uma vaga sensação de aperto e via sua perna direita imobilizada com gesso como se pertencesse a outra pessoa.
Quem respondeu foi um médico que tinha entrado no quarto bem a tempo de ouvir a pergunta. Tinha os cabelos precocemente respingados de branco, mas o rosto e o jeito de um rapaz. Sorriu inclinando a cabeça de lado, de um modo cerimonioso.
— Salve, gentil cavalheiro. Eu sou o dr. Foster, um dos responsáveis pela sua presença no mundo. Espero que não se zangue comigo por isso. Se quiser, posso lhe explicar o que tem. Algumas costelas quebradas, uma lesão na pleura, uma perna quebrada em dois lugares, buracos de várias coisas por todo lado, feridas sérias no tórax, traumatismo craniano. E tantos hematomas pelo corpo inteiro que já pode se considerar uma pessoa de cor. Além disso, tem, ou melhor, tinha um estilhaço de metal a um milímetro do coração: tivemos que suar para tirá-lo de lá antes que ele tirasse o senhor do nosso convívio.
Enquanto falava, levantou a ficha médica pendurada aos pés do leito. Aproximou-se da cabeceira e apertou um botão, permitindo que sentisse o cheiro de seu jaleco recém-lavado.
— Agora, pedindo aos presentes que nos desculpem, acho que é hora de dar uma controlada em tudo que fizemos para remediar o desastre.
Harriet e Homer Woods dirigiram-se para a porta, abrindo-a bem na hora em que chegava uma enfermeira negra empurrando um carrinho cheio de material médico. Sua pele parecia ainda mais escura em contraste com o branco do uniforme. Harriet, saindo, lançou um olhar estranho para o monitor que acompanhava os batimentos do coração de seu marido, como se considerasse sua presença indispensável para que os dois funcionassem a contento. Depois, virou a cabeça e fechou a porta atrás de si.
Enquanto o médico e a enfermeira se agitavam ao redor de seu corpo cheio de gaze e drenos, Frank pediu um espelho. A enfermeira não fez nenhum comentário sobre o pedido, mas, com um sorriso, foi pegar o espelho pendurado ao lado da porta e colocou-o diante dele.
Estranhamente indiferente, deparou-se com o rosto pálido e os olhos dolorosos de Frank Ottobre, agente especial do FBI, ainda vivo.
Espelho sobre espelho, olhos sobre olhos.
O presente se sobrepôs à lem brança e, no grande espelho do banheiro, Frank reencontrou seu tem po e seus olhos, perguntando-se se todo aquele esforço dos m édicos tinha m esm o valido a pena para lhe devolver àquela vida.
Voltou para o quarto e acendeu a luz. Procurou o botão que controlava a persiana entre todos os interruptores ao lado da cam a. Apertou-o e, com um sussurro, a cortina com eçou a subir, m isturando a luz do sol à luz elétrica.
Frank foi até a porta corrediça que dava para um a varanda, afastou as cortinas, puxou a m açaneta e a porta de vidro deslizou suavem ente.
Saiu para a varanda.
Estendida a seu pés estava Montecarlo, pavim entada de ouro e indiferença. Diante dele, sob o sol que despontava, estendido até o fim do m undo, um m ar azul que refletia o céu sem vê-lo. Repassou a conversa com Cooper. Do outro lado daquele m ar, seu país estava em guerra. Um a guerra que tinha a ver com ele e com outros com o ele. Um a guerra que tinha a ver com todo m undo que queria viver à luz do sol, sem som bras e sem m edos. Ele deveria estar lá, defendendo aquele m undo e aquela gente.
Era o que teria feito em outros tem pos, em outros tem pos estaria na linha de frente com o Cooper, Hom er Woods e todos os outros. Agora eram tem pos passados. Quase tinha dado a vida por seu país e as cicatrizes que carregava eram testem unhas disso.
E Harriet…
Um sopro de brisa fresca chegou até ele e o fez estrem ecer. Percebeu que ainda estava nu. Enquanto retornava ao quarto, perguntou-se o que o m undo poderia fazer com Frank Ottobre, agente especial do FBI, se ele não sabia nem o que fazer consigo m esm o.