Eu Mato

Giorgio Faletti · Capítulo 4 de 76

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Eu Mato

Capítulo 3

3

 

JOCHEN WELDER ACIONOU O COMANDO do guincho elétrico e ficou segurando o botão até que a corrente da âncora descesse o suficiente para m anter o Forever fundeado. Quando teve certeza da firm eza da ancoragem , desligou o m otor. O barco, um esplêndido dois m astros de 22 m etros, desenhado por seu am igo Mike Farr e construído especialm ente para ele nos estaleiros Beneteau, com eçou a deslizar lentam ente. Em purrado por um a brisa leve que soprava para a terra, seguiu a corrente, apontando a proa na direção do m ar aberto. Arij ane, que tinha controlado a descida da âncora, virou e veio até ele, cam inhando desenvolta na coberta, apoiando-se de vez em quando no corrim ão para am ortecer o leve balanço provocado pelas ondas. Jochen ficou olhando para ela com os olhos sem icerrados, adm irando pela enésim a vez sua silhueta esbelta, atlética, vagam ente andrógina. Absorveu a solidez de seu corpo e o fascínio de seus m ovim entos com um a sensação de calor na boca do estôm ago. Sentiu o desej o crescer dentro dele com o um a pequena dor e pensou com gratidão na casualidade do destino, que tinha desenhado um a m ulher que nem m esm o ele, com suas próprias m ãos, poderia ter feito tão próxim a de seu conceito pessoal de perfeição.

Ainda não tinha tido coragem de dizer que a am ava.

Ela o encontrou j unto da roda do tim ão, passou os braços ao redor de seu pescoço e apoiou a boca em seu rosto num beij o delicado. Jochen sentiu o calor de seu hálito, o arom a natural de seu corpo e pensou m ais um a vez que não existe perfum e m elhor que o cheiro de um a pele cheirosa. Cheirava a m ar e a coisas que deviam ser descobertas pouco a pouco, sem pressa. O sorriso de Arij ane brilhou na contraluz do pôr do sol e Jochen im aginou, m ais do que viu, o brilho refletido em seus olhos.

— Acho que vou descer para tom ar um banho. Depois, se quiser, você pode descer para tom ar um a chuveirada tam bém e se, além disso, resolver dar um j eito nessa barbinha, talvez eu aceite com prazer qualquer proposta que m e fizer para depois do j antar…

Jochen retribuiu seu sorriso com um outro igualm ente cúm plice e passou a m ão na barba de dois dias.

— Estranho, eu achava que as m ulheres gostavam de um hom em com a barba levem ente por fazer…

Parodiou a voz dos trailers dos film es de aventura dos anos cinquenta.

— O suj eito que passa um braço em seu om bro e com o outro guia o barco para o horizonte dourado.

Arij ane entrou no j ogo. Desvencilhou-se do abraço e desceu para a cabine m ovendo-se com o um a estrela do cinem a m udo.

— Não tenho nenhum a dificuldade para m e ver viaj ando em direção ao horizonte com você, m eu herói, m as acho que não vai m udar m uito se m eu rosto não estiver em cham as.

Desapareceu pela escada com o um a atriz nos bastidores depois de um a frase de efeito.

— Arij ane Parker, seus adversários pensam que é um a j ogadora de xadrez, m as ninguém , exceto eu, sabe o que é na verdade…

Sua cabeça despontou por um instante no vão da porta, curiosa.

— Ou sej a?

— O palhaço m ais lindo que j á conheci.

— Certo! É por isso que sou tão boa no xadrez: porque não levo o j ogo nem um pouco a sério.

E desapareceu de novo. Jochen viu o reflexo da luz acesa estam pado na coberta e, em seguida, ouviu o ruído do chuveiro.

Não conseguia apagar o sorriso do rosto.

Conhecera Arij ane no Grande Prêm io do Brasil, quando fora convidado a um a recepção organizada por um dos patrocinadores da escuderia, um a m ultinacional que produzia roupas esportivas. Em geral, tentava evitar ao m áxim o esse tipo de com prom isso m undano, sobretudo perto da corrida, m as com o se tratava de um evento beneficente, em favor da Unicef, não quis recusar.

Apesar disso, se m ovim entava não m uito à vontade pelos salões cheios de gente, elegantíssim o num sm oking tão perfeito que nem de longe parecia alugado para a ocasião. Tinha na m ão um copo de cham panhe que não conseguia beber e no rosto um tédio que não conseguia disfarçar.

— Sem pre se diverte tanto ou está se esforçando particularm ente hoj e?

Virou-se na direção do som daquela voz e deparou-se com o sorriso e os olhos verdes de Arij ane. Usava um sm oking m asculino, com a cam isa aberta, sem a clássica gravata borboleta. Nos pés, um par de tênis brancos. A roupa e os curtos cabelos pretos faziam dela um a versão elegante de Peter Pan. Já tinha visto sua foto nos j ornais várias vezes e logo reconheceu Arij ane Parker, a estranha m oça de Boston que saíra do anonim ato ao encurralar os m aiores cam peões de xadrez do m undo. A piada tinha sido pronunciada em alem ão e Jochen respondeu na m esm a língua.

— A alternativa que m e deram era o fuzilam ento, m as com o tenho um com prom isso inadiável no fim de sem ana, fui obrigado a aceitar isso…

Com um aceno de cabeça indicou o salão cheio. O sorriso da j ovem se acentuou e sua expressão divertida deu a Jochen a sensação de ter passado num exam e. Ela lhe estendeu a m ão.

— Arij ane Parker.

— Jochen Welder.

Envolveu a m ão estendida com a sua e teve a nítida sensação de que aquele gesto tinha um significado especial, que j á havia no olhar que trocavam um discurso m ais profundo do que aquele que podiam fazer usando apenas as palavras. Saíram para o grande terraço aberto, suspenso sobre a pulsação tranquila da noite brasileira.

— Com o fala tão bem alem ão?

— A segunda m ulher de m eu pai, que por acaso é m inha m ãe, é de Berlim . Felizm ente, ficou casada com ele tem po suficiente para m e ensinar a língua.

— Por que um a m oça dona de um rosto tão bonito resolveu escondê-lo por horas a fio em cim a de um tabuleiro de xadrez?

Arij ane levantou um a sobrancelha e rebateu a bola, respondendo à pergunta com outra pergunta.

— Por que o dono de um a cabeça tão interessante resolveu escondê-la dentro daquela panela que vocês, pilotos, são obrigados a usar?

Léon Uriz, representante da Unicef que organizava o evento, chegou naquele m om ento para reclam ar sua presença no salão principal. Jochen deixou Arij ane a contragosto e foi atrás dele, resolvido a responder a pergunta da m oça o m ais rápido possível. Antes de atravessar a soleira da enorm e porta de vidro, virou-se para olhá-la. Ela estava em pé perto da balaustrada, olhando para ele, com um a m ão enfiada no bolso. Com um sorriso e um aceno de consentim ento, ergueu para ele o copo de cham panhe que ainda segurava.

No dia seguinte, depois dos treinos livres de quinta-feira, foi vê-la no torneio que disputava. Sua chegada causou um certo tum ulto entre o público e os j ornalistas. Era claro que a presença de Jochen Welder, duas vezes cam peão m undial de Fórm ula 1, num a partida de Arij ane Parker não era casual e certam ente estava bem distante de algum interesse particular, até então com pletam ente desconhecido, pelo xadrez. Ela estava sentada na m esa de j ogo, separada por um a cerca de m adeira dos j uízes e do espaço reservado ao público. Tinha virado a cabeça na direção do burburinho e, ao vê-lo, sua expressão não se alterou, com o se não o tivesse reconhecido. Seu olhar voltou para o tabuleiro que dividia com o adversário. Jochen adm irou sua concentração, a cabeça inclinada observando a disposição das peças, a estranheza daquela delicada figura de m ulher num am biente que norm alm ente fala apenas a linguagem m asculina. Depois disso, Arij ane fez alguns m ovim entos equivocados, incom preensíveis. Ele não entendia nada de xadrez, m as intuiu pelos com entários do público de aficionados que enchia a sala. De repente, ela levantou e apoiou seu rei no tabuleiro, em sinal de rendição. Sem olhar para ninguém , de cabeça baixa, foi até a porta de m adeira que se abria no fundo da sala. Jochen tentou ir a seu encontro, m as ela tinha desaparecido sem deixar rastros.

Os treinos classificatórios e todo o em penho dos m om entos anteriores à corrida im pediram que procurasse por ela. Encontrou-a de surpresa nos boxes, na m anhã do Grande Prêm io, logo depois do briefing dos pilotos. Estava controlando a execução dos acertos sugeridos aos m ecânicos depois do warm-up, quando a voz dela o surpreendeu, com o tinha acontecido em seu prim eiro encontro.

— Bem , devo dizer que o m acacão não é tão charm oso quanto o sm oking, m as pelo m enos é m ais alegre.

Virou-se e ela estava diante dele, os im ensos olhos verdes brilhando, os cabelos m eio escondidos por um boné com o logotipo de um patrocinador. Usava um a cam iseta leve, sob a qual se adivinhavam os seios livres de apertos, e berm udas coloridas, com o quase todo m undo por ali. Pendurados no pescoço, um passe da Foca e um par de óculos escuros presos por um fio de plástico. A surpresa o deixou paralisado, tanto que Alberto Regosa, seu engenheiro de pista, resolveu fazer piada.

— Ei, Jochen, se não fechar a boca vai ser difícil colocar o capacete…

Ele apoiou a m ão no om bro de Arij ane e respondeu a ela e à piada do am igo ao m esm o tem po.

— Venha, vam os em bora daqui. Poderia lhe apresentar alguém, m as não vale a pena conhecê-lo: am anhã ele não estará m ais conosco, porque vai ter que procurar outro em prego.

Acom panhou a j ovem para fora dos boxes e respondeu à piada do engenheiro com o dedo m édio da m ão direita escondido nas costas. Exam inou descaradam ente as belas pernas que as berm udas deixavam à m ostra.

— Honestam ente, devo dizer que o sm oking tam bém não lhe ficava m al, m as prefiro assim . Existe um a som bra legítim a de suspeita sobre as pernas das m ulheres de calças com pridas.

Riram j untos e, em seguida, Jochen explicou brevem ente a confusão e a atividade do m undo das corridas de autom óvel, que Arij ane desconhecia totalm ente. Explicou o que era cada coisa e cada pessoa, levantando a voz de vez em quando para não ser abafado pelo barulho dos m otores. Quando chegou a hora do alinham ento no grid de largada, convidou-a para assistir à corrida dos boxes.

— Tem o que terei que colocar m inha panela na cabeça, com o você diz. Nos vem os depois.

Despediu-se e entregou-a aos cuidados de Greta Ringer, a relações-públicas da escuderia. Enfiou-se no carro e, enquanto os m ecânicos apertavam os cintos, ergueu a cabeça e olhou para ela. Através da viseira do capacete, seus olhos se falaram novam ente e era um a linguagem que superava a em oção da corrida. Saiu da corrida logo, depois de um as dez voltas. Tinha feito um a boa largada, m as depois, quando estava em quarto, a suspensão traseira, ponto fraco de seu carro, quebrou de um a hora para outra, e ele rodou na saída de um a curva veloz à esquerda. Bateu violentam ente contra a proteção e foi lançado de volta para o centro da pista, capotando com a Klover F109 sem idestruída. Pelo rádio, avisou à equipe que estava tudo bem e retornou a pé. Assim que chegou ao boxe, procurou Arij ane com os olhos, m as não a encontrou. Só pôde ir procurá-la depois de explicar o m otivo do acidente ao chefe da equipe e aos técnicos. Encontrou-a no trailer, sentada ao lado de Greta, que se afastou discretam ente quando ele chegou. Arij ane levantou-se e enroscou os braços em seu pescoço.

— Posso aceitar que sua presença m e faça perder a sem ifinal de um torneio im portantíssim o, m as creio que vai ser difícil perder um pouco de vida cada vez que você arrisca a sua. Mas agora, pode m e beij ar, se quiser…

Desde aquele dia, nunca m ais se separaram .

Jochen acendeu um cigarro e ficou sozinho, sentado na sem iescuridão, fum ando e observando as luzes da costa. Tinha ancorado o barco um pouco além de Cap Martin, diante de Roquebrune, ligeiram ente à esquerda do grande V azul sobre a m ontanha, a m arca do Vista Palace, o grande hotel construído sobre a rocha. À esquerda, Montecarlo brilhava, bela e falsa com o um a dentadura, im ensa nas luzes que não m erecia e no dinheiro que não lhe pertencia. Tinham se passado três dias desde o Grande Prêm io e, depois do alvoroço da m ultidão do fim de sem ana de corrida, a cidade retornava rapidam ente à sua norm alidade plastificada. Onde pouco antes dom inava a velocidade dos carros de corrida, retornava o tráfego preguiçoso e ordenado sob o sol de m aio, com a perspectiva de um verão que não era com o antes, nem para ele, nem para ninguém .

Jochen Welder, aos 34 anos, sentia-se velho e tinha m edo.

Conhecia bem o m edo, era um a com panhia habitual para um piloto de Fórm ula 1. Costum ava se deitar com ele há anos, todo sábado antes da corrida, não im porta quem fosse a m ulher com quem dividia a vida e a cam a no m om ento. Já tinha até aprendido a reconhecer seu cheiro nos m acacões im pregnados de suor pendurados para secar nos boxes. Por m uito tem po tinha lapidado e lustrado seu m edo, para esquecê-lo a cada vez que enfiava o capacete ou entrava no carro e afivelava os cintos de segurança, esperando o sopro potente da adrenalina se espalhar em suas veias. Agora era diferente, agora tinha m edo do m edo. Aquele que substitui o instinto pelo raciocínio, que faz você tirar o pé do acelerador um segundo antes do necessário e que, um segundo antes do necessário, faz seu pé procurar o freio. Aquele que o em udece de repente e fala apenas através de um cronôm etro, explicando o quanto um segundo pode ser veloz para um hom em com um , e lento, ao contrário, para um piloto.

O celular apoiado no suporte a seu lado com eçou a tocar. Tinha certeza de que desligara o telefone e olhou para ele com a intenção de fazer isso im ediatam ente. Depois, com um suspiro, tirou-o de seu ninho e apertou o botão para responder.

— Onde diabo você se enfiou?

A voz de Roland Shatz, seu em presário, pulou do aparelho com o a de um apresentador de televisão diante da resposta certa do participante de um quizz. Só que em geral os apresentadores não ficam furiosos com os concorrentes. Já esperava por aquilo, m as não estava totalm ente pronto.

— Por aí… — respondeu evasivo.

— Por aí o cacete! Não sabe da confusão que está acontecendo?

Não sabia, m as podia im aginar m uito bem . Afinal, um piloto que perdia um a corrida praticam ente ganha graças a um erro nas últim as curvas era sem pre um bocado de assunto para as páginas da im prensa esportiva do m undo inteiro. Roland não lhe deu tem po de responder e continuou.

— A equipe tentou cobri-lo diante dos j ornalistas da m elhor form a possível, m as Ferguson está espum ando com o um a hiena. Você não fez um a única ultrapassagem em toda a corrida, estava na frente só porque os outros pilotos abandonaram ou quebraram . Ainda por cim a, j ogou para o alto daquela form a um a corrida ganha! A m anchete m ais delicada dos j ornais foi Jochen Welder perde a corrida e a pose em Montecarlo.

Tentou um frágil protesto, m as nem ele parecia acreditar.

— Eu disse que tinha algum a coisa no acerto…

O em presário não o deixou continuar.

— Conversa fiada! Os dados de telem etria estão lá e cantam m elhor que Pavarotti! O carro estava perfeito e enquanto o m otor dele segurou, Malot estava na sua cola com toda a razão, m esm o depois de largar atrás de você no grid.

François Malot era o segundo piloto da equipe, um j ovem talento ainda não lapidado que Ferguson, o chefe de equipe da Klover F1 Racing Team , estava criando e paparicando há tem pos. Ainda não tinha a experiência necessária, m as era um ótim o piloto de testes e possuía garra e coragem para dar e vender. Não era por acaso que todos os em presários do circo da Fórm ula 1 estavam de olho nele desde os tem pos da Fórm ula 3, só que Ferguson conseguiu chegar antes deles, contratando-o por dois anos. O próprio Shatz, aliás, brigou bastante para ser seu procurador. Era a lei do esporte e em particular da Fórm ula 1, planeta m ínim o onde o sol nasce e se põe com um a rapidez im piedosa.

No telefone, Roland m udou repentinam ente de tom . Em sua voz havia agora a m arca evidente da am izade que o ligava a Jochen e que ia bem além de um a sim ples relação de trabalho. Dava, contudo, a im pressão de representar sozinho o policial bonzinho e o policial m alvado das técnicas de interrogatório policial.

— Jochen, estam os com problem as. Está prevista para a sem ana que vem um a bateria de testes em Silverstone, com a William s e a Jordan. Se entendi bem , você não foi cham ado. Preferem que Malot e Barendson, o piloto de testes, testem a nova suspensão. Sabe o que isso significa, não?

Claro que sabia. Conhecia o m undo das corridas bem dem ais para não saber. Quando um piloto não é inform ado das últim as novidades técnicas da equipe, é bastante provável que os responsáveis estej am tentando evitar que ele leve inform ações preciosas para outra escuderia — ou sej a, nada de renovação do contrato.

— O que quer que eu diga, Roland?

— Nada, não espero que diga nada. Só queria que você usasse o cérebro e o pé que sem pre m ostrou ter nas corridas.

Houve um instante quase im perceptível de pausa.

— Está com ela, não?

Jochen não pôde evitar um sorriso.

Roland não tinha qualquer sim patia por Arij ane, que, em suas conversas, não tinha nom e, era sim plesm ente “ela”. A bem da verdade, nenhum em presário teria sim patia pela m ulher que considera responsável pelo esm orecim ento de um de seus pilotos. Houve dezenas de m ulheres antes, que Shatz tinha avaliado exatam ente pelo que eram : o inevitável corolário de alguém que, com o ele, estava no centro das atenções, inúm eras pequenas e belas luas que brilhavam com a luz refletida pelo sol do cam peão. Estranham ente, tinha ligado as antenas quando Arij ane entrou em sua vida, e se colocara na defensiva. Talvez fosse a hora de explicar que Arij ane não era a doença e sim , se fosse algum a coisa, o sintom a. Jochen escolheu o tom de quem precisa convencer um a criança teim osa a lavar atrás da orelha.

— Roland, nunca lhe passou pela cabeça que esse film e possa ter chegado ao fim ? Tenho 34 anos e m uitos pilotos j á se aposentaram na m inha idade. Os que ainda estão na ativa parecem um a caricatura do que foram .

Não m encionou propositalm ente os nom es dos que estavam m ortos. Eram nom es e rostos e olhos e risos de hom ens que, de um m om ento para outro, se transform aram em corpos presos na carroceria retorcida de um carro, um capacete colorido inclinado de lado, um a am bulância que nunca é tão rápida quanto deveria, um helicóptero que nunca é tão rápido quanto deveria, um m édico que nunca é tão bom quanto deveria.

Roland teve um rom pante de rebelião contra suas palavras.

— Mas o que você está dizendo, Jochen? Nós dois sabem os m uito bem com o é a Fórm ula 1, m as tenho um m onte de propostas vindas dos Estados Unidos para a Cart. Você ainda tem m uito tem po para se divertir e ganhar um m onte de dinheiro sem correr m uitos riscos.

Jochen não teve coragem de j ogar água na fogueira em presarial de Roland. Dinheiro não era seguram ente o incentivo que poderia m udar seu estado de espírito. Tinha o suficiente para duas gerações, dinheiro ganho arriscando o pescoço por todos aqueles anos. Nunca se deixou envolver, com o vários de seus colegas, pelo turbilhão do avião particular, do helicóptero ou das m ansões espalhadas por vários lugares no m undo. Não teve ânim o de dizer a Shatz que o problem a era outro; que, infelizm ente, ele não se divertia m ais. Por algum m otivo, a corda havia se rom pido e, por sorte, não aconteceu quando ele estava equilibrado em cim a dela.

— Tudo bem , podem os conversar.

Shatz entendeu que não era o caso de insistir, pelo m enos por enquanto.

— Certo, tente recuperar a form a para a Espanha. O m undial ainda não está decidido e basta um par de belas corridas para entrar no páreo de novo. E trate de se divertir nesse m eio-tem po, bonitão!

Roland desligou e Jochen ficou olhando o aparelho, quase vendo o rosto pensativo do em presário do outro lado.

— Muito bem ! É só eu m e afastar e você gruda no telefone. Devo suspeitar que existe outra m ulher na sua vida?

Arij ane saiu para o convés e cam inhou em sua direção esfregando os cabelos com um a toalha.

— Não, era o Roland.

— Ah!

O m onossílabo retratava toda a situação entre eles.

— Ele não tem m uita sim patia por m im , não é?

Jochen puxou-a para si, envolvendo sua cintura delicada com os braços. Encostou o rosto em seu ventre e falou sem olhá-la nos olhos.

— O problem a não é esse. Roland tem lá suas preocupações, com o todo m undo, m as é um am igo e age com absoluta boa-fé.

Arij ane acariciou seus cabelos.

— Falou com ele?

— Não, preferi não falar pelo telefone. Acho que vou falar com ele e com Ferguson em Barcelona, na sem ana que vem . Em todo caso, vou fazer o anúncio oficial da aposentadoria no fim da tem porada. Não quero que os j ornalistas m e persigam m ais do que j á perseguem .

A história deles tinha sido um prato saborosíssim o para a im prensa do m undo inteiro. Seus rostos estiveram nas prim eiras páginas de revistas e j ornais por m eses e os repórteres tinham feito a festa, escrevendo e inventando tudo o que podiam a seu respeito.

Jochen levantou o rosto para ela e procurou seus olhos. Sua voz era um sussurro em ocionado.

— Eu te am o, Arij ane. Am ava você antes m esm o de te conhecer e não sabia.

Ela não respondeu. Lim itou-se a olhar para ele sob o reflexo da luz que vinha da cabine. Jochen sentiu um pequeno arrepio de insegurança, m as agora tinha dito e não podia, nem queria, voltar atrás.