Eu Mato

Giorgio Faletti · Capítulo 54 de 76

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Eu Mato

Nono carnaval

 

NO CEMITÉRIO SÓ HÁ GUARDA-CHUVAS NEGROS.

Naquele dia sem sol, parecem som bras invertidas, proj eções da terra, pensam entos fúnebres dançando sobre as pessoas que, agora que a cerim ônia teve fim , se afastam lentam ente, tentando, passo a passo, colocar um a pequena distância a m ais entre elas e o pensam ento da m orte.

O hom em observou o caixão descer para a cova sem que nenhum a expressão alterasse seu rosto. É a prim eira vez que assiste ao funeral de um a pessoa que m atou. Sentia m uito por aquele hom em , sentia m uito pela discreta com postura de sua esposa ao vê-lo desaparecer na terra encharcada. O túm ulo que o recebeu, ao lado de seu filho, lem brava outro cem itério, outra fileira de túm ulos, outras lágrim as, outras dores.

Do céu, cai um a chuva sem raiva e sem vento.

O hom em pensa que as histórias se repetem ao infinito, às vezes parece que chegaram ao fim , m as não, são apenas os protagonistas que se alternam . Os atores m udam , m as os papéis perm anecem sem pre os m esm os. O hom em que m ata, o hom em que m orre, o hom em que não sabe, o hom em que finalm ente entende e está disposto a pagar com a vida.

A seu redor, um a m ultidão anônim a de figurantes, gente sem im portância, tolos portadores de guarda-chuvas coloridos, que não servem de abrigo, m as apenas para m anter seu precário equilíbrio sobre um fio esticado tão alto que não podem ver que sob eles a terra está sem eada de tum bas.

O hom em fecha o guarda-chuva e deixa a água cair diretam ente sobre sua cabeça. Afasta-se em direção ao portão do cem itério, deixando no chão a m arca de sua passagem , pegadas de hom em m isturadas entre outras. Com o qualquer recordação, cedo ou tarde serão apagadas.

Invej a a paz e o silêncio que reinarão naquele lugar depois que todos se forem . Pensa em todos aqueles m ortos im óveis em seus caixões subterrâneos, os olhos fechados, os braços cruzados no peito, os lábios m udos, sem voz para interrogar o m undo dos vivos.

Pensa no consolo do silêncio, do escuro sem im agens, da eternidade sem futuro, do sono sem sonhos e sem sobressaltos ao despertar.

O hom em sente a pena de si m esm o e do m undo chegar com o um a lufada de vento, enquanto algum as lágrim as descem finalm ente de seus olhos, m isturando-se à chuva. Não são lágrim as pela m orte de outro hom em . São lágrim as salgadas de lam ento pelo sol de antigam ente, pelos poucos lam pej os de um verão passado num sopro, pelos únicos m om entos felizes que pode recordar, tão distantes na m em ória que parece que nunca existiram .

O hom em atravessa o portão do cam po-santo com o se tivesse m edo de ouvir, de um m om ento para outro, um a voz, várias vozes, cham ando por ele, com o se além daquele m uro existisse um m undo de vivos ao qual não tem o direito de pertencer.

De repente, com o se um pensam ento repentino o assaltasse, vira a cabeça para olhar atrás de si. Longe, no fundo do cem itério enquadrado pela perspectiva do portão com o num slide, sozinho diante da tum ba recém -escavada, há um hom em vestido de escuro.

Ele o reconhece. É um dos que o perseguem , um dos cães com a boca ofegante na ânsia da corrida e dos latidos desafiador. Im agina que deve estar m ais determ inado ainda, ainda m ais feroz. Gostaria de poder voltar atrás, colocar-se a seu lado e explicar tudo, dizer que não é ferocidade, não é vingança, é apenas j ustiça. E a sensação de absoluta certeza que só a m orte pode representar.

Enquanto entra no carro que vai levá-lo de lá, passa a m ão pelos cabelos úm idos de chuva.

Gostaria de explicar, m as não pode. Sua tarefa ainda não foi cum prida.

Ele é um e nenhum e sua tarefa não term inará nunca.

Contudo, enquanto olha pela j anela pontilhada de gotas toda aquela gente que se afasta de um local de dor, enquanto olha aqueles rostos com postos em estúpidas caras de circunstância, ele se coloca um a questão que nasce do cansaço e não da curiosidade. Pergunta qual será, entre tantos, o hom em que chegará prim eiro para anunciar que finalm ente tudo acabou.