Eu Mato
Capítulo 52
52
ERAM QUASE DUAS DA MADRUGADA quando Hudson McCorm ack contornou da m arina de Fontvieille e parou diante de um grande iate com os para-choques revestidos de tecido azul, ancorado entre dois veleiros que o ladeavam com o duas sentinelas. Desceu da m otoneta e puxou o descanso antes de tirar o capacete. Tinha alugado a m otoneta em vez de um carro, pois considerava sem dúvida o m ais adequado às condições do trânsito em Montecarlo. No verão, a cidade j á era um caos norm alm ente e, apesar da abundância de estacionam entos, andar de carro era um autêntico suplício.
Mas por ocasião da regata, a m arina de Fontvieille era um a indescritível confusão de gente e m eios de transporte que iam e viam entre tripulações, j ornalistas, patrocinadores e seus representantes, aos quais se acrescentava o inevitável corolário dos sim ples apaixonados e dos curiosos.
Qualquer deslocam ento se transform ava num a espécie de gincana de tem po indeterm inado, e a m otoneta era a m elhor solução para deslizar m ais facilm ente no m eio da bagunça geral. Além disso, capacete e óculos eram suficientes para evitar ser reconhecido e parado a cada passo por alguém em busca de novidades sobre o barco.
Olhando o enorm e iate, Hudson McCorm ack pensou na eterna controvérsia sobre veleiros e barcos a m otor, que opunha desde sem pre os am antes de um a e outra categoria em ferozes discussões nos bares. Ele achava que não passava de um a distinção ociosa e substancialm ente inexata. Todos eram barcos a m otor. Apenas os veleiros não tinham um propulsor tradicional, não eram um j ogo de m ecanism os, cilindros, pistons e carburadores colocados em algum lugar sob o casco. Seu m otor era o vento. Com o todos os m otores, devia ser entendido, analisado, seu ritm o regulado e era preciso saber explorá-lo da m elhor m aneira em sua organização natural.
Quantas vezes, seguindo as corridas autom obilísticas pelas quais era apaixonado, tinha visto o m otor de um piloto explodir num a nuvem repentina de fum aça branca, o carro encostar lentam ente na beira de pista enquanto todos os outros o ultrapassavam , o piloto descer e inclinar-se para a traseira do carro para tentar descobrir que detalhe o tinha traído.
Para eles era a m esm a coisa. Um barco de regata tam bém estava suj eito aos caprichos de seu m otor, o vento, que girava, m udava de direção, aum entava ou dim inuía a seu bel-prazer. Assim , de súbito, sem aviso prévio, as velas podiam se afrouxar enquanto, a poucas dezenas de m etros, o barco adversário deslizava a toda velocidade com o spinnaker colorido tão cheio que parecia prestes a estourar a qualquer m om ento.
E às vezes tam bém acontecia de um a vela se rasgar com um barulho sem elhante ao de um fecho ecler. Então era o caos program ado, a excitação da troca da vela danificada, as ordens do skipper, as instruções do tático, e os m em bros da tripulação se m ovendo com o bailarinos num palco que adernava e em pinava.
Hudson McCorm ack não tinha um a explicação pessoal para isso, só sabia que am ava aquilo tudo. Não sabia por que se sentia bem quando estava no m ar, m as para ele não tinha a m enor im portância.
A felicidade não é para ser analisada, é para ser vivida. Sabia que quando estava no barco, estava feliz e isso lhe bastava.
De repente, foi tom ado pela excitação de um a regata im inente. A Grand Mistral era um a espécie de prévia da Louis Vuitton Cup, que aconteceria no fim do ano. Era a ocasião em que se apresentavam e se em baralhavam as cartas. Estabelecendo suas relações, as tripulações e os barcos podiam testar na prática a eficiência dos cascos e das novidades propostas pelos proj etistas para torná-los cada vez m ais com petitivos. Os detalhes eram confrontados até um resultado final. Tinham então todo o tem po para fazer as m odificações necessárias para aquela que todos consideravam a rainha das regatas, a m ais im portante, a m ais prestigiosa.
Todos estariam ali, na Grand Mistral. Tripulações fam osas e estreantes, absolute beginners com o o Mascalzone Latino, um novo barco italiano. A única ausência de prestígio era o Luna Rossa, barco patrocinado pela Prada, que decidira prosseguir seus testes em Punta Ala.
Eles haviam colocado seu barco, Try for the Sun, com todo o m aterial, num grande pavilhão à beira-m ar aparelhado para reboque e lançam ento do barco, alugado na região de Cap Fleuri, a poucos quilôm etros de Fontvieille. Ali ficavam aloj ados os em pregados e os trabalhadores braçais, num a situação um pouco espartana, m as funcional, in loco para que pudessem vigiar o barco 24 horas por dia a fim de evitar que olhos indiscretos descobrissem certos detalhes que deveriam perm anecer em segredo. Na vela, com o no autom obilism o, um a ideia revolucionária podia representar a diferença entre triunfo e derrota. Mas as ideias tinham o defeito intrínseco de serem fáceis de copiar e todos procuravam m anter o m ais secreto possível o conj unto de detalhes dos barcos que representavam a autêntica Fórm ula 1 da vela.
É verdade que os cascos tinham a vantagem de que boa parte de sua aerodinâm ica, por assim dizer, estava subm ersa. Mas num m undo de hom ens, coisas hum anas aconteciam .
Havia os tubos de oxigênio, havia as m áquinas fotográficas subm arinas e havia no m undo m uita gente sem escrúpulos. Qualquer um m enos durão — Hudson McCorm ack felicitou-se pela pertinência daquele term o — veria certos tem ores com o excesso de prudência.
No entanto, eram coisas que podiam acontecer num am biente em que estão envolvidos interesses econôm icos bastante relevantes, além da honra da vitória. Não era à toa que cada bote de apoio tinha a bordo um respirador ARO, daqueles que funcionam com oxigênio e não com ar, criados na Segunda Guerra Mundial e usados em incursões subm arinas. Eram construídos aproveitando o circuito do dióxido de carbono, segundo um sistem a que perm itia aproxim ar-se dos navios inim igos sem revelar a própria presença com bolhas d’água que subiam à superfície…
Não se viam m ais pernas de pau, ganchos ou tapa-olhos. A bandeira negra com a caveira e as tíbias cruzadas tinha deixado de trem ular no m astro m ais alto, m as a pirataria prosseguia. Seus herdeiros ainda estavam vivos e vagando pelos sete m ares.
Não havia m ais reis ou rainhas para financiar caravelas, só patrocinadores distribuindo m ilhões de dólares. Outros hom ens, outros barcos, m as as m otivações ainda eram as m esm as. Tinham sim plesm ente substituído o dedo úm ido de saliva para sentir a direção do vento por um sistem a refinado de previsão do tem po.
A tripulação do Try for the Sun, da qual Hudson fazia parte, estava aloj ada num grande iate com as cores do patrocinador, ancorado na m arina de Fontvieille. Escolheram aquela solução por m otivos de representação. O financiador daquela aventura, a m arca de um a m ultinacional do tabaco, pretendia obter o m áxim o possível de retorno publicitário. Honestam ente, com tudo o que desem bolsava, Hudson achava que tinha todo o direito de exigi-lo.
E as fotos dos m em bros da tripulação haviam aparecido nos m ais im portantes sem anários do setor. Não havia revista de vela ou iatism o que não tivesse publicado um a m atéria sobre o barco e os integrantes da tripulação, entrevistados um a um , falaram de suas experiências precedentes.
Por ocasião de sua chegada a Montecarlo, o patrocinador com prara páginas publicitárias nos principais j ornais da cidade, que deviam ter custado os olhos da cara. Hudson percebeu com um a certa satisfação que as im agens reproduzidas no hum ilde papel do j ornal lhes rendiam j ustiça: não pareciam as fotos que costum am ilustrar a prisão de um bando de traficantes. E ele tinha saído particularm ente bem . Viu-se diante de seu próprio rosto estam pado na página com um sorriso aberto e natural, sem aquela expressão vazia das fotos de casam ento.
A bem da verdade, ele realm ente tinha um rosto e um sorriso assim , daqueles que em geral não deixam o sexo fem inino indiferente.
A noite de gala da qual acabava de chegar tinha sido um a dem onstração brilhante disso.
Fizeram a apresentação oficial do barco e da tripulação no Sporting Club d’Été. Todos os m em bros da expedição envergavam seus uniform es coloridos, m uito m ais elegantes, segundo Hudson, do que os sm okings m asculinos e vestidos de baile que tinha diante dos olhos. A certa altura, o m estre de cerim ônias da noite pediu um m om ento de atenção: um atraente j ogo de luzes, um rufar de efeito do baterista da orquestra e eles saíram correndo dos dois lados da sala, enfileirando-se diante do público, enquanto um gigantesco telão às suas costas m ostrava im agens dos treinos do Try for the Sun, com “We are the Cham pions”, do Queen, ao fundo, com um arranj o que aproveitava as cordas ao m áxim o para evocar o sopro do vento nas velas.
Eles foram apresentados um a um , recolhendo sua cota pessoal de aplausos quando davam um passo à frente ao ouvir seu nom e. Hom ens experientes, fortes, ágeis e inteligentes: o m elhor do que se podia encontrar naquele esporte. Pelo m enos, era essa a definição que davam e, pelo m enos por alguns instantes, era ótim o acreditar nisso.
Depois do j antar, transferiram -se para um a discoteca, o Jim m y ’z. Eram atletas e, na m aior parte do tem po, com portavam -se com o tais. Seus hábitos m entais e seu com portam ento podiam ser descritos, de um a m aneira geral, com o bom e velho ditado: “Deitar com o sol, despertar com o sol.”
No dia seguinte, porém , não iriam para o m ar, e os dirigentes acharam que um pouco de boem ia não faria m al ao m oral da tropa.
Hudson colocou a corrente na m otoneta. Um a grossa corrente coberta por um tubo de plástico verm elho, com binando com a cor da carroceria. Tinham garantido que em Montecarlo não havia lugar onde se pudesse tem er um furto, m as o hábito era m ais forte que ele. Sem pre m orara em Nova York, onde tinha gente capaz de arrancar suas cuecas sem nem tocar nas calças. Um a certa precaução não fazia m ais parte de seus hábitos, j á era parte do seu DNA.
Ficou em pé no cais, diante de um grande iate fracam ente ilum inado pelas luzes de serviço, no qual não se via um m ovim ento sequer. Acendeu um cigarro e sorriu. O que diria o dono da m ultinacional que desem bolsava a grana que sustentava o barco se soubesse que ele fum ava a m arca de cigarros da concorrência? Afastou-se alguns passos, deixando o iate atrás de si, para acabar seu cigarro na m ais santa paz. A pessoa que estava esperando, se conhecia as m ulheres, não chegaria antes de m eia hora, vinte m inutos se tudo corresse bem .
Havia conversado a noite inteira com Sereena, um a m oça neozelandesa que conhecera por acaso na festa. Não tinha entendido m uito bem o m otivo de sua presença em Montecarlo, a não ser que se relacionava com a regata. Não fazia parte do staff de nenhum a em barcação que, em geral, além da tripulação propriam ente dita e da reserva, com preendia toda um a série de figuras úteis e necessárias. Técnicos, proj etistas, assessores de im prensa, preparadores físicos e m assagistas.
Um deles tinha incluído até um psicólogo. Tratava-se de um barco que não era particularm ente com petitivo e as m ás línguas j á diziam que sua função não era estim ular os rapazes antes da regata, m as consolá-los depois…
Provavelm ente, Sereena era apenas um a das m uitas m oças ricas que rodavam o m undo graças ao dinheiro da fam ília fingindo que se interessavam por isso ou aquilo. No caso, a vela.
Sabe, o vento nos cabelos, o rumor da proa cortando as ondas e aquela sensação de liberdade que…
Coisas do gênero, em resum o.
Em geral, Hudson não era excessivam ente sensível ao fascínio fem inino. Meu Deus, não é que não gostasse das m ulheres! Estava sem pre pronto para recebê-las e um a bela m ulher representava sem pre um a ótim a m aneira de passar o tem po, sobretudo se fosse dotada daquela centelha que torna o hom em diferente dos anim ais. Tinha suas histórias em Nova York, relações satisfatórias m as sem nenhum com prom isso, que seguiam um acordo m útuo e tácito. Nada que o im pedisse de partir de um dia para outro para um a regata sem ter que dar m uitas explicações, sem lágrim as e lencinhos acenados no cais por um a m oça que se despede com aquela expressão com pungida de “por que está fazendo isso com igo?”. Claro, gostava das m ulheres, m as não era um fanático, sem pre em busca de troféus.
Mas aquela era um a noite especial. Afinal, as luzes, as pessoas, os aplausos criavam um pouco de narcisism o absolutam ente com preensível, convenham os…
Estava ali, envolvido com um a das coisas que m ais gostava nesse m undo, num dos lugares m ais bonitos do m undo. Não era difícil se deixar envolver. Não tentava esconder que Montecarlo exercia sobre ele, am ericano até a raiz dos cabelos, um fascínio do qual não conseguia escapar. Havia a beleza e a singularidade do lugar, além de todas aquelas histórias de príncipes e princesas…
E os olhos de Sereena não pareciam desprovidos daquele brilho e, ao m esm o tem po, sob o tecido leve do vestido de noite, um par de seios perfeitos acenavam com as m ãozinhas, ou m elhor, com os m am ilos.
Tinha m otivos de sobra para sorrir para a vida.
Conversaram um pouco sobre assuntos variados. Vela em prim eiro lugar, of course.
Sobretudo m exericos da m arina, quem é quem e quem faz o quê. Depois a conversa enveredou para outro assunto, que Hudson conhecia vagam ente: a história do assassino que circulava pelo Principado desfigurando gente. A m oça estava excitadíssim a. Aquela história tinha conseguido colocar até m esm o a regata em segundo plano. O crim inoso m atara algo com o nove ou dez pessoas, não se sabia bem . Ainda estava solto, por isso a presença ostensiva de tantos policiais pela cidade.
Hudson pensou instintivam ente na corrente da m otoneta. Bela história para um lugar onde não ocorriam furtos…
À m edida que o conhecim ento m útuo se aprofundava, nos olhos de Sereena foi surgindo um a reconfortante expressão, bastante bíblica, que dizia: “Batei que vos será aberto.” E Hudson, entre um outro de cham panhe, tinha batido, segurando um a im aginária Bíblia na outra m ão. Alguns m inutos depois j á estavam se perguntando o que faziam ali no m eio de toda aquela gente que absolutam ente não lhes interessava.
Por isso estava ali no cais da m arina de Fontvieille, andando de um lado para outro àquela hora da noite. Tinham deixado a discoteca logo depois de descobrir que seu destino não tinha m ais nada a ver com aquele lugar. Resolveram que ele iria à m arina para deixar a m otoneta e ela passaria de carro para pegá-lo. Sereena inform ou que era um conversível e aproveitou para propor um passeio noturno pela costa.
Um a espécie de regata de terra, em resum o, livres, felizes e com vento nos cabelos. Se, além das m ulheres, conhecia os hom ens, pensou consigo m esm o, o passeio acabaria antes m esm o de com eçar no quarto de hotel onde ela estava hospedada. Não que a coisa o desagradasse, m uito pelo contrário…
Jogou o cigarro no m ar e voltou para o iate. Subiu a bordo no m ais absoluto silêncio, sentindo a prancha de com pensado e alum ínio ranger à sua passagem . Não havia ninguém à vista no barco. Naquela hora, os m arinheiros j á estavam dorm indo a sono solto. Desceu à sua cabine, que ficava ao lado da de Jack Sundstrom , o skipper. As duas cabines ao lado daquela que Jack ocupava tinham sido sorteadas: ele e John Sikorsky, o tático, perderam . Jack era um am or de pessoa, m as tinha um defeito horroroso: roncava tanto que parecia a trilha sonora de um a corrida de kart. Quem quer que dorm isse com ele ou perto dele tinha que usar tam pões de ouvidos se tivesse um sono leve.
Da cabine ao lado não chegava rum or algum , sinal de que Sundstrom ainda estava na festa ou estava acordado. Hudson tirou o paletó do uniform e oficial. Pretendia m udar de roupa e vestir algo m enos cham ativo. Um a coisa era o contexto daquela noite, outra era andar por aí vestido com as cores de um exótico peixe de aquário.
Escolheu um a calça azul-m arinho e um a cam isa branca, que realçava o bronzeado. Os sapatos podiam ser os m esm os, pensou. Era um tipo de calçado para iatism o m uito fresco e confortável. Não achava que devia afirm ar sua identidade de am ericano a ponto de usar botas de caubói.
Borrifou-se com um leve j ato de perfum e. Olhando-se no espelho, disse que a hora do narcisism o j á tinha passado, m as que um toque de saudável, honesta vaidade m asculina serviria para apim entar a noitada.
Desceu do barco tentando fazer o m enor rum or possível. Os m arinheiros, os verdadeiros, que trabalham duro e veem as tripulações dos barcos com o um bando de bichas m im adas e preguiçosas, em geral eram extrem am ente suscetíveis em relação a qualquer um que viesse perturbar seu m erecido repouso.
Estava sozinho na m arina.
Com preensivelm ente, Sereena tam bém havia resolvido dar um a passada no hotel para m udar de roupa antes de vir pegá-lo. O vestido de noite e os sapatos de salto alto não pareciam ser um a indum entária adequada para continuar a noite, acabasse ela com o acabasse. Provavelm ente seu saudável, honesto toque de vaidade fem inina tinha outros parâm etros e necessitava de m ais tem po para ser satisfeito.
Olhou o relógio, depois deu de om bros. Pensou que não havia m otivo algum para ficar de olho na hora. Depois daquela noite, teria um dia inteiro à sua disposição e isso com preendia um a certa propensão à preguiça.
Até certo ponto…
Hudson McCorm ack acendeu m ais um cigarro. Sua perm anência em Montecarlo previa algum as incum bências não diretam ente ligadas às tarefas da regata. Precisava falar com alguns diretores de bancos e ver m ais algum as pessoas, cuj os interesses tinham sede na Europa. Gente m uito, m uito im portante para seu futuro.
Passou a m ão pelo queixo ainda liso depois da barba feita especialm ente para a grande noite m undana. Hudson McCorm ack sabia m uito bem o que estava fazendo e era perfeitam ente consciente dos riscos que corria. Quem visse nele apenas um am ericano bonitão, saudável, atlético e am ante dos esportes, estaria com etendo um grande erro. Por trás de sua aparência cativante, escondia-se um cérebro brilhante e extrem am ente prático.
Sobretudo isso: extremamente prático.
Tinha consciência de que não possuía estofo para se transform ar num príncipe dos fóruns. Não porque não fosse capaz, m as sim plesm ente porque não queria esperar. Não tinha vontade de dar a alm a para retirar das prisões pátrias um bando de delinquentes que todas as razões do m undo aconselhavam a deixar lá dentro. Suspeitava haver escolhido um curso que não era particularm ente adequado à sua natureza, portanto, não tinha a m enor intenção de suar sangue a vida inteira frequentando a escória da sociedade, não im porta de que classe fosse.
Não queria esperar chegar aos 65 anos para acabar j ogando golfe com um bando de velhos gagás e cheios de dinheiro, cuidando para que a dentadura não caísse na gram a enquanto j ogava. Queria as coisas que lhe interessavam agora, aos 33 anos, agora que o corpo e a m ente tinham condições de suportá-lo na satisfação de seus desej os.
Hudson McCorm ack tinha um a outra flecha no arco de sua filosofia de vida. Não era ávido por dinheiro. Não se interessava por m ansões, helicópteros, quantias estratosféricas, poder. Para ele, aliás, todas essas coisas representavam m ais um a espécie de prisão do que sinônim o de sucesso. Os em presários de alcance estelar, que dorm iam duas horas por noite e passavam os dias com prando e vendendo títulos ou qualquer outra coisa em vários telefones, lhe inspiravam um profundo sentim ento de pena. Acabavam se encontrando num a sala de recuperação para infartados sem saber com o tinham ido parar lá, perguntando-se com o, com todo seu poder e seu dinheiro, não conseguiam com prar m ais um pouco de tem po.
O j ovem advogado Hudson McCorm ack não via nenhum prazer em dispor do destino dos outros: para ele, era suficiente ser dono de seu próprio destino.
E um barco à vela representava plenam ente seu ideal de vida. No seu caso, era realm ente um a questão de cabelos ao vento, de barulho da proa cortando os m ares e de liberdade para escolher sua rota, qualquer um a, segundo o capricho do m om ento…
Mais um a vez, j ogou o cigarro no m ar. No silêncio, conseguiu ouvir o leve chiado da brasa se apagando na água.
No entanto, para fazer o que desej ava, precisava de dinheiro. Muito dinheiro. Não de um a quantia enorm e, não via necessidade disso, m as um a cifra considerável. E só havia um m odo de obtê-la rapidam ente. Burlando a lei. Esse era o term o que usava. Um pequeno sofism a. Não violar, m as burlar a lei. Cam inhar na corda bam ba, na beirada, de m odo que pudesse se virar assim que alguém o cham asse, ostentando sua m elhor cara de bom rapaz, para responder com expressão inocente: “Quem , eu?” Risco sem pre existia, não podia negar, m as j á avaliara todas as possibilidades. Exam inou a questão exaustivam ente, de cim a a baixo e na diagonal: no fim das contas, era um risco aceitável. Era verdade que tinha um a história de drogas no m eio e esse era um tem a que não adm itia brincadeiras. Contudo, o caso específico era particular, m uito particular, com o sem pre acontecia quando m ontanhas e m ontanhas de dólares estavam envolvidas.
Todos sabiam m uito bem onde era produzida a droga, onde era refinada e para que servia. Países inteiros baseavam sua econom ia nos m ais variados pozinhos, que nos locais de origem custavam bem pouco e nos locais de destino eram vendidos com lucros de cinco ou seis m il por cento.
Nesse cam inho, as várias passagens de nível eram obj eto de um a terrível guerra subterrânea, m as não m enos feroz e organizada que as autênticas. E tam bém havia soldados, generais e estrategistas, que agiam nas som bras, m as eram tão hábeis e determ inados quanto os outros. E fazendo o contato entre os vários exércitos, havia pessoas cuj a profissão era fazer a reciclagem desse dinheiro ligado ao tráfico. O m undo dos negócios não era m oralista a ponto de virar as costas para quem se apresentava com três ou quatro m ilhões de dólares nas m ãos, para dizer o m ínim o.
Aviões voavam com as insígnias de exércitos regulares, pagos pela droga. Com o m esm o sistem a, algum as m arinhas m ilitares pagavam o com bustível de seus contratorpedeiros. Cada cartucho disparado pela Kalashnikov de um soldado m ais ou m enos regular em certas partes do m undo correspondia a um buraco no braço de algum toxicôm ano em outros lugares do m undo.
Do mesmo mundo.
Hudson McCorm ack não era hipócrita a ponto de se esconder dos fatos. Sabia que fazendo o que fazia entrava para a longa lista da gente de m erda que estava destruindo esse planeta. Era um a sim ples, m as obrigatória constatação, e ele não tinha nenhum a intenção de esquivar-se de seu próprio e im placável j uízo. Era só um a questão de estím ulos, de pesos na balança. O que desej ava, no m om ento, estava num prato e tinha um peso m aior do que qualquer argum ento que pudesse ser colocado no outro prato.
Avaliara a situação cuidadosam ente, em longas noites passadas em seu apartam ento, analisando os fatos com a frieza com que se analisa o balanço de um a em presa com um . Achava que havia previsto tudo, considerado tudo. Achava que havia listado e quantificado de m odo significativo até um certo núm ero de im previstos. Quais seriam , não dava para saber. Não era à toa que recebiam o nom e de im previstos.
No m elhor dos casos, teria à disposição dinheiro suficiente para lançar duas coisas ao m ar: sua consciência e seu barco. Depois disso, rodaria o m undo a seu bel-prazer, livre com o o vento. A com paração, longe de lhe parecer banal, caía com o um a luva. No pior dos casos, e batia na m adeira quando pensava nisso, as consequências seriam , apesar dos pesares, aceitáveis. De todo m odo, não tão desastrosas que pudessem destruir totalm ente a sua vida.
Tinha criado m ais de um a alternativa ao plano inicial, o que m antinha os riscos nos lim ites do aceitável, na m edida em que um risco daqueles podia ser aceitável. Com o todo m undo, ele tam bém percebera que existia um preço. No entanto, Hudson McCorm ack não era tão corrupto e am bicioso a ponto de se tornar tem erário e aum entar seu preço a níveis que não seria capaz de negociar.
Controlava os fios de um j ogo que dentro em breve converteria em um a polpuda com issão, cuj a m etade j á havia sido depositada num a conta aberta nas ilhas Cay m an. Pensou no cliente que fizera o depósito, Osm ond Larkin, que naquele m om ento era hóspede de um a prisão nos Estados Unidos.
Aquele hom em o repugnava profundam ente. E a cada encontro profissional, sentia sua repugnância aum entar. Seu rosto de olhos porcinos, cruéis, o com portam ento de quem considera que o m undo lhe deve algum a coisa, o tom arrogante de quem se acha m ais esperto que os outros tinham o poder de revirar seu estôm ago. Com o todas as pessoas que se consideram espertas, Osm ond Larkin era, na verdade, um estúpido. Com o todos os espertalhões, fazia questão de ostentar sua esperteza e era exatam ente por isso que estava na prisão. Hudson gostaria de j ogar tudo o que pensava em sua cara, levantar e ir em bora do parlatório. Se fosse seguir seus instintos, violaria até o segredo profissional e contaria pessoalm ente aos investigadores tudo o que queriam saber.
Mas isso não era coisa que se fizesse.
À parte os riscos que certam ente correria, j unto com as pessoas que o aj udaram a entrar naquela brincadeira, tam bém significava pegar o controle e desligar um a televisão cuj a tela exibia a im agem de um veleiro estupendo, singrando os m ares com um bonitão no lem e…
Não, apesar da aversão por Larkin, não havia nada a fazer. Teria que fazer concessões para obter o que desej ava.
Não tudo, repetiu consigo m esm o, mas uma boa parte. E logo.
Voltou para o iate do patrocinador. Os vários barcos ancorados um ao lado do outro estavam m ergulhados na penum bra, os m aiores com parte da ilum inação de serviço acesa, outros envolvidos pela escuridão e pelo reflexo das luzes dos dem ais.
Olhou ao redor. A m arina estava deserta. Os bares estavam fechados, as cadeiras de plástico em pilhadas nas varandas, o tecido dos toldos enrolado ao redor de seus eixos. Achou aquilo estranho. Apesar da hora, era verão e as noites de verão sem pre têm protagonistas inesperados em cena. Sobretudo as noites na Côte d’Azur. A história do serial killer m encionado por Sereena lhe veio à m em ória. Seria esse o m otivo de sua solitária presença na m arina? Talvez ninguém se perm itisse o prazer de um passeio a sós diante do risco de encontros pouco desej áveis. Pensou consigo m esm o que, quando têm m edo, as pessoas sem pre buscam a com panhia dos outros, com a ilusão de encontrar proteção um as nas outras.
Nesse particular, Hudson era um perfeito habitante de Nova York. Na cidade em que m orava, se perm itisse que pensam entos com o aquele tom assem conta dele, nunca m ais sairia de casa…
Ouviu o barulho do m otor de um carro se aproxim ando e sorriu. Afinal, Sereena havia chegado. Im aginou os m am ilos da m oça tocados por seus dedos. Sentiu um calor agradável na boca do estôm ago e um a reação prazerosa sob a braguilha das calças. Pretendia arranj ar um a desculpa qualquer para dirigir ele m esm o o carro. Enquanto esperava, im aginara um a cena visualm ente m uito excitante. Ele, que percorria a Haute Corniche im ersa na escuridão com o vento nos cabelos, dirigindo um conversível em m eio ao cheiro de pinho, acom panhado de um a sim pática neozelandesa com a cabeça inclinada em seu colo e com seu pinto na boca.
Dirigiu-se para as luzes da cidade ao fundo, do outro lado da m arina, para ir a seu encontro. Não ouviu o passo do hom em que chegava veloz às suas costas pelo sim ples fato de que ele parecia filho do próprio silêncio.
O braço que apertou seu pescoço, no entanto, era feito de ferro e a m ão que cobriu sua boca parecia constituída do m esm o m etal. A punhalada, desferida de cim a para baixo, foi precisa e m ortal, com o j á havia sido outras vezes.
Transpassou seu coração com um golpe seco.
Seu corpo atlético dobrou de peso e, de repente, largou-se entre os braços de seu assassino, que o am parou sem esforço.
Hudson McCorm ack m orreu com a im agem do Le Rocher, a Rocha de Mônaco, nos olhos, sem ver satisfeita um a últim a, pequena vaidade. Nunca soube que a cam isa branca realçou, além do bronzeado, a m ancha verm elha de seu sangue.